Um dos problemas de ser funcionário público é que geralmente trabalhamos em horário comercial. Ontem necessitei de uma folga no período da tarde para ir ao banco, distante 50km da cidade onde trabalho, aproveitando ainda para buscar a documentação necessária para um concurso que passara recentemente onde moro.
No dia anterior, conversei com a enfermeira sobre a possibilidade do abono e o fiz da melhor maneira possível; havia bastante gente na sala de recepção e, antes de tudo, a chamei de "Chefe". Expliquei o que tinha que fazer e disse que poderia voltar às 16h para efetuar os atendimentos da tarde. Ela, implacável, calculou: "15:30 dá para estar de volta." Aceitei após alguns segundos de reflexão; era possível e, mais importante, eu estava de bom-humor.
No dia seguinte, transcorreu tudo perfeitamente: não peguei trânsito, pouco fila no banco, nenhuma fila no cartório, fórum, justiça eleitoral ou no departamento de recursos humanos da prefeitura. Consegui chegar ao expediente antes do horário previsto, o que foi providencial devido aos vários pacientes que me aguardavam.
Fazendo uma análise, vejo que minha satisfação em chamá-la de "Chefe" não provém somente da minha mania de bajular ou de uma associação à figura materna. Poucos dias antes, eu havia participado de um jantar onde um dos assuntos da noite fora as oscilações de humor do chefe; não pude comentar nada, eu não tinha uma chefe.
Como médico, acostumei-me a ditar o andar da carroagem. Se não estou satisfeito, simplesmente escolho onde vou trabalhar. Sou o chefe, não há opção porque não tenho substitutos e sou necessário em vários lugares. Porém, como gosto de lembrar, "grandes poderes vêm com grandes responsabilidades"...
Hoje atendi mais uma suspeita de infarto agudo do miocárdio. Solicitei o eletrocardiograma e, embora eu suspeite que todas as pessoas presentes, inclusive o paciente, esperassem pelo pior, afirmei: "a princípio, você não está infartando." Não foi algo fácil de dizer.
Não é fácil ser o centro das atenções, não é fácil ser o único capaz de interpretar um eletrocardiograma em uma situação de emergência. A adrenalina faz um estrago no organismo e no espírito, a culpa de errar e o risco do erro nos consome diariamente. Há um preço, sem dúvida.
Recentemente voltei a trabalhar em uma unidade de saúde e pedi desculpas a recepcionista por todas as vezes que eu agira com estupidez. Ela sorriu e respondeu: "Tudo bem, só aconteceu uma vez." Palavras significativas, partiram meu coração. Eu fora rude com ela, fato; nada mudaria isso, nada que eu pudesse fazer. O passado está escrito, essa é nossa sentença maior.
Nenhum comentário:
Postar um comentário