Logo nos primeiros dias, fiz uma pesquisa sobre a origem delas, que remete à Guerra do Contestado (1912-1916). Após a vitória do exército brasileiro, o povoado foi dividido em dois, tendo como marco o trilho que atravessava o seu centro. Foi a solução para o impasse entre os dois estados: Paraná ficou com União da Vitória, Santa Catarina com a recém-criada Porto União. Situação similar ocorre na divisa com a Argentina, onde temos Dionísio Cerqueira-SC e Barracão-PR, formando um único núcleo urbano.
É notável a violência do conflito: em quatro anos, nove mil casas foram queimadas e vinte mil pessoas foram mortas. A figura do terceiro líder messiânico, José Maria de Santo Agostinho, também chama a atenção: nascido na capital paranaense em 1889, morreu em Irani-SC na batalha que deflagrou a guerra em 1912. Ele ficou famoso no ano anterior, ainda jovem, com pouco mais de vinte anos.
"Um dos fatos que lhe granjearam fama foi a presunção de ter ressuscitado uma jovem (provavelmente apenas vítima de catalepsia patológica). Supostamente também recobrou a saúde da esposa do coronel Francisco de Almeida, acometida de uma doença incurável. Com este episódio, o monge ganha ainda mais fama e credibilidade ao rejeitar terras e uma grande quantidade de ouro que o coronel, agradecido, lhe queria oferecer.
A partir daí, José Maria passa a ser considerado santo: um homem que veio à terra apenas para curar e tratar os doentes e necessitados. Metódico e organizado, estava muito longe do perfil dos curandeiros vulgares. Sabia ler e escrever e anotava em seus cadernos as propriedades medicinais das plantas encontradas na região. Com o consentimento do coronel Almeida, montou no rancho de um dos capatazes o que chamou de farmácia do povo, onde fazia o depósito de ervas medicinais que utilizava no atendimento diário, até horas tardias da noite, a quem quer que o visitasse."
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Costumo comentar em meu local de trabalho que eu nunca conheci um lugar como este. Tentarei enumerar os motivos de maneira lógica, em ordem cronológica, com o início ocorrendo há três meses:
1- Durante uma consulta, uma das gavetas da minha mesa, que estava entreaberta, fecha sozinha, fazendo até o barulho de batida ao final. Não ligo para o ocorrido.
2- Dias depois, entro no consultório pela manhã e as paredes estão repletas de pequenos insetos. A enfermeira vem me trazer as fichas de atendimento e também nota a ocorrência, concluindo que a luz poderia ter ficado acesa durante a noite. Respondo que não, eu tinha certeza que havia desligado ao sair no dia anterior e estava desligada quando entrei. Como se fosse algo normal, ela me explica que era comum os funcionários passarem à noite por ali e verem as luzes acessas. "De manhã, está tudo apagado."
3- Faço perguntas na cozinha, onde nos reunimos para tomar café. Mesma reação: todos agem como se fosse algo normal e muitas histórias aparecem. Certa vez, a máquina de lavar estava funcionando quando foram abrir a unidade. A funcionária disse que sempre tira a máquina da tomada e ela tinha certeza que o tinha feito no dia anterior.
4- Uma ex-residente de uma casa em frente ficava até meia-noite fumando na varanda, enquanto esperava o marido. Ela relatou que diversas vezes ouviu passos e viu as luzes se acendendo e se apagando, como se alguém estivesse circulando ali dentro.
5- Há um alarme que é acionando ao fim do expediente, às 17 horas. Certa vez, a central de monitoramento ligou para uma das funcionárias dizendo que o alarme estava desligado, ela respondeu que não voltaria à unidade porque tinha certeza que o havia ligado. "No outro dia pela manhã, ao entrar, o alarme estava ligado." Apesar dessa ocorrência, o sensor de movimento nunca indicou a presença de algum intruso.
6- Volto para examinar a gaveta. Concluo que ela até poderia abrir sozinha, mas não fechar. Nunca mais a deixei entreaberta.
7- Portas pesadas se fecham sozinhas. Uma das recepcionistas relata que viu a porta da sala do raio-x fechar sozinha com a maçaneta se movimentando. Não havia ninguém na sala e outras duas funcionárias também presenciaram a cena.
8- Frequentemente vemos luzes acessas quando passamos pela avenida à noite. Certa vez, contei pelo menos quatro recintos diferentes iluminados.
9- Costumo voltar para casa no intervalo do almoço e, um dia, fui voltar para o trabalho e encontrei uma das luzes internas do carro ligada. Eu não poderia ter esbarrado acidentalmente, já que o botão fica no teto. Alguns dias depois, volto do jantar e encontro as luzes da sala do meu apartamento acessas, que acredito nunca ter esquecido de desligar.
10- Há algumas semanas, no começo da manhã, umas das enfermeiras foi até a cozinha com cara de assustada, informando que o computador onde o cardiologista realiza o teste de esforço estava ligado. Detalhe: a sala fica trancada e ela foi a última a sair, tendo certeza que estava tudo desligado. Segundo ela, seria impossível o dispositivo ligar sozinho por conta de uma descarga elétrica, por exemplo.
11- Existem muitos relatos de "atividades paranormais" em outras repartições públicas das cidades irmãs. Um dos mitos é que o cemitério de União da Vitória, que fica em um local central, já teve vigias noturnos, mas não atualmente, pois ninguém aguenta o serviço. Recentemente, um video gravado por um celular mostrou barulhos vindos de uma escola durante a madrugada. Uma das teorias é que um coelho em uma jaula de metal estaria provocando os sons, eu duvido.
12- Nas últimas semanas, a lâmpada do meu consultório começou a falhar, juntamente com outras salas. Uma das hipóteses é que o sistema elétrico desses locais está ligado ao raio-x, que, quando em uso, provoca os apagões. O que ninguém explica é porque essa anomalia só iniciou agora, se o raio-x está em funcionamento há meses.
13- Semana passada, a enfermeira interrompe uma consulta pedindo meu auxílio, pois um senhor de setenta e sete anos, cardiopata, desmaiara no corredor da unidade. Não foi possível aferir a pressão arterial (ao olhar o movimento da seta do esfigmo, percebi que ele estava chocado). Informo minhas colegas que o paciente estava morrendo, orientando a administração imediata de soro fisiológico e a vinda do serviço de emergência para a transferência até o hospital. Enquanto isso, eu ligaria para comunicar o plantonista. Ao retornar, observo o soro fluindo bem; o pulso voltara, embora bradicárdico, ele recobrara a consciência. Os bombeiros chegaram em seguida, ele foi internado sem complicações e, até o momento, minha previsão nefasta não se concretizou. Talvez um milagre tenha ocorrido.
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Acho notável como as pessoas insistem em ser céticas perante os acontecimentos. Algumas questionam se apenas não estão tentando me assustar, já que demonstro bastante interesse no assunto. Eu sempre as lembro do evento inicial, a gaveta se fechando, antes que eu soubesse do histórico do local. Outras lembram que a fiação elétrica é antiga, podendo ser um simples mal-contato. Eu respondo que sim: "um mal-contato com o além!"
A doutrina espírita sugere que espíritos inferiores, pouco evoluídos, podem produzir tais fenômenos, sem que haja alguma importância ou significado especial. Não acredito que "eles" prejudiquem meu trabalho, que aparentemente continua sendo satisfatório. Já ouvi comentários que o nosso ambiente é "carregado", mas isso provavelmente decorre das próprias relações disfuncionais entre os integrantes da equipe que, por ser extensa, favorece a discórdia.
Uma tese corrente é que uma ex-funcionária, falecida há mais de uma década, tinha uma ligação muito forte com a unidade e por isso permanecera ali. Embora eu não descarte essa possibilidade, acredito que as cidades possuam alguma singularidade que favoreça a atividade espiritual. Talvez seja uma questão puramente geográfica, talvez um resquício histórico da grande guerra; prefiro pensar que aqui exista algum magnetismo ímpar, não gosto da idéia de viver em meio a espíritos presos em agonia.
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Ontem uma colega lembrou do paciente que desmaiara, informando que ele recebera alta do hospital. Tive vontade de dizer que achava o episódio um milagre, mas mantive a postura e apenas expressei minha felicidade por ele estar vivo. Talvez eu tenha tido ajuda de "forças especiais", talvez os bons espíritos não tenham me abandonado. Se nada acontece por acaso, suponho que esses eventos, no mínimo, tenham servido para fortalecer a minha fé.
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Embora eu tenha estudado sobre os três monges na época do vestibular, só agora adquiri real interesse sobre suas trajetórias. Eles foram "curandeiros" que peregrinaram pelo interior de Santa Catarina em diferentes épocas: o primeiro, João Maria, apareceu em 1844; o segundo, também João Maria (!), em 1893; o terceiro, José Maria, em 1911. Confesso que me identifico com eles e, de vez em quando, tenho a sensação de estar fazendo um pouco de história também.