sexta-feira, 28 de junho de 2013

ER - parte 3

Semana passada, fiz uma viagem para Porto Alegre e pedi para ser substituído de meu plantão fixo de segunda-feira. No entanto, no domingo à noite, fui avisado que não haviam encontrado nenhum plantonista e, sem alternativa, informei que tentaria chegar a tempo para o compromisso. Estava na casa de tios, com certo orgulho de minha responsabilidade, disse-lhes que teria que viajar cedo no outro dia e assim o fiz.
Apesar dos mais de 600km de estrada, a viagem foi tranquila e fui bem disposto ao plantão. Chegando lá, encontro bastante gente na sala de espera; no consultório, meu colega terminava de fazer algumas internações e, enquanto me passava alguns casos que ficariam em observação, a enfermeira nos interrompe para informar que os bombeiros estavam trazendo uma intoxicação por agrotóxico. Pelo visto, seria uma noite daquelas...
Felizmente, os pacientes possivelmente graves evoluíram bem e fui conseguindo "desafogar" o PA aos poucos. Embora estivesse cansado, senti um certo orgulho por estar ali, controlando uma situação que, a princípio, parecia ser caótica. Uma das muitas consultas foi de uma menina que caíra de uma cadeira e viera acompanhada do pai, preocupado com uma possível fratura de costela.
Embora não goste de dar justificativas para minhas condutas, após ser questionado, expliquei os vários motivos que me faziam acreditar que não havia nenhuma lesão mais grave na jovem, sendo necessário apenas analgesia e observação. Antes de ir embora, o senhor aponta para meu jaleco e pergunta amigavelmente se eu havia me formado na UFSC. Respondo que sim e ele comenta que seu irmão leciona lá, dizendo seu primeiro nome.
Imediatamente me vem a imagem do meu professor de Cardiologia, muito parecido com o senhor que estava ali na minha frente. Completo com o sobrenome e ele, com um sorriso, confirma. Informo que seu irmão acompanhara minha turma durante todo o curso e peço que ele lhe mande um abraço meu quando possível, talvez ele fosse se lembrar de seu aluno com o nome peculiar, Tiaraju.
Uma passagem marcante com este professor ocorreu na última fase do curso, no ambulatório de Cardiologia. Ao chegar para mais um dia de estágio, ele me passa um prontuário extenso e pede que eu atenda especificamente aquele paciente. Era um senhor idoso acompanhando da esposa, ambos entram com um semblante fechado no consultório; durante a anamnese, pergunto se ele bebia e ele responde que não, apenas leite antes de dormir.
Com um sorriso discreto, questiono: "O leitinho da Norminha?" O casal começa a sorrir francamente e ele, bem disposto, afirma que não, não era esse o tipo de leite que tomava. A consulta se desenvolve num clima agradável e logo percebo que seus sintomas não eram decorrentes de uma alteração cardíaca, mas sim de um quadro de ansiedade.
Ao chamar meu professor, ele se senta e começa a ler a minha descrição da consulta no prontuário, decretando em seguida: "Mas isso que o senhor sente não é do coração." Eles concordam e, antes de irem embora, o paciente faz um último comentário, apontando para mim: "Teu aluno será um ótimo médico!" O cardiologista, sem esconder sua satisfação, comenta: "Sim, ele é uma boa pessoa."
Na época, eu falei desse ocorrido com meu pai e confessei que esse era provavelmente o melhor elogio que eu poderia ter recebido de meu ilustre mestre. Muito melhor que "ele é muito competente" ou "ele é muito estudioso", ser uma "boa pessoa" me parecia ser algo maior para alguém que, prestes a se formar, vivia tempos de grande idealismo.

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Luka Kovac é um médico croata que integrou a equipe de ER a partir da sexta temporada. Após perder sua família na guerra, ele resolve começar uma vida nova em Chicago. Assim como ele, sinto-me como um estrangeiro na área da Medicina: sou o primeiro da minha família a se formar médico e, vivendo em região distante, não sinto vontade de voltar para minha terra natal.
Mesmo com um passado trágico, Luka não desistiu das coisas boas da vida. Tem um Dodge Viper, que ele acaba batendo quando dirige descontroladamente em companhia de uma bela estudante de Medicina. Não tenho um carrão, mas adoro dirigir e essa tem sido uma de minhas paixões após formado. Meu carro atual tem pouco mais de dois anos e está com mais de 155 mil km rodados. 
Luka também costuma se relacionar com belas mulheres. Considero os relacionamentos amorosos como parte essencial da minha trajetória: receber os pacientes com um sorriso, dia após a dia, só me é possível estando "de bem com a vida". Perceber diariamente que meu caminho está repleto de dádivas é um dos motivos que me fazem manter uma postura otimista sobre meu trabalho, por mais cansativo e frustrante que ele possa ser.
Apesar de suas crises existenciais, Dr. Kovac é inquestionavelmente um profissional competente; apesar de algumas vezes apresentar um comportamento auto-destrutivo, o médico croata é uma boa pessoa e suas ações positivas são marcantes na série. Espero um dia chegar lá: um bom médico, uma boa pessoa, uma boa história para ser lembrada.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

ER - parte 2

Sempre gostei de jogos de azar. Quando era pequeno, era comum passar as tardes jogando baralho com minha mãe. Todos os anos, quando a família de meu pai se reúne no interior do RS, o principal passatempo consiste em jogar cartas por horas a fio. Meus sogros também gostam de um carteado e virou costume jogarmos após as refeições.
Eu diria que um plantonista está sempre contando com a sorte, preso à expectativa de que tudo dará certo e transcorrerá tranquilamente. Assim como no jogo, desenvolvi a fama de ser "pé quente" nos plantões, embora obviamente ninguém esteja imune à força do azar. Eventualmente, todo mundo se dá mal.
Há três meses, faço plantões noturnos num dia fixo da semana em uma cidade de 18 mil habitantes. Semana passada foi relativamente tumultuado: um paciente que vinha transferido de outro hospital faleceu no caminho; outro teve um derrame cerebral pela manhã e, como não foi internado, apareceu à noite com esperada piora; uma senhora que havia sido atendida no dia anterior voltara com sinais de insuficiência respiratória; para completar, um atendimento no meio da madrugada interrompeu meu breve descanso.
Em contraste, o plantão dessa semana foi bem calmo. Nenhum caso grave que necessitasse de internação ou transferência, o último paciente do plantão veio à meia-noite e assim pude descansar até às 7h. Apenas despertei algumas vezes após sonhar que vinham me chamar para atender. Mesmo nas noites mais tranquilas, o sono interrompido me é uma constante, sendo impossível relaxar totalmente.
Decidi não fazer mais plantões a partir do mês que vem, embora ontem mesmo eu tenha lembrado para colegas de trabalho que eu já tomara essa decisão diversas vezes. Uma delas comentou: "É um vício, não?" Talvez. Gosto de pensar que a Medicina ainda é um trabalho nobre, que ainda vale a pena apesar dos dias infortunos. Assim como no jogo, não é pelo dinheiro.

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Um dos PAs que venho trabalhando nos últimos meses é referência para mais de 60 mil pessoas. Durante uma plantão diurno de 12 horas, por exemplo, é comum haver mais de uma centena de atendimentos. Apesar de serem dois plantonistas por turno, a demanda é incessante e geralmente meus colegas ficam surpresos quando digo que estou fazendo plantões ali.
Por outro lado, o lugar tem a melhor estrutura da região, com uma equipe muito competente. Não são só bons profissionais tecnicamente, mas sinto que realmente estão ali por vocação, dando um apoio sólido para que eu possa desenvolver meu trabalho com êxito. O ambiente é naturalmente inóspito, mas em conjunto atravessamos as horas mais difíceis; ali, nunca estou sozinho.
Uma das imagens passadas pela série norte-americana é a de que os profissionais de saúde realmente desejam ajudar e costumam dar o seu melhor pelos pacientes. A equipe do County General Hospital é admirável e, se na adolescência eu desejei fazer parte dela, hoje eu vivo essa emoção de tempos em tempos na vida real. Entre erros e acertos, costumo voltar para casa orgulhoso, como se fosse um protagonista/herói de ER.