terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sofia

(Postado originalmente dia 30/12/2016)

Continuando a palestra de Clóvis de Barros Filho:

"Aristóteles se tornou um subversivo na academia de Platão, Jesus se tornou um subversivo no Judaísmo. Jesus disse coisas que ninguém tinha dito antes e, como grande sábio que era, respondeu à nossa pergunta: o que a vida tem que ter para ser boa? (...) O filé mignon da vida, a vida que, de fato, vale a pena é a vida assumidamente dedicada ao outro. Aquilo que fará de você um vivente feliz é a entrega, é proporcionar, é alavancar, é permitir que o outro viva melhor do que viveria se você não existisse."

* * *

Há alguns meses, como médico em uma unidade básica de saúde, passei a fazer visitas domiciliares a Sofia, uma ilustre sobrevivente da Segunda Grande Guerra. Ucraniana, ela foi levada ainda adolescente para a Alemanha como trabalhadora escrava, provavelmente em 1941, quando iniciou a ocupação nazista de seu país.

"O desejo de Hitler de atacar a União Soviética foi finalmente realizado em 22 de junho de 1941. A invasão foi uma operação grandiosa (...) A quantidade de prisioneiros feita pelos alemães durante a Operação Barba Ruiva foi tão grande que eles não sabiam o que fazer com todos eles (...) Muitos prisioneiros foram usados como trabalhadores escravos nos projetos industriais da Alemanha." Atlas Segunda Guerra Mundial, David Jordan e Andrew Wiest, 2004.

Com uma lucidez impressionante, ela relata que deveria trabalhar sem falhas pois havia o temor de ser enviada para um campo de concentração. Mesmo após o final do conflito, ela permaneceu na Alemanha, onde casou com um ucraniano e teve sua primeira filha. Os alemães lhe diziam uma frase de ódio, que significava: "Fora, estrangeiros!" No entanto, não podiam voltar para a Ucrânia, que, assim como o resto da Europa, estava destruída.
Pelos meus cálculos, em 1949, Sofia e sua família vieram para o Brasil; segundo ela, enganados por falsas promessas de prosperidade. Além de roubados, foram transportados e "despejados" aqui como animais; primeiro conheceu o Rio de Janeiro, depois passou por algumas cidades catarinenses até se fixar no sul do Paraná. Imagino que, pela colonização ucranianana típica daqui, ela tenha se sentido mais próxima de sua terra natal.
Logo no começo, a cuidadora de Sofia comentou que, apesar de sua ampla experiência com atendimentos, jamais conhecera profissionais tão atenciosos como nós. Mês passado, ela ligou para a unidade, pedindo que eu fosse até lá, pois Sofia queria me entregar um presente (uma garrafa de Merlot que seu genro enólogo produzira em Videira-SC). O episódio se tornou notório entre minha equipe e, de fato, não escondo que Sofia é uma cliente especial.
Na semana seguinte, fui conhecer sua filha primogênita (que viera do Rio de Janeiro para uma breve visita). Ela contou uma história curiosa: mesmo tendo nascido na Alemanha, não tinha direito à cidadania, pois precisaria ser filha de alemães. Por muitos anos foi uma apátrida, até conseguir a cidadania italiana, por causa de seu marido, brasileiro com dupla cidadania.
De forma análoga, imagino que em breve serei cidadão alemão, pois pretendo me casar com uma Wagner. Quando soube, meu pai logo reconheceu o sobrenome germânico, lembrando que se tratava do compositor preferido de Hitler. Outro detalhe histórico é que ela é parente de Alfredo Wagner, homenageado da cidade homônima encravada na serra catarinense.
Sofia toma medicamentos diários para dores pelo corpo, mas quando estou lá, aparentemente ela permanece assintomática, como se a minha presença aliviasse momentaneamente seu sofrimento. Gosto de pensar que existe uma certa compensação do destino nesse encontro entre a sobrevivente aliada e o descendente de samurais, natural de uma cidade de colonização italiana e futuro cidadão alemão.