terça-feira, 24 de novembro de 2015

Histórias

Há mais de vinte anos atrás, minha mãe reuniu sua prole e contou uma história sobre a família de sua mãe, filha de imigrantes japoneses. Eis o que recordo da narrativa: minha avó era uma das filhas mais novas e, ainda criança, passou por uma tragédia familiar; um irmão chutou as costas de uma irmã, deixando-a paraplégica. Devastados, os pais acabaram morrendo de desgosto. Lembro que meu irmão mais velho questionou essa causa, "como assim, de desgosto?" Ela, porém, não soube explicar melhor a morte de seus avós; fora de tristeza, simplesmente.

* * *

Quando minha avó paterna adoeceu, havia uma suspeita de transtorno de humor; ela, inclusive, estava fazendo uso de um antidepressivo. No entanto, o quadro me parecia uma demência avançada: fala incoerente e déficit cognitivo acentuado, além de dificuldade motora. Mesmo assim, um tio insistiu tanto no diagnóstico de depressão que chegou a convencer os médicos de Porto Alegre, feito que injetou nova esperança na família, embora eu continuasse cético (de fato, a melhora esperada nunca ocorreu).

* * *

Esse tio sofria de uma doença auto-imune de pele. Este ano, sua esposa comentou que o problema devia ter um fundo emocional, pois começara após atritos profissionais em 2010 e se agravara ano passado, após a morte de minha avó. Há cerca de dois meses, ele iniciou com sintomas depressivos associados a um quadro pulmonar incipiente, que enganou dois pneumologistas. Após aparecerem lesões inflamatórias de pele, foi internado já em insuficiência respiratória, tendo o diagnóstico inicial de vasculite pulmonar.
Na UTI, conforme seu estado ia piorando, alguns familiares me perguntaram se eu não achava parecido com o caso de sua mãe. Respondi que não, ela teve um quadro neurológico e ele permanceu lúcido até ser sedado por conta da respiração mecânica. No entanto, após alguma reflexão, concluí que suas patologias tiveram similaridades. Ela pode ter tido uma encefalite auto-imune (talvez desencadeada por fatores emocionais), o que explicaria sua rápida e inexorável piora.
Meu tio provavelmente teve uma pneumonite auto-imune, talvez desencadeada por fatores emocionais; também teve uma evolução catastrófica, sem resposta aos medicamentos. No seu velório, há duas semanas, seus irmãos mais novos lembraram que agora ele estava com a schreiber ("escrivã" em alemão, profissão da matriarca). Embora não tenhamos ascendência germânica, eles foram criados no noroeste gaúcho, o que justifica o carinhoso apelido.

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Seguindo a doutrina espírita, acredito que escolhemos encarnar na Terra, embora não saibamos ao certo o que enfrentaremos. Eu usaria como analogia os soldados da Easy Company, retratados na série Band of Brothers: somos pára-quedistas desembarcando em um território hostil; nossa viagem é imprevisível e pode acabar a qualquer momento, mas temos uma missão cumprir e seguimos em frente. Alguns sobreviverão para contar história.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O Último Plantão

Fiz meu último plantão no final do mês passado, não tendo mais nenhum agendado. Coincidentemente, também era o último plantão do meu colega médico (são dois plantonistas por turno), um senhor com cerca de 50 anos que, apesar de ter conhecido lugares "tenebrosos" na região norte do país, definia nosso PA como um "inferno". Não tive coragem de admitir, mas, em 2013, eu fazia uma definição similar do local: "zona de guerra".
Mês retrasado, em que apenas fiz plantões, devo ter feito menos da metade das horas que meu colega fez. Não sei se ele tem filhos, mas ele contou que era casado; sua mulher, ao saber que ele pararia de trabalhar, perguntou o que então ele faria e obteve como resposta: "Vou ficar em casa, olhando para você." Embora eu me identificasse com o seu "burn out", havia uma diferença clara entre nós: eu ainda não odiava o nosso "front de batalha".
O caso mais grave que atendemos foi trazido pelos bombeiros: uma senhora de 96 anos em crise hipertensiva. Ela chegou gemente, não comunicativa; história de AVC há 10 anos, com piora gradual há 30 dias. Evoluiu com incapacidade para deglutir, parando o uso da medicação anti-hipertensiva. Solicitei um diurético e um analgésico endovenoso, meu colega sugeriu tentar uma medicação via oral, mas discordei. Assim, oficialmente, eu assumia a paciente.
Ela já havia sido levada ao PA no dia interior, mas fora liberada após controle da pressão arterial. Entendendo que provavelmente não haveria uma melhora neurológica substancial, informei a filha que a conduta após estabilizá-la seria solicitar a internação no hospital; isso trouxe um alívio imediato para ela, que também entendia a gravidade do quadro. Após a medicação fazer efeito, a paciente parou de gemer e chegou a ficar um pouco sentada.
Alguns familiares entraram para vê-la, havia um clima de despedida no ar. O clínico prontamente aceitou interná-la e a filha, emocionada, agradeceu dizendo que eu era "um anjo". Ao preencher o prontuário, percebi a semelhança com a trajetória final de minha avó: um declínio neurológico rápido até a perda de funções básicas como andar e comer. Na época, tivemos auxílio na Santa Casa de Porto Alegre; agora, pude fazer o mesmo por outra família.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Carros

Há exatamente um mês, atropelei um cachorro e o Fiesta foi para o conserto. Peguei-o na última sexta-feira, mas a alegria durou pouco; dois dias depois, acendeu uma luz no painel indicando falha mecânica. Evoluiu com dificuldade para ligar, voltando à concessionária. Hoje, ao chegar ao trabalho, comentei com o motorista da prefeitura que amor e ódio são faces de uma mesma moeda: eu amava o meu carro, mas agora o odiava e, assim, já vislumbrava uma troca.
Ano passado, ao comprá-lo, postei repleto de otimismo (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2014/09/o-carro.html); porém, o sinistro me deixou com dúvidas sobre a sua resistência. Atualmente, imagino que atropelar um animal em via expressa seja algo corriqueiro e um carro maior, além de sofrer menos danos, tem melhor estabilidade. Cheguei a cogitar algumas SUVs (meu pai costuma apontá-las como a melhor opção), mas realmente nenhuma me agrada. Não é o meu estilo.
Foi sugerido um Corolla, fiz piada: "Quando chegar aos sessenta anos, penso nele". A escolha mais óbvia seria um Focus ou um Cruze. Embora o primeiro seja a tendência natural, já não tenho mais tanta confiança na montadora; amor e ódio são, de fato, faces da mesma moeda. O segundo é maior e tive uma boa experiência após dirigir o sedan de meu avô por 2500km (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2014/12/road-trippin.html). Uma verdadeira nave.
Pela primeira vez, vislumbro ter um "carrão". O comentário da semana foi que, finalmente, eu estava largando a mania de ter "carro popular". Interessante que eu nunca me importei com o status que um modelo agrega. Optando por carros novos e completos, sempre tive tudo que precisava. Mas tinha um cachorro no meio do caminho. Minha namorada, que não o viu, disse que o impacto foi tão grande que pareceu o atropelamento de uma pessoa.
Embora o carro mantivesse seu funcionamento normal, ao fazer o retorno para uma área urbana, ele perdeu potência e o painel indicou aquecimento do motor. Assim ficamos "encalhados" em uma marginal desconhecida no meio da noite. Fortuitamente, recebemos auxílio em uma casa próxima, onde esperamos o guincho em segurança. Embora não aparentasse, o estrago foi grande: pára-choque, radiador, ar-condicionado, faróis...
Se segurança agora é a questão imperativa, uma terceira alternativa parece razoável: um Golf. Apesar de mais caro, teoricamente é o mais seguro da categoria e, segundo minha namorada, o carro mais bonito do mundo (descendente de alemães, sua família só compra dessa marca). Meu tio materno, feliz proprietário de um Jetta, também ressalta a tecnologia germânica. Segundo um tio paterno, a escolha da mulher tende a ser a mais acertada (!), embora ele não goste do modelo.
Ao pesquisar sobre os hatchs médios, vi que um leitor ironizou as reclamações de alguns motoristas, dizendo que ficaria bastante feliz com qualquer um desses carros (que legalmente não podem circular acima de 120km/h). Meu tio paterno também rebateu as criticas ao motor do Cruze: "Esse pessoal acha que é Fórmula 1 para precisar de motor mais potente?!" Realmente, nessa categoria, qualquer compra parece ser excelente.
Em tempos de crise, acredito que a melhor estratégia seja esperar alguma promoção, sem pressa (suspeito que consiga descontos de até 10% nos próximos meses). Historicamente, as montadoras acumularam grandes lucros, agora parece ser o momento ideal de buscar preços mais baixos. Apesar do azar do incidente, reconheço a minha boa sorte em poder sonhar com uma máquina nova. "Depois da tempestade, vem a bonança." Assim espero.

sábado, 19 de setembro de 2015

Sete Perguntas Estranhas

Uma das melhores leituras dos últimos tempos foi uma tradução do artigo do norte-americano Mark Manson: http://consciencia.ano-zero.com/2015/09/09/7-perguntas/?utm_source=facebook.com&utm_medium=social&utm_campaign=Postcron.com 
O original foi postado há um ano: http://markmanson.net/life-purpose 
Embora se proponha a ajudar a encontrar um propósito de vida, logo no início somos confrontados com a idéia de que essa definição não é clara para ninguém. 
"Mas aqui está a verdade. Nós existimos neste planeta por algum período indeterminado de tempo. Durante esse tempo nós fazemos coisas. Algumas dessas coisas são importantes. Outras não tem importância. E aquelas que são importantes dão à nossa vida significado e felicidade. As coisas sem importância basicamente desperdiçam e consomem nosso tempo."

1- O primeiro questionamento é sobre a necessidade de produzirmos valor com o nosso trabalho. Considero essa passagem brilhante:
"Tudo envolve sacrifício. Tudo tem algum tipo de custo. Nada é prazeiroso ou satisfatório o tempo todo. E assim a questão é a seguinte: que esforço ou sacrifício você deseja suportar? Em última análise, o que determina sua capacidade de dedicar-se a algo com que se importa é sua capacidade de lidar com os aspectos árduos e também suportar os inevitáveis dias difíceis."

2- A segunda questão polariza com a primeira, fazendo uma menção às nossas aspirações infantis, que não incluiam, por exemplo, ambições financeiras. Identifico-me com o exemplo citado pelo blogueiro:
"Quando eu era criança, costumava escrever histórias. Eu sentava no meu quarto sozinho, escrevendo sobre aliens, super-heróis, grandes guerreiros, meus amigos e minha família. Não porque eu quisesse que alguém lesse aquilo, não porque eu quisesse impressionar meus pais ou professores. Mas pelo puro prazer de escrever.
E então, por alguma razão, eu parei. E não me lembro o porquê."

3- A terceira pergunta é sobre nossas paixões. Um exemplo óbvio seria a minha atração pelos jogos de azar: quando estou jogando poker, por exemplo, chego a ficar sem jantar (a principal refeição do meu dia).
"Seja o que for, não busque apenas descobrir quais atividades deixam você desperto a noite inteira, mas busque pelos princípios cognitivos atrás dessas atividades que enfeitiçam você. Porque eles podem ser facilmente aplicáveis em qualquer situação."
Lembrei de uma comparação que fiz em 2013:
"Eu diria que um plantonista está sempre contando com a sorte, preso à expectativa de que tudo dará certo e transcorrerá tranquilamente. Assim como no jogo, desenvolvi a fama de ser 'pé quente' nos plantões, embora obviamente ninguém esteja imune à força do azar. Eventualmente, todo mundo se dá mal."

4- Vivemos em um mundo de aparências, certo? Essa passagem é especialmente provocante:
"Neste exato momento, há alguma coisa que você deseja fazer, alguma coisa que você pensa em fazer, uma coisa que você fantasia em fazer, mas ainda assim você não faz nada. Você tem seus motivos, sem dúvida. E você repete a si mesmo esses motivos ad infinitum.
Mas que motivos são esses? Porque eu posso dizer a você agora mesmo que se esses motivos estão baseados naquilo que os outros vão pensar, então você está ferrando com sua vida em grande estilo."

5- "Como você vai salvar o mundo?"
"Encontre um problema com o qual você se importa e comece a resolvê-lo. Obviamente, você não resolverá os problemas do mundo sozinho. Mas você pode contribuir e fazer a diferença. E esse sentimento de fazer a diferença é, no fim das contas, o mais importante para sua própria felicidade e sensação de propósito."

6- Aqui o autor volta a nos instigar a seguir nossos desejos:
"O que a maioria das pessoas não entende é que a paixão é o resultado da ação, e não sua causa.
Descobrir o que lhe deixa apaixonado pela vida e o que importa para você é um esporte radical, um processo de tentativa-e-erro. Nenhum de nós sabe exatamente o que vai sentir em relação a uma atividade até por fim realmente fazermos essa atividade."

7- "Se você soubesse que irá morrer em um ano a partir de agora, o que você faria e como você desejaria ser lembrado?"
"Qual será o seu legado? Que histórias as pessoas contarão sobre você quando se for? O que seu obituário diria? Haveria algo a ser dito, enfim? Se não houvesse, o que você gostaria que constasse nele? Como você pode trabalhar nessa direção hoje?"

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Pé Quente

Em uma fase de "hiato profissional", voltei a fazer plantões em uma cidade vizinha. Em 2013, postei sobre o local:
"Um dos PAs que venho trabalhando nos últimos meses é referência para mais de 60 mil pessoas. Durante uma plantão diurno de 12 horas, por exemplo, é comum haver mais de uma centena de atendimentos. Apesar de serem dois plantonistas por turno, a demanda é incessante e geralmente meus colegas ficam surpresos quando digo que estou fazendo plantões ali."
Ao reler a postagem, deparei-me com uma passagem que ainda soa atual:
"Decidi não fazer mais plantões a partir do mês que vem, embora ontem mesmo eu tenha lembrado para colegas de trabalho que eu já tomara essa decisão diversas vezes. Uma delas comentou: 'É um vício, não?' Talvez. Gosto de pensar que a Medicina ainda é um trabalho nobre, que ainda vale a pena apesar dos dias infortunos. Assim como no jogo, não é pelo dinheiro."

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No meu último plantão em 2013, cheguei a ser parabenizado pela recepcionista por ser "pé quente", já que meus plantões costumavam ser tranquilos, com poucos casos graves. Após mais uma temporada esse ano, consolidei essa fama, sendo, por isso, formalmente convidado a continuar trabalhando ali. Embora já tenha iniciado meus serviços em outra cidade, fiz um plantão no último feriado e tenho outro marcado para o fim do mês.

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O caso mais grave que atendi este ano foi durante uma madrugada de sábado, encaminhado de uma cidade vizinha: um rapaz havia sido esfaqueado duas vezes no tórax. Normalmente, eu estaria no outro lado da linha pedindo o encaminhamento; dessa vez, sendo a referência, prontamente aceitei receber o paciente. Cheguei a ser questionado por uma enfermeira, antiga funcionária dali, se o correto não seria encaminhar direto para o hospital (nesse caso, o cirurgião deveria ser consultado por meu colega e o procedimento, no mínimo, atrasaria).
Respondi que o PA era a porta de entrada do hospital e que seria melhor eu dizer "sim" e o paciente morrer conosco do que eu dizer "não" e ele morrer lá. A equipe toda, aparentemente, concordou. Duas horas depois, uma unidade do SAMU trouxe o jovem que, apesar de ter drenado pelo pulmão direito 1500ml de sangue, encontrava-se estável, sem sinal de hemorragia ativa. Após alguns minutos observando o dreno, concluí aliviado: "Parou de sangrar."
Falei com o cirurgião, que não questionou a transferência; também me senti bem de ligar apenas no começo da manhã para ele e não 3:30, hora em que recebi a ligação. Quando fui conversar com os familiares, tive a forte impressão de já ter atendido sua mãe (de fato, trabalhei por um ano em sua cidade). Porém, focado, falei apenas do paciente, que internou sem necessidade de cirurgia; alguns dias depois, recebeu alta. Que boa sorte, não?

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No começo de 2009, um amigo de adolescência veio me procurar, dizendo que sempre me escutara e que queria saber a minha opinião. Ele acabara de se formar em Odontologia na UFSC, mas não estava otimista com a profissão; seu pai, agora, poderia pagar o curso de Medicina em uma universidade particular. O que fazer? Eu prontamente falei bem da carreira médica e, há alguns meses, fomos em sua nova formatura.
Ao chegarmos no jantar, seu pai, emocionado, disse para minha namorada, referindo-se a mim: "Esse é o homem mais inteligente do mundo!" Mais tarde, uma amiga lembrou que, durante a minha graduação, eu havia dito que, profissionalmente, queria "fazer a diferença" na sociedade. Respondi que já não era tão idealista assim, o que provocou risadas dos meus parceiros de ensino médio. Mesmo que eu negasse, era óbvio que eu me tornara o profissional almejado.

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Planejava viajar no último feriado, mas acabei ficando na região; coincidentemente, precisavam de um plantonista no sábado à noite e fui solicitado algumas vezes pela organizadora da escala. Faltando menos de uma hora para o turno, minha disponibilidade começou a pesar na consciência; liguei de volta e, como ainda não haviam conseguido um substituto, disse que poderia fazer o plantão. Por alguns intantes, cheguei a ser ovacionado como um herói.

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Iniciando um novo expediente diurno, acabei abandonando os "feltros" (tecido que envolve as mesas de poker). A razão é simples: acordando cedo, acabo indo dormir no horário em que ocorrem os torneios. Além disso, não tenho tanta sorte nas cartas; embora eu ame o jogo, suponho que eu ame ainda mais a minha profissão. Meu tio materno, um engenheiro que lamentou sua aposentadoria precoce, costuma dizer: "Já pensou acordar todos os dias e fazer algo que você não gosta?!"

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Blefadorzinho - parte 10

Novamente consegui chegar na mesa final do torneio mais caro da semana. Nunca vi o salão tão cheio: trinta jogadores com desessete re-buys, o campeão levou para casa quinze vezes o valor da inscrição. Em certo momento, consegui acumular cerca de 220k fichas, feito inédito para mim no clube. Cheguei entre os nove finalistas com stack acima da média, mas amarguei um oitavo lugar após uma bad beat no river. Considerações:
1- Poker é um jogo de paciência, praticamente não joguei na primeira metade do torneio (aparentemente, essa seria uma de minhas piores performances). Na penúltima mão antes do intervalo, no big blind, venho com JJ. Vou all-in pré-flop, um jogador paga com A8s; logo no flop, aparece um Ás. Pelo menos, ainda havia tempo para a minha reentrada.
2- Big blind de 1200, o UTG aumenta para 2500; com AK, apenas pago, junto com o small e big. Flop: KT7, T e 7 de ouros, naipe que não tenho; o small vai all-in (11k), o big também (15k), o UTG folda. Minha leitura é que pelo menos um deles está no flush ou straight draw, o problema seria um KT ou 77. Antes de pagar, comento com um jogador: "Como eu falei antes, é muito difícil largar um AK." Meus adversários mostram um QJ e JT, nenhum ouro. Mantenho minha vantagem até o fim, iniciando agora uma boa ventura.
3- O melhor fold que eu já presenciei foi durante o big blind de 2k. O UTG sobe pra 6,5K e recebe um re-raise de 16k de um jogador tight. O UTG folda mostrando um AK, o tight mostra um AA. Que leitura.
4- Após algumas baixas, minha mesa foi dividida nas duas restantes; em um novo ambiente, o clima ficou naturalmente mais tenso. Com big blind de 4k, um jogador aposta 8k, estou no small com AJ, apenas completo, o big também. Flop: J73 rainbow, checo, eles também; turn: 2, aposto 8k. O big faz uma careta, como que perguntando: "você está blefando?" Mas acaba desistindo, junto com o apostador inicial. Amenizando os ares de guerra, mostro o J, ação cordialmente imitada por alguns vencedores seguintes.
5- Minha melhor jogada ocorreu quando eu estava no big blind de 6k. Um jogador faz raise de 12k, outro paga, o restante folda; venho com 63, como eu teria que pagar apenas mais 6k para concorrer ao pote de 43k, completo a aposta. Flop dos sonhos: 332 rainbow. Estou absoluto, mas, sendo o primeiro a falar, checo. O seguinte empurra 15k, o outro folda; simulando um blefe, volto all-in (52k). Ele paga mostrando um AQ; após a derrota, justifica: "Achei estranho esse re-raise dele."
6- Na mesa final, tive algumas dificuldades para jogar e, intimidado, cheguei a evitar de pagar um raise pré-flop com A4, no qual eu provavelmente teria dobrado minhas fichas (flopou AQ4 rainbow). No big blind de 14k, finalmente venho com QQ; aposto 30k, small e big pagam. Flop: KQ9, K e Q de paus. Eles pedem mesa, tendo em vista o óbvio risco de um flush ou straight, vou all-in; sem pensar muito, eles foldam.
7- Na mão seguinte, venho novamente com QQ! Repito a ação, 30k, apenas o small completa. Flop: 764 rainbow. Ele imediatamente vai all-in, eu pago sem perguntar o valor (116k). Ele mostra um J8; no turn: 9, no river: 5 e ele consegue a sequência. Coisas do jogo.
8- Consegui sobreviver mais uma rodada, no big blind que sequer consegui completar. Após a eliminação, indo embora, o colega que foldou o AK me parabeniza, comentando que eu estava "chegando perto". Conclusão: melhor que jogar um bom poker é ganhar o reconhecimento de bons jogadores.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line) 1998

Esse clássico rivalizou com outra produção sobre a segunda grande guerra, O Resgate do Soldado Ryan (1998). Embora a obra de Spielberg seja melhor escrita, eu diria que a beleza do Pacífico torna as duas obras equiparáveis. Uma curiosidade é que esse longa tinha inicialmente cinco horas de duração; após os cortes, ficaram de fora aparições de atores como Billy Bob Thornton, Martin Sheen, Gary Oldman, Bill Pullman, Viggo Mortensen e Mickey Rourke.
Guadalcanal tem uma extensão maior que doze vezes a ilha de Florianópolis. Apesar de ser coberta por uma floresta tropical densa, era um ponto chave do conflito.
"Em maio de 1942, os japoneses tinham feito bastante progresso no desenvolvimento de instalações na ilha Florida e começaram a chegar relatos para os americanos de que soldados inimigos estavam sendo levados por Guadalcanal para construir um campo aéreo. Isso iria permitir a operação de bombardeiros japoneses contra navios mercadores Aliados e possivelmente contra a Austrália, razão pela qual os EUA decidiram tomar a ilha. Uma força de 19.000 fuzileiros navais norte-americanos desembarcou na ilha em 7 de agosto de 1942, fazendo os japoneses recuarem para a floresta." Atlas da II Guerra Mundial, 2004, David Jordan e Andrew Wiest.
O primeiro embate ocorre na segunda hora de filme. Após sofrer um ataque brutal, um grupo de sete americanos sorrateiramente sobe uma colina para identificar fortificações japonesas; ao fundo, observa-se seus companheiros dando cobertura na base da elevação. O sol, aos poucos, vai tomando conta do cenário captado em aparente sincronia. Em seguida, as forças orientais parecem mais frágeis e são subjugadas com certa facilidade após a resistência inicial.
"A batalha por Guadalcanal continuou por terra e por mar até início de 1943, quando os japoneses decidiram se retirar das ilhas, pois não aguentariam muito tempo com aquela taxa de mortalidade. Os americanos já tinham ganhado a supremacia na batalha em meados de novembro do ano anterior. No entanto, antes da decisão de retirada, os japoneses, determinados a expulsar os americanos, fizeram várias tentativas de desembarcar reforços para suas tropas na região com o chamado 'Expresso de Tóquio', os comboios de abastecimento que recebiam cobertura pesada das forças navais de superfície." Atlas da II Guerra Mundial, 2004, David Jordan e Andrew Wiest.
Já na terceira hora do longa, temos uma reviravolta: um grupo de americanos que trilhava um rio se vê próximo ao ataque inimigo; ao tentar se comunicar com a central, percebe-se que a linha havia sido cortada. Três soldados voltam para descobrir onde estava a falha; mostra-se, então, uma imagem aparentemente calma do rio que, silenciosamente, é tomada por dezenas de soldados japoneses bem equipados. Novamente, somos presenteados com uma cena genial.
O filme apresenta algumas questões filosóficas universais. Antes da tomada das fortificações no alto da colina, missão em que o protagonista (Jim Caviezel) é voluntário, seu superior imediato (o co-protagonista, Sean Penn) questiona, preocupado: "Que diferença você acha que pode fazer? Um único homem em toda essa loucura." Não há uma resposta, mas eu imagino que ela seja evidente. Podemos fazer toda a diferença, especialmente em tempos de guerra.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Blefadorzinho - parte 9

Pela primeira vez, consegui chegar na mesa final com fichas na média: 70.000 (inicia-se com 20.000). Estive com chances reais de vencer o torneio mais caro da semana (onde, teoricamente, se encontram os melhores jogadores). Sinto que, passo a passo, estou evoluindo; sendo minha melhor noite, acredito que mereça algumas observações:
1- Eu já havia desistido de ganhar dinheiro e passei a encarar o jogo como uma diversão, um hobby ou, até mesmo, uma terapia. Ironicamente, essa atitude mais solta parece ter me proporcionado alguma sorte.
2- Venho com 22, apenas pago o blind de 1000, entro com o dealer, small e big; flop: 223 rainbow (de forma inédita, flopo uma quadra!); o big aposta 2100, pago, os outros dois foldam; turn: 9, ele checa, volto 4000, ele desiste, mostrando um 3; educadamente, mostro uma de minhas cartas. Outro jogador pergunta se eu não fizera a quadra, nego; alguém lembra que, de fato, eu não olhei que carta iria mostrar. Enfim, suponho que a melhor jogada seria ter dado check e só apostar após o river.
3- Venho com Q9, pago o big de 1200, entro com mais quatro jogadores, flop: JT5 rainbow, o adversário imediatamente à minha direita aposta 4k, pago, ficamos isolados; turn: K (consigo minha sequência!) ele aposta 6k, volto all-in (22k); após pensar, ele diz "call" mas logo se corrige: "fold". Eu poderia ter exigido que sua primeira fala valesse, mas realmente ele se enganara e, educadamente, deixei passar, mostrando ainda minhas cartas.
4- É notável como não tive grandes mãos pré-flop; meu maior pocket pair foi 88, que acabei nem jogando; nenhum AK ou AQ, apenas um AJ que também habilmente foldei. A sorte apareceu com um inesperado T7 no small blind, que apenas completei (4000) para jogar com o dealer e o big. No flop: T76 rainbow, checo, o big também, o dealer aposta 8000, volto all-in, ele paga e mostra um T8. Mantenho minha vantagem no turn e river, dobrando minhas fichas.
5- Restando apenas sete jogadores, com big blind de 10.000, o under the gun (chip leader, perfil agressivo) faz raise de 20.000, o seguinte folda, venho com AT, minha leitura é que ele poderia ter apostado com qualquer par ou Ás, até mesmo um KQ ou KJ; volto all-in, o small blind dá all-in por cima e, assim, solto o já tradicional: "me ferrei!" O UTG dá fold com A9 (minha leitura estava correta), já o small mostra um triunfante AK.
6- Fiz questão de cumprimentar meu algoz ao sair, o UTG tentou me consolar: "você teria ganho de mim." Senti-me bem apesar da eliminação. Com um clima cada vez mais leve, espero que a minha luz consiga brilhar ainda mais no próximo embate. Será emocionante, com certeza.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Guitarras

Faz mais de um ano que meu irmão me perguntou sobre um de meus amplificadores, o Acedo 276, pois estava pensando em adquirir uma guitarra; na época, informei que o cubo portátil estava emprestado para um primo nosso. Recentemente, peguei-o de volta e comentei com o primogênito que, caso ainda tivesse interesse, eu poderia lhe comprar um instrumento em Florianópolis. Após uma pesquisa no site da loja, ele me listou os modelos que mais lhe agradavam.
Testei sete guitarras novas e apenas uma chamou a minha atenção, uma Les Paul Epiphone preta. Liguei para meu irmão para confirmar a compra, mas ele não atendeu. Enquanto esperava seu retorno, decidi levar a minha própria guitarra para trocar um captador no luthier, que ficava perto dali. Após optar por um Supershered da Sergio Rosar, perguntei se ele estava vendendo alguma guitarra. Ele responde: "Só aquela Les Paul."
Estava no mesmo preço que a Epiphone, porém, tinha origem exótica: China. Captadores Sergio Rosar, corpo em mogno. Ao pegá-la, fiquei impressionado com seu peso, olhei para o luthier, que sorriu: "Pesada, não?" Regulagem e afinação perfeitas, confirmadas após plugá-la no amp.  Tentei descrever sua cor para meu irmão e o luthier me ajudou: "cherry burst". "Como a do Slash" foi a resposta do comprador, enquanto o luthier fazia o riff de Sweet Child of Mine nela.
O alto ganho do Punchbucker na ponte é equilibrado pelo Heartbreaker no braço, o que a torna especialmente versátil. Como era de se esperar, fala bem mais alto que a minha Stratocaster (que, coincidentemente, também é asiática, sendo natural da Indonésia). Esta foi comprada há mais de quinze anos, também usada e em meio a uma feliz comoção por estar levando algo excelente para casa. Que essas duas preciosidades fiquem na família por muitas gerações.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Blefadorzinho - parte 8

Antes de disputar mais um torneio, analisei que, se não chego entre os finalistas, pelo menos, dificilmente faço o re-buy (compra de fichas após perder tudo), que é possível até o intervalo após o oitavo nível. Em oito torneios, havia feito apenas uma recompra, o que considero um bom padrão. Ontem, no entanto, fui o primeiro a ter as fichas roubadas. Eu diria que a lição da noite foi: como não "tiltar" e manter um bom poker após uma má jogada.
Um jogador agressivo dá um raise pré-flop, tenho QQ, apenas pago. No flop: 987 naipes diferentes, ele aposta, aumento e ele instantaneamente me volta. Nesse momento, eu deveria ter dado fold, pois ele só poderia estar muito bem. Mas eu pago, no turn: 8, ele aposta alto, eu pago; river: 3, ele vai all-in, eu pago, suas cartas: J10. Atordoado, pago o re-buy. Não poderia mais me vangloriar de não precisar fazer a recompra.
No último torneio, comentei que deveria ter pago um all-in com KQs. Descobri que esse adversário ficou em terceiro lugar em um torneio com 40 participantes, cujo buy-in era R$1000 (!), no final de semana. Ontem, novamente contra ele, recebi um KQs; um outro adversário dobra o blind, eu pago, ele faz um re-raise, o outro desiste, eu penso em largar, mas me lembro da última vez e digo para mim mesmo que eu deveria jogar aquela mão.
No flop: J22, duas espadas, meu naipe. Ele aposta, eu pago. Turn: 8 de espadas, eu conseguira meu flush. Ele aposta, minha leitura é: ou ele tem o ás de espadas e agora espera virar outra, ou tem um par alto e espera uma full-house. Como acredito que um princípio do Texas Holdem seja fazer o adversário pagar caro pela sua carta, volto all-in, mais de duas vezes o pote. Ele pensa por cerca de um minuto e, como um jogador experiente, faz a leitura correta.
Após o fold, ele mostra o AJ, sem espadas, desapontado: "Olha o que você me fez largar!" Cordialmente, também mostro minhas duas cartas. Algumas rodadas depois, mais uma sorte: venho com AA. Pago uma aposta pré-flop e o jogador seguinte a aumenta mais de três vezes, o primeiro apostador desiste, após um instante fingindo pensar, volto all-in (também mais de três vezes a sua aposta). Ele inicialmente faz a leitura correta, dizendo: "O estranho é esse call dele."
Seus colegas, no entanto, o instigam a pagar, argumentando: "Como você vai largar depois de fazer um raise desses?!" Ele paga com AQ, nenhuma surpresa na mesa, dobro minhas fichas e, como de costume, inicio o nono nível acima da média. Dou-me ao luxo de voltar atrasado depois do intervalo, na posição de small blind, recebo 88. Todos foldam, aposto quatro vezes o blind contra o big (meu oponente do KQs), que brinca: "Chega agora e já quer jogar?!"
Respondo francamente: "Eu jogo as cartas!", o que provoca risos nos colegas. Ele paga, pedimos mesa até o river (um óbvio sinal de respeito), levo o pot com o par de 8, ele mostra um A4, desabafando que não devia ter dado call. Mais tarde, pago um raise pré-flop com KQs e um terceiro jogador dobra a aposta, que pagamos. Pedimos mesa até o river, sou o último a falar. Na mesa, quatro cartas de um naipe que não tenho, nenhum par; aproveitando-me da posição, aposto alto. Os dois desistem.
Com o big blind em 2k (o torneio se inicia com 15k fichas), recebo AQ em posição intermediária, subo para 5k, um jogador tight volta all-in rapidamente, cerca de 45k (também tinha essa quantia). Essa foi a única jogada que eu realmente parei alguns instantes para raciocinar. Minha leitura foi que ele tinha ao menos AK ou QQ, em ambas as situações, estava bem melhor. Como ainda estava com fichas na média e poderia jogar muitas outras mãos, foldei. 
Acabei eliminado após um all-in pré-flop com AJ na posição de dealer, tive o azar de encontrar um KQs e um AK no small e big, ambos pagaram o all-in; nenhuma surpresa na mesa, o big levou.
"Se você sair do torneio nesta fase com boas cartas, não se aborreça. É melhor sair do torneio jogando um bom poker do que chegar às mesas finais com um stack pequeno e ser devorado pelos blinds." http://www.dicasdepoker.com/dicasdepoker_ebook.pdf
Descobri essa fonte teórica um pouco antes de começar a frequentar o clube. Eu diria que ontem foi a primeira vez que saí de lá sentindo que realmente havia jogado um bom poker, o que me é um claro sinal de evolução. O re-buy valera a pena.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Blefadorzinho - parte 7

Tenho um amigo que também está jogando o Texas Holdem, inclusive, está lendo livros sobre o assunto. Ele diz que joga de forma a minimizar o fator sorte, evitando, por exemplo, dar all-in. Comentei que achava isso impossível, sempre é uma questão de sorte e o all-in, mais cedo ou mais tarde, tem que ser anunciado. Apesar disso, assimilei parte de sua idéia e procurei jogar menos "loose", com direito a alguns bons lances de sorte.
O clube mantém um ranking do ano e, nessa semana, tive um embate direto com o atual líder. Saí com AA e ele com AK; um terceiro jogador apostou primeiro, apenas paguei, o líder volta all-in, o apostador inicial desiste e, claro, sem pensar, dou call. Nenhuma surpresa na mesa, levo todas as suas fichas. Mais adiante, recebo novo AA e tenho outro ganho considerável; dessa vez, porém, outro adversário não pagou o meu all-in após o flop. Cordialmente, mostrei novamente o par, como que dizendo: "Você saiu bem."
Confesso que tenho enfrentado dificuldades na parte final dos torneios, quando os blinds estão altos. Geralmente, no intervalo após o oitavo nível, estou com fichas acima da média geral, mas não tenho conseguido manter o rendimento até ser um finalista. Ao analisar a última eliminação, suspeito que meu erro foi jogar muito tight no momento errado. Eu já estava abaixo da média, com cerca de 50k fichas, big blind em 4k, ante de 500, na posição de dealer.
Todos dão fold, recebo KQs, visando roubar os blinds, aposto 8k (eu conseguira isso algumas mãos antes com um A5s), o small blind dá all-in de 50k, o big blind desiste. Minha leitura é que ele tem ao menos um Ás, estando, assim, melhor do que eu. Dou fold, ele mostra um Ás de cortesia. Esperei receber algum jogo melhor nas próximas 15 jogadas, até que fui obrigado a ir all-in no big blind de 6k com um K8s, sendo eliminado por um K9.
KQs foi a minha melhor mão na parte final e eu dei fold; usando um aplicativo, calculei que tinha 44% de chance de vencer um AJ, por exemplo (muito melhor que um K8s derradeiro contra outros dois jogadores). Contei com a sorte para receber ao menos um Ás nas mãos seguintes, mas ele não veio. Tive azar em uma noite com dois AA? Acredito que não, apenas deixei passar o ponto certo para ser realmente agressivo e, consequentemente, vitorioso.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Blefadorzinho - parte 6

Ultimamente tenho afirmado, com certa ironia, que vou viver do pôquer; ontem, finalmente, o plano inusitado foi posto em prática. Após uma rápida pesquisa, descobri, a alguns metros de casa, um clube que organiza torneios semanais. Ontem houve um com dezessete competidores, onde amarguei um mediano décimo lugar. Claro que alguma lição pode ser sempre aprendida.
No final de semana, relembrei a estratégia do Texas Holdem e uma das expressões correntes se chama "bad beat", que caracteriza uma perda quando, teoricamente, haveria mais chances de vitória. Já descrevi algumas situações dessas, como um KK perder de um 88 após um all-in pré-flop, ou um AK perder de um Q6 na mesma situação. Ontem, mais uma vez, fui eliminado em uma bad beat clássica: 
O jogador à minha direita faz um raise pré-flop, apesar de eu ter AK, apenas pago, esperando que mais alguém entre, mas fico isolado com o adversário. No flop: K83, todos de ouro, ele pede mesa e, sem ter o naipe, mas com o top pair, anuncio all-in (mais do que o dobro do pote). Como ele tinha mais fichas, pagou e mostrou o Ás de ouro acompanhado de um 10 escuro. Eu tinha mais chances de vencer, mas logo no turn veio o quinto metal precioso. Faltou-me sorte.
Descobri hoje que ele venceu o torneio. Outra bad beat que lembro dele ter aplicado foi vencer um all-in pré-flop com Q10 contra QJ: no river, virou o 10. Pode-se dizer que ele estava iluminado, sendo, ao meu ver, um exemplo de como o "fator sorte" pode ser determinante no resultado final. Teoricamente, se você jogar corretamente, a longo prazo vai ganhar, mas sabemos que nem sempre é assim. A vida está repleta de bad beats, não?

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Silverchair - Neon Ballroom (1999)

Marcando uma mudança de estilo, fui um dos fãs que inicialmente rejeitou o disco que, hoje, considero um dos melhores já produzidos. A primeira faixa, Emotion Sickness, oferece seis minutos repletos de frases musicais intensas. Em seguida, o single Anthem For The Year 2000 mata a saciedade pelas guitarras pesadas, porém, em ritmo mais brando. Ana's Song traz inesperados violões, quebrados pela desabafo: "And you're my obsession, I love you to the bones..."
Spawn Again recorda os álbuns anteriores, com um vocal gritado que parece mais um discurso de protesto; uma sirene também contrasta com a densa melodia. Miss You Love seria a balada perfeita se não fosse pela letra tradicionalmente conflitante. Dearest Helpless lembra o tom sombrio do álbum anterior, Freak Show, assim como Do You Feel The Same. Black Tangled Heart lembra o início do disco com ampla presença orquestral, mas com menos intensidade.
O efeito da guitarra de Point of View lembra o single de 1997, Abuse Me; mas sua melodia e ritmo vai além e recorda o álbum inicial, Frogstomp (1995), assim como a faixa seguinte, Satin Sheets. Paint Pastel Princess foi o quarto e último single do disco, mas, embora bem elaborada, não considero melhor que Emotion Sickness ou Point of View. Steam Will Rise finaliza a coleção em mais uma tonalidade escura.
Certa vez, meu tio comentou que as maiores obras da humanidade foram criadas quando seus autores se encontravam em crise, angustiados; aqui, temos mais um grande exemplo. Daniel Johns relatou que, nessa época, "odiava música", mas sentia que não poderia parar, como se fosse um escravo dela. Nós agradecemos a sua insistência.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Blefadorzinho - parte 5

Após muitos meses sem jogar, voltei a disputar um torneio de Texas Holdem; dessa vez, com inscrições mais caras, haviam apenas onze competidores. Após a reviravolta no último torneio (http://tiarajusantos.blogspot.com.br/2014/11/blefadorzinho-parte-4.html), eu estava decidido a ser o mais educado possível, optando pelo estilo "tight-aggressive" clássico, evitando blefar. Mesmo assim, a sorte brilhou e, na metade do torneio, quando as fichas foram contadas, eu era o "chip leader".
Podendo arriscar, impus um ritmo mais agressivo e, infortunamente, acabei perdendo a liderança. Minha última jogada foi um all-in pré-flop com um esperado AK contra um Q6: logo no flop apareceu outra dama e fui eliminado em quarto lugar. Apesar do frustrante fim, tenho algumas boas lembranças da disputa. Uma delas ocorreu quando meu adversário, sentado imediatamente à minha direita, interrompeu o crupiê dizendo que havia visto minha carta.
"Um cinco escuro" ele disse. Anteriormente, ele se mostrara um pouco irritado após eu o passar na contagem das fichas, chegando a fazer algumas provocações; no momento, ele se encontrava visivelmente mal-humorado após um pequeno desentendimento com o administrador do clube. Ao refletir sobre o ocorrido, vejo que eu poderia ter reagido de várias formas, a mais óbvia seria eu simplesmente conferir a carta recebida (caso não fosse o cinco escuro, meu oponente provavelmente seria advertido).
Outra reação possível seria reclamar do crupiê, mas agi de forma instintiva: sem virar a carta, devolvi-a e apenas agradeci meu inimigo, "Thanks, man." O crupiê também não conferiu o cinco e logo reiniciou o jogo, que seguiu sem mais intercorrências. No dia seguinte, fui buscar meu tio em seu escritório e, quando ele entrou no carro, usou a minha entonação americanizada: "E aí, man?". Claramente ele estava me imitando, o que me é uma grande honra.

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Relógio

Meu pai já comentou que ele gosta de ter vários relógios de pulso e imagino que, por isso, ele costuma presentear seus filhos com eles; na faculdade, usei um modelo esportivo que ele me dera no Natal. Durante minha formatura, porém, uma das professoras me deu um de metal prateado, mais adulto. Por um ano, eu não o usei pois ele precisava ter o tamanho adaptado; só o levei ao relojoalheiro quando o outro, após muito uso, teve uma parte quebrada.
O profissional me informou que não teria como trocar a peça danificada, mas que facilmente poderia ajustar o prateado ao meu pulso, que tenho usado desde então. Há um ano, meu pai me comprou um de couro, preto, que teve o vidro trincado recentemente após uma queda no banheiro. Assim, voltei a usar a resistente peça metálica, que também é plena de significado: no bilhete que veio junto, após a colação de grau, a professora escreveu algo como "Você é a minha esperança de que ainda haverá bons médicos."
A pediatra acompanhara nossa turma desde a primeira fase e me auxiliara no TCC (que era qualitativo, sua especialidade). Lembro que, no início do curso, um de seus conselhos para nós foi: sempre que você se sentir sobrecarregado ou esgotado, "dê um tempo". Na época, ela se referiu aos estudos, mas a lição também pode ser estendida para a carreira profissional; não poderíamos funcionar como engrenagens que, infalivelmente, movimentam os ponteiros de um relógio.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Paradoxos

Na cozinha da unidade de saúde, uma colega comentou que uma mulher se oferecera para ler sua sorte, mas ela conseguiu fugir da proposta. Comentei que o grande paradoxo das videntes era que, geralmente, elas tinham uma história sofrida; se elas fossem tão boas em prever o futuro, por que não usavam isso em suas próprias vidas? Todos concordaram, como funcionários públicos, aparentemente, tínhamos mais sorte que as videntes em geral.
Paradoxalmente, salientei que, se a mulher se oferecesse para ler a minha sorte, eu certamente aceitaria. Esse misticismo faz parte mim, inclusive, há cerca de cinco anos, fui em uma cartomante. Ela disse que eu tinha uma espécie de "luz" que me auxiliava nos atendimentos, mas que eu deveria ter cuidado com a minha irritabilidade e impulsividade. Talvez ela tenha deduzido isso pelo pouco que me conhecia, ou talvez os deuses tenham me alertado através de suas cartas.
A figura do centauro (metade homem, metade animal) representa o meu signo, Sagitário. Eu diria que um dos meus paradoxos particulares é: apesar de possuir uma inteligência acadêmica notável, eu continuo sendo governado pelas minhas emoções. Apesar do meu talento, a parte humana, aparentemente, ainda não venceu os meus instintos animais. Talvez essa vitória ainda demore a acontecer.

"Contudo, quando a razão penetrar nesta natureza grosseira, quando Cronos, Saturno ou o Carma lhe derem a justa compensação de seus excessos, a razão se torna sabedoria e vemos, então, uma expansão magnífica das virtudes jupiterianas. Franco e honesto, simpático aos fracos e necessitados. Benévolo e indulgente, estende a mão a seu inimigo. Este é, então, o signo do bom juiz, do bom pai de família, cujo raciocínio é temperado pela bondade. É o signo da compaixão e talvez do pecador arrependido que perdoa os que pecaram como ele. A sabedoria só é adquirida pela experiência e no Sagitário temos a imagem do homem que se liberta dos laços dos sentidos.
A intuição deste signo é maravilhosa quando o indivíduo segue suas próprias inspirações; porém, se confiar nos conselhos dos outros, errará completamente."
Iniciação Básica à Astrologia Esotérica. Rosabis Camaysar, 1985.

domingo, 17 de maio de 2015

Streetlight Manifesto - Somewhere In The Between (2007)

Conheci o álbum alguns dias antes do histórico show em Criciúma, dia 19/08/2011. Com um estilo que eu tentaria definir como uma mistura "nervosa" de NOFX e Los Hermanos (início de carreira), fui surpreendido pela sua originalidade; tenho a impressão de estar escutando um grupo de jazz, que compete freneticamente entre si. Eu sentenciaria empate técnico entre seus sete integrantes: guitarra/voz, bateria, contra-baixo, sax barítono, sax tenor, trombone e trompete.
O título do terceiro álbum faz referência ao "espaço" entre o dia em que nascemos e o em que morremos, conforme explicado no refrão da faixa homônima: "So you were born and that was a good day, someday you'll die and that is a shame; but somewhere in the between, was a life of which we all dream and nothing and no one will ever take that away." Também há uma referência da importância do presente na frase inicial do disco: "I once knew a guy, obsessed with the afterlife; oh, what a terrible day that was, he realized he'd wasted all his time."
Voltei a ver a banda no monumental WROS Fest, na capital paulista, dia 03/11/2012. Os videos seguintes foram gravados lá. Destaco no álbum: 1- We Will Fall Together (https://youtu.be/l8Z46VmyiSQ) 5- Watch It Crash (https://youtu.be/VWIha1c0yUU) 7- Forty Days 8- The Blonde Lead The Blind (sua melodia final me é o auge do disco) 9- The Receiving End Of It All.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

As Gêmeas do Iguaçu

Logo nos primeiros dias, fiz uma pesquisa sobre a origem delas, que remete à Guerra do Contestado (1912-1916). Após a vitória do exército brasileiro, o povoado foi dividido em dois, tendo como marco o trilho que atravessava o seu centro. Foi a solução para o impasse entre os dois estados: Paraná ficou com União da Vitória, Santa Catarina com a recém-criada Porto União. Situação similar ocorre na divisa com a Argentina, onde temos Dionísio Cerqueira-SC e Barracão-PR, formando um único núcleo urbano.
É notável a violência do conflito: em quatro anos, nove mil casas foram queimadas e vinte mil pessoas foram mortas. A figura do terceiro líder messiânico, José Maria de Santo Agostinho, também chama a atenção: nascido na capital paranaense em 1889, morreu em Irani-SC na batalha que deflagrou a guerra em 1912. Ele ficou famoso no ano anterior, ainda jovem, com pouco mais de vinte anos.

"Um dos fatos que lhe granjearam fama foi a presunção de ter ressuscitado uma jovem (provavelmente apenas vítima de catalepsia patológica). Supostamente também recobrou a saúde da esposa do coronel Francisco de Almeida, acometida de uma doença incurável. Com este episódio, o monge ganha ainda mais fama e credibilidade ao rejeitar terras e uma grande quantidade de ouro que o coronel, agradecido, lhe queria oferecer.
A partir daí, José Maria passa a ser considerado santo: um homem que veio à terra apenas para curar e tratar os doentes e necessitados. Metódico e organizado, estava muito longe do perfil dos curandeiros vulgares. Sabia ler e escrever e anotava em seus cadernos as propriedades medicinais das plantas encontradas na região. Com o consentimento do coronel Almeida, montou no rancho de um dos capatazes o que chamou de farmácia do povo, onde fazia o depósito de ervas medicinais que utilizava no atendimento diário, até horas tardias da noite, a quem quer que o visitasse."

* * *

Costumo comentar em meu local de trabalho que eu nunca conheci um lugar como este. Tentarei enumerar os motivos de maneira lógica, em ordem cronológica, com o início ocorrendo há três meses:
1- Durante uma consulta, uma das gavetas da minha mesa, que estava entreaberta, fecha sozinha, fazendo até o barulho de batida ao final. Não ligo para o ocorrido.
2- Dias depois, entro no consultório pela manhã e as paredes estão repletas de pequenos insetos. A enfermeira vem me trazer as fichas de atendimento e também nota a ocorrência, concluindo que a luz poderia ter ficado acesa durante a noite. Respondo que não, eu tinha certeza que havia desligado ao sair no dia anterior e estava desligada quando entrei. Como se fosse algo normal, ela me explica que era comum os funcionários passarem à noite por ali e verem as luzes acessas. "De manhã, está tudo apagado."
3- Faço perguntas na cozinha, onde nos reunimos para tomar café. Mesma reação: todos agem como se fosse algo normal e muitas histórias aparecem. Certa vez, a máquina de lavar estava funcionando quando foram abrir a unidade. A funcionária disse que sempre tira a máquina da tomada e ela tinha certeza que o tinha feito no dia anterior.
4- Uma ex-residente de uma casa em frente ficava até meia-noite fumando na varanda, enquanto esperava o marido. Ela relatou que diversas vezes ouviu passos e viu as luzes se acendendo e se apagando, como se alguém estivesse circulando ali dentro.
5- Há um alarme que é acionando ao fim do expediente, às 17 horas. Certa vez, a central de monitoramento ligou para uma das funcionárias dizendo que o alarme estava desligado, ela respondeu que não voltaria à unidade porque tinha certeza que o havia ligado. "No outro dia pela manhã, ao entrar, o alarme estava ligado." Apesar dessa ocorrência, o sensor de movimento nunca indicou a presença de algum intruso.
6- Volto para examinar a gaveta. Concluo que ela até poderia abrir sozinha, mas não fechar. Nunca mais a deixei entreaberta.
7- Portas pesadas se fecham sozinhas. Uma das recepcionistas relata que viu a porta da sala do raio-x fechar sozinha com a maçaneta se movimentando. Não havia ninguém na sala e outras duas funcionárias também presenciaram a cena.
8- Frequentemente vemos luzes acessas quando passamos pela avenida à noite. Certa vez, contei pelo menos quatro recintos diferentes iluminados.
9- Costumo voltar para casa no intervalo do almoço e, um dia, fui voltar para o trabalho e encontrei uma das luzes internas do carro ligada. Eu não poderia ter esbarrado acidentalmente, já que o botão fica no teto. Alguns dias depois, volto do jantar e encontro as luzes da sala do meu apartamento acessas, que acredito nunca ter esquecido de desligar.
10- Há algumas semanas, no começo da manhã, umas das enfermeiras foi até a cozinha com cara de assustada, informando que o computador onde o cardiologista realiza o teste de esforço estava ligado. Detalhe: a sala fica trancada e ela foi a última a sair, tendo certeza que estava tudo desligado. Segundo ela, seria impossível o dispositivo ligar sozinho por conta de uma descarga elétrica, por exemplo.
11- Existem muitos relatos de "atividades paranormais" em outras repartições públicas das cidades irmãs. Um dos mitos é que o cemitério de União da Vitória, que fica em um local central, já teve vigias noturnos, mas não atualmente, pois ninguém aguenta o serviço. Recentemente, um video gravado por um celular mostrou barulhos vindos de uma escola durante a madrugada. Uma das teorias é que um coelho em uma jaula de metal estaria provocando os sons, eu duvido.
12- Nas últimas semanas, a lâmpada do meu consultório começou a falhar, juntamente com outras salas. Uma das hipóteses é que o sistema elétrico desses locais está ligado ao raio-x, que, quando em uso, provoca os apagões. O que ninguém explica é porque essa anomalia só iniciou agora, se o raio-x está em funcionamento há meses.
13- Semana passada, a enfermeira interrompe uma consulta pedindo meu auxílio, pois um senhor de setenta e sete anos, cardiopata, desmaiara no corredor da unidade. Não foi possível aferir a pressão arterial (ao olhar o movimento da seta do esfigmo, percebi que ele estava chocado). Informo minhas colegas que o paciente estava morrendo, orientando a administração imediata de soro fisiológico e a vinda do serviço de emergência para a transferência até o hospital. Enquanto isso, eu ligaria para comunicar o plantonista. Ao retornar, observo o soro fluindo bem; o pulso voltara, embora bradicárdico, ele recobrara a consciência. Os bombeiros chegaram em seguida, ele foi internado sem complicações e, até o momento, minha previsão nefasta não se concretizou. Talvez um milagre tenha ocorrido.

* * *

Acho notável como as pessoas insistem em ser céticas perante os acontecimentos. Algumas questionam se apenas não estão tentando me assustar, já que demonstro bastante interesse no assunto. Eu sempre as lembro do evento inicial, a gaveta se fechando, antes que eu soubesse do histórico do local. Outras lembram que a fiação elétrica é antiga, podendo ser um simples mal-contato. Eu respondo que sim: "um mal-contato com o além!"
A doutrina espírita sugere que espíritos inferiores, pouco evoluídos, podem produzir tais fenômenos, sem que haja alguma importância ou significado especial. Não acredito que "eles" prejudiquem meu trabalho, que aparentemente continua sendo satisfatório. Já ouvi comentários que o nosso ambiente é "carregado", mas isso provavelmente decorre das próprias relações disfuncionais entre os integrantes da equipe que, por ser extensa, favorece a discórdia.
Uma tese corrente é que uma ex-funcionária, falecida há mais de uma década, tinha uma ligação muito forte com a unidade e por isso permanecera ali. Embora eu não descarte essa possibilidade, acredito que as cidades possuam alguma singularidade que favoreça a atividade espiritual. Talvez seja uma questão puramente geográfica, talvez um resquício histórico da grande guerra; prefiro pensar que aqui exista algum magnetismo ímpar, não gosto da idéia de viver em meio a espíritos presos em agonia.

* * *

Ontem uma colega lembrou do paciente que desmaiara, informando que ele recebera alta do hospital. Tive vontade de dizer que achava o episódio um milagre, mas mantive a postura e apenas expressei minha felicidade por ele estar vivo. Talvez eu tenha tido ajuda de "forças especiais", talvez os bons espíritos não tenham me abandonado. Se nada acontece por acaso, suponho que esses eventos, no mínimo, tenham servido para fortalecer a minha fé.

* * *

Embora eu tenha estudado sobre os três monges na época do vestibular, só agora adquiri real interesse sobre suas trajetórias. Eles foram "curandeiros" que peregrinaram pelo interior de Santa Catarina em diferentes épocas: o primeiro, João Maria, apareceu em 1844; o segundo, também João Maria (!), em 1893; o terceiro, José Maria, em 1911. Confesso que me identifico com eles e, de vez em quando, tenho a sensação de estar fazendo um pouco de história também.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Meu Pai

No meu local de trabalho, costumamos nos reunir na cozinha no começo da manhã para tomarmos café. A equipe é grande e eventualmente ocorrem divergências no assunto matinal, por isso buscamos discutir temas amenos como o preço da lavagem automotiva. Neste mês, o ginecologista disse que poderia lavar o carro de uma colega por um valor abaixo do mercado, pois gostava da atividade. Confessei que, mesmo que eu quisesse fazer isso, eu não conseguiria: "Nunca lavei um carro, nem mesmo o do meu pai."
O colega ficou um pouco surpreso e também fez a sua confissão: "Meu pai nunca lavou o carro dele, eu que lavava." Isso claramente explicava a nossa diferença hábil. Já escrevi que sou o "típico exemplo que faz o que quer quando quer", sendo conhecido, inclusive, como alguém "mimado". Apesar de eu não conseguir limpar a minha própria casa, suponho que o estímulo aos assuntos intelectuais tenha me ajudado a manter um blog e a curar as pessoas.
Há um ano, antes de minha avó falecer em Porto Alegre, tive uma longa conversa com um tio que, embora jornalista, cursou dois anos de Psicologia. Ele analisou que o avô deles (que criou o meu pai), era uma pessoa rígida e tinha um estilo "quase militar", por isso meu pai se dedicara tanto aos estudos e escolhera um curso estritamente técnico como Geologia. Ele tivera uma educação diferenciada de todos os seus irmãos, que gosto de imaginar como sendo no estilo "espartano".
Talvez ele tenha repetido esse modelo com seus dois filhos homens. Embora eu não fosse obrigado a ajudar nos afazeres domésticos, havia uma cobrança acadêmica marcante: eu tinha que ser o melhor. Comenta-se que sou "muito competitivo" e costumo dizer que só entro em um jogo para ganhar. Posso até transparecer a imagem de alguém que desiste facilmente (como uma típica "criança mimada"), mas prefiro pensar que eu não perco tempo em um jogo perdido. Uma das lições que tive no xadrez foi que é sempre mais educado desistir antes de levar o xeque-mate.

* * *

Há pouco mais de um mês, meu pai piorou de uma hérnia de hiato que o fazia vomitar após as refeições. Foi a segunda vez que o vi doente. A primeira foi há vinte anos, quando ele se "desastrou" (quem usa essa expressão é o pai dele, ao se referir ao próprio acidente automobilístico quase fatal há cerca de trinta anos). Na época, eu tinha apenas dez anos e obviamente pouco podia fazer; porém, dessa vez, seria diferente. A vida me dera uma segunda chance.
Assim que soube que o quadro clínico piorara, encontrei-o na praia e de fato ele não conseguiu segurar o jantar de sábado e o almoço de domingo. Embora ele estivesse decidido pelo tratamento cirúrgico, recomendei um medicamento que poderia impedir a regurgitação até a cirurgia, que, segundo minha previsão, levaria pelo menos algumas semanas. No dia seguinte, liguei e ele contou que, usando o remédio, não havia tido mais problemas após o jantar de domingo e o almoço de segunda.
No final de semana seguinte, fomos passar a Páscoa no interior gaúcho, na casa do avô. Meu pai deu um susto na ida: após comer um pastel na estrada, passou a noite em observação em um hospital no meio do trajeto. Na sexta, já na casa do patriarca, ele relatou que esquecera de tomar o remédio, seu pai riu e disse que era igual: dificilmente seguia a risca as orientações médicas. À noite, reunimo-nos na tradicional mesa de cartas: eu, meu pai, dois de seus irmãos e o cunhado (também conhecido como "noro", como um masculino de "nora").
O costume é bebermos cerveja durante as apostas, mas eu prontamente contra-indiquei que meu pai o fizesse. Sugeri, no entanto, que ele experimentasse tomar whisky; apesar de mais forte, o volume ingerido seria bem menor, diminuindo o risco de refluxo. Coincidentemente, eu havia levado uma garrafa de Black Label, presente recente de meu irmão. A estratégia deu certo e no sábado chegamos a jogar dez horas seguidas, como nos bons velhos tempos.
No último natal, quando nos reunimos na casa litorânea do "noro", meu pai acabou a jogatina ganhando cerca de R$800, mas perdoou a dívida dizendo que era o "presente do papai noel". Tentando seguir o exemplo de generosidade, no domingo de Páscoa, antes de voltar para Santa Catarina, dei algumas notas para meu primo, justificando que havia ganho no jogo. Ele está iniciando uma temporada em Porto Alegre e, em tempos de vacas magras, imagino que toda ajuda se torna especialmente valiosa.
Voltei a ver meu pai no final de semana após a Páscoa, agora em Criciúma. No almoço de domingo, ele novamente passou mal, provavelmente porque esquecera da medicação. Oito dias depois, ele fez a cirurgia, sem intercorrências. Encontrei-o no quarto hospitalar algumas horas depois; ainda sob efeito da anestesia, ele pareceu um pouco confuso ao me ver entrar. Reclamava de náuseas e de um gosto amargo. Quando ele leu em voz alta a estampa da blusa de minha irmã, não me aguentei e fiz graça: "Você está doidão?!"
Continuei contando algumas piadas e ele prontamente riu delas. Uma hora depois, ele estava assintomático e conseguiu comer a gelatina recusada anteriormente. Com o fim do horário de visita, fomos embora e, já na manhã seguinte, ele estava em casa. Esse foi o primeiro final semana que não viajo até ele, um indicativo de que o pior já passou. Aproveitei a folga para pôr as idéias em dia; dentre as várias temáticas que me instigavam, claro, acabei escolhendo esta.

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No último verão, meu pai reafirmou que todos os seus filhos eram diferentes um do outro. Suspeito que, em termos de personalidade, eu seja o mais parecido com ele. Sou Sagitário, ele Áries, ambos de elemento fogo (assim como Leão, signo de minha mãe). Meu irmão é Capricórnio (terra) e minha irmã Peixes (água). Outra coincidência é que nós dois temos o mesmo ascendente, Touro, o que inclusive explicaria uma maior semelhança física.
Gosto bastante de dirigir e essa paixão é compartilhada pelo progenitor. Recentemente visitei meu padrinho, que o conhece há mais de trinta anos, e ele lembrou dessa semelhança. No começo do ano, o irmão de minha mãe também salientou que eu puxara meu pai, mas com uma diferença: eu gosto de dirigir na chuva. Acabei descobrindo pelo tio que eu herdei essa preferência de minha mãe, o que também me é uma grande honra.
Meu tio mais velho, ano passado, contou que o carro mais bonito que ele já conheceu foi o Maverick que meu pai comprou em meados de 1978, três anos após se graduar. Minha tia mais nova concordou, salientando suas rodas largas (a máquina ficou vários anos na família, depois com meu avô e, por fim, com um tio). Embora eu tenha encontrado uma explicação para eu ser fordista, o patriarca deixou claro que nunca teve uma "paixão" por alguma montadora específica. De fato, ser obsessivo é uma marca peculiar minha.

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Ariano, meu pai foi pioneiro na família. Primogênito, mudou-se para Porto Alegre com quinze anos para cursar o "científico". Meu avô sempre conta que ele foi o único dos filhos que não teve luxo ao morar fora (neste ano, em mais um episódio hilário, meu tio mais velho se revoltou ao escutar isso, argumentando que também passara por dificuldades na capital). Além de ser o primeiro com ensino superior, meu pai cursou uma prestigiada universidade federal; feito repetido pelos dois filhos, que também podem ser considerados pioneiros em suas áreas.

terça-feira, 17 de março de 2015

Lira dos Trinta Anos

Já comentei que, ano passado, um tio disse que "a vida são detalhes"; se eu tivesse que fazer uma definição similar, preferiria: "A vida são escolhas." Após três décadas de existência, começo a vislumbrar que o nosso tempo é finito e que, talvez, eu não viva mais do que vivi; o tempo que dediquei às minhas diferentes "paixões", sejam elas pessoas ou atividades, define quem eu sou. Como irei usar meus próximos trinta anos irá definir quem eu serei.
Dediquei muito tempo aos escritos, criei centenas de composições verbais e isso, obviamente, ainda me é presente. Talvez eu tenha um talento nato para isso, mas analiso que a paixão pelas palavras foi o principal determinante; sendo uma força inconsciente, como acreditar que minha vida é fruto exclusivo de minhas escolhas? Eu argumentaria que escolhemos ceder ou não aos nossos impulsos, sendo, por exemplo, uma escolha se publico ou não este texto.
De forma similar, toquei guitarra por centenas de horas e isso também faz parte da minha identidade. Há alguns anos, eu estava praticando no apartamento quando um vizinho, também médico, bateu na porta, curioso: "Quero ver!". Na época, eu havia redescoberto o último álbum do Legião Urbana (Uma Outra Estação, 1997); inclusive, fiz videos na época (http://youtu.be/8sSePTPZ_PE, http://youtu.be/nCjpPR3LzQs). Após alguns minutos de observação, ele confessou: "Que legal, eu também queria saber tocar um instrumento."

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Há algumas semanas, uma colega da unidade básica, frustrada com a sua situação profissional, desabafou ao me ver no corredor: "Eu devia ter estudado igual ao doutor Tiaraju!" Escuto isso com alguma frequência, penso que o tempo que dediquei aos livros é proporcional aos privilégios que tenho hoje. Uma das lembranças da adolescência foi ver o meu pai argumentar com a minha irmã que, todo final de tarde, quando ele chegava do trabalho, eu estava em meu quarto estudando.
É interessante como, naquela época, as quatro horas diárias de colégio me eram insuficientes; já nos últimos seis anos, tenho reclamado que as oito horas de trabalho são demais. Imagino que estudar seja muito mais divertido que trabalhar, embora este último seja mais imediato nas recompensas; equilibrar essas duas atividades me é uma meta razoável para os próximos trinta anos, um mestrado parece ser um bom próximo passo. Claro, se o expediente permitir.
Atualmente voltei a trabalhar quarenta horas semanais, então dedico exatamente um terço do meu dia a uma unidade básica de saúde. Como durmo também oito horas, restam outras oito para intermediar o trabalho e o sono; evidentemente, as atividades laborais são o centro da minha rotina. Sobra pouco tempo para escrever e menos ainda para tocar; sobra pouco para todo o resto, meu consolo é que ainda trabalho menos que boa parte dos médicos da minha geração.
Há alguns anos, deparei-me com uma rodovia do oeste catarinense com o trânsito parado; como havia uma fila de carros, não era possível visualizar o que acontecera. Não vinham veículos no sentido contrário, por isso desconfiei que havia acontecido um acidente e saí do carro explicando: "Acho que vou ter que dar uma de herói..." Dois motoqueiros haviam colidido frontalmente, um deles estava inconsciente; como não havia chegado nenhum socorro profissional, eu deveria prestar o primeiro atendimento.
Quando voltei para o carro, após a chegada das ambulâncias, estava satisfeito por ninguém ter morrido. Comentei, sorrindo, que dizer "eu sou médico" em uma situação de emergência era usar a primeira pessoa do singular em toda a sua intensidade. De fato, considero que ser médico seja maior do que ser escritor ou músico; embora, evidentemente, seja menos divertido. Em última análise, o prazer da arte me ajuda a ser um profissional melhor, por isso pretendo manter a veia artística presente.

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No primeiro "Em Busca da Felicidade", comento que as relações são o aspecto mais importante da vida; hoje posso afirmar que, quanto mais tempo passamos com alguém, mais importante ela se torna. De forma lógica, pode-se concluir que, além da família, o cônjugue tem papel de destaque no nosso caminho. Um tanto dramático e irônico, já afirmei que as mulheres são a causa e a solução de todos os problemas do homem; para mim, pelo menos, sempre foi assim.
Na antiga Esparta, os homens podiam se casar com trinta anos, após o término do serviço militar obrigatório. Considero-me um espartano por ainda não ter filhos; mas agora que já completei a idade, vislumbro a possibilidade de dividir minhas próximas décadas com eles. O raciocínio é simples: vou envelhecer e precisar de cuidados no fim da vida, meus descendentes deverão assumir esse papel. Egoísmo? Talvez, mas essa é uma necessidade tipicamente humana.
Apesar do incipiente instinto paterno, porém, existe a possibilidade de eu não transmitir o "legado da nossa miséria" (célebre expressão usada por Machado de Assis ao se referir ao fato de não ter tido filhos). Como cogitar criar uma família neste mundo caótico? Kurt Cobain, após o nascimento da filha, acabou concluindo que, mesmo que pareça ilógico se tornar pai na atualidade, tudo muda quando se está apaixonado. A questão é: como se manter assim, nesse estado de nirvana?
É interessente concluir que meu tio tinha razão, a vida são detalhes; não escolhemos por quem nos apaixonamos, pode tudo dar certo ou errado. Tenho a imagem dele fazendo um gesto com a mão em diminutivo, como que mostrando: "pequenos detalhes". Recentemente, ao lembrar que minha namorada tinha outros pretendentes, repeti minha teoria de que, para alguns terem sorte, outros precisam ter azar; apenas tive uma boa ventura, eles, não.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Titanic (1997)

Lembro de ter visto esse premiado filme de James Cameron duas vezes na época do lançamento no cinema. Com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet (dois dos melhores atores da geração), uma produção milionária e o talento do experiente diretor, temos uma obra grandiosa que, apesar de se ambientar em 1912, permanece bastante atual. Ou alguém se acha distante da idéia de estarmos em uma grande "barca furada", prestes a afundar?
Pode-se dizer que o culpado principal pelo naufrágio foi o capitão Edward Smith, que, apesar dos avisos de icebergs na região, manteve a velocidade do navio que colidiu com o bloco de gelo. No entanto, é considerado um herói por ter permanecido até o fim na embarcação; diferente de seu contemporâneo, Francesco Schettino, que abandonou o Costa Concordia logo após o ter encalhado na Itália em 2012 (acidente que resultou em 32 mortes).
Um detalhe sombrio que não foi incluído na produção é que havia um navio a alguns quilômetros do Titanic que poderia rapidamente ter prestado ajuda, mas o seu operador de rádio não foi acordado, apesar dos fogos de artifício (disparados do Titanic) serem visualizados por um oficial do SS Californian. Apenas no começo da manhã seguinte, descobriu-se que as luzes noturnas eram um pedido desesperado de socorro.
Haviam botes para metade das 2200 pessoas, mesmo assim, salvaram-se apenas 700 (os botes foram lançados ao mar sem estarem completamente ocupados). No filme, também é mostrado que parte da terceira classe foi impedida de alcançar o convés, sob pretexto de que deveria esperar o desembarque da primeira classe. Após o naufrágio, apenas um bote retornou para buscar os sobreviventes que agonizavam na água gelada; com a demora, foram encontrados apenas seis deles vivos.
Talvez essa seja a cena mais impactante do longa: o bote solitário entrando no mar de corpos congelados boiando na escuridão. "Demoramos demais" conclui o oficial que chefiava a busca. Entre os seis resgatados, está Rose, protagonista de supostos 17 anos (Kate tinha, na época das filmagens, 20 anos), passageira da primeira classe que se apaixona por Jack, da terceira classe, de 20 anos (Leonardo era dois anos mais velho que o personagem). 
Admiradora de quadros, ela se interessa pelo talento artístico de Jack: "Você tem um dom, você vê as pessoas." Por sua condição social, ele é hostilizado pela mãe dela, que, durante um jantar, questiona sua vida sem raízes. Ele responde: "Tenho tudo que preciso aqui comigo: o ar nos meus pulmões e alguns papéis em branco. Gosto de acordar de manhã sem saber o que vai acontecer, quem eu vou conhecer ou onde vou parar... Considero a vida uma dádiva e não pretendo desperdiçá-la, você nunca sabe o que virá em seguida e aprende a aceitá-la como ela é para fazer cada dia valer."

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Em 1898, muito antes do Titanic ser construído, o americano Morgan Robertson lançou o livro "Futilidade" ou "O Naufrágio de Titan", descrevendo um navio com dimensões similares ao Titanic que, em sua viagem inaugural aos Estados Unidos, choca-se com um iceberg e naufraga no Atlântico Norte, vitimando a maioria dos passageiros (não havia botes para todos). A tragédia ocorre em Abril, perto da meia-noite, a 400 milhas do continente americano; notavelmente, como aconteceu anos depois com o Titanic.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Estrategistas

Recomeçando na nova cidade, meu nome logo virou assunto na cozinha da unidade básica, onde costumamos tomar café. Expliquei que era um nome histórico do Rio Grande do Sul, muitos gaúchos conheciam sua história, embora ali fosse desconhecida. Apesar dessa impressão inicial, no fim da primeira semana, transferi uma paciente para o hospital municipal e, ao me apresentar, os dois médicos se entreolharam e exclamaram ao mesmo tempo: "Sepé Tiaraju!"
A odontóloga comentou que perguntara para sua mãe se ela conhecia o meu nome (suponho que a matriarca seja gaúcha), sendo a resposta positiva. Foi explicado que era um índio criado por jesuítas na região das missões, que se tornou um líder contra a ocupação portuguesa e espanhola. Mesmo após sua morte, ainda era visto nos campos de batalha; por isso, é considerado santo por alguns, tendo inclusive uma cidade em sua homenagem: São Sepé.
Ao fazer uma rápida pesquisa, descobri que ele morreu em São Gabriel-RS, onde meu pai morava antes de ir para São Paulo conhecer minha mãe. Outra descoberta agradável foi ele ser reconhecido como bom estrategista, tenho dito isso sobre mim de forma quase irônica há meses. Sun Tzu, em sua obra-prima do século IV a.C., "A Arte da Guerra", explica um princípio que considero especialmente estratégico para se alcançar grandes objetivos:
"Uma força militar não tem formação constante, a água não tem forma constante. A habilidade de alcançar a vitória mudando e adaptando-se de acordo com o inimigo é chamada de genialidade."

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Garantia

No filme A Promessa (The Pledge, 2001), Jack Nicholson interpreta um policial que, pouco antes de se aposentar, promete para uma mãe que encontraria o assassino de sua filha. Essa promessa resulta na ruína do protagonista, sentenciada por um detalhe do destino. Recordo-me de uma frase dita por um tio ano passado: "A vida são detalhes." Ele se referiu, possivelmente, à questão de sorte ou azar que cada um está sujeito; uns aparentemente são bem-aventurados, outros não.

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Semana passada, atendi um caso potencialmente grave na unidade básica. Uma adolescente iniciara com cefaléia e evoluíra com um episódio de vômito e confusão mental importante. No consultório, cheguei a perguntar se ela tinha algum retardo mental e me foi respondido seguramente que não; quando ela começou a fitar a parede com o olhar perdido, a mãe se desesperou, questionando sem resposta: "Meu Deus, por que você está assim?!"
Instantes depois, a paciente começou a inclinar a cervical para trás e para a esquerda, típico de uma crise convulsiva parcial; levantei-me, informei que ela estava convulsionando e chamei as enfermeiras. Enquanto era feita a medicação, ela teve uma nova crise e foi solicitado que a mãe se retirasse da sala de procedimento. Notei uma certa rigidez de nuca, meu colega médico concordou que existiam sinais meníngeos e comunicamos o hospital para o encaminhamento.
Ainda na unidade, a mãe me pergunta se ela iria ficar bem. Sem pensar muito, respondo que sim, ela insiste chorando: "Você me garante?" Era óbvio que eu não poderia garantir nada, mas não consegui negar o seu pedido. Acompanhei-as na ambulância e passei o caso pessoalmente para o plantonista que, com uma máscara para evitar um possível contato meningocócico, desabafou após abrir os olhos da paciente, que se moviam de forma desordenada: "Isso não é bom."
Ele ditou a prescrição para a enfermeira, pediu uma tomografia e informou que depois iria fazer a punção lombar na UTI. Ao sair da sala de emergência, escutei seu último pedido: "Quero conversar com a mãe." As noticias não seriam nada boas, pensei comigo mesmo. Segunda de manhã, tomando café na cozinha da unidade, perguntam-me do caso; respondo que não tive notícias, mas que ela poderia até estar morta, vítima de um acidente vascular ou uma meningite.
À tarde, a agente de saúde me informa que a garota estava bem, os exames não mostraram nada e ela se recuperara totalmente. Na terça-feira, a paciente volta ao consultório com a família; segundo a mãe, apenas para a agradecer o meu atendimento. A jovem, agora lúcida, conta que, naquele dia, vira pontos luminosos antes da cefaléia, típico de enxaqueca (uma familiar acrescentou que sentia o mesmo antes das crises). Nada demais, tivemos sorte, pode-se dizer.