Meu pai, gaúcho de Três Passos, possui cinco irmãos mais novos e todos eles optaram por mulheres de origem européia (germânica, italiana, polonesa...). O primogênito, único a ser criado no núcleo familiar dos avós, acabou se tornando "cidadão do mundo" ainda jovem e conheceu minha mãe em uma agência bancária de Suzano, no final dos anos setenta. Imagino o choque de sua família: "Ele está voltando de São Paulo com uma japonesa!"
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Suponho que a genética oriental facilite meu desempenho acadêmico e profissional (pelo menos, essa é uma justificativa que frequentemente escuto). No clube do poker, após eu ganhar mais uma mão, meu irreverente adversário concluiu: "Os asiáticos vão dominar o mundo." Gosto de pensar que, de fato, eu tenha construído uma trajetória vitoriosa; no entanto, de forma modesta, acredito que apenas honro o que é esperado de mim.
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Tive o privilégio de ter uma batchan e um ditchan (na infância, eu achava que esses eram os nomes de meus avós maternos). Ele teve um infarto fulminante há duas décadas; ela faleceu mês passado, enquanto dormia em seu quarto. Sua saúde vinha se deteriorando há dois anos, com diminuição do apetite e da lucidez. Em janeiro do ano passado, ela reclamou que ninguém a avisara de minha visita; meu primo riu, lembrando que havia dito várias vezes que eu viria.
Coincidentemente, minha última postagem relata a sua história. Pode-se deduzir que ela teve uma vida árdua, assim como meus outros avós (nenhum deles teve a oportunidade de cursar uma faculdade, por exemplo, algo difícil de imaginar na atualidade). Teoricamente, vivemos em dias melhores; alcançamos maior liberdade, podemos ir mais longe. Mas nosso tempo continua finito, eis uma certeza que me soa cada vez mais urgente.