terça-feira, 28 de abril de 2015

Meu Pai

No meu local de trabalho, costumamos nos reunir na cozinha no começo da manhã para tomarmos café. A equipe é grande e eventualmente ocorrem divergências no assunto matinal, por isso buscamos discutir temas amenos como o preço da lavagem automotiva. Neste mês, o ginecologista disse que poderia lavar o carro de uma colega por um valor abaixo do mercado, pois gostava da atividade. Confessei que, mesmo que eu quisesse fazer isso, eu não conseguiria: "Nunca lavei um carro, nem mesmo o do meu pai."
O colega ficou um pouco surpreso e também fez a sua confissão: "Meu pai nunca lavou o carro dele, eu que lavava." Isso claramente explicava a nossa diferença hábil. Já escrevi que sou o "típico exemplo que faz o que quer quando quer", sendo conhecido, inclusive, como alguém "mimado". Apesar de eu não conseguir limpar a minha própria casa, suponho que o estímulo aos assuntos intelectuais tenha me ajudado a manter um blog e a curar as pessoas.
Há um ano, antes de minha avó falecer em Porto Alegre, tive uma longa conversa com um tio que, embora jornalista, cursou dois anos de Psicologia. Ele analisou que o avô deles (que criou o meu pai), era uma pessoa rígida e tinha um estilo "quase militar", por isso meu pai se dedicara tanto aos estudos e escolhera um curso estritamente técnico como Geologia. Ele tivera uma educação diferenciada de todos os seus irmãos, que gosto de imaginar como sendo no estilo "espartano".
Talvez ele tenha repetido esse modelo com seus dois filhos homens. Embora eu não fosse obrigado a ajudar nos afazeres domésticos, havia uma cobrança acadêmica marcante: eu tinha que ser o melhor. Comenta-se que sou "muito competitivo" e costumo dizer que só entro em um jogo para ganhar. Posso até transparecer a imagem de alguém que desiste facilmente (como uma típica "criança mimada"), mas prefiro pensar que eu não perco tempo em um jogo perdido. Uma das lições que tive no xadrez foi que é sempre mais educado desistir antes de levar o xeque-mate.

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Há pouco mais de um mês, meu pai piorou de uma hérnia de hiato que o fazia vomitar após as refeições. Foi a segunda vez que o vi doente. A primeira foi há vinte anos, quando ele se "desastrou" (quem usa essa expressão é o pai dele, ao se referir ao próprio acidente automobilístico quase fatal há cerca de trinta anos). Na época, eu tinha apenas dez anos e obviamente pouco podia fazer; porém, dessa vez, seria diferente. A vida me dera uma segunda chance.
Assim que soube que o quadro clínico piorara, encontrei-o na praia e de fato ele não conseguiu segurar o jantar de sábado e o almoço de domingo. Embora ele estivesse decidido pelo tratamento cirúrgico, recomendei um medicamento que poderia impedir a regurgitação até a cirurgia, que, segundo minha previsão, levaria pelo menos algumas semanas. No dia seguinte, liguei e ele contou que, usando o remédio, não havia tido mais problemas após o jantar de domingo e o almoço de segunda.
No final de semana seguinte, fomos passar a Páscoa no interior gaúcho, na casa do avô. Meu pai deu um susto na ida: após comer um pastel na estrada, passou a noite em observação em um hospital no meio do trajeto. Na sexta, já na casa do patriarca, ele relatou que esquecera de tomar o remédio, seu pai riu e disse que era igual: dificilmente seguia a risca as orientações médicas. À noite, reunimo-nos na tradicional mesa de cartas: eu, meu pai, dois de seus irmãos e o cunhado (também conhecido como "noro", como um masculino de "nora").
O costume é bebermos cerveja durante as apostas, mas eu prontamente contra-indiquei que meu pai o fizesse. Sugeri, no entanto, que ele experimentasse tomar whisky; apesar de mais forte, o volume ingerido seria bem menor, diminuindo o risco de refluxo. Coincidentemente, eu havia levado uma garrafa de Black Label, presente recente de meu irmão. A estratégia deu certo e no sábado chegamos a jogar dez horas seguidas, como nos bons velhos tempos.
No último natal, quando nos reunimos na casa litorânea do "noro", meu pai acabou a jogatina ganhando cerca de R$800, mas perdoou a dívida dizendo que era o "presente do papai noel". Tentando seguir o exemplo de generosidade, no domingo de Páscoa, antes de voltar para Santa Catarina, dei algumas notas para meu primo, justificando que havia ganho no jogo. Ele está iniciando uma temporada em Porto Alegre e, em tempos de vacas magras, imagino que toda ajuda se torna especialmente valiosa.
Voltei a ver meu pai no final de semana após a Páscoa, agora em Criciúma. No almoço de domingo, ele novamente passou mal, provavelmente porque esquecera da medicação. Oito dias depois, ele fez a cirurgia, sem intercorrências. Encontrei-o no quarto hospitalar algumas horas depois; ainda sob efeito da anestesia, ele pareceu um pouco confuso ao me ver entrar. Reclamava de náuseas e de um gosto amargo. Quando ele leu em voz alta a estampa da blusa de minha irmã, não me aguentei e fiz graça: "Você está doidão?!"
Continuei contando algumas piadas e ele prontamente riu delas. Uma hora depois, ele estava assintomático e conseguiu comer a gelatina recusada anteriormente. Com o fim do horário de visita, fomos embora e, já na manhã seguinte, ele estava em casa. Esse foi o primeiro final semana que não viajo até ele, um indicativo de que o pior já passou. Aproveitei a folga para pôr as idéias em dia; dentre as várias temáticas que me instigavam, claro, acabei escolhendo esta.

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No último verão, meu pai reafirmou que todos os seus filhos eram diferentes um do outro. Suspeito que, em termos de personalidade, eu seja o mais parecido com ele. Sou Sagitário, ele Áries, ambos de elemento fogo (assim como Leão, signo de minha mãe). Meu irmão é Capricórnio (terra) e minha irmã Peixes (água). Outra coincidência é que nós dois temos o mesmo ascendente, Touro, o que inclusive explicaria uma maior semelhança física.
Gosto bastante de dirigir e essa paixão é compartilhada pelo progenitor. Recentemente visitei meu padrinho, que o conhece há mais de trinta anos, e ele lembrou dessa semelhança. No começo do ano, o irmão de minha mãe também salientou que eu puxara meu pai, mas com uma diferença: eu gosto de dirigir na chuva. Acabei descobrindo pelo tio que eu herdei essa preferência de minha mãe, o que também me é uma grande honra.
Meu tio mais velho, ano passado, contou que o carro mais bonito que ele já conheceu foi o Maverick que meu pai comprou em meados de 1978, três anos após se graduar. Minha tia mais nova concordou, salientando suas rodas largas (a máquina ficou vários anos na família, depois com meu avô e, por fim, com um tio). Embora eu tenha encontrado uma explicação para eu ser fordista, o patriarca deixou claro que nunca teve uma "paixão" por alguma montadora específica. De fato, ser obsessivo é uma marca peculiar minha.

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Ariano, meu pai foi pioneiro na família. Primogênito, mudou-se para Porto Alegre com quinze anos para cursar o "científico". Meu avô sempre conta que ele foi o único dos filhos que não teve luxo ao morar fora (neste ano, em mais um episódio hilário, meu tio mais velho se revoltou ao escutar isso, argumentando que também passara por dificuldades na capital). Além de ser o primeiro com ensino superior, meu pai cursou uma prestigiada universidade federal; feito repetido pelos dois filhos, que também podem ser considerados pioneiros em suas áreas.