segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Operação Valquíria (2008)


No dia 20 de julho de 1944, Hitler sobreviveu a um atentado arquitetado por oficiais alemães insatisfeitos com o rumo desastroso da guerra. Foi a mais notável tentativa da chamada "resistência alemã" para salvar o país do ruína imposta pelos nazistas. Embora o plano tenha fracassado, sua memória foi preservada e ainda é motivo de orgulho para o povo alemão.
No início do filme, é questionado se apenas assassinar o Fuhrer seria o suficiente para dar um fim ao conflito. A resposta dada por um dos generais que lideravam o grupo opositor me parece bastante sensata: "Não importa, importa apenas que ajamos agora, antes de perdermos a guerra. Caso contrário, essa será sempre a Alemanha de Hitler; e nós temos que mostrar ao mundo que nem todos nós éramos como ele."
A trajetória do protagonista, o coronel Claus von Stauffenberg, é exemplar. Pertencente a uma família nobre, teve uma educação humanista, estudando Grego, Latim, História e Filosofia. Ele não era considerado um "tipo militar", mas se alistou com 18 anos e teve uma rápida ascenção nas Forças Armadas. Casou-se em 1933, tendo cinco filhos. No documentário bônus do DVD, seu filho mais velho o descreve como "muito divertido e amoroso, uma pessoa alegre que ria bastante, nós o amávamos muito." 
Após quase morrer no Norte da África em 1943, voltou para Berlim, sendo então contatado pela resistência. Gosto da sua fala ao ser recrutado: "Eu sou um soldado, sirvo ao meu país, mas esse não é meu país. Eu estava deitado lá fora, sangrando até a morte, pensando: 'Se eu morrer agora, não vou deixar nada para meus filhos além de vergonha'. Eu sei agora que só há uma maneira de servir à Alemanha, fazendo isso, serei um traidor. Eu aceito isso."
No documentário, a filha de Claus relata que sua mãe perguntou para ele qual a chance do golpe contra Hitler dar certo, e ele respondeu: "cinquenta por cento". Ele sabia que não estava arriscado apenas sua vida, mas também a de sua família; mesmo assim, guiado por "forças morais incomuns e poderosas", seguiu em frente. Quase foi bem-sucedido, mas acabou preso e executado no mesmo dia do atentado.
Sua esposa, que estava grávida, também foi presa e mandada para um campo de concentração; seus filhos foram para orfanatos. Apesar das dificuldades, todos sobreviveram à guerra, sendo esse talvez o maior desejo de Stauffenberg. Mesmo morrendo como um traidor da pátria, ele deixou para sua família um legado de honra e coragem, imortalizado neste belo longa-metragem.

"Vocês não carregam a vergonha, vocês resistiram, sacrificando suas vidas por liberdade, justiça e honra." Memorial da Resistência Alemã, Berlim.

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Meu avô paterno me disse há alguns anos que "o cavalo branco aparece apenas uma vez na vida, ou você monta nele, ou ele vai embora e nunca mais volta". Ele estava se referindo ao fato de meu pai ter recusado uma proposta de emprego na Petrobrás após ter se formado em Geologia, o que provavelmente lhe daria estabilidade financeira duradoura.
Conversando com meu pai, ele disse que fizera isso porque se tratava de uma empresa estatal; como o país era governado pelos militares, ele não queria fazer parte da ditadura, mesmo que indiretamente. Além disso, segundo ele, "se eu tivesse entrado na Petrobrás, não teria ido para São Paulo, não teria conhecido a tua mãe e tu não teria nascido".

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Durante a sessão de fotos de formatura da faculdade, gravamos um video onde cada um deixava uma mensagem pessoal para a sua família. Nunca mostrei a gravação para ninguém e a vi apenas uma vez, para escrever este texto.

"Eu gostaria de dizer para minha família que estou aqui realizando um sonho e que hoje eu percebo que as pessoas não me admiram pela minha inteligência, mas pelo meu caráter e pelos meus valores. Se hoje eu quero ser uma pessoa melhor e quero tornar o mundo melhor, é por causa de vocês. Muito obrigado."

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Seicho-No-Ie e Espiritismo - parte 5


Acho interessante como o Espiritismo faz pouca referência ao sentimento que existe entre um casal, como se fosse algo "menor", digamos assim. Allan Kardec era um homem estudado, científico, casou-se aos 27 anos com uma mulher de 36 anos, não tendo filhos. Ela o ajudou nos seus trabalhos intelectuais até a sua morte, aos 64 anos.

"O casamento, quer dizer, a união permanente de dois seres, é contrário à lei natural?
– É um progresso na marcha da Humanidade.
Qual seria o efeito da abolição do casamento na sociedade humana?
– O retorno à vida animal. (...)
A união livre e fortuita dos sexos é um estado natural. O casamento é um dos primeiros atos de progresso das sociedades humanas, porque ele estabelece a solidariedade fraternal e se encontra em todos os povos, ainda que em condições diversas. A abolição do casamento seria o retorno a infância da Humanidade, e colocaria o homem abaixo mesmo de certos animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes." O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - livro III, cap.IV 695-696

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Masaharu Taniguchi casou-se e teve filhos, não encontrei maiores detalhes na internet. Sua obra é muito mais romântica e poética que a de Kardec, acredito que por isso pessoas mais racionais podem ter dificuldades em assimilar seus ensinamentos e encontrem no Espiritismo algo mais atraente. Na sua obra, Comande sua Vida com o Poder da Mente, a temática do amor é facilmente encontrada.

"O amor latente em nós é infinito – pois, por mais que o exteriorizemos, não nos é possível esgotar a fonte. Essa é a Verdade. Quanto mais amor oferecemos aos outros, com maior intensidade sentimos o amor em nós. A suprema Vida do Universo nunca deixa secar a fonte do amor." Cap.11

"Todos os atos concernentes ao mundo dos sentidos são expressões de sentimentos e emoções. E o que é verdade em relação ao munda da Natureza é verdade em relação a Deus; por conseguinte, a alegria da criação física é, em última análise, reflexo – ou expressão – de sutis sentimentos ou emoções. A união entre pólos negativo e positivo (yin-yang) é sagrada, pois, quer se trate de corpos celestes quer de seres humanos, toda união harmoniosa dos princípios negativo e positivo é produto da Mente do Universo. Portanto, por trás da alegria da união no corpo físico existe a intensa vibração da alma. (...) Contudo, a manifestação do amor consiste na união dos espíritos  ou seja, havendo o encontro feliz de duas almas, consegue-se a verdadeira satisfação. O amor verdadeiro é manifestação da vontade de Deus para que atinjamos a perfeição por meio da união com o outro. Trata-se, pois, de um sentimento dotado de força criativa." Cap.14

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Eu diria que o amor é uma força inconsciente que nos impele a agir, mesmo que ilogicamente; algo inexplicável, porém presente e necessário na vida de todos. O amor nos faz voltar para casa ou irmos embora; o amor nos faz dizer sim ou não; o amor pode até acabar, mas, enquanto durar, é eterno.

"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure." 
Soneto de Fidelidade, Vinicius de Moraes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Reféns da Palavra


Quando me perguntam sobre que autor eu gosto, costumo responder Luis Fernando Veríssimo. Conheci-o ainda jovem, pré-adolescente, quando meu pai, assinante do jornal Folha de São Paulo, ganhou um exemplar com uma seleção do genial Comédias da Vida Privada. Li e reli a obra diversas vezes, num preparativo para o que seria a minha própria vida privada.
Recentemente fui presenteado pelo nova coletânia do meu grande inspirador, "Diálogos Impossíveis". Abaixo, um trecho da crônica "Reféns da palavra", publicada originalmente em 2009 nos jornais Estado de São Paulo e Zero Hora.

* * *

"No seu livro Lessons of the Masters, George Steiner lembra que nem Sócrates nem Jesus Cristo, que ele chama de as duas figuras 'pivotais' da nossa civilização (de pivôs, como no basquete ou nos crimes passionais), deixaram qualquer coisa escrita. São mestres cujas lições sobreviveram no relato de outros, Platão no caso de Sócrates e os evangelistas no caso de Jesus. Não existe nem evidência de que os dois soubessem escrever. A única, enigmática referência da Bíblia a um Cristo escritor está em João 8:1-8, quando, indagado pelos fariseus sobre o destino da mulher flagrada em adultério, Jesus finge que não ouve e escreve algo no chão com o dedo – ninguém sabe o que ou em que língua. Existe até uma velha piada, que Steiner cita, sobre um acadêmico moderno comentando sobre o currículo de Jesus: 'Ótimo professor, mas não publicou.'
O legado literário de Sócrates, via Platão, é em forma de mitos, o de Jesus, em forma de parábolas. Dois meios de organização e transmissão oral de memória que a escrita diminui, transformando narrativa aberta em cânone e lição em dogma. Nos diálogos de Platão o pensamento vivo de Sócrates já se coagulou em filosofia, nos textos bíblicos a verdade poética de Cristo se petrificou em verdades sagradas, irrecorríveis. Mas o maior defeito da escrita seria o de ter sabotado a memória como guia, roubando a sua função civilizatória de 'mãe das musas' (...)"

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Mês passado me foi perguntado se eu costumava reler o que o escrevia no blog. Respondi que eventualmente, não sendo um costume; o meu principal objetivo era estar sempre escrevendo coisas novas, não me prendendo ao que já escrevi. Afinal de contas, o importante é publicar.

domingo, 9 de dezembro de 2012

O Pianista (2002)


Conheci um jovem, excelente pianista, que tinha este como seu filme predileto. Outro detalhe era que a música executada pelo protagonista a pedido do capitão nazista, no ápice da trama, era uma de suas músicas prediletas no piano.  Lembro-me também de uma aula na faculdade, em que o professor, ao comentar sobre o comportamento condicionado pelas circunstâncias, citou: "Como naquele filme do Polanski..."; após alguns segundos sem ele conseguir lembrar o nome do longa, como o bom aluno que sou, completei certeiro: "O Pianista".
Varsóvia era uma bela cidade em 1939, quando foi subitamente invadida; a estratégia alemã era bombardear pesadamente seus alvos, seguindo uma rápida invasão por terra e ar. Com avanços substanciais, os nazistas mantiveram o status de invencibilidade até 1942, quando a guerra começou a virar no leste europeu.
Logo após a Polônia ser invadida, Inglaterra e França declaram guerra à Alemanha. Isso cria a ilusão de que logo os invasores sejam repelidos, fazendo com que a família judia do pianista opte por ficar em Varsóvia ao invés de fugir. O pianista justifica: "Se eu for morrer, prefiro morrer na minha própria casa". Ele não sabia que sequer teria esse direito, os nazistas pretendiam lhes tirar tudo, inclusive a dignidade na morte.
O pianista sobrevive cinco anos sob influência de seu talento, as pessoas sabiam que ele deveria viver e se arriscavam para isso. Ele teve sua vida poupada graças ao esforço de "anjos da guarda", inclusive um oficial germânico, a partir da célebre cena em que é descoberto pelo inimigo em um prédio abandonado. Ao se definir como "um pianista", lhe é solicitado que toque o piano que há ali. "Prove" fica implícito, é aí que a mágica acontece: http://youtu.be/l6XwAZ2nKA4
Frequentemente temos que provar algo para os outros; não é fácil bem suceder, mesmo o mais talentoso precisa passar por vários testes. Acredito que o formidável da obra é o fato de Władysław Szpilman ter realmente existido, o filme é baseado na sua auto-biografia escrita após a guerra, em 1945. Por motivos políticos, só foi reimpressa em 1998, sendo então traduzida para o inglês e outros idiomas. Faleceu em 2000, com 88 anos, deixando-nos uma grande lição: não basta talento.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Amadeus (1984)


Eu diria que minha maior contribuição musical foi uma participação no final da música "Fim de Tarde" da banda Vizinhos da Glória. Durante as gravações em 2002, solicitei que a melodia se repetisse algumas vezes para que eu acrescentasse algumas guitarras. Eu achava a canção muito boa para ser tão curta e sentia que realmente poderia melhorá-la. O resultado: http://youtu.be/h0IZ5SlL_bg
Na época, um dos integrantes admirou-se após a minha gravação: "Não consigo entender como conseguisse criar isso de cabeça". De fato, eram duas melodias de guitarra distintas que, juntas, encaixavam-se perfeitamente. Eu não conseguia explicar a ocorrência, eu apenas sabia que as melodias seriam complementares e assim se sucedeu. A inspiração, além de efêmera, costuma ser inexplicável.
Neste multi-premiado longa de Milos Forman, nos é mostrado o talento de Mozart, que inflama a inveja de outro compositor da época, Salieri, narrador da trama. No início do filme, é feita uma provocação: muitos conhecem Mozart, mas quem conhece Salieri? Esse questionamento é o pontapé inicial para a narrativa que brilhantemente se inicia; antes de o conhecermos, já há um fascínio sobre ele e esse sentimento é partilhado pelo narrador.
Mozart aparece inicialmente como um jovial e alegre compositor de 26 anos, cuja única preocupação parece ser correr atrás (literalmente) de sua futura esposa, a bela Constanze. Mas essa ilusão logo se desfaz, dono de um ego enorme e ciente de seu talento, temos a impressão que Mozart conhece desde cedo seu lugar de destaque na História. Carismático, cativa-nos desde o início; ao contrário de Salieri, que fica atormentado ao conhecer o gênio: "Pareceu-me que eu estava ouvindo a voz de Deus, mas por quê? Por que Deus escolheu uma criança obscena para ser seu instrumento?"
Rebelde, Amadeus parece não se importar com a opinião de seu autoritário pai; muda-se para Viena, deixando-o em Salzburgo, e se casa sem o seu consentimento. Impossível não me identificar com o compositor; obviamente não tenho seu talento, mas nosso ego é equiparável e o temperamento, coincidentemente, também.
Em uma carta, o jovem tenta se explicar:  "Amado pai, recorda-se como você sempre me contou que Viena era a cidade dos músicos? Que conquistar este lugar é conquistar a Europa? Com minha esposa, eu posso fazer isso. Em breve, quando eu estiver bem de vida, você virá morar conosco e seremos muito felizes." Amadeus encontrara o amor, sua grande inspiração.
Gosto de uma cena que se inicia com Mozart compondo em uma sala, sobre uma mesa de sinuca, com música ao fundo. Ele é interrompido por Constanze, que vem chamá-lo para conversar com uma moça que oferecia seus serviços de doméstica gratuitamente (a mando secreto de Salieri). O pai discorda da condição de anonimato de quem a enviou e discute com Constanze. Mozart não interfere, volta para a sala, voltando a compor com a trilha sonora que magistralmente retorna.
É evidente que, para ele, a música era mais que um trabalho, era uma necessidade, uma válvula de escape. Mozart compunha porque precisava compor; Salieri amava a música e tinha grandes ambições, mas não era um compositor nato. Isso o enfurecia: "De agora em diante, Você (Deus) e eu seremos inimigos, porque Você escolheu como instrumento um garoto arrogante, desregrado e infantil, e me deu como recompensa apenas a habilidade de reconhecer a incarnação. Porque Você é injusto e mal, eu vou Te bloquear."
Interessante que Salieri tem uma relação dual com Amadeus: ao mesmo tempo que ele o odeia por não lhe parecer digno de tamanho talento, ele ama a sua música e esse parece ser o maior sentimento da narrativa. Por três momentos, Salieri é sincero quando seria perfeitamente compreensível que mentisse: quando Constanze lhe mostra secretamente composições inéditas do marido, Salieri confessa, atônito: "é miraculoso"; após um relativo fracasso de público, Mozart pergunta para Salieri o que ele achara de sua ópera e, hesitando brevemente, responde: "Eu achei maravilhoso", salvando a auto-estima do jovem prodígio; na noite anterior à morte de Mozart, Salieri confessa ao inimigo caído: "Nunca perderei nada que você escreva. Você é o melhor compositor conhecido por mim."
Trata-se claramente de uma ficção, há vários detalhes omitidos pela obra. Mozart perdeu três de seus cinco filhos em tenra idade, o que explica parte de sua melancolia. Também teve pupilos, justamente porque tinha frequentes problemas financeiros e a vida de compositor, assim como hoje, não era fácil. Talvez tenha dado algumas lições para o ainda jovem Beethoven.
O Antonio Salieri da vida real não cumpriu castidade, casou-se e teve oito filhos com sua esposa. Tampouco tentou suicídio ou acabou num hospício. Podia ser um talento menor, mas não era bobo e, assim como Wolfgang Amadeus Mozart, viveu a vida; curiosamente, também entrando para a História.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" de Allan Percy - parte 4

Eu havia terminado esta série, mas meu irmão perguntou da "parte 4" e aqui está ela, em sua homenagem. Pensando na minha infância, sinto realmente que "se pude enxergar mais longe, é porque me apoiei nos ombros de gigantes"!

* * *

"Experiência é algo que não se consegue de graça.

Todos nós gostaríamos de circular pelas estradas sem nunca pagar pedágio, mas isso é impossível. Tudo tem um preço, mesmo as coisas mais insignificantes. Ser aprovado em uma exame exige horas de estudo, passar em um concurso requer ainda que tenhamos sorte. E esses são apenas pequenos obstáculos pelos quais muitos de nós teremos que passar. Se você tivesse de escalar o Everest ou quisesse se tornar um arquiteto famoso, as dificuldades aumentariam - e seu esforço também precisaria ser proporcionalmente maior.
A vida requer dedicação até para as coisas aparentemente mais simples, como os relacionamentos amorosos ou entre pais e filhos.
Aqueles que conhecem seus limites e se ajustam a eles costumam ter uma vida saudável, mesmo que às vezes ela lhes pareça um tanto sem brilho. Os que ultrapassam os próprios limites podem conseguir coisas extraordinárias, embora a maioria desista no meio do caminho.
O conformismo tem a vantagem de permitir que não nos estressemos mais do que o necessário e o inconveniente de nos deixar entediados. O inconformismo tem a vantagem de nos fazer sonhar e o inconveniente de, muitas vezes, transformar nossos sonhos em decepções.
Ainda assim, vale a pena esquecer os próprios limites e ver até onde podemos chegar."

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" de Allan Percy - parte 3

"A melhor maneira de livrar-se da tentação é ceder a ela.

Todos os que sabem extrair o máximo da vida, como Oscar Wilde em sua atribulada existência, no final chegam ao mesmo resultado: não se arrependem do que fizeram, mas daquilo que desejavam ter feito e não realizaram.
Em A lição final, Randy Pausch, professor universitário que recebeu um diagnóstico de câncer em estágio terminal, explica como conseguiu realizar seis sonhos de infância nos seis últimos meses de vida: estar em gravidade zero, jogar num time de futebol americano profissional, assinar um verbete numa enciclopédia, atuar em Jornada nas estrelas, ganhar um bichinho de pelúcia e fazer parte da equipe criativa da Disney.
(...)
Na mensagem final deixada a seus alunos, contudo, Pausch os alertou sobre não esperar o fim para sair em busca dos sonhos. Eles jamais deveriam ser abandonados. Quem realmente aproveita a estada na Terra vive cada dia como se fosse último."

* * *

Há muitos anos, durante uma entrevista televisiva, Gabi perguntou para o astrólogo Oscar Quiroga se era possível saber o momento da morte. Ele respondeu que essa informação não teria valor, pois era preciso viver cada dia como se fosse o último. Carpe diem.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" de Allan Percy - Parte 2

"O mais terrível não é termos nosso coração partido (pois corações foram feitos para ser partidos), mas transformar nossos corações em pedra.

Oscar Wilde amou de corpo e alma porque sabia que não há nada que se compare a duas pessoas que buscam se conhecer, dois seres que saem à procura do encontro, mesmo que, com isso, se exponham a riscos consideráveis.
(...)
Embora deixemos exposto nosso lado mais frágil ao nos entregarmos a quem amamos, não se deve temer o amor. Como dizia Oscar Wilde, Deus só pode entrar em um coração partido."

* * *

Ao conversar com meu tio sobre escrever (professor de Jornalismo, também tem o hábito), ele comentou que as grandes obras não foram escritas quando os autores estavam bem, mas sim quando estavam angustiados. Neste momento, essa afirmação me faz todo o sentido.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" - Allan Percy

"Não quero ir para o céu: nenhum dos meus amigos está lá.

É válido acreditar na existência de outra vida, na qual seremos compensados pelos sofrimentos terrenos, mas isso não deve servir de desculpa para perdermos a única vida que temos agora: esta.
Já no século VI, o pensador romano Boécio dizia que 'um homem cujo único desejo fosse ir para o céu nunca entraria nele. Há um trabalho a fazer sobre a terra'.
Outras ideias desse autor clássico, que influenciou toda a Idade Média com sua obra A consolação pela filosofia, são:
* O cultivo da virtude leva à sabedoria; a sabedoria leva à bondade e esta, à felicidade.
* O amor não obedece a nenhuma lei, porque ele mesmo é uma lei.
* Nada é pobre ou miserável se não o encararmos assim.
* Deus está em cada pessoa, embora nos apresente muitas dúvidas: Se Ele existe, de onde vem o mal? Se não existe, de onde vem o bem?"

* * *

Imagino que a resposta para as duas perguntas acima pode ser a mesma: "Do homem".

sábado, 24 de novembro de 2012

Oitenta e Quatro Horas


No feriado da semana passada, fui o plantonista do hospital da cidade onde voltei a trabalhar. Entrei quinta à noite e saí segunda pela manhã. Assisti a um filme sobre Jesus recentemente e imaginei que, se ele ficou semanas no deserto para se purificar, eu poderia ficar alguns dias no hospital para o mesmo fim.
Tudo transcorria bem, mas domingo à tarde atendo um senhor (que até então não sabia que era hipertenso e diabético) e ele me apresenta um de seus dedos do pé já em avançado estado de necrose. Imediatamente informo que ele necessita de uma amputação, que iria ficar internado e no dia seguinte seria encaminhado para um cirurgião vascular, que realiza o procedimento.
Infelizmente só conseguimos encaminhá-lo na sexta. Todo esse tempo após o término do meu plantão, noventa e quatro horas depois, esse paciente esteve sobre minha responsabilidade no hospital. Meu único pagamento é das oitenta e quatro horas do feriado, esse paciente veio de brinde e imagino porque poucos médicos querem fazer plantão ali.
Mas se fosse só esse paciente, tudo bem, eu diria que o plantão fora tranquilo. Infelizmente, algumas horas depois, no domingo à noite, chega uma jovem desacordada que brigara com o namorado e por isso ingerira os remédios da mãe, cardiopata severa. O Centro de Informações Toxicológicas me orienta que a paciente deve ter monitoração laboratorial por pelo menos três dias e eu começo então a tentar um encaminhamento para um centro maior.
Após negativas de três cidades, é feito o contato com a cidade de origem da paciente, na qual ela tinha convênio médico pela empresa em que trabalhava, sendo então finalmente aceita pelo plantonista. Conforme próprio pedido dele, fui na ambulância porque a viagem era longa e uma tragédia poderia ocorrer no caminho. Na ida, fui praguejando que era um absurdo ter que percorrer 170km quando tinham pelo menos duas cidades próximas com estrutura para monitorar a paciente.
Durante a semana, uma das funcionárias do hospital comentou que em uma situação de emergência deveria-se agir como eu agi: friamente. Gostei do elogio, mas fiquei intrigado com a observação e após uma análise, percebo que durante esses três dias e meio, nada se comparou com a maneira grosseira como eu tratei o irmão e o pai da paciente. O irmão foi recebido com uma bronca por ter esquecido as cartelas dos remédios em casa e por não saber informar o nome deles. 
O pai chegou cerca de uma hora depois, enquanto eu ainda tentava o encaminhamento, e após se apresentar perguntou como ela estava. Eu, rispidamente, sem me levantar da cadeira, na frente das várias pessoas que já se acumulavam esperando atendimento, respondo que (obviamente) ela estava mal, tendo em vista que tomara "um monte" de remédio. Ele ainda mais atordoado só comenta "Meu Deus do céu..." e se retira. Fato, agi friamente, mas estava preocupado com a paciente e todo o resto me era secundário.
Após deixá-la no hospital, ao entrar na ambulância para o longo caminho de volta pela madrugada, começo a praguejar: "Essas mulheres! Só me dão trabalho! Para que fazer isso?!" O motorista e as duas enfermeiras imediatamente riem, o doutor Iceberg não voltaria tão cedo. Ainda bem, ninguém gosta muito dele, embora sua preocupação tenha sido coerente: a última notícia que tive foi que a jovem continuava internada pois seus exames de fato se mostraram alterados.
Chego cansado no hospital de origem, consigo descansar por uma hora até ser chamado novamente. Uma gestante que, embora sem contrações, apresenta-se com dor. "Essas mulheres...", eu penso enquanto tento fazer o melhor atendimento possível perante às  circunstâncias. Tudo pela purificação, só mais algumas horas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Retorno


Esta semana iniciei meus trabalhos como médico de um CAPS - Centro de Atenção Psicossocial. Durante toda a minha graduação, o único estágio extra-curricular que fiz foi em um CAPS, uma tarde por semana durante um ano, em meados de 2005-2006. Acompanhava os trabalhos da psiquiatra no atendimento individual e em grupo, tendo um amplo aprendizado ao longo dos meses.
Interessante que após o estágio eu desistira de ser psiquiatra e começara a vislumbrar a possibilidade de trabalhar como clínico-geral. Foi o que fiz e continuo fazendo, mas recentemente terminei uma pós-graduação em "Saúde Mental e Dependência Química", o que me abriu uma nova possibilidade.
Confesso que eu esperava ficar mais algumas semanas sem trabalhar, mas a necessidade é a mãe do destino e eu tenho dificuldades em dizer "não" quando me pedem algo. "Falta médico no hospital, no posto, no CAPS, estamos precisando, não há mais ninguém." Então eu lembro de meus pecados e da minha necessidade de compensá-los. Muitos pecados, "sim" é a minha única saída, a minha única salvação.
Meu último dia de estágio em 2006 foi na reunião mensal de equipe, onde era costume os estagiários participarem para comentar sua experiência. Eu ensaiara algumas palavras e no meio do pequeno discurso notei que a coordenadora, autoridade máxima do local, começara a chorar. Eu terminei o que tinha para dizer e ela, uma psicóloga com grande sensibilidade, tentou se explicar: "Nós estamos tão acostumados a ser criticados que quando alguém vem e nos elogia, diz que funciona, nem sabemos como reagir..." e nisso voltou a se emocionar.
Eu diria que o CAPS, como outros grupos, reúne pessoas fragilizadas para fortalecê-las; é um local de cura e proteção, uma luz em meio à escuridão do mundo contemporâneo. Conversei com meu pai sobre a possibilidade de trabalhar num CAPS e ele comentou que achava "um desperdício". Eu, de todas as pessoas, não fazer um mestrado ou uma residência. "No CAPS eu vou fazer muitos milagres" respondi com um sorriso. Touché, não há como argumentar contra isso, há?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Última Tentação de Cristo (1988)


Os Bons Companheiros (1990) e Casino (1995) são dois de meus filmes prediletos; a mistura bem dosada de poder, dinheiro, violência e sexo marca o estilo de Martin Scorcese, que costuma nos prender a atenção do começo ao fim. Esse longa de 1988 não é tão bem produzido quanto seus célebres sucessores, mas talvez seja a obra mais importante do diretor pela polêmica temática.
Nesta ficção, Jesus é o único judeu que fabrica as cruzes usadas pelos romanos nas crucificações; ele também as carrega até o local da punição, sendo apedrejado no caminho pelos judeus que não admitem essa "cooperação" com os inimigos de Roma. Essa postura inusitada de Jesus era motivada por "vozes" que ele ouvia constantemente, indicando-lhe o caminho a seguir, mesmo que aparentemente ilógico.
No início da trama, sua mãe lhe pergunta se ele tem certeza que essas vozes são de Deus e não do demônio; ele responde: "Eu não tenho certeza de nada." A dúvida e o medo são os sentimentos iniciais de Jesus, até o ponto em que não pode mais evitar seu destino e adquire a certeza de que é o messias. "Você ama a humanidade?" lhe é perguntado numa espécie de mosteiro onde tem sua alma purificada. "Eu vejo os homens e sinto pena, só isso." "É o suficiente", eis a resposta que dá início à revolução.
Seu primeiro ato público é defender Maria Madalena, que seria apedrejada até a morte por trabalhar no Sabbath. Prostituta, ela saíra com romanos no dia sagrado para os judeus. Um dos homens enfrenta Jesus e ameaça arremessar a pedra, como se não tivesse pecados, mas é lembrado que enganava seus empregados e tinha um caso com uma viúva. "Você não tem medo que Deus te paralise se você levantar essa pedra?" O homem larga a arma, Judas fica impressionado ao ver que Jesus o desarmara usando apenas palavras. Tamanho poder é para poucos.
A três tentações do deserto, ao meu ver, são mais interessantes no filme do que na bíblia. A primeira tentação é representada por uma serpente, que diz ser seu espírito. Com uma voz feminina, ela questiona: "Quanta arrogância pensar que pode salvar o mundo, o mundo não precisa ser salvo. Salve a si mesmo, encontre amor." Essa, que me parece ser a maior tentação de todas, voltaria a aparecer na trama.
A segunda tentação é representada por um leão, que diz ser seu coração, ganancioso: "Você finge ser humilde, mas na verdade quer conquistar o mundo." "Eu nunca quis um reino na Terra, o reino dos Céus é suficiente." "Mentiroso, quando você fazia cruzes para os romanos em Nazaré, sua cabeça explodia com sonhos de poder, poder sobre todo mundo. Você só queria poder, agora pode ter o que quiser."
A terceira tentação é representada por uma chama, o próprio Satã, que lembra que Jesus é o escolhido e que, juntos, podem ser soberanos, decidindo quem vive e quem morre. Sua fala remete à infância de Jesus: "Lembra, quando você era uma criança, você chorou: 'Faça-me um deus, Deus.' Você agora é Deus, o único filho de Deus."
Após vencer as tentações e chegar em Jerusalém, Jesus sabia que seu destino era morrer na cruz. Ao pedir que Judas Iscariotes, o discípulo mais próximo, o traísse, este lhe pergunta: "Se você fosse eu, conseguiria trair seu mestre?". A resposta é magistral: "Não, por isso Deus me deu o trabalho mais fácil, que é ser crucificado." No alto de sua bondade, seria melhor ser torturado até a morte do que trair alguém amado.
O discurso de Pilatos, na breve atuação de David Bowie, é atemporal: "Uma coisa é querer mudar o modo como as pessoas vivem, mas você quer mudar o modo como elas pensam, como elas sentem. É contra Roma, é contra a maneira que o mundo é; matando ou amando, é o mesmo. Simplesmente não importa como você quer mudar as coisas, nós não queremos elas mudadas."
A última tentação ocorre no célebre momento em que Cristo, atormentado na cruz, indaga: "Meu Pai, por que me abandonaste?" Neste momento, surge uma garota perto da cruz que diz ser seu anjo da guarda. Ela o tira da cruz e o conduz a uma bela paisagem, onde algumas pessoas caminham em uma cerimônia de casamento. "Quem está casando?" pergunta Jesus, seu anjo responde: "Você".
Ele casa com Maria Madalena, que engravida, mas vem a falecer antes do parto. Ele então começa a se relacionar com Maria e Marta, irmãs de Lázaro, e tem filhos com elas. Ao final de sua vida "comum", ele recebe seus discípulos, que questionam o caminho apontado pelo "anjo", que é revelado como sendo Satã. "O que é bom para o homem não é bom para Deus" é o desabafo emocionado de Judas.
Arrependido, Jesus decide voltar à cruz abandonada, morrendo satisfeito por cumprir o seu papel apesar de todo o sofrimento. Magnífico trabalho Dele e de Martin, sem dúvida alguma. Ainda bem que os tempos são outros e o grande diretor teve a vida poupada. Graças a Deus, sua revolução continua.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Um Porto Alegre


Passei o final de semana em Porto Alegre, na casa de meus tios. Meu pai é o primogênito e ela é a caçula, então temos pouca diferença de idade. Embora o jovem casal tenha me visto crescer, hoje nossa relação é quase de igual para igual, o que me parece ser uma das virtudes do tempo.
Eles têm um único filho de três anos que, modéstia à parte, parece ser um prodígio. Lembro do personagem de Robert de Niro em "Entrando Numa Fria", Jack Byrnes, dizendo que o cérebro de crianças pequenas são como uma esponja, absorvendo tudo ao seu redor. Meu primo é assim, o que obviamente demanda atenção constante. Ainda bem que ele dorme duas vezes ao dia, em uma rotina impecável.
Como é comum na família, ele logo mostrou interesse por música. Ele tinha um mini-teclado com opção de tocar algumas músicas gravadas, que ele habilmente selecionava. Lembro que quando toquei as teclas de forma ordenada, ele ficou fascinado ao perceber que era possível fazer música ali também. Como não vi mais o brinquedo, imagino que tenha sido destruído, como boa parte de seus objetos de plástico.
No momento, ele possui dois mini-instrumentos de excelente qualidade: um violão, importado dos EUA; e um acordeon, presente fino de seu avô. Sempre que vou lá faço questão de afinar o pequeno violão, mas algo me diz que ele já está desafinado, o que o torna quase inútil. Meu tio ensaiou algumas notas no último domingo e fui obrigado a comentar: "Agora sei com quem teu filho aprendeu a tocar!"
O acordeon é um instrumento complexo e talvez meu primo nunca aprenda a tocá-lo. Mas, como no caso do violão, vale a pena ser conservado porque um bom instrumento dura décadas e sempre terá valor nas mãos de um músico, mesmo que aspirante. Talvez ele fique anos sem mostrar interesse, mas um belo dia pode começar a se tornar um talento. Só o tempo dirá.
É comum ouvir minha tia pedir para meu primo fazer Medicina. Ele não esboça nenhuma reação significativa, afinal de contas, a palavra "Medicina" ainda tem pouco valor para ele. Dessa vez, dei a dica para meus tios: "Quando eu tinha a idade dele, eu tinha uma maleta de médico com vários instrumentos dentro; eu costumava brincar com a minha mãe, que fingia estar doente. Anos mais tarde..."
Após o almoço de domingo, fui me despedindo um a um e, na hora de me despedir do pequeno, ele saiu correndo em direção aos quartos. Fiquei sem entender, mas meu tio logo explicou: "Ele não quer que tu vá embora." Talvez nem tenha sido verdade, mas me senti lisonjeado e com vontade de voltar mais vezes.
No caminho de volta, fui pensando no que priorizar ao se criar um filho. O desenvolvimento de habilidades intelectuais é sem dúvida importante para sobreviver nesta modernidade meritocrática, mas não é o principal. Criar um ambiente familiar seguro e acolhedor me parece ser a base de um futuro vitorioso; um porto alegre que ficará sempre na memória, mais que uma frase, um brinquedo ou uma melodia.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dia do Médico


Iniciei o 18 de Outubro pedindo demissão. Nada proposital, embora também não tenha sido algo inesperado. Vejo duas características dessa profissão que me impelem a trocar frequentemente de emprego:
A Medicina é técnica e arte, sendo assim "emoção-dependente". No meu dia, ironicamente, não tive condições de acolher o sofrimento da população, já que eu padecia também. Como não via possibilidade de retorno às atividades dali, minha única saída era ligar e dizer que não iria mais. Foi o que fiz. Ou dou o meu melhor, ou não dou nada. Ser medíocre não é uma opção.
A Medicina remunera bem, ganho mais do que gasto, o que me permite ficar um ou dois meses sem salário. Imagine que você tem algum dinheiro no banco, poucas dívidas e a certeza de que pode arranjar um bom emprego a hora que quiser. Você iria trabalhar contra a sua vontade? Você se tornaria um escravo e arriscaria seu bem-estar?
Há alguns meses, durante uma reunião com a secretária de saúde, um de meus colegas comentou: "Nós cuidamos de todo mundo, mas ninguém cuida da gente; nós temos que cuidar de nós mesmos." Justamente no dia do médico, decidi cuidar de mim. Sem minha saúde, simplesmente não sirvo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Patton (1970)


Meu pai possuiu um quadro do Che Guevara por muito anos, sendo evidente então sua inclinação política. Ele conta que sempre foi "anti-imperalista", mas isso começou a mudar quando conheceu o país mais rico do mundo: pessoas educadas, ruas limpas, lazer e cultura em abundância. Primeiramente ele foi a trabalho; ano passado foi a passeio, levando parte da família. Adoraram, não queriam mais voltar.
Como eu cresci vendo a figura de Che, acostumei-me a olhar os EUA com a desconfiança típica da adolescência. Ela foi diminuindo com o tempo, hoje eu sou obrigado a admitir que os norte-americanos exerceram e exercem grande influência em minha vida. O "american way of life" se transformou no meu modo de vida.
Passei muito tempo em casa vendo filmes e séries da televisão por assinatura, a grande maioria de origem norte-americana. Música também, a maioria dos EUA. Aprendi a língua inglesa com facilidade, enquanto o espanhol talvez eu nunca aprenda. Sempre gostei de fast food e costumo dizer que os melhores carros e guitarras são produzidos por eles.
Nisso me assemelho a George Patton, retratado neste premiado longa de 1970. O começo do filme mostra o discurso feito pelo general aos soldados no dia anterior ao Dia D: "We have the finest food, equipment, the best spirit and the best men in the world. You know, by God, I actually pity those poor bastards we're going up against. By God, I do." 
Outra parte interessante do discurso: "When you were kids, you all admired the champion marble shooter, the fastest runner, big league ball player, the toughest boxer. Americans love a winner and will not tolerate a loser. Americans play to win all the time." Certa vez, durante um jogo de tabuleiro com cinco amigos, um deles comentou: "A gente joga para se divertir, o Tiaraju joga para ganhar, e só." Ora, mas não é sempre esse o objetivo?!
Quando tinha 12 anos, foi feita uma votação na minha sala de aula para o líder de turma; para minha surpresa, fui o segundo mais votado, ficando então como vice-líder. Comentei a novidade para meu pai e ele, sorrindo, perguntou-me quem era o vice-presidente do país. Respondi corretamente e ele, que esperava que eu não soubesse essa informação, explicou-se: "Só tu sabes isso; tens que ser o líder, não o vice."
Não vi maldade dele na época ou agora; se hoje exerço uma liderança, é por que acreditaram em mim. Ele sempre nos estimulou a praticar esportes e a sermos vencedores; Pete Sampras e André Agassi, ambos tenistas norte-americanos, eram frequentemente admirados por suas conquistas. No entando, essa ênfase na vitória aumenta o peso da derrota, sendo muitas vezes um momento desolador.
Minha cena preferida ocorre quando, após mais uma declaração infeliz em público, o general aumenta o risco de ficar de fora do desfecho da guerra. A atuação de George C. Scott, que lhe rendeu o Oscar, é espetacular: "I fell I'm destined to achieve some great thing; what, I don't know. But this last incident is so trivial in its nature and so terrible in its effect; it can't be an accident, it has to be the work of God. The last great opportunity of a lifetime, an entire world at war and I'm left out of it?! God will not permit this to happen, I am going to be allowed to fulfill my destiny! His will be done."
Chama-me a atenção três crenças de Patton: reencarnação, tendo ele já participado de várias guerras históricas; destino, sendo ele predestinado a algo grandioso nesta vida; Deus, sendo frequentemente lembrado e solicitado. Ele era um homem de fé, sem dúvida, e conquistou muitas glórias. Embora tenha sido preparado a vida inteira para a guerra, parece-me óbvio que um dos motivos dele ter sido vitorioso foi justamente porque acreditava que o seria.
Minha crítica à obra são duas: a trilha sonora, terrível, que não consigo entender como foi indicada ao Oscar; e as cenas de batalha, muito ruins se comparadas a filmes recentes como o intenso Saving Private Ryan (1998). Claro que em 1970 havia muitas limitações tecnológicas e financeiras, o que não tira o valor do filme, que deve ter sido bastante aclamado na época.
Além de George C. Scott, outros dois atores merecem destaque: Karl Michael Vogler, no papel do marechal alemão Erwin Rommel (as poucas cenas que mostram o comando nazista dão um brilho à narrativa); e Karl Malden, como o general Omar Bradley, que acompanha Patton durante todo o filme. Gosto de uma fala específica dele ao ilustre protagonista, após discordarem sobre uma arriscada ofensiva na Sicília: "There's one big difference between you and me, George. I do this job because I've been trained to do it, you do it because you love it."
* * *
Ontem, ao chegar ao meu local de trabalho pela manhã, notei que uma agente de saúde de outra unidade estava ali e logo perguntei de seu filho. Ele tinha quatro anos e caíra há um mês, batendo a testa em uma madeira com um prego saliente. Resultado: sua pele fora rasgada como papel, num corte horroroso. Felizmente, após alguns minutos de tensão no hospital, consegui fazer os três pontos com sucesso.
"Ele está bem. Acho que nem vai ficar marca" respondeu-me a mãe. Sua resposta realmente me surpreendeu, como o ferimento havia sido feio eu achava que a cicatriz seria notável. Contei-lhe então dois episódios: "Uma vez minha ex-namorada cortou a mão lavando a louça e eu mesmo fiz os pontos, a cicatriz foi mínima e quase não apareceu; na mesma época, uma menina de três anos cortou dois dedos ao prender a mão em uma porta, também fiz os pontos e algumas semanas depois mal dava para notar o corte."
Nunca gostei da Clínica Cirúrgica. Fui um dos únicos da minha sala a não participar dos estágios extra-curriculares de cirurgia, onde normalmente os acadêmicos aprendem a suturar. Aprendi só na décima fase, no internato, sem problemas. Após ver uma de minhas primeiras suturas, o cirurgião responsável pela emergência do hospital comentou satisfeito: "Está ótimo!". Palavras edificantes para um aprendiz.
Não gosto de suturar e nem de atender crianças. Os dois juntos, então, é uma tragédia para todos: para a criança, que se desespera do começo ao fim e invariavelmente precisa ser contida à força; para a mãe, que se desespera junto, eventualmente passando mal; e para mim, que tenho uma única chance de fazer o procedimento de forma perfeita apesar de toda a emoção circulante. Caso eu falhe, a criança jamais será a mesma. 
Faço não porque amo, mas porque fui treinado para. Como o bom general Bradley.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Chefia


Um dos problemas de ser funcionário público é que geralmente trabalhamos em horário comercial. Ontem necessitei de uma folga no período da tarde para ir ao banco, distante 50km da cidade onde trabalho, aproveitando ainda para buscar a documentação necessária para um concurso que passara recentemente onde moro.
No dia anterior, conversei com a enfermeira sobre a possibilidade do abono e o fiz da melhor maneira possível; havia bastante gente na sala de recepção e, antes de tudo, a chamei de "Chefe". Expliquei o que tinha que fazer e disse que poderia voltar às 16h para efetuar os atendimentos da tarde. Ela, implacável, calculou: "15:30 dá para estar de volta." Aceitei após alguns segundos de reflexão; era possível e, mais importante, eu estava de bom-humor.
No dia seguinte, transcorreu tudo perfeitamente: não peguei trânsito, pouco fila no banco, nenhuma fila no cartório, fórum, justiça eleitoral ou no departamento de recursos humanos da prefeitura. Consegui chegar ao expediente antes do horário previsto, o que foi providencial devido aos vários pacientes que me aguardavam.
Fazendo uma análise, vejo que minha satisfação em chamá-la de "Chefe" não provém somente da minha mania de bajular ou de uma associação à figura materna. Poucos dias antes, eu havia participado de um jantar onde um dos assuntos da noite fora as oscilações de humor do chefe; não pude comentar nada, eu não tinha uma chefe.
Como médico, acostumei-me a ditar o andar da carroagem. Se não estou satisfeito, simplesmente escolho onde vou trabalhar. Sou o chefe, não há opção porque não tenho substitutos e sou necessário em vários lugares. Porém, como gosto de lembrar, "grandes poderes vêm com grandes responsabilidades"...
Hoje atendi mais uma suspeita de infarto agudo do miocárdio. Solicitei o eletrocardiograma e, embora eu suspeite que todas as pessoas presentes, inclusive o paciente, esperassem pelo pior, afirmei: "a princípio, você não está infartando." Não foi algo fácil de dizer.
Não é fácil ser o centro das atenções, não é fácil ser o único capaz de interpretar um eletrocardiograma em uma situação de emergência. A adrenalina faz um estrago no organismo e no espírito, a culpa de errar e o risco do erro nos consome diariamente. Há um preço, sem dúvida.
Recentemente voltei a trabalhar em uma unidade de saúde e pedi desculpas a recepcionista por todas as vezes que eu agira com estupidez. Ela sorriu e respondeu: "Tudo bem, só aconteceu uma vez." Palavras significativas, partiram meu coração. Eu fora rude com ela, fato; nada mudaria isso, nada que eu pudesse fazer. O passado está escrito, essa é nossa sentença maior.

domingo, 2 de setembro de 2012

Dois Lembretes


Aconteceram essa semana, após dois atendimentos.
O primeiro foi um senhor de 40 anos. Ao chamar o paciente anterior, notei que ele estava em pé, em frente ao consultório, apontando para o relógio com o dedo indicador. Imaginei se era alguma indireta, mas, como estava de bom-humor, não esbocei nenhuma reação. Ele, talvez envergonhado, caminhou em outra direção.
Ao atendê-lo, notei que se tratava de um humilde agricultor de origem européia, como boa parte da população local. Não noto nenhuma agressividade por parte dele e o atendo normalmente. Estava de bom-humor, tudo bem ele estar impaciente. Enquanto eu faço sua receita, ele pede um medicamento para o controle de convulsões, em uso há anos após "meu pai dar uma machadada na minha cabeça".
Ele diz isso abaixando a cabeça e apontando para a região parietal direita. Sua voz muda ao falar de seu passado, imagino que ele confiara em mim apesar de ser nosso primeiro encontro. O interior do estado é relativamente violento, sendo comum agressões com armas brancas. Pergunto se fora durante uma briga e ele me responde que não, seu pai sofria de demência. "Menos mal" penso comigo mesmo.
Em seguida, ele comenta que não gostara do atendimento de outro médico, mas que gostara do meu. Sua esposa trouxera seu filho no início da semana e também me elogiara. Imagino que nada disso aconteceria se eu estivesse mal-humorado, o que não é incomum.
Primeiro lembrete: não importa o que aconteça, não posso ser cruel com as pessoas.
* * *
No mesmo dia, atendo um garoto de 5 anos. Enquanto faço a receita, ele comenta algo com a mãe. Pergunto o que é e ela responde: "ele quer usar o carimbo, mas não pode, pode quebrar." Tento manter a seriedade enquanto continuo a escrever, cedendo após alguns segundos: "pode usar aqui nesse papel, segura bem no meio do carimbo." Essa foi a dica que recebi ao pegá-lo em dezembro de 2008.
Após o uso, comento "olha só" e mostro para a mãe, complementando: "perfeito." Pergunto o que ele pretendia ser quando crescesse e, após a óbvia resposta, dou a dica: "vai ter que estudar bastante." A mãe, orgulhosa, enfatiza: "é mesmo, vai ter que estudar muito."
Prefiro atender adultos, não tenho vocação para ser pediatra; mas confesso que, de maneira geral, consigo atender bem os pequenos. Segundo lembrete: posso não gostar de crianças, mas algumas gostam de mim. "Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades."

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Tested


Há cerca de 5 anos, ouvi de um palestrante em um centro espírita que Deus frequentemente nos testava. O senhor de meia-idade fazia palestras ao menos uma vez ao mês e transparecia bastante sabedoria. Jamais esquecerei de sua alerta: "Deus frequentemente nos testa".
No último final de semana, viajei para o litoral como faço rotineiramente para relaxar. No primeiro pedágio da BR-101, durante meu atendimento, alguém da fila ao lado buzina. Olho para trás para ver do se trata, volto para a atendente que, distante, entrega-me o troco: R$7  e algumas moedas. Por um segundo mentalizo a nota que acabara de entregar e instintivamente devolvo uma nota de R$5: "Eu lhe entreguei R$5." Ela confere a nota recém guardada, confundida com uma de R$10, e me pede desculpas, um pouco atordoada. "Imagina (não precisa pedir desculpas)", digo acelerando o carro, pois  o próximo cliente aguardava.
Ela devia estar tão acostumada a pedir desculpas que foi isso que fez ao invés de dizer uma simples palavra, "obrigada". Fiquei sensibilizado com sua situação. Uma senhora de meia-idade tendo que aguentar gente que buzina em uma fila de pedágio, que no final do mês teria seus erros de cálculo descontados de seu humilde salário. Estava visivelmente fadigada, por um momento me perguntei se não seria efeito de algum remédio (ou a falta de) e me senti mal por ainda vivermos num mundo onde o trabalho constantemente adoece as pessoas.
No outro dia, como faço sempre que vou ao litoral, fui ao drive-thru de minha rede de fast-food predileta. Fiz meu pedido habitual e, como de costume, não conferi o troco. Estacionei em frente à lanchonete e, após a refeição, procurei no bolo de notas entregues uma de R$2 para o próximo pedágio. Estranho, só notas de R$5. Ela me entregara R$6 a mais. Lembro-me do episódio do pedágio e sorrio, perguntando-me se esse "deja-vu" era apenas uma coincidência.
Olho para o drive-thru, vazio. Imagino que o teste era vencer minha timidez. Devolver o troco no pedágio foi fácil, quero ver voltar dez minutos depois da falha e fazer o mesmo. Lá vou eu, decido fazer um novo pedido para facilitar o procedimento. Ao pagar, recordo a atendente: "Comprei um Big Mac antes, você me entregou R$6 a mais de troco, então desconta daqui", solicito lhe entregando R$20.
Ela me agradece surpresa e fica segurando as notas, sem saber ao certo o que fazer. Torno a explicar: "Agora deu R$12,5, mais R$6 de antes dá R$18,5, é só me devolver R$1,5." Ela imediatamente entende e me devolve o troco, sorrindo mais uma vez. Ela devia ter no máximo 20 anos, talvez fosse seu primeiro emprego e imaginei novamente que seu erro seria descontado de seu humilde salário. Missão cumprida. De brinde, mais sanduíches.
Dirijo-me ao próximo guichê, desligo o carro. Instantes depois, duas funcionárias saem e sentam numa calçada ao lado do meu carro, como se estivessem no horário de folga. Tenho a impressão de que sou observado, mas logo a ignoro, só podia ser minha típica mania de grandeza.
Ao me entregar a encomenda, o atendente, também jovem, comenta: "Fiquei sabendo da sua atitude, queria lhe agradecer" diz cumprimentando-me com a mão direita, "é muito difícil encontrar pessoas como você." Nesse momento tenho vontade de esconder meu rosto num buraco no chão, mas como estou no meu carro, digo "muito obrigado" com um sorriso constrangido para baixo e acelero novamente rumo a rodovia.
* * *
Na minha opinião, o auge da banda norte-americana Bad Religion é bem representado pelo álbum Tested de 1997, sendo uma compilação de 27 faixas gravadas ao vivo no ano anterior, em shows nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Estônia, Dinamarca, Itália e Áustria. Destaque para o recém-chegado Brian Baker, perfeito nas 6 cordas. Há 3 faixas inéditas: Dream Of Unity, It's Reciprocal e, claro, Tested:
"They say there's a place free of trouble and care and you have to pass a test for to make it there. It has something to do with the road that's straight and narrow and the only way to go it is by being right and thorough. There's always one more hill to climb, there's always one more hill to climb  (...) Guided by subconscious voices, astute and sharpened; tested, tested..."
http://youtu.be/ZQEeXPkvQiM

domingo, 12 de agosto de 2012

A Irmandade da Guerra (Tae Guk Gi) 2004


Meu irmão colecionou DVDs de filmes desde 2007, recentemente adquiri parte de seu acervo e subitamente tive à disposição centenas de títulos. Dessa forma, ficou claro meu gênero preferido: o primeiro filme que vi foi Tigerland (2000), sobre o treinamento dos americanos em 1971 antes de embarcar para o Vietnã; o segundo foi esse espetacular filme sul-coreano que retrata a guerra da Coréia no período de 1950-1953.
O longa-metragem narra a trajetória de dois irmãos sul-coreanos (o mais novo com dezoito anos) que são forçados a entrar no exército após a invasão comunista. A tragédia da guerra é exposta de forma explícita, simbolizada pela gradual ruína da relação familiar. Nos extras do DVD, comentasse que o objetivo do filme era justamente mostrar a importância de se manter a paz; ao meu ver, essa meta é cumprida de forma maestral.
A Coréia fica encravada entre a China e o Japão, talvez por isso seja marcada por guerras. Em 1895 foi "liberta" dos chineses pelos japoneses, que impuseram seu domínio entre 1910-1945. Com a vitória da China e dos Estados Unidos na Segunda Guerra, a Coréia foi ridiculamente dividida em duas metades pelo paralelo 38. O resto todo mundo sabe: formaram-se dois países completamente diferentes, embora com a mesma origem, o mesmo povo.
Imagino que seria como dividir Santa Catarina em duas metades, usando um paralelo como referência. Eu ficaria dividido da minha família sulista; se entrássemos em conflito, eu poderia enfrentar meu irmão num campo de batalha.  É difícil imaginar algo tão estúpido, mas é isso que nos é mostrado de forma crua.
Na primeira batalha, um dos soldados, ao se ver sitiado pelo inimigo, questiona se valia a pena matarem uns aos outros por uma ideologia quando eles sequer tinham o que comer. De fato, a guerra parece ser mais lógica quando entre povos diferentes, mas a História está repleta de exemplos como o da Coréia.
Embora seja relatado a trajetória sul-coreana, tem-se o cuidado de mostrar que ambos os lados cometeram atrocidades. Quando o Sul invade o Norte com a ajuda dos US Marines, há um episódio em que eles estão prestes a executar prisioneiros recém capturados quando o irmão mais novo os interrompe, fazendo a óbvia comparação: eles eram tão cruéis quanto os comunistas.
Nos extras, fala-se que, embora houvesse um compromisso histórico, eles tiveram o cuidado de não fazer um documentário sobre a guerra. Realmente, é uma ficção que tem como cenário o conflito, mas esse embasamento dos fatos interfere na narrativa, sendo, na minha opinião, um dos defeitos do filme: tentar ser completo demais.
O longa tem quase duas horas e meia de duração e o diretor comenta que algumas cenas foram cortadas por falta de orçamento (!). O roteiro vai se perdendo à medida que tenta abraçar várias nuances da guerra, como a perseguição aos "comunistas" sul-coreanos, chegando ao "incrível" encontro dos irmãos, agora em exércitos rivais, lutando face a face em meio ao caos do paralelo 38.
Eu diria que o grande destaque são as atuações. Duas cenas são especialmente tocantes: a mãe desesperada correndo atrás do trem que, de uma hora para outra, leva os dois irmãos para a guerra; e o encontro final dos irmãos, na qual o mais novo, agora acompanhado da neta, revolta-se perante à recém descoberta ossada de seu irmão: "O que você está fazendo aqui? Você prometeu que iria voltar."
Assisti esse filme no domingo passado sozinho em casa saboreando um de meus vinhos prediletos, o argentino Finca La Linda - Tempranillo. Nunca imaginei que isso fosse ocorrer em meio a uma ficção cinematográfica, mas chorei como uma criança nesta cena final. Se você tiver um irmão e não se importar em ver "um pouco" de sangue, recomendo esta bela obra.

domingo, 22 de julho de 2012

Seicho-No-Ie e Espiritismo - Parte 4


Meu tio montou uma livraria ano passado e recentemente ele comentou que as obras que mais vendiam envolviam mistério: esoterismo, espiritismo e etc. Segundo ele, tudo que é misterioso chama a atenção das pessoas.
Quando criei meu blog, tinha a idéia de que se ao menos uma pessoa lesse meus textos já teria valido a pena. Aindo penso assim, mas nos últimos dois meses tenho acompanhado as estatísticas de acesso e notei que minha "caminhada" pela Seicho-No-Ie é frequentemente visualizada. Ao digitar as duas doutrinas em um site de busca, "Tiaraju" aparece como um dos primeiros resultados, o que explica a ocorrência.
Um dos motivos de eu ter iniciado esse estudo foi justamente a inexistência de fontes na internet. O pouco que encontro sobre a Seicho e o Espiritismo se desenvolve de forma isolada e superficial, por isso me baseio quase que exclusivamente em livros de Taniguchi e Kardec. Eles são a melhor fonte que conheço e, mesmo assim, considero-os desatualizados. Uma releitura deste século me parece necessária, mesmo que seja de cunho pessoal.
* * *
"Segundo estudos minuciosos, o subconsciente e o consciente estão intrinsecamente unidos e exercem interação. Isto significa que o subconsciente e o consciente não são consciências totalmente distintas entre si, mas diferentes ações de um mesmo espírito. O consciente se desenvolve em contato com o mundo ao redor, e tem como finalidade possibilitar ao homem viver no mundo fenomênico, isto é, no mundo dos sentidos (...)
O leitor, como muitos outros, talvez tenha tido a seguinte experiência: aprendeu uma fórmula matemática, mas, na hora da prova, não conseguiu resolver a questão em que era necessário aplicar essa fórmula. Porém, mais tarde, depois de algumas horas de sono, de repente consegue resolver essa questão. Isso acontece porque a questão ficou gravada no subconsciente (...) O subconsciente é mente que não adormece; ele é um "trabalhador" sempre pronto a atender às ordens transmitidas, e quando lhe é apresentada uma questão, trabalha incansavelmente para solucioná-la.
O exemplo citado serve para mostrar que, ao buscarmos a concretização de um desejo por meio da Meditação Shinsokan, não precisamos ficar mentalizando isso dia e noite, perdendo até o sono. Tudo que precisamos fazer resume-se em gravar em nosso subconsciente (...)" Masaharu Taniguchi em Comande Sua Vida com o Poder da Mente Cap.5
É notável a influência de Freud no discurso do fundador da Seicho-No-Ie. Reconheço o psicanalista como um revolucionário que influenciou positivamente grande parte do mundo, inclusive o oriente. Sua principal obra é de 1899, A Interpretação dos Sonhos, onde é relatada sua grande desconberta: o inconsciente.
No texto "Karma", comento sobre a importância da boa intenção. Há muito tempo descobri que meus resultados terapêuticos eram diretamente proporcionais à qualidade do meu subconsciente (pelo modelo freudiano, esse termo representaria a parte inconsciente da psique que pode vir a se tornar consciente). Se eu buscar, intimimamente, ajudar meus pacientes, é natural que eu encontre soluções criativas e faça um trabalho satisfatório apesar das adversidades.
"Aprendestes o que foi dito aos Antigos: Não cometereis adultério. Mas eu vos digo que todo aquele que tiver olhado uma mulher com um mau desejo por ela, já cometeu adultério com ela, em seu coração. (São Mateus, cap. V, v. 27 e 28)
(...) À medida que a alma, empenhada no mau caminho, avança na vida espiritual, se esclarece e se despoja, pouco a pouco, de suas imperfeições, segundo a maior ou menor boa vontade que emprega em virtude do seu livre-arbítrio. Todo mau pensamento, pois, resulta da imperfeição da alma; mas de acordo com o desejo que concebeu de se depurar, mesmo esse mau pensamento torna-se para ela uma ocasião de adiantamento, porque o repele com energia; é o indício de uma mancha que se esforça por apagar; e não cederá se se apresentar ocasião para satisfazer um mau desejo; e depois que tiver resistido, sentir-se-á mais forte com a sua vitória." O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.VIII, 5 e 7.
Há cerca de seis anos, em um centro espírita de Florianópolis, escutei que Jesus havia vindo para nos livrar das "amarras do pensamento". Penso o mesmo sobre Sigmund e Masaharu. No começo deste ano, uma pessoa próxima me disse que eu tinha muito potencial. Tenho escutado isso minha vida inteira; hoje entendo que não basta inteligência e coração, é preciso aprimorar o Ego para canalizar essas energias e produzir algo de valor no mundo real.
(continua)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Saturno em Meus Cabelos


Na música Vinte e Nove do Legião Urbana, Renato Russo canta: "E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver...". Ele faz referência ao ciclo astrológico desse grande  planeta:
"O ciclo de Saturno é extremamente importante na astrologia. Ele parece estar particularmente ligado à vida física e terrestre. A passagem de Saturno pelas casas tem relação com assuntos que você precisa desenvolver, trabalhar e se esforçar. São assuntos que você também sente necessidade de tornar concretos, de estabelecer uma base mais firme. (...) O ciclo de Saturno é de aproximadamente 28/29 anos. A idade de 28 anos é uma idade chave, de questionamentos, cobranças e também da colheita de resultados positivos que foram semeados. (...) Os 28 anos indicam um balanço de tudo o que foi feito e uma redefinição ou reafirmação de crenças, estilos de vida e escolhas que terão consequências para os próximos 28 anos."
http://vanessatuleski.com.br/v2/artigos/ciclos-contidos-no-mapa-astral/
Completarei 28 anos em dezembro e o tempo já tem mostrado seus sinais. Há alguns meses notei que meus cabelos estavam perdendo a cor, tornando-se um castanho cada vez mais claro. Esta semana notei um fio branco em minha fronte; ao comentar com a cabelereira, ela achou outros durante o corte. Ontem, uma paciente minha brincou que ela e os outros pacientes tinham tantos problemas que eu acabaria ficando com meus cabelos brancos. Falei então que de fato tinha notado isso e ela educadamente respondeu: "eu nem tinha reparado!".
Durante o internato, em uma consulta pré-natal, presenciei um médico comentar para a mãe de uma paciente que seus cabelos não estavam brancos de graça, era devido à preocupação com seus pacientes.  O obstetra tinha seus 40 anos e era um excelente profissional, a mãe desde o começo da consulta vinha com uma postura agressiva, até o momento em que ele perdeu a paciência e pediu, de forma emocionada, que ela confiasse nele.
Imagino que agora eu possa usar o mesmo argumento, quando alguém me questionar, poderei apontar para meus cabelos e dizer que eles não estão assim à toa. De fato, acho que ter cursado Medicina infuenciou o meu rosto, mas nada comparável à influência em minha pessoa. Hoje sou alguém melhor porque posso produzir algo positivo com o meu trabalho.
Coincidentemente, eu estava de plantão no centro obstétrico quando a paciente da consulta pré-natal entrou em trabalho de parto. O nascimento ocorreu sem qualquer intercorrência, eu sabia que a mãe da paciente aguardava alguns metros dali e fui dar as boas notícias. A senhora ríspida que eu vira na consulta algumas semanas antes começou a chorar aliviada após me ouvir. Sua filha teve complicações na gestação anterior, perdendo a criança; obviamente ela temia que o mesmo ocorresse agora.
* * *
Eu costumava dizer que eu era uma mistura dos personagens Michael (da série The Office) e House. Seria constrangedor demais discorrer sobre o primeiro, então comentarei sobre o ilustre médico.
No último episódio do seriado, House simula a sua própria morte e a cena do funeral é bastante significativa. Os principais personagens falam um a um sobre o colega, o último é seu melhor e talvez único amigo: Wilson. Antes de desabafar e começar a ofender o defunto, que, segundo ele, morrera de forma egoísta e sem se importar com ninguém;  James Wilson faz uma única afirmação: "ele era um curador."
Entendo o que ele quis dizer. Gregory House curava as pessoas apesar de seus defeitos, assim conseguia conquistá-las mesmo que essa não fosse sua intenção. Ele podia ser cínico, arrogante, frio, distante e até mesmo infeliz, mas ele curava as pessoas e isso o definia. O fascínio que ele inspira está na sua habilidade em restaurar a saúde, todo o resto me parece ser secundário a isso.
Hoje sinto que compartilho a personalidade difícil de Greg, mas o que quero realmente é poder compartilhar a sua nobre definição. Mesmo que custe a cor dos meus cabelos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Karma


Passei minha infância vendo um quadro do Che Guevara que por muitos anos decorou as paredes de casa. Na minha adolescência, usei incontáveis vezes uma camisa de meu irmão da revolucionária banda Rage Against the Machine, que também estampava a face de Che. Esse é o tipo de carma que não tive controle, simplesmente aconteceu para mim. Nada do que fiz (pelo menos, nesta vida) poderia mudar essa influência familiar característica.
O outro tipo de carma é o que temos controle e que depende da nossa vontade. Escolhi fazer Medicina e após formado escolhi ser funcionário público. Evidente que o fato de eu ter estudado em colégios particulares tornou minha decisão possível; de maneira similar, minha ideologia individual/familiar foi determinante na minha trajetória profissional.
De certa forma, os dois tipos de carmas se misturam, já que nossas escolhas dependerão de fatores externos e nunca seremos senhores absolutos de nossos destinos. A questão é se esses fatores externos são aleatórios ou se há uma relação entre eles e nossas ações passadas. Obviamente, acredito na segunda hipótese.
Há muitos anos, quando era adolescente, conversava sobre isso com meu pai e ele comentou que na minha última vida passada eu devia ter sido alguém muito bom, porque nesta eu tinha um vidão (!). Embora eu discorde de uma visão matemática de ação/reação, concordo que eu seja uma pessoa de sorte. Tive uma boa estrutura familiar e bons relacionamentos, consegui desenvolver minhas habilidades e realizei a maior parte dos meus sonhos. Pouco importa se eu passei apenas dez anos com a minha mãe, importa a pessoa que ela era e o amor que permanece até hoje.
Eu disse certa vez para alguém próximo que achava natural que as coisas dessem certo para mim. Acho isso não devido ao fato de eu fazer o bem, mas devido à minha boa intenção simplesmente. Os resultados são secundários; se minha intenção for boa, meu carma será positivo mesmo que momentaneamente saia tudo errado. As frustrações são inevitáveis, mas nossos desejos são progressivamente maleáveis ao longo da vida.
Se alguém estivesse em busca de um sonho e eu pudesse dar um único conselho, seria: tenha uma boa intenção. Se houver um interesse genuíno, a tendência é dar certo. O coração mantém o cérebro vivo, não o contrário; cuide de seu coração, porque ele será o responsável por suas principais conquistas. Não importa quando aconteça.

domingo, 10 de junho de 2012

Nossa Pequena Vitória


No começo desta semana, minha primeira atividade laboral foi ir ao hospital da cidade. Lá, dou bom-dia para a enfermeira, coloco minha mochila no balcão da enfermaria e olho para o quarto ao lado, percebendo uma das camas vazias. "Cadê a minha paciente?" Ela me responde um pouco constrangida, fitando-me nos olhos: "Ela viajou..." Ao perceber meu espanto, ela complementa, abrindo um sorriso modesto, porém reconfortante: "... para o além."
Suspiro, sorrio discretamente e olho novamente para a cama vazia, desabafando em seguida: "Queria que ela estivesse aqui." Surpresa, ela comenta: "Mas o doutor mesmo disse que só iria interná-la para dar um último conforto." "É verdade, mas como no outro dia ela ainda estava viva, achei que isso poderia ficar se repetindo." Ela me entendia, era o que todos esperavam apesar das circunstâncias. 
Minha paciente tinha cento e um anos de idade, internei-a na quarta-feira retrasada com um quadro típico de pneumonia. Ela chegara no meu consultório trazida pela nora em uma cadeira de rodas, com falta de ar e ansiosa. Há três meses não caminhava e vinha emagrecendo, estando bastante debilitada. No hospital, quando a enfermeira tentou colocar o cateter nasal de oxigênio, ela se agitou e disse as únicas palavras claras que eu ouvi dela: "Eu quero morrer." 
No outro dia, embora meu expediente seja oficialmente no posto de saúde, fui primeiramente ao hospital, esperando pelo pior. Mas ela não só estava viva como tranquila e sem mais falta de ar. Na sexta-feira, a mesma coisa pela manhã. Viajei realmente satisfeito por poder compartilhar a vitória da paciente e da sua família. Tive um ótimo final de semana, a má notícia veio somente esta semana.
"Ela nos avisou na sexta-feira, disse que sabia que ia morrer" continuou a enfermeira, "claro que a gente disse que não, mas...". O fato dela saber que estava partindo me trouxe um alívio que deve ter sido compartilhado por todos. Ela foi em paz, era hora de descansar, enfim.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Magical Mystery Tour


Quatro dias depois de termos ido ao show do Paul McCartney em Florianópolis, conversava com meu pai em Garopaba ao som que saia do meu carro: Beatles. Ele comentou que seus álbuns prediletos eram o Abbey Road e o Let it Be; supreso, mas nem tanto assim, disse que esses dois também eram meus prediletos, juntamente com seus antecessores White Album e Magical Mystery Tour, sobre o qual discorrerei.
A primeira música tem o mesmo nome do álbum; composta por Paul, abriu seu show na ilha.  É uma música poderosa com uma bateria enérgica e intensas linhas de sopro, dando o tom da viagem que se inicia. "The Magical Mystery Tour is coming to take you away...", não seria isso exatamente o que buscamos na música?
The Fool on the Hill, outra obra-prima de McCartney, dá sequência ao tour, agora mais introspectivo. Uma linha suave e melancólica acompanha o vocal dramático com o qual muitas vezes me identifiquei: "He never listens to them, he knows that they're the fools; they don't like him, the fool on the hill sees the sun going down and the eyes in his head see the world spinning around." 
Pulando algumas músicas que não gosto no álbum, chegamos à sexta faixa, última do lado A: I Am the Walrus, de Lennon. Confesso que, quando ela foi sugerida para ser tocada na Bottles, fiquei com o pé atrás; achava a música estranha, tendo como interessante apenas o pequeno trecho: "Sitting in an english garden, waiting for the sun...". Mas, ao vivo, ela se transformou em uma das minhas prediletas; sem dúvida alguma, um dos pontos altos de nossas apresentações: http://youtu.be/xSzFNnd2mxk   
As três primeiras músicas do lado B são a minha sequência favorita do fab four. Hello Goodbye, single de McCartney, foi considerada por mim a predileta em meados de 2008/2009. A letra não só faz uma referência à morte de minha mãe em 1995, mas à minha inabilidade em estabelecer relações afetivas duradouras: "Oh, no; you say goodbye and I say hello. Hello, hello; I don't know why you say goodbye, I say hello."
Em texto escrito para o site da Bottles, texto esse nunca publicado, comento que uma das lembranças mais antigas que tenho é a de ver meu pai cantando o refrão de Strawberry Fields Forever, juntamente com John no disco de vinil. Melodicamente complexa, exprime bem a genialidade de seu criador. Uma bela poesia que na minha opinião, representa o coração do disco. Dessa vez, quem convida para a viagem é Lennon: "Let me take you down, cause I'm going to strawberry fields, nothing is real and nothing do get hung about." Ao comentar com meu pai sobre esta minha tríade predileta, ele respondeu, conforme o esperado, que esta música em particular era sensacional. 
Antes do segundo show da Bottles em Joinville, em 2009, fomos dar uma entrevista na rádio local, sendo o entrevistado um amigo de nosso baixista, também joinvillense. Uma das perguntas que me deixou sem resposta foi: "que música cada um mais gosta de tocar?". Ao chegar minha vez, confessei sem saber o que responder: "nunca pensei sobre isso...". O radialista tentou ajudar: "uma música que tu pensa: essa eu gosto de tocar". Então me lembrei de um video da banda que havia sido postado recentemente, podendo enfim responder: "Penny Lane". http://youtu.be/ErCPmZKWlaQ
Acho notável que Paul tenha feito uma música sobre um lugar perto da casa onde John cresceu, inclusive no clipe há cenas de Lennon andando sozinho pelo bairro. Certa vez o baterista da Bottles comentou em um ensaio que não existia música mais alegre que Penny Lane, eu discordei: "ela tem um certo tom nostálgico". Essa melodia quase alegre me remete a um passado vivo que infelizmente não volta mais. Todos nós temos nossa Penny Lane em particular, com certeza.
Em sequência temos "Baby You're a Rich Man", que, mesmo extra-oficialmente, é atribuída à dupla Lennon/McCartney, sendo uma junção de duas músicas (uma de cada compositor). No entanto, ela me parece ser característica do guitarrista, que inclusive faz o vocal principal. Acho ela positivamente inspiradora, felizmente pude cantá-la algumas vezes acreditando que, de fato, era um homem rico. Algumas poucas vezes, friso.
A última música do lado B é All You Need Is Love, obra-prima de Lennon que foi estreada na primeira transmissão ao vivo da televisão para o mundo em 1967, alcançando 26 países. Não a considero musicalmente marcante, mas sua letra é um hino atemporal, representando a preocupação crescente de John pelo impacto de suas letras. Se Paul era o líder musical do quarteto, notável em álbuns como o Let It Be, John era o líder ideológico, capaz de elevar a música a um patamar revolucionário. Justamente ele foi precocemente assassinado em 1980.
"There's nothing you can do that can't be done, nothing you can sing that can't be sung, nothing you can say, but you can learn how the play the game, it's easy. There's nothing you can make that can't be made, no one you can save that can't be saved, nothing you can do, but you can learn how to be you in time, it's easy: all you need is love. There's nothing you can know that isn't known, nothing you can see that isn't shown, nowhere you can be that isn't where you're meant to be, it's easy: all you need is love."