quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Eudaimonia

Continuando a palestra de Clóvis de Barros Filho, é lembrada a filosofia de Aristóteles:

"Você pega uma muda de uma planta, você espeta no solo; se a vida der certo, aquela planta se torna uma grande árvore, ela atinge o máximo de si mesma. Assim, cada um de nós também deve buscar a excelência, porque a excelência é condição da felicidade. A felicidade que os gregos denominavam 'eudaimonia'. A felicidade que é o que você sente quando devolve ao mundo aquele investimento que o mundo lhe deu em talentos e habilidades, devolve em forma de expertise, em forma de competência, em forma de performance brilhante. Então você é feliz, porque você vai o mais longe possível naquilo que poderia ir."

* * *

Após a formatura recente de minha prima no Rio Grande do Sul, voltávamos para o norte catarinense quando a namorada de meu primo, estudante de Fisioterapia, perguntou-me sobre o trabalho de plantonista em emergências. Respondi que fazia poucos plantões, ultimamente um a cada quinze dias; mas agora, diferente dos anos anteriores, eu já vislumbrava a possibilidade de fazer plantões até me aposentar.
Expliquei a hieraquia médica básica do hospital universitário: primeiro havia o "staff", responsável máximo da emergência, abaixo dele havia os residentes e, na base, os estagiários. Comentei então que, onde eu faço plantões, são dois médicos por turno e geralmente meu colega está formado a menos tempo, fazendo com que eu me tornasse o staff da noite; apesar da maior responsabilidade, era como se eu tivesse alcançado o topo.

* * *

No último plantão, ao notar o símbolo da UFSC em meu jaleco, meu colega não escondeu a admiração; ao saber que eu completaria oito anos de formado, também reagiu positivamente: "Quantos anos você tem?!"  "Trinta e um. Consegui entrar logo após sair do colégio." "CDF." Ele perguntou se eu já tinha jantando, respondi que não; como ele já tinha ido, sugeriu que eu fosse. Resolvi ir após liberar um paciente.
Nesse meio tempo, notei que uma mãe estava impaciente e resolvi atender seu filho de colo. Depois atendi uma mulher que havia engasgado com um espinho de peixe, ainda no consultório, pude visualizar a ponta do espinho no fundo da cavidade oral. Fomos para a sala de procedimento, mas ela estava ocupada por uma menina de sete anos que aguardava sutura. Na sala de gesso, com a lanterna improvisada de meu celular, retirei o espinho e a mulher imediatamente se sentiu aliviada.
O recepcionista havia avisado da garota ferida, meu colega ficou responsável por fazer o procedimento, pois eu iria jantar; como ele estava ocupado com um paciente em agitação psicomotora (onde eu sugeri uma medicação que prontamente foi prescrita por ele), a jovem ficou esperando na sala de procedimento. Eu deveria ir jantar, mas ao ver aquela toalha ensanguentada no cotovelo dela, senti que aquele era um trabalho para mim.
Pedi para ver o corte, profundo e complexo. Posicionei-a, expliquei o que iria fazer; embora tenha chorado durante a anestesia, manteve-se imóvel. Durante a lavagem, percebemos que o bloqueio funcionara; onze pontos depois, o ferimento estava fechado. Como um artista que finaliza a sua obra, perguntei se a mãe gostaria de ver a sutura, a resposta foi sim. Acabei liberando mais um paciente que aguardava exames e, quando finalmente fui até a copa, já haviam recolhido o jantar.
A funcionária da limpeza pediu desculpas e me consolou informando que não havia sobrado muito da janta. Comentei que estava feliz de haver pão, queijo e presunto; logo, comecei a preparar um lanche. Eu estava orgulhoso do meu trabalho, confesso que sempre gostei da idéia de me sacrificar pelo próximo. Quando isso acontece, sou agraciado pela felicidade de ter ido o mais longe possível naquilo que poderia ir.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Odisséia

Há algumas semanas, comentei com alguns amigos que dedicava parte de meu tempo livre vendo videos na internet; um deles recomendou o filósofo Clóvis de Barros Filho, do qual assisti uma palestra. Inicialmente é relatada a história mitológica de Ulisses, rei de Ítaca; após vencer os troianos, o grego tenta voltar para casa, mas fica aprisionado na ilha de Calipso, uma deusa que se apaixona por ele. 

"Você deve se perguntar: que espécie de castigo é esse? Uma mulher dessas, com ninfas, em um lugar paradisíaco? Mas, toda noite, Ulisses ia para a praia chorar porque queria voltar para Penélope, para Ítaca, para o seu lugar. Então Zeus manda que Calipso liberte Ulisses e ela tenta uma última cartada: 'Eu tenho que te liberar, mas se você ficar comigo, eu lhe dou a juventude eterna.'
A resposta que Ulisses dá é a primeira grande resposta da história da filosofia para a vida boa: 'É preferível uma vida de mortal, uma vida de humano, vivida no seu lugar, no lugar certo, do que uma vida de deus no lugar errado. Agradeço sua proposta.' Ulisses vai embora. Está dada aí a primeira grande lição da história do pensamento ocidental: existe um lugar para você, um jeito certo de você viver, que tem a ver com a sua natureza, que tem a ver com as suas especificidades, talentos e dons naturais. Se você estiver no lugar certo, a vida tem tudo para ser boa. Se você não estiver no lugar certo, nem Calipso resolverá o seu problema."

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Há alguns meses, durante mais um período de hiato profissional, meu pai sugeriu que eu voltasse para a região sul catarinense; sem pensar muito, respondi apenas que gostava do planalto norte. Antigamente eu argumentaria que encontro melhores salários e condições de trabalho no interior, mas acredito que essa diferença regional diminuiu consideravelmente nos últimos anos. O clima frio ainda é um bom atrativo, mas nunca foi um fator determinante.
No último sábado, em uma formatura de uma prima em Camaquã-RS, disse para alguns parentes que estava há quase dois anos aqui e eles logo concluíram: "Você deve estar gostando muito de lá!" De fato, após a graduação, nunca fiquei tanto tempo em uma mesma localidade. Em contraste, um primo mais novo informou que, embora não soubesse o que fazer, não queria permanecer em sua cidade natal; essa era a sua única certeza. Obviamente, já estive em seu lugar.

domingo, 11 de setembro de 2016

Dream Theater - The Astonishing (2016)

Na terceira faixa do One Hot Minute (Red Hot Chilli Peppers, 1995), Anthony Kiedis faz um longo discurso; apesar de não entender a maior parte da fala, uma frase eu consigo ouvir com clareza: "... love and music can save us..." Depois do show do Dream Theater em Curitiba (25/06/2016), ficou-me mais evidente que a música possa ser a nossa salvação; curiosamente, só fui conhecer o grupo algumas semanas antes, quando meu irmão comentou que iria.
Escutei A Dramatic Turn of Events (2011) e, claro, interessei-me pelos enérgicos riffs de Petrucci. Um amigo acabou desistindo e ofereceu seu ingresso; fui avisado que deveria escutar o último álbum, pois ele seria executado na íntegra. Agora, após conferir a discografia completa, sentencio que esse é o melhor disco da banda; também presumo que seja o melhor lançamento de 2016, ainda que o ano não tenha acabado.

Destaque para: 
Disco 1: 2- Dystopian Overture  3- The Gift of Music  5- A Better Life  7- A Savior in the Square  8- When Your Time Has Come  13- A Life Left Behind  16- A Tempting Offer  18- The X Aspect  19- A New Beginning  20- The Road to Revolution 
Disco 2: 1- 2285 Entr'acte  2- Moment of Betrayal  3- Heaven's Cove  5- The Path That Divides  10- Whispers on the Wind  11- Hymn of a Thousand Voices  12- Our New World  14- Astonishing

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Lagwagon - Let's Talk About Feelings (1998)

Com uma gravação superior ao também inspirado Double Plaidinum (1997), considero esse o melhor disco do quinteto norte-americano. Antes da apresentação em Curitiba (26/02/2016), o guitarrista de uma das bandas de abertura fez o riff inicial de After You My Friend (Si seguido do oitavado em Ré sustenido), provocando uma reação enérgica da platéia que, nitidamente, conhecia bem a faixa inicial desse álbum espetacular.
Algumas horas antes do show, eu e meu irmão tivemos a surpresa de encontrar o vocalista e o baterista na saída do hotel. Não me contive e, improvisando no inglês, disse-lhes que havíamos vindo de muito longe para assistí-los; inclusive, já os havíamos visto em Balneário Camburiú, quinze anos atrás. Eles se mostraram agradecidos, perguntei se poderia tirar uma foto e um dos roadies gentilmente indagou: "Você quer tirar uma foto deles ou com eles?" 
Escolhi a segunda opção. Em seguida, o manobrista trouxe meu carro e partimos para o Music Hall. Meu irmão conta que, apesar de já ter ido em vários shows, esse foi o melhor de todos. O auge me parece ter sido a execução da décima primeira faixa, May 16: "Take a step towards freedom, you and her loathing this cruel world. Take a breath of shelter and exhale trust and allegiance, liberate yourself from hell. It's just another saturday, just another saturday."

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Nofx - The Decline (1999)

Imagino que qualquer fã desse quarteto norte-americano reconheça que essa seja sua melhor composição. Trata-se de um álbum com uma única música de 18 minutos, muito bem costurada, como uma concha de retalhos contendo peças melódicas únicas. Imagino que ter visto sua execução completa no Vanilla Music Hall (Curitiba, 13/12/2015) seja equivalente a ter presenciado os Beatles no lendário "rooftop concert": o melhor de uma época.
Ao perceber que eu cantava linha por linha da canção, outro expectador indicou que, da nossa posição lateral, eu poderia facilmente subir no palco para dar o primeiro mosh da noite (os seguranças impediam heroicamente qualquer tentativa, fato que chegou a ser ironizado pelo bem-humorado Fat Mike). Claro que eu rejeitei a idéia. Estar ali, a poucos metros dos amplificadores, já era satisfação suficiente para mim.
O título seria uma referência ao declínio da América, temática bastante atual para a nossa realidade brasileira. Gosto especialmente da última parte do manifesto: "And so we go on with our lives, we know the truth, but prefer lies; lies are simple, simple is bliss, why go against tradition when we can? Admit defeat, live in decline, be the victim of our own design. The status quo built on suspect, why would anyone stick out their neck?"

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Novo Mundo

No final de semana, encontrei os velhos companheiros de banda e, como de costume, saímos para jantar após o ensaio. Um deles relatou um episódio curioso de quando ele e esposa conheceram um tradicional país europeu. Usando um aplicativo, eles se hospedaram em um apartamento onde morava um casal de chineses. Logo na primeira noite, eles se depararam com uma intensa briga entre os orientais, mas que foi resolvida no dia seguinte (eles escutaram a reconciliação).
Na segunda noite, após um cansativo dia pela cidade, meu amigo estava tomando banho quando foi interrompido pela chinesa. Não podia tomar banho após as 22 horas por conta do barulho nos encanamentos (!). Surpreso, ele foi para o quarto; instantes depois, um vizinho bateu na porta e começou a discutir calorosamente com o chinês. Concluí em voz alta: "Por tua causa." Ele concordou, finalizando: "Quando o vizinho foi embora, ele disse que os dois eram amigos e que eu não deveria me preocupar!"

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Outro músico comentou que estava morando em um hotel no meio-oeste catarinense (como pretende voltar para nossa cidade natal em breve, decidiu manter o seu apartamento no sul). Ele já morou em alguns hotéis, mas nunca gostou da experiência. Pude consolá-lo elogiando sua acomodação atual, que conheci há alguns anos; ele prontamente concordou, lembrando do farto café da manhã. Embora eu não conheça a Europa, humildemente me orgulhei por conhecer um pouco de Santa Catarina.

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Acabei relatando minha própria experiência inusitada ao morar seis meses em um hotel do planalto norte catarinense. As paredes eram finas e o isolamento acústico, mínimo; embora eu tocasse com uma strato desplugada, achavam que eu usava um violão (!). Um dia, fui nos correios e o gerente, também morador do hotel, comentou amistosamente com seus colegas: "O doutor é cantor, ele canta bem!"
O baterista logo fez piada: "Tua sorte foi estar no Brasil, se estivesse na Europa, arranjaria a maior confusão fazendo barulho no quarto!" Todos rimos dessa boa ventura, aparentemente, éramos mais civilizados aqui no novo mundo. Talvez por isso eu prefira viajar de carro pela região sul-brasileira ao invés de voar para destinos internacionais. Talvez nós tenhamos o melhor dos mundos aqui mesmo, à nossa volta.

domingo, 12 de junho de 2016

Blefadorzinho - parte 12

Novamente em uma fase de hiato profissional, voltei a frequentar o clube do poker. Lembrando que o jogo pode servir como uma analogia para a vida, comentarei algumas lições:
1- É preciso ter paciência e esperar a mão certa para agir. Mês passado, entrei cerca de trinta minutos antes do intervalo do torneio mais caro da semana com 35k fichas, após o break (quando não é mais possível fazer rebuy), estava com 30k e não tinha ganho nenhuma mão; estava jogando pouco, no máximo defendendo alguns blinds. No UTG, finalmente recebo um JJ, dobro o blind, dois adversários vão all-in, pago a aposta. Eles mostram um 99 e um A6, mantenho minha vantagem e triplico minhas fichas. A espera valera a pena e, assim, consegui chegar na mesa final (9 finalistas entre 27 competidores).
2- Na outra semana, voltei a esse torneio, mas não tive tanta sorte. A primeira perda veio em uma rodada onde 4 entraram para o ver o flop: K85 de ouros, minha mão era Q9 de ouros! Dois adversários pedem mesa, aposto o pote, apenas um paga. Turn: 2 de espadas, continuo absoluto, ele pede mesa, faço nova aposta, ele paga. River: 5. Ele pede mesa, chego a cogitar a possibilidade de uma full house, mas vou all-in (valor aproximado do pote), ele paga imediatamente mostrando um KK.
Minha leitura estava certa até o turn, eu estava superior e, assim, joguei corretamente até ali. Mas o river mudou tudo e, assim, a melhor jogada era pedir mesa também, pois ele já havia mostrado força ao pagar minhas duas apostas. Não ter visto isso me custou um pesado re-buy. A lição que fica é: uma situação favorável pode mudar a qualquer momento e temos que notar quando isso acontece. 
Antigamente eu teria ido all-in após o flop para tentar defender meu flush, mas acredito que, trincado, ele teria pago e o desfecho seria o mesmo. Teoricamente, uma aposta alta tem o mesmo efeito que um all-in e eu não estava nuts pois não tinha o Ás de ouro (minha leitura era: apesar de estar bem, não estava tão bem). Só faltou ter segurado aquele all-in derradeiro, era óbvio que aquele 5 não me favorecia.
3- Em um torneio "light" (segundo definição do próprio administrador), consegui dobrar as fichas em cima de um dos jogadores mais fortes dali, com um clássico suited-conector. No botão, venho com 87 de paus, todos foldam, eu dobro o big blind, apostando 3,2k, só o big paga. Flop: J85 rainbow. Ele pede mesa, eu também. Turn: 9, ele aposta 3k, eu pago. River: 6, consigo uma inesperada sequência, ele aposta 6k, finjo pensar um pouco e volto all-in, 19k.
Normalmente as jogadas duram poucos instantes, mesmo quando envolvem grandes apostas; meu adversário pensou por uns 30 segundos e comentou para si mesmo: "Ele tem esse 7?" Pensou mais uns 30 segundos e, aparentando estar inconformado, colocou suas fichas a frente, mostrando um J6, dois pares. Ele provavelmente achou que eu não dobraria o pré-flop com cartas baixas, eu concluiria que nem sempre o caminho mais óbvio é o mais lucrativo.
4- Há algumas semanas, joguei com meu primo no clube de Três Passos. Ele comentou que meu conselho de procurar defender o big blind (especialmente quando a aposta não for superior a três vezes), melhorara seu jogo. Mesmo com cartas baixas, a possibilidade de ganho vale o risco porque o adversário tende a acreditar que só pagamos apostas com as altas. Quanto mais jogadores entrarem, melhor. Mas essa não é uma regra absoluta, quando short, costumo foldar cartas ruins mesmo quando o oponente apenas dobra o big blind (por exemplo, big blind de 10k, ante de 1k, stack de 60k).
Voltando ao Paraná, no torneio mais caro da semana passada, o clube contou com 41 jogadores, cheguei em décimo sexto. Poderia ter ido melhor, se não tivesse me distraído e foldado um 10 e 8 (precisava completar apenas 1,9k ao big blind de 1,6k contra dois jogadores, que dividiram o pote com um ás de alta e dois pares, eu teria feito uma fullhouse). Conclusão: devemos estar sempre atentos para, no mínimo, seguir os nossos próprios conselhos.
5- Mais tarde, defendi uma aposta de 10k contra meu big blind de 4k ao vir com QJ de paus. Flop: QJ4 com duas de coração, peço mesa, ele também; turn: J de espada (consigo minha fullhouse), peço mesa, ele aposta 12,5k; volto all-in (33k), ele folda mostrando um 99, mostro a minha dama. A melhor jogada teria sido apenas pagar os 12,5k e esperar que ele tivesse um jogo melhor no river para apostar, mas a ansiedade falou mais alto e possivelmente deixei de ganhar fichas. Às vezes, é melhor tirar o pé.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Almoço Grátis

Há algumas semanas, visitei minha cidade natal e, na sala de casa, contei um episódio do começo do ano, quando encontrei o vocalista e o baterista do Lagwagon em um hotel de Curitiba. Minha irmã se emocionou e, irritada, mostrou ao meu pai uma foto minha com eles, dizendo que queria ter estado lá com seus irmãos. Expliquei que ela poderia ter ido se estivesse trabalhando, meu pai concordou, complementando: "Não existe almoço grátis." Todo benefício tem um custo, mesmo que não seja pago pela pessoa que o usufrui.
Essa verdade revela um aspecto sombrio da sociedade humana: é impossível viver sem dinheiro e a maioria das pessoas, mais cedo ou mais tarde, precisa ganhá-lo de alguma forma. Uma visão mais otimista enfatizaria o valor do trabalho, mas ela parece romântica demais perante a dura realidade; somos escravos, como prisioneiros de uma Matrix invisível que suga a nossa energia vital. Alguns conseguem se libertar, mas a maior parte não.
Ontem assisti um documentário sobre leões africanos, que são bons exemplos de predadores. Ao fazer um comparativo com a espécie humana, eu diria que somos até mais selvagens que eles; talvez por isso, de maneira instintiva, também somos criados para sermos fortes o bastante para alcançar nosso próprio alimento. Neste planeta hostil, não parece ser uma tarefa fácil, mas temos que sobreviver. Essa é a única opção.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Serpentário

Recentemente descobri que meu verdadeiro signo zodiacal é Serpentário. Meu pai energicamente rejeitou a idéia, dizendo que incluir um décimo terceiro signo derrubaria toda a teoria astrológica e ele, ao longo dos anos, consolidara sua crença nela. No entanto, justamente por também ter conhecimento na área, discordei dele. Vamos por partes:

"O astrônomo Parke Kunkle vem ganhando espaço na mídia defendendo sua tese de que as alterações na atração que a Lua tem sobre a Terra modificou o alinhamento das estrelas. Essas mudanças, segundo Parke Kunkle, provavelmente mudaram as datas dos signos que já conhecíamos.  Além disso, ele afirma que há um novo signo, chamado Ophichus, também conhecido como Serpentário. Quem nasceu entre os dias 29/11 e 17/12, é regido por esse signo. Muitos astrólogos concordam com a tese de Kunkle e dizem que nada do que sabemos atualmente sobre horóscopo está correto." https://2016dicas.com/novo-horoscopo-do-zodiaco-signo-de-serpentario-2016

"De acordo com os astrólogos, este signo não foi incluído no sistema zodiacal tradicional não devido a um erro, mas porque esta constelação estava longe da eclíptica (linha que representa a passagem do Sol pelo céu). No entanto agora a constelação já está entre sagitário e escorpião devido à precessão dos equinócios, e é cortada pelo Sol." http://www.cuidar.com.br/serpentario

A melhor fonte vem de uma publicação da UFSC, com a citação de um estudioso catarinense:
"Do modo como foi organizado o céu pela UAI, todas as treze constelações ocupam espaços diferentes ao longo da linha da eclíptica, o que significa dizer que a divisão do zodíaco em doze signos de trinta graus cada um é puramente arbitrária e segue apenas a tradição dos povos antigos. Ofiúco é uma constelação um tanto extensa, sendo conhecida também por Serpentário. Na mitologia grega, este agrupamento de estrelas estava associado a Esculápio, deus da medicina. Segundo a lenda, Esculápio passou a dedicar-se à arte da cura após ver uma serpente ressuscitar outra com algumas ervas que trazia em sua boca. Esta é, inclusive, a origem do símbolo das ciências médicas: duas serpentes enroladas num bastão. Ainda sobre esta constelação, diz-nos o saudoso professor Amaro Seixas Netto:
“Em realidade, o Zodíaco atual tem treze constelações. Desde 1952, temos adotado esta Constelação Zodiacal em nossos estudos, criando assim o Zodíaco perfeito e exato sobre a Eclíptica. Esta descoberta decorreu duma análise profunda do curso do Sol zodiacal, e deste modo propusemos a sua notação na Faixa Zodiacal bem como criamos o seu signo, publicado na Imprensa para registro. Pode observar-se que o Sol, no Zodíaco, percorre pequena parte do Escorpião e logo entra no Ofiuco, para depois ingressar em Sagitário.” SEIXAS NETTO, A. O zodíaco. São Paulo : Editora do Escritor, [19--]. p. 60.
Para alguns astrólogos, a polêmica a respeito da existência de um 13° signo não faz sentido, haja vista que não são as constelações lá no céu que influenciam os seres aqui na Terra e sim energias cósmicas que tomam como referência os signos tradicionais. Há também opiniões que procuram justificar que tanto a cobra (Ofiúco) como o escorpião são animais que trocam de pele, indicando uma personalidade sujeita a grandes flutuações, e que, neste caso, Ofiúco vem a ter o mesmo significado astrológico de Escorpião." http://planetario.ufsc.br/a-polemica-do-13%C2%BA-signo/

Considerando-se treze signos, abala-se a teoria dos quatro elementos que tradicionalmente divide o zodíaco: Fogo (Áries, Leão, Sagitário), Terra (Touro, Virgem, Capricórnio), Ar (Gêmeos, Libra, Aquário) e Água (Câncer, Escorpião, Peixes). Minha primeira observação é que, de fato, não considero que eu tenha mais afinidade com arianos e leoninos do que com representantes mais "próximos" a Sagitário (Virgem, Libra, Escorpião, Capricórnio, Aquário e Peixes).
Minha segunda observação é que eu facilmente me identificaria como sendo Escorpião ou Capricórnio, signos imediatos a Sagitário (dessa forma, um ajuste no meu signo solar não me seria tão radical). Arrisco-me a dizer, por exemplo, que uma pessoa nascida nos primeiros dias de Touro tem mais características arianas do que uma pessoa nascida nos últimos dias de Touro (que, pelo raciocínio, teria mais características geminiadas). O primeiro exemplo teria mais semelhança com alguém que nasceu nos últimos dias de Áries do que com o segundo exemplo, também taurino, porém com mais dias (graus) de diferença.
Um dos argumentos que meu pai utilizou foi que a Astronomia e a Astrologia eram estudos distintos, o que me parece absurdo. Ambas iniciaram como uma mesma ciência e ainda hoje me parecem complementares, sendo visões diferentes sobre um mesmo fenômeno. Comenta-se que a intenção de Parke Kunkle em 2011 era simplesmente desmoralizar a Astrologia, mas talvez ele tenha contribuído para seu fortalecimento ao questionar sua forma tradicional.
Dizer que há um rompimento é um exagero, a constelação descende da mesma época que os demais signos, tendo também uma história mitológica por trás dela. Além disso, muda-se o pano de fundo astrológico, "o palco"; mas os aspectos planetários, por exemplo, permanecem importantes. Quando analisei meu mapa, dei ênfase a dois aspectos específicos, sem citar meu signo solar (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2013/09/meu-mapa-astral.html).

* * *

Além da clara relação com a Medicina, identifico-me com uma característica de Serpentário: não tolero traições. Infelizmente, suponho que todos seremos traídos, mais cedo ou mais tarde, por pessoas próximas. Na época de re-análise do meu mapa astral, comento que eu estava desempregado e, atualmente, a situação é similar. Se me perguntassem o motivo da nova demissão, eu poderia desabafar que é sempre o mesmo: "Traições."

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Aula Noturna

Voltei a frequentar o clube do poker, estando ainda um pouco enferrujado pelos meses afastado. Semana passada, apesar de eu ter sido uma vítima fácil de meus adversários, tive um importante aprendizado. Estávamos jogando em duas mesas cheias, quando um colega da mesa vizinha subitamente se levanta e, transtornado, atira uma ficha contra o feltro, gritando para o dealer que não estava roubando.
Imagino que o jogador tenha trocado algumas fichas do pote e entregado para o adversário a sua frente, como fez a conta errada, foi repreendido pelo dealer (que deveria fazer a operação). Enquanto o agressor argumentava que estava a noite toda sendo hostilizado, percebi que eu era o primeiro a falar; embora a tendência natural fosse paralisarmos as atividades, segui o jogo entregando minhas cartas. Quase aliviado, o dealer anunciou meu fold, enquanto a confusão seguia ao lado.
O administrador do clube se dirigiu à mesa do conflito, o acusado calmamente explicou o erro no troco; abaixando um pouco o tom de voz, o jogador continuou suas críticas: "Então seja educado, explica que eu errei, não me chama de ladrão." "Eu não te chamei de ladrão." "Mas foi como se tivesse chamado." Ao acompanhá-lo para fora do salão, pude escutar uma das sugestões do administrador: "Quando tiver algum problema, é só me chamar."
Mesmo com sua saída, o clima continuou tenso por alguns minutos. Fiquei particularmente sensibilizado porque o episódio lembrou o meu próprio temperamento explosivo, eu era aquele jovem que perdia o controle e tinha atitudes destrutivas. Observando de perto, pude ver bem o estrago do furacão. A lição não é de hoje: "Não importa o que aconteça, eu não posso ser cruel com as pessoas." http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2012/09/dois-lembretes.html

quarta-feira, 30 de março de 2016

Reffer - Interference (2001)

Não seria exagero considerar essas dez canções como a melhor produção nacional de todos os tempos. Apesar do aparente sucesso, o quarteto mineiro não lançou um segundo disco e por muitos anos não ouvi falar deles. Ano passado, surpreendentemente, foi anunciado que eles abririam as apresentações dos americanos do NOFX em solo brasileiro. 
Meu irmão, tentando me convencer a ir no show em Curitiba, disse que só o Reffer já valia o ingresso; sem dúvida, a afirmação se mostrou verdadeira. Embora o público se mostrasse morno do início, logo acabei me empolgando e, perto do palco, senti que a banda absorveu parte dessa boa energia. De Lured a Adrift, uma performance à altura de sua grandeza.

terça-feira, 29 de março de 2016

Blefadorzinho - parte 11

No final do ano passado, fui tomar café da manhã em um posto de combustível, onde conheço o dono (ele também joga poker). Ao vê-lo, fui logo explicando a minha ausência no clube: "Voltei a trabalhar de manhã, então tenho que dormir cedo." Ele comentou que naquele sábado haveria um torneio no final da tarde, assim, voltei aos feltros e, pela primeira vez, acabei vencendo na cidade. Minha estrela brilhou como eu nunca tinha visto antes. Sorte acumulada, talvez?
Foram mais de cinco horas de jogo. Uma das reflexões que fiz na mesa foi que o Texas Holdem era o meu esporte (diferente de meu irmão e de meu pai, que preferem jogar tênis). Independente da modalidade, eu deveria cultivar o hábito; ganhando ou perdendo, faz bem para a mente. Certa vez, um amigo comparou o poker com o xadrez, concluindo que, se eu era bom no tabuleiro, também seria nas cartas; nos dois casos, claro, é preciso ter estratégia.
Minhas melhores mãos foram três AA e um 22, esta última, no flop se transformou em quadra (!); no entanto, em nenhuma delas pagaram meu all-in. No caso da quadra, fui pagando as apostas de um adversário que havia feito o raise pré-flop; após o river, voltei all-in, ele imediatamente foldou. Cordialmente, mostrei meu 22, os adversários se alvoroçaram e o que estava à minha esquerda desabafou: "Você tem que dar um raise com essa mão!"
O dealer gentilmente rebateu lembrando que eu conseguira coletar muitas fichas jogando defensivamente. Sendo respeitado na mesa, eu sabia que provavelmente assustaria meu adversário com qualquer re-raise; como ele estava apostando, deixei-o agir. A afirmativa de que eu deveria jogar agressivamente aquela mão soa como uma regra que não leva em conta o estilo ofensivo da mesa. Ser flexível me parece ser um princípio básico para vencer, frequentemente chego a essa conclusão.
Após sofrer uma perda considerável, o adversário a minha esquerda comentou que esperava agora uma mão qualquer para ir all-in. Respondi que eu geralmente esperava até a última chance antes de arriscar tudo, de fato, mesmo estando short em várias situações, esperei alguma mão razoável e, então, minha sorte brilhou. Venci um TT tendo um JT: já no flop, apareceu meu valete. Com um K9, fui all-in após o flop AK8, um A7 pagou e no turn apareceu o meu terceiro rei.
Cheguei entre os quatro finalistas com stack reduzido, não achei que pudesse vencer o torneio, mas estava feliz por chegar na faixa de premiação. No heads-up, devia ter cerca de cinco vezes menos que o adversário, mas continuei a vencer all-ins contra ele: tendo um AJ, venci novamente seu TT; no turn, apareceu meu Ás. Ao me tornar chip-leader pela primeira vez no torneio, ofereci acordo, ele não quis. Na mão seguinte, venho com A5, blind de 12k, aumento para 30k, ele volta all-in.
Chego a dizer "você está melhor do que eu", porém, cansado, pago o desafio: ele mostra um dominante A7. Novamente no turn, vem o meu 5, garantindo a inesperada vitória. Pedi que batessem uma foto, justificando euforicamente que aquele era o meu sonho; um dealer arrumou a pirâmide de fichas, outro preparou a câmera. O vice não conseguiu sorrir, mas gentilmente aceitou o convite para a imagem. Alguns dias depois, ao retornar ao posto de combustível, meu colega prontamente me cumprimenta: "Parabéns, vi que você cravou no sábado!"

quarta-feira, 23 de março de 2016

Yellowcard - Lights and Sounds (2006)

Há algumas semanas, minha namorada ordenou que, em minha próxima postagem, ela deveria ser citada. Fui gentilmente lembrado que as postagens eram a única (!) razão dela continuar comigo, pois quando brava, pensava para se acalmar: "mas ele escreve no blog." Como bom servidor, escolhi como tema um álbum habilmente baixado por ela na internet (há anos eu o buscava, sem sucesso). Facilmente, uma das produções mais inspiradas dos últimos dez anos.
Destaque para:
1- Three Flights Up - Canção instrumental, com um inesperado piano como protagonista.
2- Lights And Sounds - Primeiro single, mostra um drive pesado nas guitarras e um tom mais denso na linha de vocal, ambos contrastantes com o disco antecessor, Ocean Avenue (2003). Apesar de ser uma boa faixa-título, considero as seguintes melhores.
3- Down On My Head - Essa lembra meu trabalho como plantonista: "Trabalhei a noite toda por mais um dia em que eu posso dizer que estou completamente sozinho; só preciso de tempo, vou dizer o que acredito e irei para casa..." 
5- City of Devils - Mais uma letra interessante: "Um homem uma vez cantou para mim: olhe para você salvando o mundo por conta própria... Ache alguém para aprender; garoto, você tem que amar alguém mais do que você mesmo..."
6- Rough Landing, Holly - O segundo e último single do disco. Uma típica música do grupo, com uma sólida linha de violino e bateria: https://youtu.be/6DRh1EyvPHw
7- Two Weeks From Twenty - Na minha opinião, a melhor música do álbum; linhas leves de guitarra em um tom melancólico que envolve a triste narrativa: um jovem de vinte anos que morre em combate após se alistar no exército. Dez anos depois, uma temática ainda atual.
9- Martin Sheen or JFK - "Eu poderia dormir, mas quando eu acordasse aqui, você teria partido e você é meu ar. Eu poderia respirar se você ficasse aqui mais uma música e eu pudesse te olhar..."
14- Holly Wood Died - Meu irmão uma vez observou que eu gostava particularmente da última faixa dos discos. Eis mais um bom exemplo disso. "Largue tudo que você sabe, você está voando agora, o que você tem a perder? Estarei lá quando você descer, estarei esperando por você..."

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

The Lawyers

Em meados de 2007, eu morava com meu irmão em um apartamento em Florianópolis; certo fim de tarde, ele disse que gostaria de aprender a tocar guitarra, perguntando do meu equipamento, que estava em Criciúma. Alguns dias depois, ele o trouxe de volta para a ilha. Na semana seguinte, um amigo guitarrista me convidou para assistir a um ensaio de seu trio; ao informar que tinha meu instrumento comigo, ele sugeriu que o levasse junto.
Na casa do baterista, começamos a tocar With Or Without You (clássico do U2), na qual eu fazia o riff principal; no meio da execução, seu pai apareceu com cara de surpresa, comentando ao final: "Agora parece uma banda!" (até então, formada apenas por acadêmicos de Direito). O patriarca nos convidou para tocar no intervalo de um show que seu quarteto faria (ele também era baterista). Nossa apresentação foi tão aclamada que permanecemos tocando até o fim da noite, sem chance de retorno para o grupo mais velho.
Na época, eu estava no primeiro ano do internato e, justamente por ser uma época estressante, voltar a tocar me foi uma dádiva. John Mayer, no seu DVD "Where The Light Is", comenta que por oito anos tocou sozinho em um quarto, tentando simular "mais do que ele", mas nada se comparava a tocar com outras pessoas. Realmente, como músico, não vislumbro emoção maior do que fazer uma boa melodia com bons amigos.
Em dezembro de 2008, fizemos nossa apresentação derradeira, na festa após minha colação de grau. Nessa época, ao passar em um concurso federal, o baixista se mudara para o interior do RS. Há alguns anos, ele voltou para a capital catarinense; a Lawyers ressurgiu, dessa vez com um tecladista. Mês passado, o guitarrista nos convidou para tocar no aniversário de sua mulher (https://youtu.be/5fCW5BBP-mA, https://youtu.be/UJ79QV57qMw).
Duas semanas depois, ensaiamos e, no jantar, a esposa do baixista perguntou como conseguíamos soar tão bem tendo apenas encontros esporádicos. Embora a pergunta tenha ficado sem resposta na hora, imagino que uma possível explicação seja: somos bons músicos. Gosto de pensar que, assim, naturalmente podemos fazer pequenas obras de arte quando reunidos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Batchan

Meu pai, gaúcho de Três Passos, possui cinco irmãos mais novos e todos eles optaram por mulheres de origem européia (germânica, italiana, polonesa...). O primogênito, único a ser criado no núcleo familiar dos avós, acabou se tornando "cidadão do mundo" ainda jovem e conheceu minha mãe em uma agência bancária de Suzano, no final dos anos setenta. Imagino o choque de sua família: "Ele está voltando de São Paulo com uma japonesa!"

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Suponho que a genética oriental facilite meu desempenho acadêmico e profissional (pelo menos, essa é uma justificativa que frequentemente escuto). No clube do poker, após eu ganhar mais uma mão, meu irreverente adversário concluiu: "Os asiáticos vão dominar o mundo." Gosto de pensar que, de fato, eu tenha construído uma trajetória vitoriosa; no entanto, de forma modesta, acredito que apenas honro o que é esperado de mim. 

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Tive o privilégio de ter uma batchan e um ditchan (na infância, eu achava que esses eram os nomes de meus avós maternos). Ele teve um infarto fulminante há duas décadas; ela faleceu mês passado, enquanto dormia em seu quarto. Sua saúde vinha se deteriorando há dois anos, com diminuição do apetite e da lucidez. Em janeiro do ano passado, ela reclamou que ninguém a avisara de minha visita; meu primo riu, lembrando que havia dito várias vezes que eu viria.
Coincidentemente, minha última postagem relata a sua história. Pode-se deduzir que ela teve uma vida árdua, assim como meus outros avós (nenhum deles teve a oportunidade de cursar uma faculdade, por exemplo, algo difícil de imaginar na atualidade). Teoricamente, vivemos em dias melhores; alcançamos maior liberdade, podemos ir mais longe. Mas nosso tempo continua finito, eis uma certeza que me soa cada vez mais urgente.