domingo, 17 de agosto de 2014

A Paciente

Nessa semana, atendi uma jovem de onze anos com quadro de amigdalite. Enquanto eu preparava a receita, ela acrescentou: "Eu também quero um encaminhamento para a psicóloga, pediram na escola." Chamou a atenção que eu nunca ouvira esse pedido diretamente da criança, a avó, que acompanhava a consulta, pouco falava. A paciente explicou que perdera sua mãe e a tia em um acidente trágico há cinco meses. Eu já havia atendido seu tio, o único sobrevivente.
Nas quartas de manhã, atendo em duas unidades básicas de saúde; para fazer isso, chego mais cedo na primeira unidade e limito o número de atendimentos. Mesmo assim, atrasos acontecem e atendo com o olho no relógio. Ali, porém, eu sabia que teria que "tirar o pé" e, com cuidado, prestar um bom atendimento. Respondi que conhecia o acidente, na época, eu passava por aquele trecho diariamente.
Disse que o acompanhamento psicológico seria positivo, pois a profissional teria tempo para conversar com calma; eu, por exemplo, não teria muito (e apontei para o corredor atrás da porta, repleto de pacientes esperando). Apesar de apresentar sintomas depressivos, ela mostrava uma inteligência afiada e compreendia bem o que eu falava. Ao perguntar o que ela seria quando crescesse, ela respondeu direta: "Penso em fazer Engenharia Civil ou Direito."
Aproveitei para falar do meu irmão e sua carreira no Direito, exaltando também que Engenharia Civil era uma área em alta: "Se vê muitos prédios sendo construídos". Após alguns instantes de silêncio, ela confessa que já pensara em fazer Medicina, mas seria "muito difícil". Interpretei que ela se referia aos altos custos da graduação, por isso informei que me formara em uma universidade federal, gratuita. Com um sorriso, completei: "Só tem que estudar para passar no vestibular!"
Ao terminar de preencher os papéis, compartilhei: "Quando eu tinha dez anos, minha mãe também morreu em um acidente de carro. Infelizmente (agora fitando a mãe da vítima), muito comum. Mas deu tudo certo, hoje eu sou médico e estou aqui atendendo vocês." Entreguei-lhe a receita, o encaminhamento e o atestado, ela se levantou e, estendendo-me a mão, agradeceu: "Muito obrigada pela atenção." Ao cumprimentá-la, tive a certeza que havia alcançado meu objetivo.

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