Juntamente
com o Natal, a Páscoa costumava ser uma época em que a minha família paterna se
reunia na casa de meu avô, no noroeste gaúcho. Ano passado, meu pai
convidou seus filhos para um almoço na sexta-feira santa em Garopaba;
ao amanhecer de sábado, parti em direção a Três Passos. Cheguei à tarde na
casa de meu tio que, emocionado, disse que agora iria ao meu casamento, marcado
para o final de maio. Outro tio, no telefone com meu avô, também achou
notável meu trajeto de 800km para estar ali.
Depois
do churrasco, sentamos ao redor de uma mesa colocada na varanda para um
tradicional jogo de pontinho. Perfeitamente lúcido, meu avô participou do
carteado, bebendo chope e se divertindo conosco. Lembro
que, naquele momento, pensei comigo mesmo que a viagem valera a pena.
Apenas um ano depois, parece ser uma lembrança distante; foram tantas
mudanças, a sensação é de que se passou uma década desde então.
* * *
Em
julho, recebi uma ligação de meu tio avisando que meu avô havia descoberto um
tumor hepático; ele já estava ictérico e debilitado, sendo
descartado qualquer forma de tratamento. Era sexta-feira, eu estava me
dirigindo para um plantão de 36 horas na UPA; tentei trocar pelo menos as
últimas 12 horas, mas como já era esperado, não consegui. Dormi algumas horas
na manhã de domingo e à tarde me dirigi a Três Passos, onde meu avô
internara. Ao anoitecer, exausto e temendo um trecho sinuoso de
mais 150km, parei para descansar em um hotel. De madrugada, meu tio
informou o falecimento do patriarca.
No
velório, surgiu a desconfiança de que ele já sabia que estava doente. Sua
companheira relatou que sempre o acompanhava nas consultas médicas, exceto nos
últimos meses, quando ele pediu para ir sozinho. Imagino que um simples
exame de sangue e ultra-som já apontaria o diagnóstico provável,
qualquer médico poderia fazer essa avaliação. Meu pai comentou que não faria
sentido ele esconder isso, respondi quase sem pensar: “Eu faria o mesmo.” Sem
dúvida, se eu descobrisse que iria morrer, esconderia até o último instante.
Meu
primo o havia visitado alguns dias antes e na despedida, notou que ele estava
com um olhar triste: “O que o vô está pensando?” “Estou pensando que eu queria
ser um beija-flor, para sair voando por aí.” Lembrando depois, no meu
casamento, ocorrido dois meses antes, ele estava com um semblante de despedida.
Foi a última vez que o vi, em mais um golpe de sorte que a vida me
proporcionou.
* * *
Dois
dias depois do enterro, o tio que morava em Três Passos internou com um quadro
de AVC. No pátio do hospital, antes de sair do meu carro, ele me confessou,
ainda lúcido: “Essa é a primeira vez que eu vou internar.” Ele teve uma
piora rápida, evoluindo com hemiplegia e afasia. Meu prognóstico era
péssimo, mas o neurologista foi mais otimista; felizmente, eu
estava errado. Houve uma melhora progressiva do quadro clínico, superando
bastante minhas expectativas.
Passei a
virada de ano com eles, contrariando a tendência de passar no agito
do litoral. Uma noite, eu e meu primo estávamos esperando uma pizza
na praça e ele me perguntou se eu gostava de Três Passos. Respondi que
sim, que ali era um lugar tranquilo. Embora, há alguns anos, ele
abominasse a idéia de ficar na região, ele comentou que
também gostava da cidade. Para nós, há muitas memórias boas naquele
lugar.
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