domingo, 24 de março de 2013

Eutanásia


No final do mês passado, fui visitar familiares em São Francisco do Sul e, na volta, enquanto dirigia meu carro, deparei-me com um cão que agonizava na pista contrária. A estrada que liga a cidade histórica à BR-101 é bastante movimentada; neste trecho, a velocidade do tráfego era em torno de 50km/h, o que me permitiu que observasse com clareza a triste cena.
Era um cachorro de médio porte, preto, que permanecia deitado com a cabeça imóvel no asfalto. Uma única pata dianteira se mexia e fui tomado por um súbito mal-estar. Uma kombi se aproximou no sentido contrário e, provavelmente com o motorista tomado pelo mesmo sentimento, desviou pelo acostamento, evitando nova agressão.
Um caminhão veio em seguida e, pelo retrovisor, pude ver que ele passara em cheio pelo animal com suas fileiras de rodas duplas, pondo fim ao sofrimento. Senti um alívio, embora ainda tocado pela ocorrência; eu não teria a coragem do caminhoneiro, eu também teria desviado pelo acostamento e o cão continuaria vivo por mais alguns instantes.

* * *

Ano passado, acompanhei uma paciente terminal no hospital onde trabalhava; ela estava internada sob responsabilidade de um colega, mas, quando piorou, fui chamado pois era o meu plantão. Chegando no quarto, descubro que o médico decidira retirar toda a medicação naquele dia, pois ela não tivera nenhuma melhora e continuava a piorar.
Embora soubesse que se tratava de um caso difícil, achava que pelo menos os recursos disponíveis ali deveriam ser aproveitados ao máximo e, a princípio, não gostei da decisão. Examinei-a e, constatando o óbvio, com um nó na garganta, comecei a explicar aos familiares que ela estava morrendo, tendo no máximo mais algumas horas. Para minha surpresa, eles compreenderam a situação prontamente.
Disseram que já haviam conversado com o outro médico, que entendiam que ela estava sofrendo e que não era certo prolongar sua dor se não havia chances de melhora.  Embora ela estivesse inconsciente, falei que prescreveria uma dose de morfina para assegurar que não tivesse nenhum tipo de dor ou desconforto, o que também foi bem aceito.
Mais tarde, quando fui me despedir, encontrei uma das filhas falando ao ouvido da paciente; eu disse que um outro colega estava vindo para o plantão noturno e a neta comentou: "Tomara que ele seja tão bom quanto você." Eu não fizera nada demais, mesmo assim, sendo honesto e demonstrando interesse real pela paciente, consegui desenvolver uma boa relação com sua família. "Pelo menos, isso."
No caminho para casa, entendo que meu colega tomara a decisão certa. Ele não desistira da paciente, apenas teve a coragem de admitir sua impotência perante o quadro que se tornou claramente irreversível. Se fosse minha paciente, acredito que teria seguido o caminho mais covarde e senti um alívio por ela estar sob responsabilidade dele, não minha.

sábado, 23 de março de 2013

A Tribute to Alkaline Trio (2011)


Com 39 grupos/artistas que devem ser verdadeiros fãs do trio alcalino, esta coletânea é inevitavelmente um belo exemplo da qualidade das composições de Matt e Dan. Uma seleção heterogênea, com altos e baixos, que nos apresenta grandiosas obras de arte; comentarei minhas sete preferidas:
Bleeder - The Material   Sétima faixa do primeiro disco, parece-me ser a melhor produzida. Mais criativa que a versão original e com uma execução perfeita, inicia-se com a bela voz de Colleen D'Agostino Moreaux: "You come to me like a dream, the kind that always leaves; as the best part starts, it ends so abruptly and leaves you stunned and naked in your bedroom all alone. It’s kinda funny how something so soothing gets interrupted by the ring of a telephone..."  
Goodbye Forever - Joe Wilson   Na sequência, temos este clássico que agora é conduzido por violões, piano e uma discreta percursão. O solo com slide me lembra o álbum More Betterness do No Use For a Name, o último com o guitarrista Jake Jackson (hoje no Foo Fighters). As diversas linhas do vocal de Joe são amplas e entonam o refrão de Skiba: "And we say goodbye and go underground or up towards the sky, up in smoke burnt down to size. At least we're still friends, at least we're still alive."
Southern Rock - I Can Make a Mess Like Nobodys Business   Ainda na sequência, temos dois violões e muitos vocais de Ace Enders, conduzidos por dois inpirados bongôs. Essa foi uma das músicas que ficou "gravada" no meu inconsciente quando passei a ouvir o álbum com mais frequência; em silêncio, dirigindo, por exemplo, vinha-me a frase musical: "And that will be me someday, with stolen wings and evil ways. Straight south with the keys to the pearly gates..."
Maybe I'll Catch Fire - My Arcadia   Seguindo a linha de boa produção e execução impecável da faixa 7, essa foi a primeira música que chamou minha atenção quando conheci o álbum. Peca apenas por diminuir o ritmo da música que significamente dá nome a um dos primeiros álbuns do trio. O refrão parece fazer alusão a alguma substância que é fumada: "And maybe I'll catch fire, something warm to hold me, something pure to burn away the darkness that hides inside my mind. All that evil shit's not hard to find, I guess I only claim to be nice."
Sun Dials - August Premier   Imagino a introdução dessa música sendo trilha sonora de alguma propaganda de banco, mostrando famílias, casas e planos futuros. Apesar da melodia calma e segura, a letra é pouco tranquila: "And we fought like soldiers, but we died.. we died like flies." Destaque para a sintonia da banda, que nos apresenta um dos melhores instrumentais da coleção.
Another Innocent Girl - Rattlesnake Gunfight   Nunca achei que eu fosse gostar de um típico country norte-americano, mas esse ficou genial (o que não é surpresa, tendo em vista a autoria de Dan Andriano). Com bateria, violões, um banjo e um slide bem tocados, a canção empolga do começo ao fim e só tem o defeito do vocal estar com pouco volume. 
She Took Him To The Lake - Koji   Uma das versões mais simples, apenas um violão e uma voz, evetualmente dobrada. Novamente é notável como a poesia de Dan Andriano soa bem sob outro intérprete: "Do you remember the story of the boy and his first date? She took him to the lake and he fell in love. She spent one summer waking up between his arms, she told him how good that felt, told him he was the one. And then she went away, his calls were not returned. He went to see her, but her eyes were burning a different stare. The focus was somewhere else and that feeling had somehow disappeared. Do you remember when they both drove out of state? Stealing kisses behind her cousins back, with a love so strong, tell me who could wait? When it seems so right and it feels so right, then it had to be right..."
"To end this long winded rant I want to say that ultimately this tribute was made with the idea that maybe one of these 39 songs would turn at least one person, who may not have heard of Alkaline Trio, or maybe hadn't given them a chance, into a true fan of their work. Or with a little luck, maybe a fan of Alkaline Trio will find their next favorite artist hidden among the 39 various acts that contributed their hard work and talents to this project." Site da Pacific Ridge Records