terça-feira, 19 de junho de 2012

Karma


Passei minha infância vendo um quadro do Che Guevara que por muitos anos decorou as paredes de casa. Na minha adolescência, usei incontáveis vezes uma camisa de meu irmão da revolucionária banda Rage Against the Machine, que também estampava a face de Che. Esse é o tipo de carma que não tive controle, simplesmente aconteceu para mim. Nada do que fiz (pelo menos, nesta vida) poderia mudar essa influência familiar característica.
O outro tipo de carma é o que temos controle e que depende da nossa vontade. Escolhi fazer Medicina e após formado escolhi ser funcionário público. Evidente que o fato de eu ter estudado em colégios particulares tornou minha decisão possível; de maneira similar, minha ideologia individual/familiar foi determinante na minha trajetória profissional.
De certa forma, os dois tipos de carmas se misturam, já que nossas escolhas dependerão de fatores externos e nunca seremos senhores absolutos de nossos destinos. A questão é se esses fatores externos são aleatórios ou se há uma relação entre eles e nossas ações passadas. Obviamente, acredito na segunda hipótese.
Há muitos anos, quando era adolescente, conversava sobre isso com meu pai e ele comentou que na minha última vida passada eu devia ter sido alguém muito bom, porque nesta eu tinha um vidão (!). Embora eu discorde de uma visão matemática de ação/reação, concordo que eu seja uma pessoa de sorte. Tive uma boa estrutura familiar e bons relacionamentos, consegui desenvolver minhas habilidades e realizei a maior parte dos meus sonhos. Pouco importa se eu passei apenas dez anos com a minha mãe, importa a pessoa que ela era e o amor que permanece até hoje.
Eu disse certa vez para alguém próximo que achava natural que as coisas dessem certo para mim. Acho isso não devido ao fato de eu fazer o bem, mas devido à minha boa intenção simplesmente. Os resultados são secundários; se minha intenção for boa, meu carma será positivo mesmo que momentaneamente saia tudo errado. As frustrações são inevitáveis, mas nossos desejos são progressivamente maleáveis ao longo da vida.
Se alguém estivesse em busca de um sonho e eu pudesse dar um único conselho, seria: tenha uma boa intenção. Se houver um interesse genuíno, a tendência é dar certo. O coração mantém o cérebro vivo, não o contrário; cuide de seu coração, porque ele será o responsável por suas principais conquistas. Não importa quando aconteça.

domingo, 10 de junho de 2012

Nossa Pequena Vitória


No começo desta semana, minha primeira atividade laboral foi ir ao hospital da cidade. Lá, dou bom-dia para a enfermeira, coloco minha mochila no balcão da enfermaria e olho para o quarto ao lado, percebendo uma das camas vazias. "Cadê a minha paciente?" Ela me responde um pouco constrangida, fitando-me nos olhos: "Ela viajou..." Ao perceber meu espanto, ela complementa, abrindo um sorriso modesto, porém reconfortante: "... para o além."
Suspiro, sorrio discretamente e olho novamente para a cama vazia, desabafando em seguida: "Queria que ela estivesse aqui." Surpresa, ela comenta: "Mas o doutor mesmo disse que só iria interná-la para dar um último conforto." "É verdade, mas como no outro dia ela ainda estava viva, achei que isso poderia ficar se repetindo." Ela me entendia, era o que todos esperavam apesar das circunstâncias. 
Minha paciente tinha cento e um anos de idade, internei-a na quarta-feira retrasada com um quadro típico de pneumonia. Ela chegara no meu consultório trazida pela nora em uma cadeira de rodas, com falta de ar e ansiosa. Há três meses não caminhava e vinha emagrecendo, estando bastante debilitada. No hospital, quando a enfermeira tentou colocar o cateter nasal de oxigênio, ela se agitou e disse as únicas palavras claras que eu ouvi dela: "Eu quero morrer." 
No outro dia, embora meu expediente seja oficialmente no posto de saúde, fui primeiramente ao hospital, esperando pelo pior. Mas ela não só estava viva como tranquila e sem mais falta de ar. Na sexta-feira, a mesma coisa pela manhã. Viajei realmente satisfeito por poder compartilhar a vitória da paciente e da sua família. Tive um ótimo final de semana, a má notícia veio somente esta semana.
"Ela nos avisou na sexta-feira, disse que sabia que ia morrer" continuou a enfermeira, "claro que a gente disse que não, mas...". O fato dela saber que estava partindo me trouxe um alívio que deve ter sido compartilhado por todos. Ela foi em paz, era hora de descansar, enfim.