domingo, 27 de abril de 2014

Laços de Família - parte 7

Na manhã da quinta que antecedeu a Páscoa, um de meus tios me ligou perguntando se eu iria para Porto Alegre. Logo estranhei aquela pergunta, ele nunca havia me telefonado antes, inclusive tive que confirmar sua identidade chamando-o pelo apelido. Respondi que esse era o plano para o feriado, com a óbvia ressalva: "Por quê?!" Ele me explicou que não havia ninguém para levar meu avô para a capital. Em questão de segundos, tomei a decisão: "Eu o levo."
Meu tio ainda comentou, um pouco constrangido, que meu avô questionara se eu conseguiria dirigir seu carro automático. Achei engraçada essa dúvida dele, meu tio também começou a rir e se despediu dizendo que ligaria de volta para o patriarca, informando a minha confirmação. Também fiz isso, dizendo que chegaria no outro dia cedo para a viagem; ele parecia estar calmo e feliz pela minha companhia, o que me deixou mais empolgado para o longo trajeto.
Na segunda, antes de voltarmos para o interior, almoçamos com meu pai e ele perguntou por que um primo meu, que também mora no interior, não havia trazido o avô. Realmente eu tinha essa informação prévia, a versão oficial era a de que ele não conseguiria se deslocar em Porto Alegre; mas eu salientei outro motivo, ao meu ver, muito mais importante: ele tinha uma esposa e uma filha pequena, eu não. Não haveria problemas em me ausentar por alguns dias, ninguém me esperava em casa.
Alguns dias depois, foi comentando que eu era o "primo mais bem-sucedido", o que é uma inverdade sob vários aspectos. Admito, porém, que devo ser o mais livre. Ninguém possui uma liberdade absoluta sobre a vida, claro, mas me considero mais livre que a maioria das pessoas. Chega a ser irônico como o meu divórcio possibilitou uma dedicação quase exclusiva à minha família, hoje fica um sentimento de que Deus escreve certo por linhas tortas.

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Na visita de sábado, a enfermeira da UTI pediu que eu entrasse em contato com a médica que fizera a internação. Após uma tentativa frustrada de encontrá-la no amplo complexo hospitalar, liguei para seu celular. De maneira muito profissional, ela comentou a contínua piora do quadro neurológico, lembrando inclusive que era algo que eu já esperava desde o início, e perguntou qual era a posição da família em relação à hemodiálise. Fazer ou não fazer?
Eu sabia que, se ela estava perguntando, era porque havia chego a hora de desistir, de deixar a nossa amada descansar. Eu queria dizer "não faça", mas eu sabia que a opinião de pelo menos alguns de meus tios era outra. Naquele momento, agi como um representante diplomático, fiel ao seu dever: "A posição atual da familía é de fazer hemodiálise." Ela entendeu prontamente e, já na visita da noite, foi possível visualizar o aparelho em funcionamento.
Na visita da segunda à tarde, enquanto meu avô estava ao leito, comentei com minha tia-avó sobre o telefonema e ela comentou: "Nós (ela e o marido) achamos estranho você ter conversado vinte minutos com a médica e nos ter resumido em trinta segundos. Era óbvio que havia algo a mais." Realmente, para meu avô, comentei apenas que iriam fazer a hemodiálise e não discuti o que isso representava. "Sim, eu devia ter disfarçado melhor."
Ainda na segunda, o médico da UTI nos repassou que o quadro novamente piorara, eles sequer conseguiriam fazer uma nova hemodiálise planejada para aquele dia. Educadamente, ele perguntou se alguém tinha alguma dúvida e minha tia-avó me levantou a bola para o arremate: "Tiaraju?" "Não, não tenho nenhuma dúvida. Vamos ficar na expectativa." Finalizei olhando o meu colega, que concordou comigo com um meio sorriso e um discreto sinal afirmativo com a cabeça. Dois dias depois, ela faleceu.

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Não participei do enterro de minha mãe, mas uma das histórias que permeiam a minha infância foi a de que meu irmão ajudou a carregar o seu caixão. Dezenove anos depois, quando chegamos ao cemitério, havia uma espécie de "maca" com rodas que a levaria até o local de sepultamento. Eu disse que nós mesmos a carregaríamos. Junto com mais três primos e dois tios, carreguei o peso silencioso até o último adeus. No momento final, meu primo consolou meu avô: "Agora, ela está com Deus."

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Durante o seu velório, foi distribuída a Oração de São Francisco:
"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver ofensa, que leve o perdão; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvida, que eu leve a fé; Onde houver erro, que eu leve a verdade; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver trevas, que eu leve a luz; Mestre, fazei que eu procure mais: consolar que ser consolado; compreender que ser compreendido; amar que ser amado. Pois é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna!"

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Laços de Família - parte 6

Na última viagem a Porto Alegre, tive o prazer da companhia do meu primo mais velho. Combinamos a carona no começo da semana e sexta pegamos a estrada. Ele morou os últimos anos lá e por isso eu senti que uma certa empolgação o acompanhava. Fomos direto para a Cidade Baixa, onde ele havia combinado de encontrar dois velhos amigos. Quando ele foi ao banheiro, eu fiz questão de comentar com seus parceiros:
"Estávamos vindo pela Freeway, quase chegando, quando começou a cair o mundo (fiz um sinal com as mãos indicando chuva). Aí eu comentei com o primo se ele queria mesmo ir para a Cidade Baixa com aquele temporal. Ele nem pensou muito, respondeu que eu poderia ir para o apartamento descansar, mas que antes era pra deixá-lo ali que depois ele dava um jeito de ir embora!" Nisso, os dois caíram na gargalhada, aquele diálogo era típico dele.
Interessante que eu já os conhecia, há cerca de quinze anos, eles estiveram em nossa casa em Garopaba, juntamente com meu primo e mais três amigos. Eu lembrava dos dois. Um deles se formou em Geologia e falou de meu pai, o que me proporcionou um bom sentimento de ser filho de alguém importante. Mais tarde, nosso primo mais novo e minha irmã se juntaram à mesa cada vez mais familiar.
No outro dia, almoçamos com nosso avô em um restaurante próximo ao hospital. Um reencontro agradável que deve ter lhe proporcionou um pouco de segurança. Ele não deveria temer ficar sozinho, sua ampla família estava junto para lhe apoiar. Em tempos de despedida, revemos alguns valores; semana passada, confessei para meu tio que eu havia começado a pensar seriamente em ter filhos, pois também precisaria ser cuidado quando senil. Ele, que há anos me motiva no assunto, concordou prontamente.

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Atualmente as visitas à minha avó são restringidas a duas pessoas por turno. Tenho ido à tarde nos finais de semana, onde sempre encontro meu avô e outros familiares. Imagino que cada visita destas seja uma despedida, meu primo mais velho a viu depois de muitos anos no último sábado. Não faço questão de vê-la na UTI, de certa forma, minha despedida ocorreu no primeiro dia dela em Porto Alegre.
Chegamos 5:30 da manhã na Emergência onde, embora não seja permitido acompanhantes, pude ficar pelo óbvio estado de confusão da nova paciente. A enfermeira me perguntou do caso e eu, de maneira sucinta, passei-lhe as informações. Alguns minutos depois, ela estava no balcão central conversando com uma colega quando, apontando para mim, perguntou como se já soubesse a resposta: "Você é da área? (referindo-se à área da saúde)" "Sim, eu sou médico."
Eu havia dirigido a noite toda e, apesar de cansado, senti uma espécie de gratidão por poder desfrutar de mais aqueles momentos ao lado dela. Intuitivamente, eu já sabia que aquela seria a minha despedida. Cuidei para que ela ficasse confortável na poltrona, cobri-lhe os pés, tentei acalmá-la quando ela se movimentava ou falava. Penso que as pessoas ali presentes tiveram a impressão de que aquela senhora era muito amada e, sobre isso, jamais tive dúvidas.
Algumas horas depois, conheci a médica que aceitara interná-la. Um detalhe curioso é que ela é Nefrologista e minha avó não tinha nenhuma disfunção renal. O encontro ocorreu porque a paciente consultava com o colega de consultório dela, mas ele não internava pelo plano. Logo após nosso primeiro contato telefônico, comentei com meu tio que ela era bastante simpática e parecia realmente disposta a ajudar. Sua primeira conduta no hospital foi solicitar exames e pedir o parecer da Neurologista que, minutos depois, estava ali.
Dias como esse me fazem sentir orgulho de pertencer a essa classe profissional. Literalmente salvamos vidas, as duas colegas não salvaram apenas nossa avó, mas todos nós. Tenho a idéia de, algum dia, deixar um presente bacana para elas no hospital; claro que nada estará à altura do que foi feito, não há nada que pague isso. Mas gostaria que elas soubessem que me sinto renovado para um trabalho onde diariamente podemos fazer a diferença.
No final da manhã, acompanhei um exame neurológico que foi feito em outro prédio do complexo hospitalar. Uma das técnicas que faria o exame logo notou suas unhas bem feitas: "Ela é vaidosa, não?" "Muito." A outra perguntou se eu era o filho. "Não, sou o neto." Ela tentou entender: "Mas então você é filho da filha?" "Não, sou o filho do meio do filho mais velho" respondi sorrindo, explicando em seguida: "mas sou o único médico da família." Gosto de pensar que, naquele momento, eu deixei a minha segunda mãe orgulhosa.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Blefadorzinho - parte 2

Há meses meu tio vem me convidando para conhecer um clube do poker de sua nova cidade. Aproveitei o último domingo para finalmente conhecer a comentada mesa. Com mais oito jogadores, foi a primeira vez que joguei meu jogo preferido em um padrão profissional. Com a típica sorte de principiante, fui um sucesso absoluto; simplesmente consegui multiplicar por dez o meu investimento inicial, um feito notável que deixou todos admirados.
Uma das piadas da noite foi que eu não precisava mais trabalhar como médico, já que eu ganhava muito mais jogando poker. De fato, a matemática procede; mas, certa vez, comentei com meu pai que eu não poderia abandonar a Medicina, pois eu era muito bom nisso (!). Um amigo recentemente decidiu seguir a carreira médica, então comentei que a profissão era muito mais que um bom salário. Ser médico faz bem ao Ego, inclusive em uma mesa de jogo.
Uma das jogadas memoráveis foi eu pagar um raise pré-flop com um par de oito. Após um flop sem graça, cobri nova aposta e me deliciei com um terceiro oito no turn. Meu adversário pediu mesa e eu, tentando simular um blefe, apostei alto. Apesar dele ser um jogador agressivo, eu já havia conquistado o respeito da mesa e ele acabou desistindo. Normalmente eu não mostraria minhas cartas, mas ali não me contive. "O cara está iluminado" foi o desabafo de um deles ao ver a minha trinca.
O curioso é que, de tempos em tempos, eu realmente me sinto iluminado. A sorte parece sorrir para mim e isso acaba se tornando notável no carteado. Gosto de pensar que, como eu procuro ajudar as pessoas, a vida me devolve essa "carga positiva" de diversas formas. Quando eu me formei, meu irmão comentou que eu estava colhendo os frutos do que eu havia plantado. De fato, a colheita dura mais de cinco anos e parece não haver hora para acabar, o que me é um sinal de que continuo plantando corretamente.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Laços de Família - parte 5

Na última sexta-feira, fui para Florianópolis prestigiar a formatura do primogênito dos padrinhos de minha irmã, que ficaram emocionados com a nossa presença. O avô do formando veio pessoalmente me cumprimentar quando cheguei, dizendo que havia me conhecido ainda pequeno e que era um prazer me reencontrar. Mais tarde, ele comentou em nossa mesa que não se podia criticar os jovens de hoje, pois ainda haviam bons exemplos como seu neto e eu, que se esforçavam nos estudos para construir uma vida digna.
Os padrinhos lembraram que minha formatura foi uma das melhores que eles já foram, por isso faziam questão que nós estivéssemos ali. Durante o jantar, ao comentar o meu estado civil, a madrinha disse que, caso ela tivesse uma filha, eu não conseguiria escapar de ser seu genro. Um fato que ela sempre comenta, inclusive desta vez, foi que ela adorava me "tomar emprestado" quando eu era bebê para poder me exibir, lindo.
Aproveitei para botar o papo em dia com meu pai. Sua mãe piorara e agora respirava com a ajuda de aparelhos. Decidi ir para Porto Alegre já no sábado, ele iria no domingo. Comentei que estava pensando em levar um calmante para o avô, ele estranhou e logo me expliquei: "Não quero dopá-lo, é só se for necessário." Mais tarde, ele comentou com o padrinho que eu largara o emprego para ficar duas semanas cuidando de meus avós. Tive a impressão que o ouvinte chegou a se comover por um breve instante.

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Ao chegar na zona sul da capital gaúcha, meu tio pergunta se eu havia trazido meus receituários. Respondo que meu carimbo não valia naquele estado, ele explica que seu pai pedira um calmante pois estava um pouco nervoso durante o dia. Com uma certa satisfação, informo que já havia pensado nisso e por isso trouxera um medicamento; coincidentemente, o mesmo que um outro médico de confiança da família tinha sugerido. Após o ocorrido, disse didaticamente para minha irmã que o "poder de antecipação" era essencial para enfrentar os desafios da vida.

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Uma das personagens principais da série "Laços de Família" é minha tia-avó, que novamente entrou em cena no último domingo. Quando saímos da UTI, onde nos foi informada a situação grave em que sua irmã se encontrava, ela me perguntou: "Tiaraju, como médico, tu achas que é irreversível?" Meu avô, que estava do nosso lado, mostrou um interesse imediato pela minha resposta, assim como os diversos familiares presentes. Praticamente uma bomba atirada em minha direção.
Pensei rapidamente no que meu avô já sabia e respondi que o quadro neurológico era irreversível. Ambos concordaram prontamente, era consenso que a memória e a lucidez não retornariam. Mas salientei que o quadro infeccioso poderia sim ser revertido, inclusive havia sido informado um aumento nos antibióticos; assim como a diabetes, que também poderia ser controlada com a insulina. Era esperar para ver. Por enquanto, "bomba desarmada".
À noite, na casa de minha tia, comento que seu pai, embora conformado com o quadro delicado, ainda estava com alguma esperança, estimulado pela própria equipe do hospitaI. Ela questiona se esse sentimento seria bom e eu afirmo que sim, a esperança, por menor que seja, sempre é positiva. Se tem algo que nossa matriarca me ensinou foi a importância de jamais perder a fé. Anos depois, aqui estou, firme à sua grande lição.