sábado, 21 de abril de 2012

A Arma em Minhas Mãos


"Dominar a agressividade, suavizar as arestas, moderar as palavras", este pensamento de Masaharu Taniguchi é condizente com a postura pacífica típica do oriental, mas infelizmente ainda tenho muito o que aprender nesse sentido. Atribuo isso a uma herança genética particular: embora seja 50% japonês, a outra metade seria uma "mistura brasileira", sendo 12,5% genes africanos, oriundos de minha bisavó. Obviamente, essa desculpa me é muito cômoda.
Recentemente, conversando com minha avó paterna sobre a sua sogra, descobri que era uma pessoa extremamente difícil de se lidar, orgulhosa e com poucos amigos. Mesmo com a saúde debilitada, negava qualquer ajuda. Comentei então que ela tinha personalidade forte e minha vó respondeu: "Que nada, ela era ruim mesmo!"
Evidente que ela tinha suas qualidades, uma delas era a beleza, atributo esse, modéstia à parte, encontrado em toda a minha extensa família. Mas a "ruindade" vem junto, consigo notar em meus tios, primos, avô, pai e irmão: um impulso negativo que aparece subitamente quando nos irritamos. Tenho lutado desde minha infãncia contra isso, mas anteontem falhei mais uma vez.
Recentemente fui convidado a assumir o "posto central", que fica em frente ao hospital municipal que há duas semanas está sem médico. Resultado, além de atendar a agenda com trinta pacientes por dia, sou responsável pelas emergências da pequena, porém problemática, cidade.
Ontem cheguei à unidade já com uma emergência dentro do meu consultório, com necessidade de encaminhamento para um centro maior, sendo um belo golpe no meu humor. As consultas foram se seguindo; como ocorre quase todo dia, atendi uma emergência hipertensiva e, enquanto eu mudava a receita da paciente, para que ela não morresses nos próximos dias, escuto claramente, apesar do barulho das dezenas de pessoas conversando na sala de espera, uma mulher reclamar: "Que demora desse médico, o dr. Fulano atendia em um minuto!".
Nesse momento meu gatilho emocional é disparado, tento disfarçar, mas é óbvio que fui afetado. Penso em voz alta com um sorriso amarelo: "tem que ter paciência", mas as duas senhoras na minha frente não se tranquilizam. Milhares de pensamento passam pela minha cabeça enquanto eu tento terminar o atendimento.
Meu impulso inicial é sair e fazer um barraco, indo embora e deixando claro que não voltaria mais. Mas elas me impedem, não poderia fazer isso com as duas senhoras, eu teria sim que terminar aquele atendimento da melhor maneira possível. Assim, consigo me acalmar um pouco e decido apenas me demitir. Terminaria os atendimentos da manhã e não voltaria mais. Azar o deles. 
Elas se retiram, começo a anotar a conduta no prontuário e, ainda com a adrenalina circulando, decido sim fazer um barraco, demitir-se seria pouco. Abro a porta da consultório e pergunto em voz alta: "Quem que estava berrando?". O silêncio toma conta da unidade, poucos conseguem me encarar e mesmo assim por poucos instantes. Continuo, apontando para o chão em tom de ameaça: "Não quero ninguém gritando aqui dentro." Umas das técnicas fala alguma coisa enquanto entra no consultório para deixar mais prontuários, sequer lhe dou atenção: "Não vou atender gente maluca, vocês têm que dar um jeito nisso."
As consultas prosseguem, evidentemente o médico simpático e sorridente não voltaria tão cedo. Uma das pacientes comenta o ocorrido e não perco tempo: "Quem que estava reclamando?" Ela descreve a senhora de meia-idade, fala seu nome, mas tenta explicar: "Não liga doutor, ela tem problemas" diz apontando para a própria cabeça, "e só estava brincando." Grande coisa que ela tem problemas, penso em minha escuridão. Eu também vou brincar com ela.
Já havia passado mais de trinta minutos do incidente quando chega a sua vez. Ela entra em silêncio, a princípio não sei de nada. Ela me mostra uns exames, em deles alterado, digo que iniciarei um tratamento e começo a fazer a receita, sem olhar para ela. Ela comenta que gostaria de fazer um raio-x da coluna para acompanhar um problema crônico, eu respondo que tudo bem e faço o pedido. Então chega o momento em que eu aguardara a manhã toda: ela vai me fazer o terceiro pedido quando a interrompo, finalmente olhando nos seus olhos: "Olha, tem gente reclamando que estou demorando muito, então aqui está a tua receita e o tua requisição, deu."
Ferida de surpresa, ela tenta em vão se defender: "Desculpa doutor, fui eu que gritei antes, é que eu tenho esse problema, o psiquiatra já me falou, eu digo as coisas sem sentir." Ela estava visivelmente nervosa, tentando expressar que "falava as coisas sem pensar". Mas não lhe dou ouvidos, desvio o olhar enquanto ela se retira do consultório, pedindo desculpas novamente.
As consultas acabam e no final da manhã já não penso em demissão. Pelo contrário, o que me restava agora era ir trabalhar todos os dias na esperança de encontrá-la novamente e, após lhe pedir perdão pela minha estupidez, poder confessar que sou exatamente como ela. Também digo as coisas sem sentir, diariamente me arrependo do que já destruí com a crueldade das minhas palavras. É bem verdade que "também morre quem atira". 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A morte duas vezes em Março

Na primeira sexta-feira do mês passado, andava de carro com um grande amigo pela noite de Florianópolis, quando começamos a conversar sobre a morte.  Ambos nascemos em 1984 e temos várias semelhanças: tocamos guitarra, trilhamos um caminho profissional criativo e bem-sucedido, somos referências em nossas famílias; mas somos diferentes sobre a postura perante nosso infalível fim.
Acredito que devo viver todos os dias como se fosse o último, o que eventualmente será verdade. Fazer o possível, dizer o possível, viver intensamente e de acordo com meus desejos; em parte devo isso ao aprendizado de que posso morrer a qualquer momento. Afinal de contas, a vida é frágil, as pessoas morrem o tempo todo.
Meu amigo já tem uma visão menos romântica/idealista da nossa existência. Segundo ele, "se eu for morrer semana que vem, que diferença fará o que eu fizer até lá? Eu vou morrer, não importa!", fazendo uma referência ao hit da Pitty: "Não deixe nada pra depois, não deixe o tempo passar; não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem pode nem chegar." Para ele, a proximidade da morte não inspirava nada de positivo, sendo consequentemente um pensamento a ser evitado.
Paro para cruzar a avenida. Junto com o carro à minha direita, sou o primeiro da fila que começa a se formar. Ao ver a luz verde, começo a acelerar e instantes depois meu amigo berra. Instintivamente freio, percebendo então que um carro em altíssima velocidade cruza o sinal vermelho pela pista central da avenida. A colisão com a dianteira do meu Fiesta é inevitável.
Vejo o carro infrator seguir pela avenida e fito o asfalto em busca dos pedaços do meu carro, mas não os encontro. Dou-me conta, então, que a colisão fatal não ocorreu. Por poucos centímetros, com certeza. Os carros do cruzamento permanecem parados, com seus motoristas provavelmente atônitos como eu, que começo novamente a movimentar o carro. Dessa vez, conferindo a avenida antes.

* * *
No dia seguinte, tive aula na pós-graduação quinzenal que faço em Porto Belo. O professor da nova disciplina contou a seguinte história:
Logo após se formar em Psicologia, ele foi trabalhar em uma comunidade terapêutica (que abriga dependentes químicos em recuperação); um dia, um antigo "rival" de adolescência foi fazer tratamento lá. Era seu "inimigo mortal", embora nunca houvesse um real motivo para isso. Eram apenas duas lideranças dentro de um grupo, sem nunca terem se confrontado diretamente.
Após um breve sentimento de orgulho, por agora estarem em posições diferentes, começou a sentir um crescente desconforto, pois obrigatoriamente teria que fazer o acompanhamento individual de seu oponente. Após duas semanas "enrolando", finalmente fez a entrevista e começou um longo e produtivo trabalho terapêutico.
Durante muitos anos ele ficou sem saber notícias do ex-rival, até que, em uma aula de colégio, uma aluna perguntou se ele o conhecia. Surpreso, respondeu que sim, perguntando em seguida o porquê da pergunta. 
A aluna era sobrinha do ex-interno e, após sua morte, encontrou na sua bíblia uma foto dele com o nosso professor. Era uma foto de sua formatura (acredito que seja o evento que comemora um ano em abstinência, simbolizando o começo de uma nova fase).
Na pós, sempre que o professor contava um ocorrido, havia um ou outro comentário de algum colega lhe complementando a fala, mas dessa vez só houve silêncio. A história, bastante motivadora, falava por si só.