quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Red Hot Chili Peppers - Stadium Arcadium (2006)

Em 2009, participei de uma entrevista para uma rádio de Joinville. Eu fazia parte de uma "beatles band" e nos apresentaríamos depois na cidade. Uma das perguntas foi "o que cada um está escutando atualmente?" Minha resposta: Stadium Arcadium. Complementei dizendo que gostava especialmente da fase após o monumental Californication de 1999, que marcava a volta de John Frusciante.
Este é último álbum com o guitarrista, considero o auge do auge desse "fab four" moderno. Único disco duplo da extensa carreira, lembra outros "auges duplos" como o Mellon Collie And The Infinite Sadness (Smashing Pumpkins, 1995) e o White Álbum (The Beatles, 1968). Uma explosão criativa impossível de ser contida em um disco apenas, uma explosão criativa com a assinatura inigualável de John.
Lançado na época em que eu estava na faculdade, fui perguntado por um colega de turma (um verdadeiro amante da música) sobre o álbum, comentei que lembrava o John Frusciante carreira solo (ele lançou 13 discos entre 1994-2013). Após alguns segundos de reflexão, ele concordou repetindo minhas palavras em tom de descoberta: "Parece o John Frusciante solo." A faixa Desecration Smile me é um exemplo claro disso.
Aqui o vocal de Frusciante nunca se mostrou tão presente, como na balada Strip My Mind, que considero um "single não lançado", como outras baladas do disco 1, Júpiter: Slow Cheetah, Wet Sand e Hey. Esta última caminha em direção ao Jazz, imagino que seja o tipo de música que agradaria meu pai, fã do gênero. Mais uma vez, a banda californiana surpreende positivamente.
Júpiter representa grandeza e de fato o disco 1 faz juz ao nome. As cinco primeiras músicas são bem sincronizadas e lembro que meu colega de turma comentou que a música Stadium Arcadium era sensacional. "And this where I find a way: The Stadium Arcadium, a mirror to the moon. Well, I'm forming and I'm warming to you state of the art, until the clouds come crashing."
Marte representa impulso e batiza o disco 2, ao meu ver, mais introspectivo e denso. Riffs energizados em Ready Made, So Much I e Storm in a Teacup (esta última me lembrando a coleção de 1995 com Dave Navarro na guitarra, One Hot Minute). Melancolia nas baladas She Looks to Me, If e Animal Bar. Fechando com chave de ouro as portas do planeta vermelho, a sombria Dead of a Martian.
Minha faixa predileta é Torture Me, a oitava de Júpiter  (coincidentemente meu regente astrológico). Uma verdadeira aula musical do quarteto fantástico. Um motivo para esperar ansiosamente pela terceira volta de John Frusciante, o semi-deus que parece não suportar o peso de seu próprio talento. Afinal de contas, quem poderia?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Vinhos

Neste final de semana, fui a uma festa de aniversário e levei alguns vinhos que comprara recentemente na Argentina. Após a segunda garrafa estar no fim, o pai do aniversariante apareceu com mais duas; uma era para tomarmos ali, outra era um presente para mim. Senti-me honrado e degustar agora este excelente Joaquim da Villa Francioni (uma mistura de Cabernet e Merlot, 2006) me impeliu nesta temática.
Ele me disse que tinha cerca de 50 garrafas desse vinho. Imagino que, gostando especialmente desta safra, ele fez questão de guardar um estoque. Apesar de ter sido produzido há 7 anos, ele ainda continua "fresco" e talvez até melhor do que antes. Eis um aspecto interessante desta arte: poder formar "tesouros" de lotes acima da média, estando o apreciador sempre atento aos exemplares mais preciosos.
É um dos melhores vinhos nacionais que já bebi, o cheiro me lembrou um Casilero del Diablo Carmenere 2012 que bebi há alguns dias, presente de meu pai. Já o gosto, lembra bem o característico sabor do Merlot. Um bom exemplar do potencial de São Joaquim, mas com o revés de ser relativamente caro se comparado aos exemplares vendidos em solo argentino.
O primeiro vinho que chamou a minha atenção foi o Finca La Linda - Cabernet Sauvignon, apresentado por meu irmão quando ele morou no extremo oeste catarinense. A safra de 2012 vem com rótulo mais elegante e, apesar de ter baixado o teor alcoólico de 14 para 13,5%, voltou a lembrar as excelentes garrafas de 2008 e 2009. Na divisa com Dionísio Cerqueira-SC, encontra-se este néctar por cerca de R$15.
Outro nome marcante foi o Altos del Plata - Malbec 2009. Certa vez, eu presenteei o dentista que trabalhava comigo e ele me contou, alguns dias depois, que fizera um jantar e convidara um amigo que, conhecido de vinhos, vibrara com este. Já em 2010 e 2011, como me parece ser comum neste ramo, não se manteve a mesma impressão intensa que tive há alguns anos.
Um vinho popular que venho consumindo nos últimos anos é o Latitud 33, recomentando por um tio que, exemplificando sua paixão pela Enologia, batizou seu cachorro de Malbec. Experimentei cinco variedades de 2012 e o Tempranillo me pareceu a opção mais saborosa. Seu preço na Argentina varia de R$11 a R$13, sendo outro exemplo do bom custo-benefício argentino.
O pai do meu amigo aniversariante também é médico e imagino que poder apreciar um bom vinho seja um dos privilégios da nossa classe. Apreciar um bom vinho me faz lembrar de como alguns sacrifícios podem ser recompensados. Durante a festa, um dos comentários foi de que valia a pena investir dinheiro em comida de alto padrão; obviamente, penso o mesmo sobre vinhos.

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Durante a ocupação nazista da França, Hitler limpou centenas de adegas que, em tempos de guerra, eram especialmente valiosas:
"O vinho saqueado servia para acalentar os soldados. Os alemães distribuíam uma cota diária da bebida a seu exército e tinha por objetivo dar ânimo e aproximar os soldados de casa (...)
Mas ainda faltava uma coisa para os franceses, que era recuperar o seu maior tesouro roubado: os vinhos. A busca das tropas aliadas pelo ‘Ninho da Águia’, a residência de Adolf Hitler em Berghof, nos Alpes Bávaros, levou os franceses a encontrarem um tesouro inestimável: quadros, esculturas e os grandes rótulos franceses que haviam sido confiscados. Na cave estavam meio milhão de garrafas dos mais excelentes vinhos fabricados em Bordeaux, Borgonha e Champagne." http://www.avindima.com.br/?p=646

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Pais

Meu pai conheceu minha mãe em uma agência bancária de São Paulo, onde ela era caixa. Algumas semanas depois, ela abandonou sua promissora carreira e, casando-se, mudou-se para o interior do Mato Grosso do Sul, onde ele iniciaria um novo projeto como geólogo. Sem dúvida, uma decisão ousada no final da década de 70.
Já ouvi algumas vezes de meu pai sobre o dia em que ele conheceu seu sogro. Ele havia ido de carona com um amigo, que permanecera na frente da casa, caso fosse necessária alguma fuga rápida. Por duas horas, meu pai esperou sentado no sofá da sala, meu avô não queria vê-lo. O clima era obviamente tenso.
Quando finalmente apareceu, o patriarca disse, a contra-gosto, que não adiantava dizer não, a Lilú era teimosa e iria de qualquer jeito. Foi organizada uma pequena festa de casamento, lembro de uma foto deles cortando o bolo. Com o tempo, o jovem galanteador provou ser um bom marido e pai. Minha mãe viveu um casamento pleno até sua morte precoce em 95.

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Na semana do dia dos Pais, voltávamos da casa do meu sogro quando começou a tocar, no som do carro, o álbum (What's The Story) Morning Glory? da banda inglesa Oasis. Comentei que tinha sido um dos primeiros álbuns que escolhera ganhar de presente, em meados de 96. Após alguns instantes de reflexão, completei: "Que infância feliz, eu ganhava CDs de presente."

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Quando decidi casar, escolhi morar em uma cidade próxima de meu sogro. Ele mesmo comentou na semana dos Pais, quando falávamos de uma conhecida que iria fazer vestibular para Medicina: "Médico arranja emprego em qualquer lugar."  Diferente de meu pai, eu poderia manter uma certa proximidade. Na minha eterna competição paterna, pareço estar na frente; pelo menos, por  algum tempo.

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No dia dos Pais, fui para minha cidade natal e, de maneira incomum, fomos almoçar no restaurante que fica em frente ao apartamento da família. O restaurante estava lotado, meu pai parecia satisfeito em exibir sua família. Conhecidos o cumprimentavam. Minhas meia-irmãs também estavam presentes. Há alguns anos, eu me dei conta da paternidade que algumas pessoas exercem incessantemente e tenho me sentido abençoado desde então.

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"Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de se sentir protegido por um pai." Sigmund Freud