Meses atrás, um amigo me perguntou em tom humorado: "você é médico de homens ou médico de almas?" Acho que ele esperava uma resposta como "de almas" ou "dos dois", mas após alguns segundos de reflexão, respondi convicto: "Sou médico de homens. Qualquer um pode ser um médico de almas, mas médico de homens, do bicho homem, só fazendo faculdade de Medicina. Isso é para poucos."
Meus padrinhos são um casal de amigos de meus pais, que fugiram da tradição de ter um parente (geralmente um irmão) como padrinho dos filhos. Os amigos são os irmãos que escolhemos, ganhei tios exclusivos por conta da amizade entre os quatro. Eles eram tão próximos que estavam juntos no carro durante o acidente que vitimou minha mãe; amigos nos melhores e nos piores momentos, sem dúvida.
Como é costume, eles me enviaram um presente de Natal recebido na casa de meus avôs, onde costumo celebrar a ceia. Ano passado, deram-me o best-seller de Taylor Caldwell, "Médico de Homens e de Almas - A história de São Lucas".
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Lucas foi o único apóstolo que não era judeu e, embora nunca tenha visto Jesus, escreveu um de seus Evangelhos e o Livro de Atos dos Apóstolos. Era médico, o que é especialmente interessante, já que narra muitos milagres do Mestre com autoridade científica para isso.
FIlho de escravos que alcançaram a liberdade (formal, pelo menos), cresceu sob a tutela de um militar romano que, como um "padrinho", financiou seus estudos médicos. No começo na narrativa, com Lucano ainda criança, Diodoro se lembra de uma carta de um amigo, também romano, que comenta o mundo que receberia Cristo:
" 'A única esperança para Roma será o retorno aos valores religiosos...' Não um retorno aos deuses poluídos... Mas a quê? A quem? Ao 'Deus Desconhecido' dos gregos? Mas quem era Ele? Onde estava Ele? Ele, o Incorruptível, o Pai, o Amoroso, o Justo? Por que estava Ele silencioso, se existia? Por que não falava Ele à humanidade, e reorganizava o mundo enfumaçado, trazendo paz aos que a tinham perdido; esperança aos desesperançados; amor aos dele privados; abundância aos que tinham fome da retidão? Se Ele vivia, aquela era a hora em que devia manifestar Sua Presença, antes que o mundo ficasse sufocado pela montanha de seus próprios excrementos, ou morresse por sua própria espada."
Soa atual, não?
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Imagino que a melhor resposta para a pergunta de meu amigo seria: "Sou médico de homens e de almas, pois não existe corpo sem espírito."
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