Na manhã da quinta que antecedeu a Páscoa, um de meus tios me ligou perguntando se eu iria para Porto Alegre. Logo estranhei aquela pergunta, ele nunca havia me telefonado antes, inclusive tive que confirmar sua identidade chamando-o pelo apelido. Respondi que esse era o plano para o feriado, com a óbvia ressalva: "Por quê?!" Ele me explicou que não havia ninguém para levar meu avô para a capital. Em questão de segundos, tomei a decisão: "Eu o levo."
Meu tio ainda comentou, um pouco constrangido, que meu avô questionara se eu conseguiria dirigir seu carro automático. Achei engraçada essa dúvida dele, meu tio também começou a rir e se despediu dizendo que ligaria de volta para o patriarca, informando a minha confirmação. Também fiz isso, dizendo que chegaria no outro dia cedo para a viagem; ele parecia estar calmo e feliz pela minha companhia, o que me deixou mais empolgado para o longo trajeto.
Na segunda, antes de voltarmos para o interior, almoçamos com meu pai e ele perguntou por que um primo meu, que também mora no interior, não havia trazido o avô. Realmente eu tinha essa informação prévia, a versão oficial era a de que ele não conseguiria se deslocar em Porto Alegre; mas eu salientei outro motivo, ao meu ver, muito mais importante: ele tinha uma esposa e uma filha pequena, eu não. Não haveria problemas em me ausentar por alguns dias, ninguém me esperava em casa.
Alguns dias depois, foi comentando que eu era o "primo mais bem-sucedido", o que é uma inverdade sob vários aspectos. Admito, porém, que devo ser o mais livre. Ninguém possui uma liberdade absoluta sobre a vida, claro, mas me considero mais livre que a maioria das pessoas. Chega a ser irônico como o meu divórcio possibilitou uma dedicação quase exclusiva à minha família, hoje fica um sentimento de que Deus escreve certo por linhas tortas.
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Na visita de sábado, a enfermeira da UTI pediu que eu entrasse em contato com a médica que fizera a internação. Após uma tentativa frustrada de encontrá-la no amplo complexo hospitalar, liguei para seu celular. De maneira muito profissional, ela comentou a contínua piora do quadro neurológico, lembrando inclusive que era algo que eu já esperava desde o início, e perguntou qual era a posição da família em relação à hemodiálise. Fazer ou não fazer?
Eu sabia que, se ela estava perguntando, era porque havia chego a hora de desistir, de deixar a nossa amada descansar. Eu queria dizer "não faça", mas eu sabia que a opinião de pelo menos alguns de meus tios era outra. Naquele momento, agi como um representante diplomático, fiel ao seu dever: "A posição atual da familía é de fazer hemodiálise." Ela entendeu prontamente e, já na visita da noite, foi possível visualizar o aparelho em funcionamento.
Na visita da segunda à tarde, enquanto meu avô estava ao leito, comentei com minha tia-avó sobre o telefonema e ela comentou: "Nós (ela e o marido) achamos estranho você ter conversado vinte minutos com a médica e nos ter resumido em trinta segundos. Era óbvio que havia algo a mais." Realmente, para meu avô, comentei apenas que iriam fazer a hemodiálise e não discuti o que isso representava. "Sim, eu devia ter disfarçado melhor."
Ainda na segunda, o médico da UTI nos repassou que o quadro novamente piorara, eles sequer conseguiriam fazer uma nova hemodiálise planejada para aquele dia. Educadamente, ele perguntou se alguém tinha alguma dúvida e minha tia-avó me levantou a bola para o arremate: "Tiaraju?" "Não, não tenho nenhuma dúvida. Vamos ficar na expectativa." Finalizei olhando o meu colega, que concordou comigo com um meio sorriso e um discreto sinal afirmativo com a cabeça. Dois dias depois, ela faleceu.
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Não participei do enterro de minha mãe, mas uma das histórias que permeiam a minha infância foi a de que meu irmão ajudou a carregar o seu caixão. Dezenove anos depois, quando chegamos ao cemitério, havia uma espécie de "maca" com rodas que a levaria até o local de sepultamento. Eu disse que nós mesmos a carregaríamos. Junto com mais três primos e dois tios, carreguei o peso silencioso até o último adeus. No momento final, meu primo consolou meu avô: "Agora, ela está com Deus."
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Durante o seu velório, foi distribuída a Oração de São Francisco:
"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver trevas, que eu leve a luz; Mestre, fazei que eu procure mais: consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna!"