quarta-feira, 9 de abril de 2014

Laços de Família - parte 5

Na última sexta-feira, fui para Florianópolis prestigiar a formatura do primogênito dos padrinhos de minha irmã, que ficaram emocionados com a nossa presença. O avô do formando veio pessoalmente me cumprimentar quando cheguei, dizendo que havia me conhecido ainda pequeno e que era um prazer me reencontrar. Mais tarde, ele comentou em nossa mesa que não se podia criticar os jovens de hoje, pois ainda haviam bons exemplos como seu neto e eu, que se esforçavam nos estudos para construir uma vida digna.
Os padrinhos lembraram que minha formatura foi uma das melhores que eles já foram, por isso faziam questão que nós estivéssemos ali. Durante o jantar, ao comentar o meu estado civil, a madrinha disse que, caso ela tivesse uma filha, eu não conseguiria escapar de ser seu genro. Um fato que ela sempre comenta, inclusive desta vez, foi que ela adorava me "tomar emprestado" quando eu era bebê para poder me exibir, lindo.
Aproveitei para botar o papo em dia com meu pai. Sua mãe piorara e agora respirava com a ajuda de aparelhos. Decidi ir para Porto Alegre já no sábado, ele iria no domingo. Comentei que estava pensando em levar um calmante para o avô, ele estranhou e logo me expliquei: "Não quero dopá-lo, é só se for necessário." Mais tarde, ele comentou com o padrinho que eu largara o emprego para ficar duas semanas cuidando de meus avós. Tive a impressão que o ouvinte chegou a se comover por um breve instante.

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Ao chegar na zona sul da capital gaúcha, meu tio pergunta se eu havia trazido meus receituários. Respondo que meu carimbo não valia naquele estado, ele explica que seu pai pedira um calmante pois estava um pouco nervoso durante o dia. Com uma certa satisfação, informo que já havia pensado nisso e por isso trouxera um medicamento; coincidentemente, o mesmo que um outro médico de confiança da família tinha sugerido. Após o ocorrido, disse didaticamente para minha irmã que o "poder de antecipação" era essencial para enfrentar os desafios da vida.

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Uma das personagens principais da série "Laços de Família" é minha tia-avó, que novamente entrou em cena no último domingo. Quando saímos da UTI, onde nos foi informada a situação grave em que sua irmã se encontrava, ela me perguntou: "Tiaraju, como médico, tu achas que é irreversível?" Meu avô, que estava do nosso lado, mostrou um interesse imediato pela minha resposta, assim como os diversos familiares presentes. Praticamente uma bomba atirada em minha direção.
Pensei rapidamente no que meu avô já sabia e respondi que o quadro neurológico era irreversível. Ambos concordaram prontamente, era consenso que a memória e a lucidez não retornariam. Mas salientei que o quadro infeccioso poderia sim ser revertido, inclusive havia sido informado um aumento nos antibióticos; assim como a diabetes, que também poderia ser controlada com a insulina. Era esperar para ver. Por enquanto, "bomba desarmada".
À noite, na casa de minha tia, comento que seu pai, embora conformado com o quadro delicado, ainda estava com alguma esperança, estimulado pela própria equipe do hospitaI. Ela questiona se esse sentimento seria bom e eu afirmo que sim, a esperança, por menor que seja, sempre é positiva. Se tem algo que nossa matriarca me ensinou foi a importância de jamais perder a fé. Anos depois, aqui estou, firme à sua grande lição.

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