domingo, 31 de agosto de 2014

A Parábola dos Talentos

Essa narrativa cristã está contida nos evangelhos de São Mateus (reproduzido no capítulo XVI de O Evangelho Segundo o Espiritismo) e São Lucas. Fiz o meu primeiro grau em um colégio católico, tínhamos a disciplina de "Religião"; lembro de haver uma ilustração em nosso livro ditático sobre a parábola: os talentos eram representados por reluzentes moedas de ouro.

"Apesar de um talento poder medir qualquer coisa, quando utilizado sem qualificação entende-se que se refere a prata como uma unidade monetária, no valor de cerca de 6.000 denários. Uma vez que um denário era o pagamento usual para um dia de trabalho, um talento equivalia aproximadamente ao valor de vinte anos de trabalho de uma pessoa comum. (...)
Tradicionalmente, a Parábola dos Talentos tem sido vista como uma exortação aos discípulos de Jesus a usar seus dons dados por Deus a serviço de Deus e a assumir riscos pela causa do Reino de Deus. Estes dons incluem habilidades pessoais ("talentos" no sentido usual), bem como a riqueza pessoal. A não utilização dos talentos, a parábola sugere, irá resultar em julgamento."

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Durante a transferência de minha avó para Porto Alegre, acompanhei a ambulância dirigindo meu carro em companhia de minha tia; tivemos uma longa conversa sobre diversos temas, principalmente sobre família. Ela disse que achava que, em um lar, todos os filhos deveriam ser tratados de forma igualitária. Eu discordei, argumentando que naturalmente cada filho seria tratado de uma forma diferente e citei alguns exemplos da minha infância.
Certa vez, não lembro a idade exata que eu tinha (suponho que aproximadamente seis ou sete anos), nossos pais nos chamaram na sala e disseram que eu havia sido elogiado pela professora, por isso eu receberia um presente: um conjunto de "armas ninjas". Na época, eu não entendi muito bem o que aquilo significava, mas aos poucos fui assimilando: vivemos em uma meritocracia.
Anos mais tarde, já adolescente, precisava de um amplificador potente para os ensaios com o meu promissor conjunto musical. Informei o preço ao meu pai que, sem resistência alguma, respondeu que compraria o equipamento. Minha irmã, que acompanhara a fácil negociação, esboçou uma certa revolta: "Eu também quero!" Meu pai, sábio, justificou com uma única frase, referindo-se ao meu desempenho acadêmico: "Você viu o boletim dele?!"

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Tenho trabalhado bastante nos dois últimos meses. Além de substituir um candidato à próxima eleição, que está de licença, dois outros médicos tiraram férias consecutivas. Imaginei que precisaria de alguma folga nessa última semana, mas consegui cumprir o expediente até sexta-feira, apesar do cansaço crescente. Se me perguntarem como isso foi possível, imagino que poderia responder que foi por causa dos talentos.

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"O Senhor age como um homem que, devendo fazer uma longa viagem para fora do país, chamou seus servidores e lhes colocou nas mãos seus bens. E tendo dado cinco talentos a um, dois a outro e um a outro, segundo a capacidade cada um, logo partiu." São Mateus, capítulo 15, versículo 14. 

Se considerármos que "capacidade" seja um sinônimo de "talento", pode-se concluir que as moedas de ouro tenham um outro significado, pois seriam consequência do talento nato de cada um. Uma possibilidade seria que elas representem "sorte" ou, mais poeticamente, "ventura"; assim, não bastaria ter sorte, seria preciso ter coragem para usar e multiplicar as bênções recebidas. Todos recebem algum talento, por menor que possa parecer; ele tem um propósito, não devemos escondê-lo.

domingo, 24 de agosto de 2014

Recomeço

O primeiro passo foi comprar um novo calçado. Há alguns anos, experimentei usar "sapatênis", mas descobri que eles eram desconfortáveis como sapatos e os abandonei; voltei a investir em tênis, que duram uma média de 6 meses em bom estado. Dessa vez, mudei de estratégia e escolhi um par preto, de material aparentemente resistente que pode durar anos; minha dúvida era sobre o conforto, talvez falho. Mas, após alguns dias, tenho a sensação de ter feito a escolha perfeita.

"Ponho meu sapato novo e vou passear, sozinho, como der, eu vou até a beira, besteira qualquer, nem choro mais, só levo a saudade, morena... É tudo o que vale a pena." 
Sapato Novo - Los Hermanos (Marcelo Camelo)

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O segundo passo foi comprar novas cordas para a madura e persistente guitarra. Encontrei exatamente a marca e o modelo que procurava: D'Addario 011. Ao trocar a última corda, notei uma peça quebrada que me levará ao reencontro com o luthier cinco anos depois da última reforma. Quem sabe eu não troque novamente o set de captadores em busca de novas experiências musicais? Essa mera possibilidade já me causa grande entusiasmo.

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O terceiro passo foi definir a compra do futuro automóvel. Devo optar por uma versão mais simples que a inicialmente pretendida, ludibriado pelos descontos e pela satisfação da pronta-entrega. Assim como no caso do sapato novo, abandonei o branco e apostei no preto. Minha justificativa oficial é que abandonei o lado do bem e agora vou tentar o lado do mau, mas imagino que o preto simplesmente me simboliza a esperança em um bom recomeço.

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"Ainda que se saiba que todo recomeço cessará e que a fase vindoura também um dia terminará - demandando um novo recomeço e assim por diante - é o que faz a vida ter sentido."

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Concorrência

Um dia, ela me manda uma mensagem pelo celular definindo meu sorriso de forma poética e peculiar. Intrigado pela expressão usada, pesquiso-a na internet e descubro o seu autor original, um outro blogueiro. "Um concorrente" é o meu pensamento imediato, consolidado pela descoberta de seu talento. Rendido, passo por cima do meu orgulho e lhe respondo com o trecho inicial de outra postagem brilhante do cidadão:

"Eu compreendo todos os homens que te amaram. Aqueles que sofreram, aqueles que te beijaram e aqueles que morreriam por um beijo teu..."

No outro dia, ela me consola dizendo que prefere o meu blog ao dele; faço um charme, finjo não acreditar. Já em casa, retorna a vontade remota de ser lírico em meus escritos, não mais como um desabafo, mas como uma tentativa clara de ser mais que meu adversário; ele que, derrubando-me de meu ego, torna-me alguém melhor, menos arrogante e acomodado. Se existe o risco de perdê-la, deverei buscar ainda mais a inspiração em minhas postagens; afinal de contas, eu compreendo todos eles.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A Despedida

Um dos momentos áureos da minha carreira profissional ocorreu na última reunião de equipe da unidade em que trabalhei em 2009, logo após formado. Eram três equipes de ESF que se encontravam uma tarde por mês para debater temas importantes ao bom funcionamento da unidade. Após nove meses, minha última reunião chegara e, em um clima bastante positivo, fui presenteado com uma despedida memorável.
A coordenadora da unidade, uma experiente enfermeira, comentou a minha saída e logo se ouviu um coro das dezenas de colegas, ao ritmo de fortes palmas: "Fica! Fica! Fica!" Como também estavam presentes estudantes de Medicina, gosto de pensar que acabei ilustrando a glória que eles deveriam esperar após formados. Ao fim, a chefe me fez um último pedido público: "Continue sendo do jeito que você é."
Cinco anos depois, recordo que eu tinha uma relação quase conflituosa com ela; minha personalidade, confesso, dificulta o papel de bom subordinado. Apesar disso, nunca a enfrentei diretamente; é provável que minha postura pacífica, pelo menos perante ela, tenha sido determinante nas suas palavras finais. Que essa despedida me seja inesquecível e, assim, incentive eternamente o reencontro entre o que sou e o que tenho de melhor a oferecer.

domingo, 17 de agosto de 2014

A Paciente

Nessa semana, atendi uma jovem de onze anos com quadro de amigdalite. Enquanto eu preparava a receita, ela acrescentou: "Eu também quero um encaminhamento para a psicóloga, pediram na escola." Chamou a atenção que eu nunca ouvira esse pedido diretamente da criança, a avó, que acompanhava a consulta, pouco falava. A paciente explicou que perdera sua mãe e a tia em um acidente trágico há cinco meses. Eu já havia atendido seu tio, o único sobrevivente.
Nas quartas de manhã, atendo em duas unidades básicas de saúde; para fazer isso, chego mais cedo na primeira unidade e limito o número de atendimentos. Mesmo assim, atrasos acontecem e atendo com o olho no relógio. Ali, porém, eu sabia que teria que "tirar o pé" e, com cuidado, prestar um bom atendimento. Respondi que conhecia o acidente, na época, eu passava por aquele trecho diariamente.
Disse que o acompanhamento psicológico seria positivo, pois a profissional teria tempo para conversar com calma; eu, por exemplo, não teria muito (e apontei para o corredor atrás da porta, repleto de pacientes esperando). Apesar de apresentar sintomas depressivos, ela mostrava uma inteligência afiada e compreendia bem o que eu falava. Ao perguntar o que ela seria quando crescesse, ela respondeu direta: "Penso em fazer Engenharia Civil ou Direito."
Aproveitei para falar do meu irmão e sua carreira no Direito, exaltando também que Engenharia Civil era uma área em alta: "Se vê muitos prédios sendo construídos". Após alguns instantes de silêncio, ela confessa que já pensara em fazer Medicina, mas seria "muito difícil". Interpretei que ela se referia aos altos custos da graduação, por isso informei que me formara em uma universidade federal, gratuita. Com um sorriso, completei: "Só tem que estudar para passar no vestibular!"
Ao terminar de preencher os papéis, compartilhei: "Quando eu tinha dez anos, minha mãe também morreu em um acidente de carro. Infelizmente (agora fitando a mãe da vítima), muito comum. Mas deu tudo certo, hoje eu sou médico e estou aqui atendendo vocês." Entreguei-lhe a receita, o encaminhamento e o atestado, ela se levantou e, estendendo-me a mão, agradeceu: "Muito obrigada pela atenção." Ao cumprimentá-la, tive a certeza que havia alcançado meu objetivo.