terça-feira, 3 de abril de 2018

Laços de Família - parte 8


Juntamente com o Natal, a Páscoa costumava ser uma época em que a minha família paterna se reunia na casa de meu avô, no noroeste gaúcho. Ano passado, meu pai convidou seus filhos para um almoço na sexta-feira santa em Garopaba; ao amanhecer de sábado, parti em direção a Três Passos. Cheguei à tarde na casa de meu tio que, emocionado, disse que agora iria ao meu casamento, marcado para o final de maio. Outro tio, no telefone com meu avô, também achou notável meu trajeto de 800km para estar ali. 
Depois do churrasco, sentamos ao redor de uma mesa colocada na varanda para um tradicional jogo de pontinho. Perfeitamente lúcido, meu avô participou do carteado, bebendo chope e se divertindo conosco. Lembro que, naquele momento, pensei comigo mesmo que a viagem valera a pena. Apenas um ano depois, parece ser uma lembrança distante; foram tantas mudanças, a sensação é de que se passou uma década desde então. 

* * * 

Em julho, recebi uma ligação de meu tio avisando que meu avô havia descoberto um tumor hepático; ele já estava ictérico e debilitado, sendo descartado qualquer forma de tratamento. Era sexta-feira, eu estava me dirigindo para um plantão de 36 horas na UPA; tentei trocar pelo menos as últimas 12 horas, mas como já era esperado, não consegui. Dormi algumas horas na manhã de domingo e à tarde me dirigi a Três Passos, onde meu avô internara. Ao anoitecer, exausto e temendo um trecho sinuoso de mais 150km, parei para descansar em um hotel. De madrugada, meu tio informou o falecimento do patriarca. 
No velório, surgiu a desconfiança de que ele já sabia que estava doente. Sua companheira relatou que sempre o acompanhava nas consultas médicas, exceto nos últimos meses, quando ele pediu para ir sozinho. Imagino que um simples exame de sangue e ultra-som já apontaria o diagnóstico provável, qualquer médico poderia fazer essa avaliação. Meu pai comentou que não faria sentido ele esconder isso, respondi quase sem pensar: “Eu faria o mesmo.” Sem dúvida, se eu descobrisse que iria morrer, esconderia até o último instante. 
Meu primo o havia visitado alguns dias antes e na despedida, notou que ele estava com um olhar triste: “O que o vô está pensando?” “Estou pensando que eu queria ser um beija-flor, para sair voando por aí.” Lembrando depois, no meu casamento, ocorrido dois meses antes, ele estava com um semblante de despedida. Foi a última vez que o vi, em mais um golpe de sorte que a vida me proporcionou. 

* * * 

Dois dias depois do enterro, o tio que morava em Três Passos internou com um quadro de AVC. No pátio do hospital, antes de sair do meu carro, ele me confessou, ainda lúcido: “Essa é a primeira vez que eu vou internar.” Ele teve uma piora rápida, evoluindo com hemiplegia e afasia. Meu prognóstico era péssimo, mas o neurologista foi mais otimista; felizmente, eu estava errado. Houve uma melhora progressiva do quadro clínico, superando bastante minhas expectativas. 
Passei a virada de ano com eles, contrariando a tendência de passar no agito do litoral. Uma noite, eu e meu primo estávamos esperando uma pizza na praça e ele me perguntou se eu gostava de Três Passos. Respondi que sim, que ali era um lugar tranquilo. Embora, há alguns anos, ele abominasse a idéia de ficar na região, ele comentou que também gostava da cidade. Para nós, há muitas memórias boas naquele lugar.