No final do mês passado, fui visitar familiares em São Francisco do Sul e, na volta, enquanto dirigia meu carro, deparei-me com um cão que agonizava na pista contrária. A estrada que liga a cidade histórica à BR-101 é bastante movimentada; neste trecho, a velocidade do tráfego era em torno de 50km/h, o que me permitiu que observasse com clareza a triste cena.
Era um cachorro de médio porte, preto, que permanecia deitado com a cabeça imóvel no asfalto. Uma única pata dianteira se mexia e fui tomado por um súbito mal-estar. Uma kombi se aproximou no sentido contrário e, provavelmente com o motorista tomado pelo mesmo sentimento, desviou pelo acostamento, evitando nova agressão.
Um caminhão veio em seguida e, pelo retrovisor, pude ver que ele passara em cheio pelo animal com suas fileiras de rodas duplas, pondo fim ao sofrimento. Senti um alívio, embora ainda tocado pela ocorrência; eu não teria a coragem do caminhoneiro, eu também teria desviado pelo acostamento e o cão continuaria vivo por mais alguns instantes.
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Ano passado, acompanhei uma paciente terminal no hospital onde trabalhava; ela estava internada sob responsabilidade de um colega, mas, quando piorou, fui chamado pois era o meu plantão. Chegando no quarto, descubro que o médico decidira retirar toda a medicação naquele dia, pois ela não tivera nenhuma melhora e continuava a piorar.
Embora soubesse que se tratava de um caso difícil, achava que pelo menos os recursos disponíveis ali deveriam ser aproveitados ao máximo e, a princípio, não gostei da decisão. Examinei-a e, constatando o óbvio, com um nó na garganta, comecei a explicar aos familiares que ela estava morrendo, tendo no máximo mais algumas horas. Para minha surpresa, eles compreenderam a situação prontamente.
Disseram que já haviam conversado com o outro médico, que entendiam que ela estava sofrendo e que não era certo prolongar sua dor se não havia chances de melhora. Embora ela estivesse inconsciente, falei que prescreveria uma dose de morfina para assegurar que não tivesse nenhum tipo de dor ou desconforto, o que também foi bem aceito.
Mais tarde, quando fui me despedir, encontrei uma das filhas falando ao ouvido da paciente; eu disse que um outro colega estava vindo para o plantão noturno e a neta comentou: "Tomara que ele seja tão bom quanto você." Eu não fizera nada demais, mesmo assim, sendo honesto e demonstrando interesse real pela paciente, consegui desenvolver uma boa relação com sua família. "Pelo menos, isso."
No caminho para casa, entendo que meu colega tomara a decisão certa. Ele não desistira da paciente, apenas teve a coragem de admitir sua impotência perante o quadro que se tornou claramente irreversível. Se fosse minha paciente, acredito que teria seguido o caminho mais covarde e senti um alívio por ela estar sob responsabilidade dele, não minha.