quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Patton (1970)


Meu pai possuiu um quadro do Che Guevara por muito anos, sendo evidente então sua inclinação política. Ele conta que sempre foi "anti-imperalista", mas isso começou a mudar quando conheceu o país mais rico do mundo: pessoas educadas, ruas limpas, lazer e cultura em abundância. Primeiramente ele foi a trabalho; ano passado foi a passeio, levando parte da família. Adoraram, não queriam mais voltar.
Como eu cresci vendo a figura de Che, acostumei-me a olhar os EUA com a desconfiança típica da adolescência. Ela foi diminuindo com o tempo, hoje eu sou obrigado a admitir que os norte-americanos exerceram e exercem grande influência em minha vida. O "american way of life" se transformou no meu modo de vida.
Passei muito tempo em casa vendo filmes e séries da televisão por assinatura, a grande maioria de origem norte-americana. Música também, a maioria dos EUA. Aprendi a língua inglesa com facilidade, enquanto o espanhol talvez eu nunca aprenda. Sempre gostei de fast food e costumo dizer que os melhores carros e guitarras são produzidos por eles.
Nisso me assemelho a George Patton, retratado neste premiado longa de 1970. O começo do filme mostra o discurso feito pelo general aos soldados no dia anterior ao Dia D: "We have the finest food, equipment, the best spirit and the best men in the world. You know, by God, I actually pity those poor bastards we're going up against. By God, I do." 
Outra parte interessante do discurso: "When you were kids, you all admired the champion marble shooter, the fastest runner, big league ball player, the toughest boxer. Americans love a winner and will not tolerate a loser. Americans play to win all the time." Certa vez, durante um jogo de tabuleiro com cinco amigos, um deles comentou: "A gente joga para se divertir, o Tiaraju joga para ganhar, e só." Ora, mas não é sempre esse o objetivo?!
Quando tinha 12 anos, foi feita uma votação na minha sala de aula para o líder de turma; para minha surpresa, fui o segundo mais votado, ficando então como vice-líder. Comentei a novidade para meu pai e ele, sorrindo, perguntou-me quem era o vice-presidente do país. Respondi corretamente e ele, que esperava que eu não soubesse essa informação, explicou-se: "Só tu sabes isso; tens que ser o líder, não o vice."
Não vi maldade dele na época ou agora; se hoje exerço uma liderança, é por que acreditaram em mim. Ele sempre nos estimulou a praticar esportes e a sermos vencedores; Pete Sampras e André Agassi, ambos tenistas norte-americanos, eram frequentemente admirados por suas conquistas. No entando, essa ênfase na vitória aumenta o peso da derrota, sendo muitas vezes um momento desolador.
Minha cena preferida ocorre quando, após mais uma declaração infeliz em público, o general aumenta o risco de ficar de fora do desfecho da guerra. A atuação de George C. Scott, que lhe rendeu o Oscar, é espetacular: "I fell I'm destined to achieve some great thing; what, I don't know. But this last incident is so trivial in its nature and so terrible in its effect; it can't be an accident, it has to be the work of God. The last great opportunity of a lifetime, an entire world at war and I'm left out of it?! God will not permit this to happen, I am going to be allowed to fulfill my destiny! His will be done."
Chama-me a atenção três crenças de Patton: reencarnação, tendo ele já participado de várias guerras históricas; destino, sendo ele predestinado a algo grandioso nesta vida; Deus, sendo frequentemente lembrado e solicitado. Ele era um homem de fé, sem dúvida, e conquistou muitas glórias. Embora tenha sido preparado a vida inteira para a guerra, parece-me óbvio que um dos motivos dele ter sido vitorioso foi justamente porque acreditava que o seria.
Minha crítica à obra são duas: a trilha sonora, terrível, que não consigo entender como foi indicada ao Oscar; e as cenas de batalha, muito ruins se comparadas a filmes recentes como o intenso Saving Private Ryan (1998). Claro que em 1970 havia muitas limitações tecnológicas e financeiras, o que não tira o valor do filme, que deve ter sido bastante aclamado na época.
Além de George C. Scott, outros dois atores merecem destaque: Karl Michael Vogler, no papel do marechal alemão Erwin Rommel (as poucas cenas que mostram o comando nazista dão um brilho à narrativa); e Karl Malden, como o general Omar Bradley, que acompanha Patton durante todo o filme. Gosto de uma fala específica dele ao ilustre protagonista, após discordarem sobre uma arriscada ofensiva na Sicília: "There's one big difference between you and me, George. I do this job because I've been trained to do it, you do it because you love it."
* * *
Ontem, ao chegar ao meu local de trabalho pela manhã, notei que uma agente de saúde de outra unidade estava ali e logo perguntei de seu filho. Ele tinha quatro anos e caíra há um mês, batendo a testa em uma madeira com um prego saliente. Resultado: sua pele fora rasgada como papel, num corte horroroso. Felizmente, após alguns minutos de tensão no hospital, consegui fazer os três pontos com sucesso.
"Ele está bem. Acho que nem vai ficar marca" respondeu-me a mãe. Sua resposta realmente me surpreendeu, como o ferimento havia sido feio eu achava que a cicatriz seria notável. Contei-lhe então dois episódios: "Uma vez minha ex-namorada cortou a mão lavando a louça e eu mesmo fiz os pontos, a cicatriz foi mínima e quase não apareceu; na mesma época, uma menina de três anos cortou dois dedos ao prender a mão em uma porta, também fiz os pontos e algumas semanas depois mal dava para notar o corte."
Nunca gostei da Clínica Cirúrgica. Fui um dos únicos da minha sala a não participar dos estágios extra-curriculares de cirurgia, onde normalmente os acadêmicos aprendem a suturar. Aprendi só na décima fase, no internato, sem problemas. Após ver uma de minhas primeiras suturas, o cirurgião responsável pela emergência do hospital comentou satisfeito: "Está ótimo!". Palavras edificantes para um aprendiz.
Não gosto de suturar e nem de atender crianças. Os dois juntos, então, é uma tragédia para todos: para a criança, que se desespera do começo ao fim e invariavelmente precisa ser contida à força; para a mãe, que se desespera junto, eventualmente passando mal; e para mim, que tenho uma única chance de fazer o procedimento de forma perfeita apesar de toda a emoção circulante. Caso eu falhe, a criança jamais será a mesma. 
Faço não porque amo, mas porque fui treinado para. Como o bom general Bradley.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Chefia


Um dos problemas de ser funcionário público é que geralmente trabalhamos em horário comercial. Ontem necessitei de uma folga no período da tarde para ir ao banco, distante 50km da cidade onde trabalho, aproveitando ainda para buscar a documentação necessária para um concurso que passara recentemente onde moro.
No dia anterior, conversei com a enfermeira sobre a possibilidade do abono e o fiz da melhor maneira possível; havia bastante gente na sala de recepção e, antes de tudo, a chamei de "Chefe". Expliquei o que tinha que fazer e disse que poderia voltar às 16h para efetuar os atendimentos da tarde. Ela, implacável, calculou: "15:30 dá para estar de volta." Aceitei após alguns segundos de reflexão; era possível e, mais importante, eu estava de bom-humor.
No dia seguinte, transcorreu tudo perfeitamente: não peguei trânsito, pouco fila no banco, nenhuma fila no cartório, fórum, justiça eleitoral ou no departamento de recursos humanos da prefeitura. Consegui chegar ao expediente antes do horário previsto, o que foi providencial devido aos vários pacientes que me aguardavam.
Fazendo uma análise, vejo que minha satisfação em chamá-la de "Chefe" não provém somente da minha mania de bajular ou de uma associação à figura materna. Poucos dias antes, eu havia participado de um jantar onde um dos assuntos da noite fora as oscilações de humor do chefe; não pude comentar nada, eu não tinha uma chefe.
Como médico, acostumei-me a ditar o andar da carroagem. Se não estou satisfeito, simplesmente escolho onde vou trabalhar. Sou o chefe, não há opção porque não tenho substitutos e sou necessário em vários lugares. Porém, como gosto de lembrar, "grandes poderes vêm com grandes responsabilidades"...
Hoje atendi mais uma suspeita de infarto agudo do miocárdio. Solicitei o eletrocardiograma e, embora eu suspeite que todas as pessoas presentes, inclusive o paciente, esperassem pelo pior, afirmei: "a princípio, você não está infartando." Não foi algo fácil de dizer.
Não é fácil ser o centro das atenções, não é fácil ser o único capaz de interpretar um eletrocardiograma em uma situação de emergência. A adrenalina faz um estrago no organismo e no espírito, a culpa de errar e o risco do erro nos consome diariamente. Há um preço, sem dúvida.
Recentemente voltei a trabalhar em uma unidade de saúde e pedi desculpas a recepcionista por todas as vezes que eu agira com estupidez. Ela sorriu e respondeu: "Tudo bem, só aconteceu uma vez." Palavras significativas, partiram meu coração. Eu fora rude com ela, fato; nada mudaria isso, nada que eu pudesse fazer. O passado está escrito, essa é nossa sentença maior.

domingo, 2 de setembro de 2012

Dois Lembretes


Aconteceram essa semana, após dois atendimentos.
O primeiro foi um senhor de 40 anos. Ao chamar o paciente anterior, notei que ele estava em pé, em frente ao consultório, apontando para o relógio com o dedo indicador. Imaginei se era alguma indireta, mas, como estava de bom-humor, não esbocei nenhuma reação. Ele, talvez envergonhado, caminhou em outra direção.
Ao atendê-lo, notei que se tratava de um humilde agricultor de origem européia, como boa parte da população local. Não noto nenhuma agressividade por parte dele e o atendo normalmente. Estava de bom-humor, tudo bem ele estar impaciente. Enquanto eu faço sua receita, ele pede um medicamento para o controle de convulsões, em uso há anos após "meu pai dar uma machadada na minha cabeça".
Ele diz isso abaixando a cabeça e apontando para a região parietal direita. Sua voz muda ao falar de seu passado, imagino que ele confiara em mim apesar de ser nosso primeiro encontro. O interior do estado é relativamente violento, sendo comum agressões com armas brancas. Pergunto se fora durante uma briga e ele me responde que não, seu pai sofria de demência. "Menos mal" penso comigo mesmo.
Em seguida, ele comenta que não gostara do atendimento de outro médico, mas que gostara do meu. Sua esposa trouxera seu filho no início da semana e também me elogiara. Imagino que nada disso aconteceria se eu estivesse mal-humorado, o que não é incomum.
Primeiro lembrete: não importa o que aconteça, não posso ser cruel com as pessoas.
* * *
No mesmo dia, atendo um garoto de 5 anos. Enquanto faço a receita, ele comenta algo com a mãe. Pergunto o que é e ela responde: "ele quer usar o carimbo, mas não pode, pode quebrar." Tento manter a seriedade enquanto continuo a escrever, cedendo após alguns segundos: "pode usar aqui nesse papel, segura bem no meio do carimbo." Essa foi a dica que recebi ao pegá-lo em dezembro de 2008.
Após o uso, comento "olha só" e mostro para a mãe, complementando: "perfeito." Pergunto o que ele pretendia ser quando crescesse e, após a óbvia resposta, dou a dica: "vai ter que estudar bastante." A mãe, orgulhosa, enfatiza: "é mesmo, vai ter que estudar muito."
Prefiro atender adultos, não tenho vocação para ser pediatra; mas confesso que, de maneira geral, consigo atender bem os pequenos. Segundo lembrete: posso não gostar de crianças, mas algumas gostam de mim. "Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades."