sábado, 21 de dezembro de 2013

Doutor Delmar - parte 3

Eu costumo expressar abertamente o desejo que meus futuros filhos façam Medicina, sendo clara minha satisfação pelo ofício. Uma das histórias que mais me chamaram a atenção foi a de que o doutor Delmar se opôs à vontade do filho de ser médico, assim, o jovem acabou seguindo outro caminho. Se eu pudesse fazer uma única pergunta ao doutor, seria: por que você não quis que seu filho seguisse seus passos?
Ao expor essa dúvida durante o horário de almoço, informaram-me que o doutor Delmar se ressentia com a atitude mercantilista da classe médica. Essa resposta nunca me convenceu plenamente, pois seu sucessor não seria necessariamente "corrompido" pela profissão. Ainda assim, é possível encontrar em seu livro trechos que embasam seu desgosto pela Medicina:

"A dificuldade foi a oposição desleal dos médicos, que consideravam o sistema público um concorrente dos seus negócios. Encastelados em seus consultórios e no hospital, procuravam impedir qualquer progresso na implantação de programas de saúde pública que pudessem diminuir a sua clientela particular (...) Médicos até concordavam em dar atendimento nos postos de saúde, apesar do baixo salário da época, porém, com a clara intenção de garimpar entre os pacientes aqueles com melhor poder aquisitivo, para desviá-los ao consultório particular." www.arevolucaodosplebeus.com.br Página 153

Em 2010, trabalhei em uma cidade de 17 mil habitantes cuja maior parte dos médicos "atuavam duplamente" no ESF e em consultórios particulares. Meses depois, relatei para um amigo recém-formado que ele deveria evitar trabalhar em locais com este perfil, pois ele seria visto como um concorrente, não como um colega. Apesar dessa experiência desagradável, acabei descobrindo que essa prática não era tão comum em outros municípios.
Doutor Delmar também é um crítico da escola médica tradicional, que tende a formar profissionais já especializados ao invés de generalistas. Quando entrei na UFSC em 2003, o curso de Medicina acabara de sofrer uma reforma curricular significativa, visando justamente formar bons generalistas. Embora eu considere a iniciativa bem-sucedida, entendo que a verdadeira dificuldade seja convencer o acadêmico a seguir carreira como clínico-geral.

"O perfil do estudante de medicina brasileiro é do jovem de classe média, que não escolhe essa profissão por idealismo, mas por status e por boa remuneração, buscando conforto e qualidade de vida. Não quer ser médico para ir pisotear barro no interior, prefere as alvas e assépticas clínicas e hospitais das cidades maiores. É coerente, então, que pretenda seguir uma especialidade que lhe permita permanecer nos grandes centros. É uma constatação, não é uma crítica, já que cada um tem o direito de construir sua vida como achar melhor." Página 155

Durante a adolescência, conheci uma família cujo patriarca, médico gaúcho, dizia aos seus dois filhos que, se eles se formassem em Medicina na UFRGS, suas vidas seriam um sucesso. Anos mais tarde, ambos se formaram na renomada instituição e hoje colhem os frutos de um caminho árduo, mas repleto de honra. Acredito que a família escolheu a Medicina por vocação, não por status ou ambição material. Assim como o doutor Delmar, que nos surpreende com uma postura diferente em relação ao filho.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Doutor Delmar - parte 2

Penso que duas características marcantes dele sejam a humildade e um rigoroso código moral, demonstradas no seguinte trecho:

"Por falar em SUS como causa ou emprego, há uma situação que ocorre com muita frequência e que merece ser citada, que é a dupla militância, ou seja, o médico trabalhar no sistema público e privado. Sempre defendemos que essa prática é desaconselhável, porque uma das duas atividades, fatalmente, seria relegada a segundo plano. Fomos coerentes com essa ideia durante trinta anos mas, recentemente, durante um pouco mais de um ano, também trabalhamos em uma ESF e, depois do expediente, na nossa clínica particular, com consultas e exames de ultrassom. Não deu certo. Conseguimos dar conta de toda a demanda de pacientes que procuravam por consulta médica nos dois postos de saúde sob nossa responsabilidade e realizávamos outras tarefas, como as atividades com grupos específicos de pacientes e algumas visitas domiciliares. Porém, faltava a criatividade, o "algo a mais", como a preparação de material educativo, o trabalho com as crianças na escola, a atenção maior à vovozinha acamada, a palestra na comunidade à noite, em horário mais apropriado para a participação de todos, o estudo em casa à noite, etc. Concluímos que, realmente, o médico que atua na Atenção Básica à Saúde deve dedicar-se exclusivamente ao serviço público." www.arevolucaodosplebeus.com.br Página 154

Ele se sentia culpado por "militar duplamente", ao comentar isto com um colega nosso em comum, compartilhei: "Já teve época em que eu me sentia culpado por ganhar bem, hoje eu acho que eu ganho o justo pelo meu trabalho, em alguns anos, provavelmente vou achar que ganho menos do que mereço..." Ele riu. Algo que fascina no doutor Delmar é sua resistência ao tempo: com três décadas de provações, ele conseguiu se manter firme aos seus altos padrões éticos.
Achei surpreendente sua intenção de fazer palestras noturnas além do expediente pela manhã e tarde, ao comentar com uma colega nossa, ela me relatou que essas palestras chegaram a ocorrer! No outro dia, um colega confessou que ficou até 23h em um desses encontros; ao se deparar com meu espanto, ele tentou amenizar informando que essa jornada noturna era revertida em folga. Respondi que trabalhar até esse horário não valeria a pena nem que tivesse direito a uma semana de folga. Ele riu.
Uma das perguntas que fiz sobre o doutor Delmar foi sobre o seu carro. Descobri que tinha um carro simples "não-novo", o que achei fantástico.  Em seu livro, ele faz um resumo econômico dos anos em que atuou na distante Rondônia:

"Ao final dos primeiros nove anos de carreira, não possuíamos outros bens além de um carrinho popular. Tínhamos uma magérrima poupança, que Collor nos fez o favor de confiscar. Portanto, iniciamos o décimo ano praticamente como o primeiro: sem nada. Sem nada, não! Com o coração cheio de alegria e com uma vontade enorme de poder voltar atrás e fazer tudo de novo." Página 162

Uma característica do profissional com "perfil para ESF" (termo que tenho escutado com certa frequência ao longo dos anos) me parece ser uma ambição material modesta. Neste caso, é interessante como a simplicidade parece afastar o profissional do serviço público; imagino que se ele ambicionasse carros confortáveis, viagens, comidas e bebidas requintadas, mesmo que um pouco apenas, ele veria no serviço público uma boa oportunidade. Mas sua ambição era outra, caso contrário, eu sequer o teria conhecido.

"Quando retornamos ao sul, no início de 1990, após nove anos, trouxemos de Rondônia um casal de filhos já meio criados. A parte da infância que passaram em Rondônia, convivendo com as pessoas simples, bondosas e carinhosas de lá, contribuiu de maneira decisiva para que hoje ambos sejam adultos equilibrados, críticos, solidários e, principalmente, sem preconceitos. Jamais serão confundidos com "ricos e cultos". Não pode haver realização maior para um pai ou uma mãe." Página 162

sábado, 7 de dezembro de 2013

Doutor Delmar

Nos últimos dois meses, tem crescido meu interesse pela figura do médico que trabalhava no meu ESF atual. Embora não o conheça pessoalmente, suas ações nas unidades são frequentemente lembradas e acho notável sua aprovação unânime pela população e pela equipe. Quando algum paciente comenta sobre ele, eu costumo complementar com a frase: "O doutor Delmar é famoso..."
Ao iniciar meus trabalhos, informaram-me que ele chegava mais cedo que o habitual no expediente. Presumi que ele fazia isso para ir embora antes, mas, algumas semanas depois, descobri que não: ele também ia embora mais tarde, chegando a atender 60 pacientes num único dia. Tamanha dedicação poderia ser esperada de um recém-formado, mas não de um profissional com mais de três décadas de formação.
"O doutor Delmar queria salvar o mundo" foi uma fala extraordinária que escutei. Durante um ano e pouco ele atuou ali, os últimos meses à espera de um substitudo que só veio quatro meses após sua saída. Eu o entendo perfeitamente, neste ano, comentei com um colega médico da minha cidade natal que era impossível ficar em um mesmo ESF por mais de um ano. O doutor Delmar embasa parcialmente minha tese.
Semana passada, conheci seu livro recém lançado, que também explica sua saída. Acredito que seus escritos tomaram forma justamente após sua demissão, quando teve tempo hábil para complexo feito. Um presente para nós: www.arevolucaodosplebeus.com.br

"O texto representa a verbalização de reflexões e observações feitas ao longo de uma vida bem vivida em vários estados e cidades do Brasil. É um pensar em voz alta, um plano de atuação, um roteiro, uma espécie de cartilha pessoal, na qual procuramos sistematizar o nosso próprio projeto de intervenção, após analisar aspectos negativos e positivos da política brasileira na atualidade. Concebido para esse fim, a ideia era, posteriormente, editá-lo e guardá-lo no fundo do baú para que, no futuro, os netos que virão soubessem como o vovô pensava e o que tentou fazer." Página 7

Identifico-me com isso, se um dia eu tiver netos, eles poderão acessar este blog para descobrir como eu pensava e agia. Texto após texto, é como se deixássemos uma parte de nossa alma neste mundo.

"(...) no norte do estado de Santa Catarina, onde tivemos a felicidade de trabalhar em uma ESF que se aproximava da perfeição, que contava com equipe completa, constituída por agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, enfermeira, dentista e médico, além do apoio de nutricionista, fisioterapeuta e psicólogo do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) e do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), de assistente social e do Conselho Tutelar. A coordenação técnica da Secretaria Municipal de Saúde era perfeita, o apoio institucional total, e não houve ingerência política no trabalho, mesmo durante uma acirrada campanha eleitoral municipal. De quebra, o relacionamento interno da equipe era excelente, baseado em compromisso sincero com a população e amizade e cooperação com os colegas. Ter vivenciado essa experiência aumentou ainda mais nossa convicção de que a Atenção Básica à Saúde deve ser prioridade. Se todo o território nacional fosse coberto por equipes completas das ESF, cada uma cuidando de aproximadamente mil famílias, e se as equipes tivessem essas condições de trabalho e esse nível de comprometimento que descrevemos, o sistema de saúde e a própria saúde da população seriam completamente diferentes em poucos meses, com uma relação custo-benefício extremamente favorável para a sociedade." Página 144

Sinto-me honrado em trabalhar no local acima citado, não por acaso, recusei uma oferta aparentemente melhor para voltar a atender ali. Em 2011, atuei por 6 meses em um outro ESF desta cidade, meu retorno deixa claro que nossa relação profissional foi satisfatória. Minha intenção hoje é permanecer por muitos anos, afinal de contas, não é todo dia que se encontra um ESF quase perfeito para se trabalhar.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Blefadorzinho

No feriado de 15 de Novembro, houve o encontro de turma após cinco anos de formados. Nos comentários em uma rede social que antecederam o final de semana, fiz um único pedido: "Tem que rolar um poker!". Amante das cartas, para mim, não existe nada melhor que o Texas Holdem no limit. Nos três dias de hospedagem, o auge me foi a noite de sexta-feira, quando ficamos até às três horas da madrugada no carteado.
Eu diria que este jogo pode ser usado como uma analogia para a vida: o vencedor é aquele que acumula maior quantidade de fichas no final. Assim, tão importante quanto ganhar é não perder, pequenas vitórias são melhores que grandes ganhos seguidos de grandes perdas. Um exemplo no mundo real seria: não adianta cultivar boas amizades e não as manter; no fim, você simplesmente terá perdido.
Em uma das rodadas, surpreendi ao ganhar com uma sequência de cartas baixas. Meu adversário desabafou: "Como ele paga um raise pré-flop com um 2 e um 5?!" Minha justificativa provocou risadas da mesa: "Um 2 e 5 'suited' (do mesmo naipe)!" Porém, em rodadas posteriores, mudando de postura, abandonei as cartas perante as apostas inimigas, ouvindo a frase: "Agora o Tiaraju está conservador..."
Ao estudar a teoria do poker, entendi que a melhor estratégia é variar o estilo de jogo, visando confundir os adversários. Isto é algo difícil de se fazer, variar de personalidade conforme as circunstâncias, já que naturalmente tendemos a ser sempre os mesmos. No entanto, assim como no jogo, a vida demanda diferentes posturas a todo momento, flexibilidade e poder de adaptação são qualidades importantes de quem vence.
Uma das melhores jogadas da noite foi quando eu fiz uma aposta alta no river e, após alguns instantes de reflexão, meu colega pagou a aposta derradeira. Mostrei-lhe um excelente jogo, superior ao seu. Ao fitar um colega nosso no canto oposto, ele justificou sua conduta: "Pensei: o Tiaraju, blefadorzinho..." De fato, em rodadas anteriores, eu havia blefado abertamente, o que acabou favorecendo altos ganhos quando eventualmente vinha com boas cartas.
Acredito que agir de maneira "supervalorizada" seja também uma boa estratégia na vida real, desde que ela não se torne banal. O maior perdedor da noite foi justamente o que tinha a postura mais agressiva, tomando a iniciativa das apostas frequentemente. Ao questionar o meu surpreendente 2 e 5, acabou ouvindo novamente que ninguém mais o respeitava na mesa. Era verdade, as fichas não mentem.