No dia 20 de julho de 1944, Hitler sobreviveu a um atentado arquitetado por oficiais alemães insatisfeitos com o rumo desastroso da guerra. Foi a mais notável tentativa da chamada "resistência alemã" para salvar o país do ruína imposta pelos nazistas. Embora o plano tenha fracassado, sua memória foi preservada e ainda é motivo de orgulho para o povo alemão.
No início do filme, é questionado se apenas assassinar o Fuhrer seria o suficiente para dar um fim ao conflito. A resposta dada por um dos generais que lideravam o grupo opositor me parece bastante sensata: "Não importa, importa apenas que ajamos agora, antes de perdermos a guerra. Caso contrário, essa será sempre a Alemanha de Hitler; e nós temos que mostrar ao mundo que nem todos nós éramos como ele."
A trajetória do protagonista, o coronel Claus von Stauffenberg, é exemplar. Pertencente a uma família nobre, teve uma educação humanista, estudando Grego, Latim, História e Filosofia. Ele não era considerado um "tipo militar", mas se alistou com 18 anos e teve uma rápida ascenção nas Forças Armadas. Casou-se em 1933, tendo cinco filhos. No documentário bônus do DVD, seu filho mais velho o descreve como "muito divertido e amoroso, uma pessoa alegre que ria bastante, nós o amávamos muito."
Após quase morrer no Norte da África em 1943, voltou para Berlim, sendo então contatado pela resistência. Gosto da sua fala ao ser recrutado: "Eu sou um soldado, sirvo ao meu país, mas esse não é meu país. Eu estava deitado lá fora, sangrando até a morte, pensando: 'Se eu morrer agora, não vou deixar nada para meus filhos além de vergonha'. Eu sei agora que só há uma maneira de servir à Alemanha, fazendo isso, serei um traidor. Eu aceito isso."
No documentário, a filha de Claus relata que sua mãe perguntou para ele qual a chance do golpe contra Hitler dar certo, e ele respondeu: "cinquenta por cento". Ele sabia que não estava arriscado apenas sua vida, mas também a de sua família; mesmo assim, guiado por "forças morais incomuns e poderosas", seguiu em frente. Quase foi bem-sucedido, mas acabou preso e executado no mesmo dia do atentado.
Sua esposa, que estava grávida, também foi presa e mandada para um campo de concentração; seus filhos foram para orfanatos. Apesar das dificuldades, todos sobreviveram à guerra, sendo esse talvez o maior desejo de Stauffenberg. Mesmo morrendo como um traidor da pátria, ele deixou para sua família um legado de honra e coragem, imortalizado neste belo longa-metragem.
"Vocês não carregam a vergonha, vocês resistiram, sacrificando suas vidas por liberdade, justiça e honra." Memorial da Resistência Alemã, Berlim.
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Meu avô paterno me disse há alguns anos que "o cavalo branco aparece apenas uma vez na vida, ou você monta nele, ou ele vai embora e nunca mais volta". Ele estava se referindo ao fato de meu pai ter recusado uma proposta de emprego na Petrobrás após ter se formado em Geologia, o que provavelmente lhe daria estabilidade financeira duradoura.
Conversando com meu pai, ele disse que fizera isso porque se tratava de uma empresa estatal; como o país era governado pelos militares, ele não queria fazer parte da ditadura, mesmo que indiretamente. Além disso, segundo ele, "se eu tivesse entrado na Petrobrás, não teria ido para São Paulo, não teria conhecido a tua mãe e tu não teria nascido".
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Durante a sessão de fotos de formatura da faculdade, gravamos um video onde cada um deixava uma mensagem pessoal para a sua família. Nunca mostrei a gravação para ninguém e a vi apenas uma vez, para escrever este texto.
"Eu gostaria de dizer para minha família que estou aqui realizando um sonho e que hoje eu percebo que as pessoas não me admiram pela minha inteligência, mas pelo meu caráter e pelos meus valores. Se hoje eu quero ser uma pessoa melhor e quero tornar o mundo melhor, é por causa de vocês. Muito obrigado."