terça-feira, 30 de julho de 2013

Neve

Vamos ao mercado e, antes de entrar no estacionamento, ela aponta para o para-brisa: "Olha, gelo." De fato, uma pequena porção de gelo cai com a chuva leve persistente. Após o jantar, saímos do restaurante e notamos que uma quantidade considerável de gelo se acumulou no carro. Mas ainda era apenas chuva com gelo.
Já em casa, percebo que o barulho da garoa vai sumindo aos poucos e então saio pela sacada, cuja porta permanecia aberta. Continua a chover, mas sem o som dos pingos. Chove gelo. Neva. Pela primeira vez em vinte e oito anos, vejo neve. As previsões estavam certas: na minha cidade, nevava.
Dirigimo-nos para a janela em frente a rua, focamos um poste que ilumina os diferentes flocos de neve que caem como se fossem meteoritos. A lâmpada forma rastros de luz de diferentes tamanhos, compondo um belo espetáculo. Em alguns minutos, crianças saem a rua, fotos são tiradas, risos são ouvidos e ficamos hipnotizados pela paisagem noturna.
Vamos dormir ainda com o silêncio da neve. De manhã, o visual urbano é inédito. O branco é absoluto nas telhas e jardins das casas. Árvores parecem congeladas. Apresso-me em fotografar. Arrumo-me para o trabalho, mas, sem energia elétrica, não consigo abrir o portão da garagem. Quando a energia volta, percebo que um fio de alta-tensão paira em frente ao portão da garagem, quase tocando a calçada. É impossível tirar o carro. 
Ligo para o orgão responsável, mas o problema só é resolvido à noite. No outro dia, no caminho para o trabalho, encontro diversos bonecos de neve. Ao estacionar, percebo pelo painel do carro que, mesmo numa manhã ensolarada, faz quatro graus negativos lá fora. Entro na unidade e, encontrando o enfermeiro, logo dou minhas explicações pela falta. Surpreso, ele pergunta: "Você também não conseguiu vir ontem?!"

sábado, 27 de julho de 2013

Médico de Homens e de Almas - parte 3

Um dos momentos mais emocionantes da trama ocorre quando Lucano milagrosamente salva seu irmão de uma moléstia incurável (provavelmente um câncer estomacal). Prisco era filho do padrasto de Lucano com a primeira esposa, que falecera no parto. Lucano acompanhou o complicado nascimento com o médico da família e reanimou Prisco, que não respirava.
Prisco se tornara um militar romano e participara da crucificação de Cristo, o que o abalara profundamente. Tomado pela culpa, começou a sentir dores abdominais e rapidamente definhou:
"Lucano ficou atônito até o coração diante de seu aspecto e quase incapaz de reconhecer, naquele homem cinzento e magro, seu jovem e querido irmão. (...) Lágrimas inundaram os olhos de Lucano, enquanto ele contemplava o irmão, à luz da lâmpada que erguera. Ali jazia um jovem que lhe era mais querido do que seu irmão e sua irmã de sangue, pois ele dera vida a Prisco, que estava morto."
Após obter um relato preciso dos últimos momentos de Jesus, Lucano ora:
"Tem piedade de meu pobre irmão, a quem foi outorgado o mérito de ver-Te em nossa carne. Ele Te ama e Te conhece. Dá-lhe paz, dá-lhe alívio para suas dores."
No dia seguinte, é atendido mais uma vez:
"Correu para o leito de Prisco, esperando ver ali um cadáver, mas viu, para sua completa estupefação, que Prisco estava sentado, recostado em seus travesseiros, comendo com prazer sua primeira refeição. (...) Lucano sentou-se abruptamente e ficou de olhos fixos à frente. Depois, tornou a levantar-se e examinou Prisco, minuciosamente. Não havia tumor algum fazendo resistência a seus dedos. O soldado levantava um cacho de uvas e comia-as com satisfação. Os olhos estavam pousados com suavidade em Lucano.
— Eu sabia que tu podias me ajudar — repetia ele. — Conhecia minha doença e ela era mortal. Tu, porém, me curaste."
* * *
Anteontem, após uma visita domiciliar com uma técnica em enfermagem, entro no carro e começamos o longo caminho para o centro da cidade. Pergunto para o motorista: "Você acredita em milagres?" Cético, ele responde rindo: "Só quando eu acertar na Mega-Sena!" Imagino que eu tenha deixado implícito para eles a minha opinião. Minha pergunta, na verdade, foi um desabafo de alguém que espera.
* * *
Nesta semana, durante o jantar, minha noiva pergunta do Papa. Respondo que vira ao vivo sua chegada no Brasil. Num carro que permaneceu constantemente com a janela aberta, o pontífice chegou a ser tocado por pedestres que aproveitavam a baixa velocidade decorrente de um típico engarrafamento. Do alto de um helicóptero, tinham-se a visão precisa do que ocorria.
Comentei que as pessoas não esboçavam nenhuma agressividade, pelo contrário, eram suaves na aproximação. Por algum motivo, tocar o Papa era algo que valia a pena. Eu acho isso positivo, as pessoas acreditarem em algo ou alguém sagrado, que mereça ser buscado. Nos dias atuais, qualquer motivo de esperança me parece ser bom, mesmo que seja uma ilusão.

domingo, 14 de julho de 2013

Sobre o Ato Médico

Um amigo veio me perguntar essa semana sobre o ato médico, comentando que havia discutido o tema com outro amigo nosso. Achei curioso que nenhum deles é da área da saúde, mas fiquei lisonjeado com seu interesse. Conhecemo-nos há quase 15 anos e talvez essa tenha sido a primeira vez que tratamos de um assunto tão sério. 
Expliquei que, como tenho escutado muita bobagem sobre isso ao longo dos anos, acabei me desinteressando e hoje vejo como algo que fará pouca diferença no meu trabalho cotidiano. Recentemente reencontrei um colega médico e, apesar de conversarmos bastante sobre a profissão, em nenhum momento lembramos dessa polêmica atual.
Só recordo de ter discutido a temática na faculdade e, desde aquela época, percebo que o sistema de saúde gira em torno do médico. O "ato médico" sempre existiu na sociedade, quer ele seja aprovado ou não por nossos governantes. Sempre se esperou muito de nós, nossas atribuições não são definidas exclusivamente pela classe médica.
Eu gostaria que um fisioterapeuta pudesse fazer um atestado de dificuldade de locomoção para o INSS, que um psicólogo pudesse fazer um laudo de doença mental para fins legais, que um farmacêutico pudesse fazer um processo para receber medicamento de alto-custo do estado, que um assistente-social pudesse fazer uma receita de "fralda geriátrica - uso contínuo", que um enfermeiro pudesse autorizar as cirurgias eletivas dos pacientes do município...
Eu realmente gostaria que, ao invés de atender 40 pacientes em um dia, eu pudesse atender "apenas" 30 e os outros 10 fossem atendidos por outros profissionais. Mas não funciona assim, o nosso sistema não funciona assim. A própria população quer a consulta médica e uma das maiores reclamações atuais é decorrente de sua falta, aparentemente comum em todo o país.
Há mais de 4 anos trabalho em Atenção Básica e quase diariamente me deparo com casos de depressão/ansiedade, muitos deles crônicos. No começo, eu sempre sugeria um acompanhamento conjunto com o psicólogo, mas, após alguns meses, desisti dessa idéia. Ninguém queria acompanhamento psicológico, de certa forma, faço esse papel apesar da óbvia limitação do tempo.
Eu poderia citar muitos exemplos sobre a existência já estabelecida do ato médico, mas comentarei apenas um, ocorrido ano passado. Trabalhava no PSF de um pequeno município, quando o secretário de saúde veio me perguntar se eu poderia atender um paciente psiquiátrico de outra cidade, pois lá estavam sem médicos. Como de costume, aceitei fazer o atendimento.
O jovem veio conduzido num camburão da PM em franco surto psicótico, um dos policiais me informou que eu deveria fazer um laudo clínico para que o paciente pudesse ser encaminhado para uma internação psiquiátrica. Isso me causou surpresa, como eu poderia fazer um laudo de um paciente que eu nunca tinha visto antes?
O pai do jovem viera junto e, após alguns minutos de conversa no consultório, ele me mostrou um ofício muito bem elaborado no CAPS, onde o paciente fazia acompanhamento. Ali estava a história pregressa do paciente, seu diagnóstico e sua situação atual, que motivava a internação. O documento vinha assinado e carimbado por vários funcionários da instituição, mas nenhum deles era médico. Isso fazia toda a diferença.
Como me foi solicitado, fiz um encaminhamento simples para internação. Mediquei-o com sedativos para que ele não precisasse ficar "detido" e orientei o pai que, caso ele voltasse a tomar os antipsicóticos, talvez nem fosse necessária a internação. Mas, se precisasse, o documento estava ali. Não o documento elaborado pelos profissionais que conheciam e acompanhavam o paciente, mas o meu documento, que, embora de forma improvisada, tinha o essencial carimbo médico.
Se para mim faz pouca diferença o ato médico, por que eu gostaria de uma aprovação sem vetos? Eu penso nesse projeto como um instrumento de proteção da sociedade. Há quase 4 anos tenho trabalhado em cidades do oeste e planalto norte catarinense. Aqui, no interior deste belo estado, onde predomina famílias humildes, é comum a figura do "massagista".
Eis um "profissional" que atende a demanda de agricultores com dores nas costas ou ombros após um árduo dia de trabalho. Ou motoqueiros vítimas de pequenos acidentes. Independente da história clínica, são diagnósticos comuns o "nervo fora do lugar" e  o "nervo embolado". Claro que esses são problemas que ele pode resolver mediante remuneração.
Esses diagnósticos não existem, mas, se existissem, deveriam ser feitos por um ortopedista ou neurologista. Com eles, há menos chance das pessoas serem enganadas. Em entrevista recente, o presidente do CFM, Roberto Luiz d'Avila, lembrou: "Quem pode pagar médico, quem pode comprar plano de saúde, irá ao médico quando ficar doente; mas a população mais pobre, mais carente, mais vulnerável, poderá não ser atendida por médico, mas por outro profissional, sem a competência técnica e legal para esse atendimento."

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Médico de Homens e de Almas - parte 2

Ao ler esse agradável romance de Taylor Caldwell, identifiquei-me facilmente com os dilemas enfrentados por Lucano há 2000 anos atrás, num mundo curiosamente parecido com o atual. Seu padrasto romano, que financiara sua cara formação, desejava que ele trabalhasse em Roma, mas Lucano tinha outros planos após formado:
"Tentei explicar; não há necessidade de mais um funcionário médico em Roma, que está cheia de hospitais modernos. Sim, compreendo que a Assembleia Pública me nomeou, graciosamente, por ordem de Diodoro, e com um estipêndio considerável. Mas um médico não deve ir para onde mais necessitam dele? Hipócrates disse isso, e eu jurei por ele. Meu trabalho será entre os pobres, os oprimidos, os abandonados, os moribundos, os desesperadamente doentes, para os quais não há assistência nas cidades que ficam ao longo do Grande Mar. Tratarei de escravos e dos que vivem em pobreza irremediável, e não pedirei pagamento, a não ser dos ricos senhores de escravos. Irei visitar as prisões e as galés, as minas e os cortiços, os portos e as enfermarias para indigentes. Esse é meu trabalho e não me posso desviar dele."
Meu pai ficou horrorizado quando eu lhe informei, ainda na faculdade, que pretendia trabalhar em "postos de saúde", com certeza não era o que ele esperava de seu filho do meio. Hoje ele aceita minha escolha, mas ainda deve temer pelo meu futuro. Eu também temo, eu também sei que este é um caminho difícil, mas emocionalmente é a minha única opção. Esse é meu trabalho e não me posso desviar dele.
Recentemente comecei a atender em uma Unidade Básica de Saúde localizada no interior de um pequeno município. Apesar de ir nessa unidade apenas uma tarde por semana, no final de um expediente, a enfermeira comentou que as pessoas estavam gostando de meu atendimento, pois eles estavam acostumados apenas com o "doutor" e eu era mais do que isso. Além de "doutor", eu demonstrava ser também uma pessoa.
Fiquei surpreso com palavras tão generosas, especialmente após aquela tarde onde, com bastante consultas, tive que atender apressadamente. No caminho de volta, lembrei de um senhor de meia-idade que acabara de atender ali. Ele se queixou de uma dor torácica que tinha desde um acidente de carro que sofrera há alguns anos, junto com sua esposa, que falecera. Imediatamente fiquei tocado com sua história.
Lembrei-me de meu pai, que também apresentou dores no tórax após acidente que vitimou minha mãe, provavelmente decorrentes do cinto de segurança. Perguntei para meu paciente sobre seus filhos e se ele tinha se casado novamente. Ele respondeu que não, comentei que ele era novo ainda e ele, esboçando um sorriso, concordou, dizendo que "pretendentes não faltavam".
Talvez um outro profissional teria apenas atendido a solicitação de fazer um raio-X, o que, na minha opinião, não o ajudaria. Fugindo um pouco do papel de médico, procurei fazer algo pelo o que me parecia ser seu principal problema: a perda da esposa. Demonstrando interesse por sua vida, deixei implícito que ele não deveria desistir de se relacionar com outra mulher.
Recordo-me de um paciente idoso que, elogiando minha postura, confessou que "tem médico que a gente vai e sai pior". Infelizmente, creio que isso seja uma ocorrência comum em nosso meio, sem haver necessariamente algum culpado. Talvez o mundo favoreça o adoecimento das pessoas e conspire para que elas sejam mal assistidas. Talvez sempre tenha sido assim.
Gosto de pensar que Santa Catarina é o melhor estado do melhor país da atualidade. Apesar disso, sinto-me frequentemente impotente perante a miséria que encontro diariamente, seja ela social ou espiritual. Às vezes, chego a acreditar que meu trabalho se transformou em uma mera "redução de danos", pois as pessoas continuarão sofrendo mesmo que eu lhes proporcione algum breve conforto.
Chico Xavier, no alto de sua grandeza, disse certa vez: "Sei que sou apenas uma formiguinha, daquelas bem pequenininhas. Mas é melhor ser uma formiguinha do que não ser nada." Em dias difíceis, devo ter em mente que é melhor ser apenas um médico de almas, daqueles bem pequenininhos, do que não ser nada. Assim como Lucano, não posso me desviar do meu caminho, por menor que ele possa parecer.