sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Useless ID - Symptoms (2012)


Há algumas semanas, vi uma postagem em uma rede social, onde um amigo dizia que esta era sua banda preferida. Useless ID é provavelmente a banda israelense mais conhecida internacionalmente, assim como o Sepultura no Brasil. Com letras em inglês e riffs poderosos (assim como o Sepultura), alcançaram notoriedade após cooperação dos aliados norte-americanos. 
Como deve ser viver em um país constantemente em guerra, onde a qualquer momento, em qualquer lugar, pode haver um atentado terrorista? A capa do álbum exibe uma pílula e o sintoma mais notável me parece ser a melancolia, notável nessas 5 canções do vocalista/baixista Yotam Ben Horin:
Before It Kills - Primeiro single, parece fazer uma alusão ao uso de drogas pesadas: "Another victim on the murder train from injected poison to the blood stream. There is no getting off at any stop, you can rest assured you're never coming back." Interessante a semelhança entre os dois países aliados; seja na música, seja no consumo de injetáves. Videoclipe: http://youtu.be/NVE3ycPnqrs
Manic Depression - Quinta faixa, apresenta dois polos musicalmente distintos, com predominância do polo melancólico, atingindo seu auge no intenso refrão: "Bang my head through the wall, I am delusional, I just can't stand to see us like this. This is my only world, I've waltzed you through it all, you left me in the darkness since."
Symptoms - A faixa título começa com um solo dissonante de guitarra, que se torna harmônico quando os outros instrumentos o acompanham, o que pode ser uma bela metáfora das relações pessoais. Aqui, há proximidade e devoção, expresso na frase que se repete: "I want your love, I want your pain, I want your symptoms".
New Misery - Último single lançado, faz referência a um relacionamento amoroso disfuncional: "I'm sick of feeling like a battery: the way you charge me up, the way you empty me. I get so nervous when I feel the angst adding up. It makes me crazy that you've been around, because the love I seek was the love I found and you left a scar on me. This is a new misery." Videoclipe: http://youtu.be/3A_coF_tbi8
Waiting for an Accident - Aqui, no auge da melancolia, a letra adquire uma tonalidade mais sombria: "We're just waiting for an accident, we're just waiting for... I still miss you sometimes, but I can't be with you; yes, I miss you sometimes, but I can't be with you..." Uma das melhores faixas que, juntamente com Symptoms, parece-me ser a melhor escolha para ser single, não Before it Kills e New Misery.
Percebe-se que Israel não está tão distante de nós em suas emoções, seu cotidiano repleto de sintomas parece ser universal e representa não só uma cultura, mas a nossa época, o nosso mundo.
"Did we ever really stop and ask ourselves if we got symptoms? I wish we could've move them, but tonight we are both the victims."  Trecho de Symptoms

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Zodíaco (2007)


Semana retrasada, perguntei o que meu irmão achava deste filme e ele respondeu "abaixo da espectativa", visto o histórico do diretor David Fincher, que fizera os excelentes Seven (1995) e Clube da Luta (1999). Mas aqui há um diferencial, os crimes ocorreram de verdade; a trama é fruto de ampla pesquisa sobre o serial-killer que atuou nas décadas de 60 e 70 na região de San Francisco.
A sequência do segundo ataque é especialmente aterradora. Zodíaco aborda um jovem casal em um lago, num parque público distante da cidade. Vestindo uma roupa e máscara preta, com uma pistola em punho, ordena que ela amarre o namorado e tira uma corda de plástico presa à cintura, junto de outras cordas. Ela começa a chorar, era óbvio que aquilo não iria acabar bem.
Em seguida, Zodíaco a amarra, dizendo que era um fugitivo e que queria o carro e dinheiro. Após dominá-los completamente, com eles deitados de bruços um do lado do outro, ele guarda a pistola e tira uma faca curta presa ao corpo, desferindo 5 golpes rápidos no dorso dele. Mas sua principal presa era ela: repetidas facadas no dorso, virando-a em seguida, continuando com golpes rápidos em seu abdome, 8 facadas até a cena cortar abruptamente.
O diretor entrevistou pessoalmente o namorado da vítima que sobreviveu ao ataque, o que torna a cena mais brilhante. Apesar da vista paradisíaca do lago com montanhas ao fundo, o que se vê é o horror, dosado pelo corte no auge da violência.
"A abordagem do diretor foi criar um visual bastante mundano que o público iria aceitar que o que eles estavam vendo era a verdade. O cineasta também não queria glamourizar o assassino ou contar a história através dos olhos dele. 'Isso teria que transformar a história em um jogo de tiro em primeira pessoa. Nós não queremos fazer o tipo de filme que os serial killers gostariam de ter,' disse Fincher."  Fonte: Wikipédia
Outra sequência que me é espetacular ocorre no primeiro encontro entre os 3 policiais que investigam o caso e o principal suspeito (claramente o assassino), numa sala vazia que fica no local de trabalho dele. Atuações soberbas sob uma direção precisa, um bom exemplar do talento norte-americano que, ao meu ver, é incomparável.
A minha decepção fica por conta do Zodíaco não levar em conta os signos astrológicos de suas vítimas, o que inicialmente achei que pudesse ter alguma relação com os crimes. Mas isso não é culpa do diretor ou roteirista, evidentemente; de certa forma, fico aliviado pela Astrologia não ter sido empregada num ritual macabro de "coleta humana".
Acredito que uma das lições da história seja a de que o sistema jurídico permite brechas para a impunidade, o principal suspeito foi descartado por reprovar nos exames de caligrafia e impressão digital, que ele poderia ter simplesmente forjado. As demais evidências foram ignoradas e ele, astuto, morreu em 1992 por causa natural.
Na Medicina, temos bastante influência dos EUA; meus melhores livros na faculdade eram traduções americanas, por exemplo. Imagino que no Direito ocorra processo similar; o desfecho de Zodíaco, além de um exemplo da fragilidade do sistema norte-americano, é um exemplo do que vemos em solo brasileiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Poder da Riqueza - parte 3


"O poder da riqueza" foi uma das expressões que mais escutei neste feriado de Carnaval, em Garopaba. Com familiares bem-humorados que costumam ler meus escritos, várias oportunidades foram aproveitadas para lembrar do meu "poder", sempre com uma pitada de ironia que me fazia rir também.
Sei que é um tema polêmico e o considero um tabu em nosso meio. As pessoas fazem coisas terríveis por causa de dinheiro e ele, constantemente, é motivo de discórdia. Jesus pedia às pessoas que abrissem mão de seus bens e o seguissem, indicando que a evolução espiritual era oposta ao acúmulo de riquezas, sendo ele próprio um exemplo disso.
Apesar de parecer superficial, escrevo sobre a temática porque li a obra de T. Harv Ekel (Os Segredos da Mente Milionária). Seus ensinamentos ficaram "impregnados" em meu cérebro e, como muitas outras obras, mudou minha percepção de vida. Durante conversa com meu tio em Suzano-SP, minha irmã comentou algo sobre minha "genialidade", que lembrava o personagem médico House; eu relatei que quando lia ou assistia algo com atenção, mesmo que só uma vez, eu conseguia memorizar por longo tempo.
Li o livro por acaso, uma enfermeira que trabalhava comigo me emprestou e fiquei fascinado com o discurso fluente do autor. Não tenho nenhum exemplar, embora já o tenha comprado três vezes para dar de presente para amigos. Uma das idéias que assimilei foi a de que o dinheiro não muda as pessoas, ele apenas "amplifica" o que elas realmente são. Uma pessoa generosa se torna mais generosa quando enriquece, por exemplo.
Há alguns meses, visitei meu primo na época de seu aniversário e cheguei a pensar em lhe comprar algum presente, mas acabei optando por lhe dar a opção de comprar o que bem quisesse. Mas obviamente havia um grande obstáculo: como fazer a gentileza sem parecer ofensivo? Quase desisti, mas, sendo hábil com as palavras, assumi o desafio.
Perguntei-lhe se nosso avô já havia lhe dado dinheiro alguma vez. Surpreso, ele me respondeu com franqueza: "Ele já meu deu dinheiro várias vezes!". Eu sabia que a resposta seria essa e vi que essa lembrança específica também trazia um sentimento bom em meu primo. Como era esperado, ele inicialmente recusou o presente, mas acabou cedendo aos meus bons argumentos, confessando que realmente estava precisando para investimentos em seu negócio.
Há alguns anos, conversei com um amigo que acompanhara um casamento de orientais no exterior; ele comentou que os convidados não compravam presentes, cada um deixava um maço de dólares em uma caixa, que seria entregue ao casal. Acho esse costume bastante coerente em um mundo onde o dinheiro, sendo tabu ou não, é vital para que uma união perdure.
Ano passado, durante a festa de casamento de um amigo da época de colégio, aproximei-me do recém casado e perguntei se eu poderia colocar o presente no seu bolso. Com um sorriso, ele consentiu: "claro". Após fazer a entrega, expliquei-me com uma única frase: "É o presente mais útil que eu poderia lhe dar." Entendendo do que se tratava, ele me abraçou com força, emocionado e agradecido por eu estar ali.
Inevitavelmente meu avô paterno vem à tona quando eu penso em "riqueza". Sua bondade "amplificada" é incessante para filhos e netos, que usufruem de sua habilidade duradoura em lidar com dinheiro. Um exemplo a ser seguido, sem dúvida. Com uma lucidez afiada, ele comentou em Dezembro que odiava "gente miserável", após lembrar de conhecidos que não eram pobres, mas mesquinhos. Como diria Renato Russo, "não existe beleza na miséria".
Imagino que, ainda jovem, meu avô decidiu que não seria um escravo, seria um homem livre. Há 2000 anos, vivíamos em um mundo onde escravos mantinham os luxos do Império Romano; meu avô descende de africanos, trazidos para cá como escravos para manter os luxos dos portugueses. Ele sabia o que era escravidão e soube reconhecer as oportunidades para fugir dela; uma escravidão que persiste, ainda que disfarçada.
Já me basta ser escravo das minhas conturbadas emoções, não serei um escravo do mundo. Dizer isso abertamente faz parte desse longo processo, já que as palavras possuem forte influência na realidade que construímos. Quero ser livre, quem não quer?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O Poder da Riqueza - parte 2


Semana passada fiz uma proposta para minha irmã: eu lhe daria uma alpargata, uma espécie de sapato que ela vira em uma loja, e em troca ela teria que começar a estudar para a prova da OAB. Caso ela reprove, vai ter que me devover o calçado. Chegamos ao ponto do "vale tudo", em alguns meses veremos o resultado.
Após comprar o utencílio, fomos a um restaurante esperar o resto da família; uma das pizzarias mais tradicionais de Garopaba, há muitos anos não ia lá. No dia seguinte todos iríamos embora e aquela era, de certa forma, a última noite do verão; por isso quebramos a rotina e fomos jantar fora.
No livro "Os Segredos da Mente Milionária" , T. Harv Ekel comenta que alguns hábitos, como sair para jantar uma vez por mês em um bom restaurante, servem para lembrar o valor do dinheiro e nos motiva a ganhá-lo. Na época em que li isso, comentei num final de semana em Garopaba com meu pai, pois sempre foi um costume eventual da família sair para as refeições. Semana passada, vivemos mais uma vez essa experiência.
Olhei a carta de vinhos mas não encontrei nenhum conhecido, decidi por experimentar uma cerveja artesanal produzida perto dali, na Praia do Rosa. Penso que o bom de ser rico é poder entrar num estabelecimento e consumir o que se quer sem se importar com o preço, e a assim agimos. Pizza é um de meus pratos prediletos e essa é melhor pizza que já comi, valeu cada centavo.
Ao trazer a conta, o garçom ficou em dúvida se entregava para mim ou para meu pai, com um gesto a solicitei e meu pai perguntou quanto era, eu disse que fazia questão de pagar. Ele lembrou que havíamos combinado de rachar a conta e assim o fizemos, deixando uma gorjeta adicional, outro costume familiar. Penso que hoje nossa relação é quase de igual para igual, o que me parece ser uma das virtudes do tempo.
Esta semana minha irmã comunicou a necessidade de comprar um vestido para uma formatura. Ela obviamente não tem dinheiro e diz ter vergonha de pedir para seu pai, mas claro que com o irmão é diferente. Estou pensando em lhe dar a quantia sob a condição dela estudar para a prova da OAB, caso ela reprove, terá que me devolver o vestido. Vale tudo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Médico de Homens e de Almas


Meses atrás, um amigo me perguntou em tom humorado: "você é médico de homens ou médico de almas?" Acho que ele esperava uma resposta como "de almas" ou "dos dois", mas após alguns segundos de reflexão, respondi convicto: "Sou médico de homens. Qualquer um pode ser um médico de almas, mas médico de homens, do bicho homem, só fazendo faculdade de Medicina. Isso é para poucos."
Meus padrinhos são um casal de amigos de meus pais, que fugiram da tradição de ter um parente (geralmente um irmão) como padrinho dos filhos. Os amigos são os irmãos que escolhemos, ganhei tios exclusivos por conta da amizade entre os quatro. Eles eram tão próximos que estavam juntos no carro durante o acidente que vitimou minha mãe; amigos nos melhores e nos piores momentos, sem dúvida.
Como é costume, eles me enviaram um presente de Natal recebido na casa de meus avôs, onde costumo celebrar a ceia. Ano passado, deram-me o best-seller de Taylor Caldwell, "Médico de Homens e de Almas - A história de São Lucas".

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Lucas foi o único apóstolo que não era judeu e, embora nunca tenha visto Jesus, escreveu um de seus Evangelhos e o Livro de Atos dos Apóstolos. Era médico, o que é especialmente interessante, já que narra muitos milagres do Mestre com autoridade científica para isso.
FIlho de escravos que alcançaram a liberdade (formal, pelo menos), cresceu sob a tutela de um militar romano que, como um "padrinho", financiou seus estudos médicos. No começo na narrativa, com Lucano ainda criança, Diodoro se lembra de uma carta de um amigo, também romano, que comenta o mundo que receberia Cristo:
" 'A única esperança para Roma será o retorno aos valores religiosos...' Não um retorno aos deuses poluídos... Mas a quê? A quem? Ao 'Deus Desconhecido' dos gregos? Mas quem era Ele? Onde estava Ele? Ele, o Incorruptível, o Pai, o Amoroso, o Justo? Por que estava Ele silencioso, se existia? Por que não falava Ele à humanidade, e reorganizava o mundo enfumaçado, trazendo paz aos que a tinham perdido; esperança aos desesperançados; amor aos dele privados; abundância aos que tinham fome da retidão? Se Ele vivia, aquela era a hora em que devia manifestar Sua Presença, antes que o mundo ficasse sufocado pela montanha de seus próprios excrementos, ou morresse por sua própria espada."
Soa atual, não?

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Imagino que a melhor resposta para a pergunta de meu amigo seria: "Sou médico de homens e de almas, pois não existe corpo sem espírito."