terça-feira, 17 de março de 2015

Lira dos Trinta Anos

Já comentei que, ano passado, um tio disse que "a vida são detalhes"; se eu tivesse que fazer uma definição similar, preferiria: "A vida são escolhas." Após três décadas de existência, começo a vislumbrar que o nosso tempo é finito e que, talvez, eu não viva mais do que vivi; o tempo que dediquei às minhas diferentes "paixões", sejam elas pessoas ou atividades, define quem eu sou. Como irei usar meus próximos trinta anos irá definir quem eu serei.
Dediquei muito tempo aos escritos, criei centenas de composições verbais e isso, obviamente, ainda me é presente. Talvez eu tenha um talento nato para isso, mas analiso que a paixão pelas palavras foi o principal determinante; sendo uma força inconsciente, como acreditar que minha vida é fruto exclusivo de minhas escolhas? Eu argumentaria que escolhemos ceder ou não aos nossos impulsos, sendo, por exemplo, uma escolha se publico ou não este texto.
De forma similar, toquei guitarra por centenas de horas e isso também faz parte da minha identidade. Há alguns anos, eu estava praticando no apartamento quando um vizinho, também médico, bateu na porta, curioso: "Quero ver!". Na época, eu havia redescoberto o último álbum do Legião Urbana (Uma Outra Estação, 1997); inclusive, fiz videos na época (http://youtu.be/8sSePTPZ_PE, http://youtu.be/nCjpPR3LzQs). Após alguns minutos de observação, ele confessou: "Que legal, eu também queria saber tocar um instrumento."

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Há algumas semanas, uma colega da unidade básica, frustrada com a sua situação profissional, desabafou ao me ver no corredor: "Eu devia ter estudado igual ao doutor Tiaraju!" Escuto isso com alguma frequência, penso que o tempo que dediquei aos livros é proporcional aos privilégios que tenho hoje. Uma das lembranças da adolescência foi ver o meu pai argumentar com a minha irmã que, todo final de tarde, quando ele chegava do trabalho, eu estava em meu quarto estudando.
É interessante como, naquela época, as quatro horas diárias de colégio me eram insuficientes; já nos últimos seis anos, tenho reclamado que as oito horas de trabalho são demais. Imagino que estudar seja muito mais divertido que trabalhar, embora este último seja mais imediato nas recompensas; equilibrar essas duas atividades me é uma meta razoável para os próximos trinta anos, um mestrado parece ser um bom próximo passo. Claro, se o expediente permitir.
Atualmente voltei a trabalhar quarenta horas semanais, então dedico exatamente um terço do meu dia a uma unidade básica de saúde. Como durmo também oito horas, restam outras oito para intermediar o trabalho e o sono; evidentemente, as atividades laborais são o centro da minha rotina. Sobra pouco tempo para escrever e menos ainda para tocar; sobra pouco para todo o resto, meu consolo é que ainda trabalho menos que boa parte dos médicos da minha geração.
Há alguns anos, deparei-me com uma rodovia do oeste catarinense com o trânsito parado; como havia uma fila de carros, não era possível visualizar o que acontecera. Não vinham veículos no sentido contrário, por isso desconfiei que havia acontecido um acidente e saí do carro explicando: "Acho que vou ter que dar uma de herói..." Dois motoqueiros haviam colidido frontalmente, um deles estava inconsciente; como não havia chegado nenhum socorro profissional, eu deveria prestar o primeiro atendimento.
Quando voltei para o carro, após a chegada das ambulâncias, estava satisfeito por ninguém ter morrido. Comentei, sorrindo, que dizer "eu sou médico" em uma situação de emergência era usar a primeira pessoa do singular em toda a sua intensidade. De fato, considero que ser médico seja maior do que ser escritor ou músico; embora, evidentemente, seja menos divertido. Em última análise, o prazer da arte me ajuda a ser um profissional melhor, por isso pretendo manter a veia artística presente.

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No primeiro "Em Busca da Felicidade", comento que as relações são o aspecto mais importante da vida; hoje posso afirmar que, quanto mais tempo passamos com alguém, mais importante ela se torna. De forma lógica, pode-se concluir que, além da família, o cônjugue tem papel de destaque no nosso caminho. Um tanto dramático e irônico, já afirmei que as mulheres são a causa e a solução de todos os problemas do homem; para mim, pelo menos, sempre foi assim.
Na antiga Esparta, os homens podiam se casar com trinta anos, após o término do serviço militar obrigatório. Considero-me um espartano por ainda não ter filhos; mas agora que já completei a idade, vislumbro a possibilidade de dividir minhas próximas décadas com eles. O raciocínio é simples: vou envelhecer e precisar de cuidados no fim da vida, meus descendentes deverão assumir esse papel. Egoísmo? Talvez, mas essa é uma necessidade tipicamente humana.
Apesar do incipiente instinto paterno, porém, existe a possibilidade de eu não transmitir o "legado da nossa miséria" (célebre expressão usada por Machado de Assis ao se referir ao fato de não ter tido filhos). Como cogitar criar uma família neste mundo caótico? Kurt Cobain, após o nascimento da filha, acabou concluindo que, mesmo que pareça ilógico se tornar pai na atualidade, tudo muda quando se está apaixonado. A questão é: como se manter assim, nesse estado de nirvana?
É interessente concluir que meu tio tinha razão, a vida são detalhes; não escolhemos por quem nos apaixonamos, pode tudo dar certo ou errado. Tenho a imagem dele fazendo um gesto com a mão em diminutivo, como que mostrando: "pequenos detalhes". Recentemente, ao lembrar que minha namorada tinha outros pretendentes, repeti minha teoria de que, para alguns terem sorte, outros precisam ter azar; apenas tive uma boa ventura, eles, não.

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