sábado, 21 de dezembro de 2013

Doutor Delmar - parte 3

Eu costumo expressar abertamente o desejo que meus futuros filhos façam Medicina, sendo clara minha satisfação pelo ofício. Uma das histórias que mais me chamaram a atenção foi a de que o doutor Delmar se opôs à vontade do filho de ser médico, assim, o jovem acabou seguindo outro caminho. Se eu pudesse fazer uma única pergunta ao doutor, seria: por que você não quis que seu filho seguisse seus passos?
Ao expor essa dúvida durante o horário de almoço, informaram-me que o doutor Delmar se ressentia com a atitude mercantilista da classe médica. Essa resposta nunca me convenceu plenamente, pois seu sucessor não seria necessariamente "corrompido" pela profissão. Ainda assim, é possível encontrar em seu livro trechos que embasam seu desgosto pela Medicina:

"A dificuldade foi a oposição desleal dos médicos, que consideravam o sistema público um concorrente dos seus negócios. Encastelados em seus consultórios e no hospital, procuravam impedir qualquer progresso na implantação de programas de saúde pública que pudessem diminuir a sua clientela particular (...) Médicos até concordavam em dar atendimento nos postos de saúde, apesar do baixo salário da época, porém, com a clara intenção de garimpar entre os pacientes aqueles com melhor poder aquisitivo, para desviá-los ao consultório particular." www.arevolucaodosplebeus.com.br Página 153

Em 2010, trabalhei em uma cidade de 17 mil habitantes cuja maior parte dos médicos "atuavam duplamente" no ESF e em consultórios particulares. Meses depois, relatei para um amigo recém-formado que ele deveria evitar trabalhar em locais com este perfil, pois ele seria visto como um concorrente, não como um colega. Apesar dessa experiência desagradável, acabei descobrindo que essa prática não era tão comum em outros municípios.
Doutor Delmar também é um crítico da escola médica tradicional, que tende a formar profissionais já especializados ao invés de generalistas. Quando entrei na UFSC em 2003, o curso de Medicina acabara de sofrer uma reforma curricular significativa, visando justamente formar bons generalistas. Embora eu considere a iniciativa bem-sucedida, entendo que a verdadeira dificuldade seja convencer o acadêmico a seguir carreira como clínico-geral.

"O perfil do estudante de medicina brasileiro é do jovem de classe média, que não escolhe essa profissão por idealismo, mas por status e por boa remuneração, buscando conforto e qualidade de vida. Não quer ser médico para ir pisotear barro no interior, prefere as alvas e assépticas clínicas e hospitais das cidades maiores. É coerente, então, que pretenda seguir uma especialidade que lhe permita permanecer nos grandes centros. É uma constatação, não é uma crítica, já que cada um tem o direito de construir sua vida como achar melhor." Página 155

Durante a adolescência, conheci uma família cujo patriarca, médico gaúcho, dizia aos seus dois filhos que, se eles se formassem em Medicina na UFRGS, suas vidas seriam um sucesso. Anos mais tarde, ambos se formaram na renomada instituição e hoje colhem os frutos de um caminho árduo, mas repleto de honra. Acredito que a família escolheu a Medicina por vocação, não por status ou ambição material. Assim como o doutor Delmar, que nos surpreende com uma postura diferente em relação ao filho.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Doutor Delmar - parte 2

Penso que duas características marcantes dele sejam a humildade e um rigoroso código moral, demonstradas no seguinte trecho:

"Por falar em SUS como causa ou emprego, há uma situação que ocorre com muita frequência e que merece ser citada, que é a dupla militância, ou seja, o médico trabalhar no sistema público e privado. Sempre defendemos que essa prática é desaconselhável, porque uma das duas atividades, fatalmente, seria relegada a segundo plano. Fomos coerentes com essa ideia durante trinta anos mas, recentemente, durante um pouco mais de um ano, também trabalhamos em uma ESF e, depois do expediente, na nossa clínica particular, com consultas e exames de ultrassom. Não deu certo. Conseguimos dar conta de toda a demanda de pacientes que procuravam por consulta médica nos dois postos de saúde sob nossa responsabilidade e realizávamos outras tarefas, como as atividades com grupos específicos de pacientes e algumas visitas domiciliares. Porém, faltava a criatividade, o "algo a mais", como a preparação de material educativo, o trabalho com as crianças na escola, a atenção maior à vovozinha acamada, a palestra na comunidade à noite, em horário mais apropriado para a participação de todos, o estudo em casa à noite, etc. Concluímos que, realmente, o médico que atua na Atenção Básica à Saúde deve dedicar-se exclusivamente ao serviço público." www.arevolucaodosplebeus.com.br Página 154

Ele se sentia culpado por "militar duplamente", ao comentar isto com um colega nosso em comum, compartilhei: "Já teve época em que eu me sentia culpado por ganhar bem, hoje eu acho que eu ganho o justo pelo meu trabalho, em alguns anos, provavelmente vou achar que ganho menos do que mereço..." Ele riu. Algo que fascina no doutor Delmar é sua resistência ao tempo: com três décadas de provações, ele conseguiu se manter firme aos seus altos padrões éticos.
Achei surpreendente sua intenção de fazer palestras noturnas além do expediente pela manhã e tarde, ao comentar com uma colega nossa, ela me relatou que essas palestras chegaram a ocorrer! No outro dia, um colega confessou que ficou até 23h em um desses encontros; ao se deparar com meu espanto, ele tentou amenizar informando que essa jornada noturna era revertida em folga. Respondi que trabalhar até esse horário não valeria a pena nem que tivesse direito a uma semana de folga. Ele riu.
Uma das perguntas que fiz sobre o doutor Delmar foi sobre o seu carro. Descobri que tinha um carro simples "não-novo", o que achei fantástico.  Em seu livro, ele faz um resumo econômico dos anos em que atuou na distante Rondônia:

"Ao final dos primeiros nove anos de carreira, não possuíamos outros bens além de um carrinho popular. Tínhamos uma magérrima poupança, que Collor nos fez o favor de confiscar. Portanto, iniciamos o décimo ano praticamente como o primeiro: sem nada. Sem nada, não! Com o coração cheio de alegria e com uma vontade enorme de poder voltar atrás e fazer tudo de novo." Página 162

Uma característica do profissional com "perfil para ESF" (termo que tenho escutado com certa frequência ao longo dos anos) me parece ser uma ambição material modesta. Neste caso, é interessante como a simplicidade parece afastar o profissional do serviço público; imagino que se ele ambicionasse carros confortáveis, viagens, comidas e bebidas requintadas, mesmo que um pouco apenas, ele veria no serviço público uma boa oportunidade. Mas sua ambição era outra, caso contrário, eu sequer o teria conhecido.

"Quando retornamos ao sul, no início de 1990, após nove anos, trouxemos de Rondônia um casal de filhos já meio criados. A parte da infância que passaram em Rondônia, convivendo com as pessoas simples, bondosas e carinhosas de lá, contribuiu de maneira decisiva para que hoje ambos sejam adultos equilibrados, críticos, solidários e, principalmente, sem preconceitos. Jamais serão confundidos com "ricos e cultos". Não pode haver realização maior para um pai ou uma mãe." Página 162

sábado, 7 de dezembro de 2013

Doutor Delmar

Nos últimos dois meses, tem crescido meu interesse pela figura do médico que trabalhava no meu ESF atual. Embora não o conheça pessoalmente, suas ações nas unidades são frequentemente lembradas e acho notável sua aprovação unânime pela população e pela equipe. Quando algum paciente comenta sobre ele, eu costumo complementar com a frase: "O doutor Delmar é famoso..."
Ao iniciar meus trabalhos, informaram-me que ele chegava mais cedo que o habitual no expediente. Presumi que ele fazia isso para ir embora antes, mas, algumas semanas depois, descobri que não: ele também ia embora mais tarde, chegando a atender 60 pacientes num único dia. Tamanha dedicação poderia ser esperada de um recém-formado, mas não de um profissional com mais de três décadas de formação.
"O doutor Delmar queria salvar o mundo" foi uma fala extraordinária que escutei. Durante um ano e pouco ele atuou ali, os últimos meses à espera de um substitudo que só veio quatro meses após sua saída. Eu o entendo perfeitamente, neste ano, comentei com um colega médico da minha cidade natal que era impossível ficar em um mesmo ESF por mais de um ano. O doutor Delmar embasa parcialmente minha tese.
Semana passada, conheci seu livro recém lançado, que também explica sua saída. Acredito que seus escritos tomaram forma justamente após sua demissão, quando teve tempo hábil para complexo feito. Um presente para nós: www.arevolucaodosplebeus.com.br

"O texto representa a verbalização de reflexões e observações feitas ao longo de uma vida bem vivida em vários estados e cidades do Brasil. É um pensar em voz alta, um plano de atuação, um roteiro, uma espécie de cartilha pessoal, na qual procuramos sistematizar o nosso próprio projeto de intervenção, após analisar aspectos negativos e positivos da política brasileira na atualidade. Concebido para esse fim, a ideia era, posteriormente, editá-lo e guardá-lo no fundo do baú para que, no futuro, os netos que virão soubessem como o vovô pensava e o que tentou fazer." Página 7

Identifico-me com isso, se um dia eu tiver netos, eles poderão acessar este blog para descobrir como eu pensava e agia. Texto após texto, é como se deixássemos uma parte de nossa alma neste mundo.

"(...) no norte do estado de Santa Catarina, onde tivemos a felicidade de trabalhar em uma ESF que se aproximava da perfeição, que contava com equipe completa, constituída por agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, enfermeira, dentista e médico, além do apoio de nutricionista, fisioterapeuta e psicólogo do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) e do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), de assistente social e do Conselho Tutelar. A coordenação técnica da Secretaria Municipal de Saúde era perfeita, o apoio institucional total, e não houve ingerência política no trabalho, mesmo durante uma acirrada campanha eleitoral municipal. De quebra, o relacionamento interno da equipe era excelente, baseado em compromisso sincero com a população e amizade e cooperação com os colegas. Ter vivenciado essa experiência aumentou ainda mais nossa convicção de que a Atenção Básica à Saúde deve ser prioridade. Se todo o território nacional fosse coberto por equipes completas das ESF, cada uma cuidando de aproximadamente mil famílias, e se as equipes tivessem essas condições de trabalho e esse nível de comprometimento que descrevemos, o sistema de saúde e a própria saúde da população seriam completamente diferentes em poucos meses, com uma relação custo-benefício extremamente favorável para a sociedade." Página 144

Sinto-me honrado em trabalhar no local acima citado, não por acaso, recusei uma oferta aparentemente melhor para voltar a atender ali. Em 2011, atuei por 6 meses em um outro ESF desta cidade, meu retorno deixa claro que nossa relação profissional foi satisfatória. Minha intenção hoje é permanecer por muitos anos, afinal de contas, não é todo dia que se encontra um ESF quase perfeito para se trabalhar.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Blefadorzinho

No feriado de 15 de Novembro, houve o encontro de turma após cinco anos de formados. Nos comentários em uma rede social que antecederam o final de semana, fiz um único pedido: "Tem que rolar um poker!". Amante das cartas, para mim, não existe nada melhor que o Texas Holdem no limit. Nos três dias de hospedagem, o auge me foi a noite de sexta-feira, quando ficamos até às três horas da madrugada no carteado.
Eu diria que este jogo pode ser usado como uma analogia para a vida: o vencedor é aquele que acumula maior quantidade de fichas no final. Assim, tão importante quanto ganhar é não perder, pequenas vitórias são melhores que grandes ganhos seguidos de grandes perdas. Um exemplo no mundo real seria: não adianta cultivar boas amizades e não as manter; no fim, você simplesmente terá perdido.
Em uma das rodadas, surpreendi ao ganhar com uma sequência de cartas baixas. Meu adversário desabafou: "Como ele paga um raise pré-flop com um 2 e um 5?!" Minha justificativa provocou risadas da mesa: "Um 2 e 5 'suited' (do mesmo naipe)!" Porém, em rodadas posteriores, mudando de postura, abandonei as cartas perante as apostas inimigas, ouvindo a frase: "Agora o Tiaraju está conservador..."
Ao estudar a teoria do poker, entendi que a melhor estratégia é variar o estilo de jogo, visando confundir os adversários. Isto é algo difícil de se fazer, variar de personalidade conforme as circunstâncias, já que naturalmente tendemos a ser sempre os mesmos. No entanto, assim como no jogo, a vida demanda diferentes posturas a todo momento, flexibilidade e poder de adaptação são qualidades importantes de quem vence.
Uma das melhores jogadas da noite foi quando eu fiz uma aposta alta no river e, após alguns instantes de reflexão, meu colega pagou a aposta derradeira. Mostrei-lhe um excelente jogo, superior ao seu. Ao fitar um colega nosso no canto oposto, ele justificou sua conduta: "Pensei: o Tiaraju, blefadorzinho..." De fato, em rodadas anteriores, eu havia blefado abertamente, o que acabou favorecendo altos ganhos quando eventualmente vinha com boas cartas.
Acredito que agir de maneira "supervalorizada" seja também uma boa estratégia na vida real, desde que ela não se torne banal. O maior perdedor da noite foi justamente o que tinha a postura mais agressiva, tomando a iniciativa das apostas frequentemente. Ao questionar o meu surpreendente 2 e 5, acabou ouvindo novamente que ninguém mais o respeitava na mesa. Era verdade, as fichas não mentem.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Jogador de Futebol

Há muitos anos atrás, meu pai sonhou que meu irmão se tornara um renomado jogador de futebol, sendo requisitado até por clubes internacionais. Lembro de sua empolgação ao comentar que ficara surpreso com o talento esportivo do filho mais velho, que era "bom mesmo". De certa forma, cresci com o pensamento de ter um gigante na família e isso é parte importante da minha auto-estima.
Durante a faculdade, li o clássico de Freud, A Interpretação dos Sonhos, no qual ele discorre minuciosamente sobre o tema. O sonho de meu pai pode ter sido fruto de suas boas aspirações sobre o primogênito, algo natural em pais zelosos. Outra hipótese menos científica seria a de ter sido um sonho premonitório, obviamente essa é a idéia que defendo. Há muitos anos atrás, uma profecia ocorreu, não tenho dúvidas.
É irônico como posso estufar o peito e me gabar das glórias do meu irmão gratuitamente, sem ter que passar pela pressão diária que seu importante cargo impõe. Compartilho sua vitória sem o ônus de estar sempre à prova, sempre aos olhos da sociedade. Vivo em um lugar confortável, que meu pai viu e teve a felicidade de compartilhar conosco em uma manhã antiga de verão.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Encontro Marcado

No último dia de Finados, viajei para o litoral do Rio Grande do Sul, onde estão meus avós; no caminho, passei em minha cidade natal para dar uma carona para minha irmã. Ao saírmos de casa, meu irmão, que não sabia que eu estava na cidade, ligou para ela e combinamos de ir juntos ao cemitério. Esse encontro familiar não ocorria há muitos anos; desta vez, fui acompanhado pela minha esposa e ele pela sua namorada e sogra.
Essas visitas sempre foram carregadas de uma dolorosa comoção, o que me impelia a evitá-las (paradoxalmente, de tempos em tempos, eu sentia uma forte necessidade de ir até lá). Agora, porém, o clima era ameno e o sofrimento parecia ter sido finalmente superado. Em volta da lápide, após um breve silêncio, conversamos sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas.
Meu irmão reparou no brilho dourado que minha mão esquerda refletia, ironizando o fato de não ter sido convidado para meu casamento (na verdade, não houve festa e, por isso, ninguém foi convidado). Minha cunhada aproveitou o embalo e, bem humorada, reclamou de termos "passado na frente" deles, que eram mais velhos e estavam juntos há muito mais tempo.
Como de costume, ela reparou na minha fartura de cabelo, em contraste ao primogênito da família. Em meio a risadas gerais, ela justificou essa diferença lembrando que eu havia feito Medicina e assim não passara pelas dificuldades que um bacharel em Direito enfrenta no início da carreira. Embora eu reconheça dois caminhos diferentes, imagino que nossa felicidade hoje seja a mesma: um sentimento absoluto sobre as provações passadas.

sábado, 9 de novembro de 2013

Sobre o Programa Mais Médicos - parte 2

O texto abaixo foi finalizado há algumas semanas, mas primeiramente optei por não publicá-lo por considerar errado "crucificar" alguém, independente da gravidade de seu erro. No entanto, deparo-me frequentemente com pessoas inteligentes, bem formadas, que parecem apoiar cegamente o programa; por isso, exponho o caso que me é um exemplo claro do risco que envolve contratar um profissional mal preparado para atuar sem supervisão. 

* * *

Minhas esperanças na escola argentina foram parcialmente ceifadas pela conduta ilustre do médico argentino em Tramandaí-RS. Com 50 anos de idade e 25 de formação, ele receitou uma dose bizarra de Azitromicina para um paciente. Quando vi a receita pela primeira vez, pensei que, caso o médico se justificasse dizendo que o confundira com Amoxacilina, por exemplo, seria uma explicação plausível. Porém:

"Na tarde desta terça-feira, Cazajus justificou à reportagem de Zero Hora que a receita estava de acordo com as condições de saúde do paciente. Fumante, o homem que foi atendido na semana passada pelo profissional do Programa Mais Médicos apresentava um quadro de falta de ar.
— Era um paciente complicado, que aparentava não tomar medicação. Me excedi na dose, mas foi pelas características do paciente. Era a única opção que tinha.
Conforme o médico, o paciente realizou um raio X que apresentou uma infecção pulmonar leve. (...)

Por ser um paciente potencialmente grave, o médico receitou uma superdose de antibiótico e o liberou para casa (?!). A história ficava ainda pior:

"Após a confusão, e não satisfeitos com a prescrição, familiares do homem o levaram até o Hospital Regina, em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e receberam nova avaliação médica. 'No hospital, fizeram um diagnóstico diferente da questão respiratória. Ele tinha um derrame pleural bilateral que deveria ter sido identificado já no primeiro raio-x. A sorte é que o paciente foi visto por outro médico, que suspendeu a medicação e fez o tratamento adequado', afirmou Matos.
Segundo o presidente do Cremers, a avaliação mal feita a partir do primeiro exame foi o erro mais grave, já que o derrame precisaria ter sido percebido pelo médico estrangeiro. A assessoria de comunicação do hospital confirmou ao G1 que o homem deu entrada no último domingo (13) e recebeu alta nesta quarta-feira (16). 'Agora ele será encaminhado para tratamento no setor de oncologia do Sistema Único de Saúde', completou Matos." http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/10/conselho-do-rs-diz-que-profissional-do-mais-medicos-errou-diagnostico.html

Proporcionalmente, a Argentina possui mais médicos que o Brasil, formando inclusive brasileiros que são atraídos pela sua facilidade de formação. Estatisticamente, estamos perdendo, mas como estamos na prática? No universo que representa cada atendimento de saúde, qual escola se sai melhor?

"O Brasil possui 1,8 médicos por mil habitantes, índice menor que o da Argentina (3,2), do Uruguai (3,7), do Reino Unido (2,7), de Portugal (3,9) e Espanha (4)."

domingo, 27 de outubro de 2013

300 (2007)

Apesar de ter um compromisso histórico secundário e um ar fantasioso, eu diria que este é um de meus filmes prediletos. Baseado na obra em quadrinhos de Frank Miller e Lynn Varley, levanta várias questões filosóficas que ainda hoje se mostram relevantes. Ambientada em 480 AC, trata-se da defesa grega contra a poderosa invasão persa, na segunda guerra médica.
Militarmente, Esparta era a cidade líder e Xerxes sabiamente decidiu invadir a Grécia no período das festividades religiosas da Carnéia, que tornava um sacrilégio Esparta entrar em guerra. Além disso, era época das Olimpíadas, onde as cidades gregas paravam de guerrear entre si para competir nos esportes (sem dúvida, um grande legado para a humanidade).
No Oráculo de Delfos, foi profetizado que o sacrifício de um rei seria necessário para evitar o saque da cidade grega; assim, Leônidas, acreditando ser a defesa de Termópilas uma missão suicida, escolheu apenas espartanos com filhos vivos para o acompanhar. Trezentos era o número de soldados da guarda real de Esparta.
A estratégia de guerra foi bem arquitetada entre as cidades gregas: Atenas impediria o avanço pelo mar, enquanto Esparta impediria o avanço por terra, ambos em pontos estreitos onde a superioridade numérica persa faria pouca diferença. Leônidas teve a missão de recrutar mais gregos no caminho até Termópilas, soldados de outras cidades que seriam atacadas antes de Esparta caso os persas avançassem.
Estima-se que 7000 gregos defenderam o estreito caminho entre as montanhas e o Meditarrâneo. Os soldados de cada cidade formavam unidades que se revesavam entre si contra os persas, dois ataques de 10.000 homens foram repelidos no primeiro dia de batalha. Já no segundo dia, o morador local Efialtes informou Xerxes de um caminho paralelo que encurralaria o pequeno exército inimigo.
No terceiro dia, sabendo que seriam fatalmente cercados pelo invasor, a maior parte dos gregos recuou, enquanto cerca de 1500 permaneceram bloqueando os "portões quentes" (no filme, apenas os espartanos fazem este último bloqueio). Embora tenha-se criado a idéia de que um soldado de Esparta jamais poderia recuar, é possível que esse sacrifício tenha sido realizado como mais uma estratégia lógica de guerra.
Caso todos os gregos recuassem, a cavalaria persa teria caminho livre para os alcançar em campo aberto, onde a superioridade numérica seria decisiva. Caso todos permanecessem em Termópilas, o desfecho seria o mesmo pois estariam encurralados. Ficando apenas uma parte dos gregos para a defesa do estreito, milhares de soldados foram polpados e assim puderam participar de futuras batalhas.
Imagino que, se o exército espartano estivesse presente em sua totalidade, não haveria possibilidade dos persas avançarem por Termópilas. Mesmo com a traição do "Judas grego", com espartanos guardando o caminho paralelo, os persas não conseguiriam contornar pela montanha. A guerra poderia acabar ali, mas não acabou por conta de uma tradição religiosa que durava nove dias ao ano.
Ao pensar sobre a separação entre estado e religião, logo percebo que não estamos tão longes da Grécia antiga. Racionalidade bem exemplificada pelos 300 que quebraram a norma de não guerrear durante um importante "período sagrado". A lógica deve prevalecer nas decisões sociais, parece sensato pensar assim, especialmente em tempos de crise. Eis um dilema que pode ser considerado eterno na trajetória humana.

* * *

"Os 300 de Esparta" foi o primeiro filme lançado sobre o tema, em 1962, no auge da guerra fria. Simbolicamente, representou o embate entre capitalismo e socialismo: os espartanos defendiam um modelo de liberdade contra um modelo escravocrata. Essa guerra ideológica persiste ainda hoje se pensarmos nas divergências políticas entre direita e esquerda; um exemplo é a atual política nacional de distribuição de renda, que claramente divide opiniões. 

* * *

Há algumas semanas, durante um churrasco com amigos, chegou-se ao assunto dos médicos formados no exterior. O aniversariante comentou que achava que todos aqueles que queriam ser médicos tinham o direito de se formarem médicos. Um odontólogo que acompanhara o comentário logo respondeu: "Eu quero ser jogador de futebol. Todo mundo que quer ser jogador de futebol tem o direito de ser profissional?"
Pego de surpreso, o aniversariante apenas riu, não havia como responder a essa comparação. Era óbvio que apenas os mais habilidosos poderiam ter tão cobiçado ofício. Isso é de fácil entendimento, vivemos no país dos esportes e da liberdade, vivemos em uma meritocracia. Apesar disso, é curioso como também temos que enfrentar nossas guerras médicas. Filosoficamente falando, qual lado você defenderia?

domingo, 20 de outubro de 2013

Destino

No clássico Matrix (1999), Morpheus pergunta para Neo se ele acredita em destino. O protagonista responde que não, pois não gostava da idéia de que não estava no controle de sua vida. Embora eu me identifique com este notável herói moderno (como boa parte da geração Y), discordo dele: não existem coincidências. Logo, existe uma lógica maior e todos temos um destino pré-determinado.
No meu último ano de faculdade, reencontrei uma ex-paciente no corredor do Hospital Universitário e ela se mostrou bastante feliz em me ver. Trocamos um abraço, ela estava bem de saúde. Uma colega que acompanhara a cena comentou bem-humorada que eu deveria ser político. Minha resposta inicial foi um sorriso e, após nos sentarmos na lanchonete para um café, comecei minhas explicações.
Disse que não acreditava em Deus como uma entidade individualizada, mas como uma lógica que prevalece nos acontecimentos. Não existem coincidências, logo, todos os pacientes que cruzarem meu caminho foram enviados por Ele; com essa importância, minha obrigação era sempre tentar prestar o melhor atendimento possível. Com uma boa intenção, obtia um bom resultado.

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Neste Outubro rosa, voltei a fazer pré-natal após dois anos "de folga" (nesse período, trabalhei em prefeituras que dispunham de um médico obstetra para essas consultas). Assumi duas unidades que juntas formam uma equipe "ESF", há 5 meses sem médico. Uma das gestantes que atendi esta semana tinha tipagem sanguínea negativa e, apesar de estar no terceiro trimestre, perguntou-me o que isto significava. Automaticamente iniciei minhas explicações.
A maioria das pessoas possuem uma proteína nas células do sangue, elas têm o tipo sanguíneo "positivo" para a proteína Rh. Quem não tem essa proteína é do tipo "negativo"; essas pessoas, ao entrarem em contato com o sangue "positivo", podem montar uma defesa contra esse sangue. Se o pai é do tipo positivo, há boa chance da criança ser positiva também; mas normalmente não há contato entre o sangue materno e fetal.
Um exame pode ser feito para saber se esta defesa foi acionada, pois isso pode prejudicar a criança. O risco é menor para a primeira gestação, o que é mais um motivo para dar tudo certo. Vai fazer cinco anos que estou formado e nunca vi dar algum problema. "Já tinham tentado me explicar, mas só agora eu entendi." Olhei-a e, satisfeito, senti realmente que ela tinha compreendido.
No caminho para casa, lembrei que este tema me foi dominado no segundo ano do ensino médio, usando um livro que meu irmão usara cinco anos antes. Em meu ímpeto intelectual, usufruí de toda uma biografia anterior a minha; tive acesso a mais e isso fez a diferença. Era o meu destino e tamanho peso me parece ser insuportável de tempos em tempos; cada vez mais, grandes poderes vêm com grandes responsabilidades.

sábado, 5 de outubro de 2013

Outubro Rosa

Em 2010, trabalhei em uma pequena cidade do oeste catarinense, onde os gestores se mostravam insatisfeitos com a minha insistência em pedir mamografias. Mas eu não via outra alternativa quando a maioria das mulheres de lá desconheciam a necessidade desse exame preventivo. Um dia, fui informado que minhas requisições não seriam mais aceitas e, assim, pedi demissão imediata e nunca mais voltei a atender ali.
Desde então, sempre que eu vejo uma propaganda sobre a importância da prevenção do câncer de mama, eu lembro dos meus antigos chefes e me pergunto se eles também estão vendo a campanha. Será que eles se lembram de mim? Será que fiz alguma diferença? Ou será que eles continuam orientando os médicos a não solicitar mamografias de rotina?
Na época, relatei o episódio para meu supervisor dos últimos anos de graduação e ele comentou que eu era "muito corajoso". Penso que seja uma característica da minha geração, reconhecer facilmente as injustiças e se revoltar contra elas, mesmo que isso traga certa instabilidade e insegurança. Mudamos o mundo ao questionarmos os vícios que nossa sociedade mantém sob a idéia de serem comuns e, por isso, aceitáveis.

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Nesta semana, iniciei meus trabalhos em uma nova equipe e a enfermeira me informou, logo no primeiro dia, que ela mesmo solicitava as mamografias, conforme a indicação pela faixa etária. Lembrei-me de 2010 e com um sorriso afirmei que achava a iniciativa ótima. Hoje vislumbro um Outubro rosa, onde os esforços são somados e não diminuídos mutuamente.

* * *

Ontem, enquanto ia buscar o jantar, mudei a rotina de escutar uma seleção no pen drive e optei pela rádio local. Escutei que, entre 2010 e 2012, houve um aumento nos exames de mamografia realizados pelo SUS de 37% na faixa etária de maior risco, entre 50 e 70 anos. Um aumento substancial que evidencia o enorme déficit da época e a atual conscientização dos profissionais envolvidos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Sobre o Programa Mais Médicos

Não estando plenamente satisfeito com meu emprego na época, tentei me inscrever na primeira fase do programa. Porém, após incontáveis tentativas, não consegui enviar parte da documentação pela internet e fiquei de fora. Nesta segunda leva, já desempregado, consegui enviar os documentos, mas perdi o interesse após saber que estaria "atrelado" ao programa por pelo menos 6 meses:

"O abandono do programa antes de 180 dias sem justificativa implicará restituição de todos os valores referentes à ajuda de custo."

Neste ano, fiquei 8 dias em uma ESF, 9 dias em outra e, na última, menos de 3 meses. Ficar obrigatoriamente por 6 meses já me é um bom motivo para não aderir ao programa. Na verdade, a vinculação é de muito mais, 3 anos:

"Em Caratinga (MG), um médico de 26 anos disse que abandonou devido à vinculação obrigatória de três anos." http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/09/1336610-profissionais-questionam-infraestrutura-e-exigencias-do-mais-medicos.shtml

Meu avô, no alto de seus 86 anos, riu quando soube que o programa era de 3 anos, afirmando em seguida: "Esse negócio não é pra ti, não, meu neto!" Atitude sábia é ouvir quem nos conhece, sem sombra de dúvida.

* * *

A primeira imagem que vi dos médicos estrangeiros foi em uma calorosa recepção no aeroporto. Eles se mostravam felizes e bem dispostos para o trabalho em solo brasileiro, pensei que talvez eu conseguisse manter o mesmo sorriso se tivesse "comido o pão que o diabo amassou" para me formar em Medicina. Mas tive o luxo de estudar em Florianópolis e não em Havana.
Num segundo momento, houve a hostilização por parte de um grupo de médicos brasileiros contra os estrangeiros. A ação foi amplamente repudiada e, durante um almoço recente com amigos, tive que admitir que havia sido uma "queimaceira de filme" da minha classe profissional. Imagino que eu possa ter contato com colegas estrangeiros e de maneira alguma pretendo causar transtornos a eles, pelo contrário. Estamos na mesma "barca", se ela está furada, afundaremos juntos.
Em uma das entrevistas que vi na televisão, um médico estrangeiro fez um discurso confuso, aparentemente sem sentido, deixando no ar que haveria uma óbvia dificuldade na comunicação de alguns profissionais. Esse é um lado negativo do programa, contratar profissionais caros que a população pode não aceitar pelo simples fato de não conseguirem conversar com eles.

* * *

Pelos noticiários, soube que aderiram ao programa médicos brasileiros formados na Argentina. Desde o começo pensei comigo mesmo que esses não teriam maiores dificuldades para atuar aqui. Trabalhei ano passado em uma pequena cidade que possui 2 "filhos" estudando Medicina em Buenos Aires, imagino que quando formados eles irão trabalhar nesta cidade, que sofre com a carência crônica de médicos. Um caso parecido já acontece em Lauro Muller:

"É um momento de gratidão, porque foi Lauro Müller que me ajudou a estudar. Foram os meus pais que pagaram os meus estudos. Eu considero isso uma troca, pois o município me proporcionou a minha faculdade e agora eu quero retribuir tudo isso com muito trabalho. E também vou poder estar perto da minha família. Isso é muito bom."

Durante um almoço com um casal de médicos no último final de semana, comentei sobre os nossos médicos "argentinos", complementando: "Acho que pode dar certo." Eles ficaram surpresos e ela, rindo, verbalizou: "Não pode dar certo!" Estamos curiosos para ver os resultados deste programa, mesmo que ele não sirva para nós. Vivemos um momento histórico e, a esta altura, só espero que tudo ocorra da melhor maneira possível.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Oasis - Familiar To Millions (2000)

Em meados de 2001, uma colega de ensino médio levou este álbum duplo para sala de aula e lembro de o ter pedido emprestado por alguns dias, nos quais o escutei várias vezes. Recentemente encontrei o DVD em uma promoção e voltei a escutá-lo incessantemente. O texto do encarte é bem direto:

"Quando a turnê mundial do Oasis chegou ao Reino Unido no verão de 2000, os dois shows da banda no Wembley Stadium foram os mais contagiantes da estação e provaram ser destaques do que tem sido a turnê mundial com mais público já realizada.
Os shows de Wembley esgotaram e foram um trunfo para o Rock N' Roll com uma atmosfera sem precedentes: 70 mil pessoas em cada noite levadas por cada movimento e pelo som e imagem eletrizantes da banda.
Testemunhe a melhor banda britânica de Rock N' Roll no auge de sua forma."

O Oasis vem embalado pelo excelente Standing on the Shoulder of Giants (2000), com instrumental quase inteiro gravado por Noel, exceto bateria e percussão. Chama a atenção que, nas músicas iniciais do show (que coincidem com a do álbum), é o novo guitarrista que faz os solos. Lembro de uma entrevista desta época em que Noel disse que Gem Archer era um guitarrista melhor que ele, por isso agora se preocupava em fazer uma boa guitarra base e um bom backvocal. Modéstia surpreendente para o melhor compositor do mundo.
O início é apoteótico com sua Telecaster rosada em Go Let It Out, depois ele usa uma Rickenbacker no outro single Who Fells Love. Já na bela Acquiesce (canção singular onde Liam canta as estrofes e Noel os refrões), temos a predominante Les Paul. No auge da noite, temos a volta da Telecaster em Wonderwall, onde o público canta sozinho o hino final: "I said maybe you're gonna be the one that saves me and, after all, you're my wonderwall."
Embora considere o vocal de Liam muito superior ao de Noel, vejo positivamente as músicas cantadas pelo ilustre guitarrista: Step Out, Dont Lock Back With Anger e a cover de Nell Young, Hey Hey, My My (Into the Black). Como lado negativo, condeno a falta de Helter Skelter, clássico dos Beatles de 1968, só presente na versão dupla do CD.

sábado, 14 de setembro de 2013

Meu Mapa Astral

Meu pai tinha vários livros de Astrologia e passei parte da minha adolescência analisando meu mapa astral, calculado em um programa de computador dele. Recentemente, ao tirar a poeira de alguns desses livros guardados, reencontrei meu mapa dentro de um deles e novamente me vi mergulhado no mundo dos astros. Com uma visão amadurecida, questionei-me sobre o que mais específico e significativo havia no momento em que nasci.
Encontrei dois aspectos planetários precisos. Às quinze horas de 03/12/84, em Criciúma-SC, Mercúrio e Netuno estavam juntos no primeiro grau de Capricórnio. Segundo o O Manual do Astrólogo - Frances Sakoin e Louis S. Archer 1993:

"Os nativos com esta conjunção possuem uma imaginação viva e percepção de suas mentes inconscientes. Seus interesses se concentram no misticismo, em fenômenos psíquicos e psicologia – eles lêem e escrevem livros sobre esses assuntos (...)
Os nativos tendem a ser sonhadores e geralmente gostam de estar sós, para vaguear nos reinos psíquicos da consciência. O aspecto pode conferir talento poético ou literário, resultado de uma imaginação muito viva. Se o resto do mapa confirmar, a fotografia é uma boa profissão a ser buscada." 

"Mercúrio no signo de Capricórnio indica uma mente ambiciosa, perspicaz, prática, organizada e preocupada em obter status por intermédio de realizações materiais. As pessoas com Mercúrio em Capricórnio são capazes de grande concentração e boa organização. São metódicas nos pensamentos e atitudes, possuindo habilidade de fazer uma coisa de cada vez."

Capricórnio é um signo de terra (elemento predominante no meu mapa), conferindo-me senso prático e necessidade de realização material. Este blog me é um exemplo da "riqueza material" que preciso produzir usando minha inspiração, mesmo que o ganho financeiro seja nulo. O importante é produzir e assim tenho procurado fazer.
O outro aspecto quase exato que encontrei é um Sextil entre Urano, no décimo quarto grau de Sagitário, e Marte, no décimo quarto grau de Aquário.

"Este sextil indica capacidade para uma ação rápida, decisiva, e confere ao nativo força de vontade e coragem. Muitas das qualidades positivas do signo de Escorpião, regido por Marte e onde Urano está exaltado, estão evidentes. Realizações singulares podem trazer fama e posição elevada aos nativos. Algumas vezes, existe uma atitude tipo fazer-ou-morrer, a ponto de a vontade ser poderosa demais para o corpo que precisa abrigá-la. Em qualquer caso, os nativos possuem temperamento forte e sabem exatamente o que querem. Como têm muita energia nervosa, tendem a trabalhar muito e realizar suas tarefas com originalidade."

"Marte no signo de Aquário revela o desejo de independência para buscar cursos de ações incomuns ou não ortodoxos. Os nativos exigem a liberdade de fazer as coisas à sua maneira (...)
Esta posição de Marte cria tendências reformistas que se transformam em ações. Os nativos planejam métodos originais de fazer as coisas e desdenham os métodos e pontos de vista tradicionais, a não ser que esses se adaptem à experiência prática e à lógica. A tradição só é respeitada se merecer respeito, ao contrário de Marte em Capricórnio, onde as ordens são obedecidas apenas porque são ditadas pela autoridade. Consequentemente, as pessoas com Marte em Aquário não atuam bem sob orientação autoritária."

Somente este ano, pedi demissão três vezes e atualmente estou desempregado. Embora acredite que tenha tido um desempenho acima da média nas três cidades, dizer adeus é sempre algo difícil a fazer. O fato é: ou pratico a Medicina que desejo, ou é melhor ficar em casa. Fazer um trabalho medíocre/comum nunca me pareceu uma boa opção.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Perfume - A Story of a Murderer (2006)

O filme, baseado no romance alemão de 1985, foi sugerido por uma colega da pós-graduação ano passado, mas só recentemente o assisti. Ao decidir escrever sobre ele, fiz uma rápida pesquisa e descobri que era a obra preferida de Kurt Cobain, tanto que é a inspiração para a segunda faixa de In Utero (1993), Scentless Apprentice (trilha de um episódio de Lost: http://youtu.be/mwMnv7aBfyk)
Não é segredo que cada pessoa exala um cheiro único, mas a obra vai além e sugere que algumas pessoas tem o poder de encantar através de sua fragrância. Nenhum perfume confeccionado pelo homem pode se comparar ao poder arrebatador da pele de uma mulher. O melhor cheiro do mundo é o da espécie humana, sem sombra de dúvida.
É interessante como, a partir dessa teoria, é possível concluir que o uso do tradicional perfume seja prejudicial ao que podemos oferecer de melhor para o mundo. Não precisamos usar produtos artificiais, devemos apenas cuidar do nosso cheiro natural. Não me parece um mistério que nossos hábitos determinam quem somos e o que podemos conquistar com nossa presença.
Antes de tentar roubar o odor de uma prostituta, o protagonista pede para ela relaxar, pois se ela sentisse medo, federia e seu perfume seria perdido. Imagino que pessoas felizes exalam um aroma superior e vejo isso como mais um motivo para cultivarmos emoções positivas. Até mesmo um sentido subestimado como o olfato pode fazer toda a diferença, ainda que inconscientemente.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Red Hot Chili Peppers - Stadium Arcadium (2006)

Em 2009, participei de uma entrevista para uma rádio de Joinville. Eu fazia parte de uma "beatles band" e nos apresentaríamos depois na cidade. Uma das perguntas foi "o que cada um está escutando atualmente?" Minha resposta: Stadium Arcadium. Complementei dizendo que gostava especialmente da fase após o monumental Californication de 1999, que marcava a volta de John Frusciante.
Este é último álbum com o guitarrista, considero o auge do auge desse "fab four" moderno. Único disco duplo da extensa carreira, lembra outros "auges duplos" como o Mellon Collie And The Infinite Sadness (Smashing Pumpkins, 1995) e o White Álbum (The Beatles, 1968). Uma explosão criativa impossível de ser contida em um disco apenas, uma explosão criativa com a assinatura inigualável de John.
Lançado na época em que eu estava na faculdade, fui perguntado por um colega de turma (um verdadeiro amante da música) sobre o álbum, comentei que lembrava o John Frusciante carreira solo (ele lançou 13 discos entre 1994-2013). Após alguns segundos de reflexão, ele concordou repetindo minhas palavras em tom de descoberta: "Parece o John Frusciante solo." A faixa Desecration Smile me é um exemplo claro disso.
Aqui o vocal de Frusciante nunca se mostrou tão presente, como na balada Strip My Mind, que considero um "single não lançado", como outras baladas do disco 1, Júpiter: Slow Cheetah, Wet Sand e Hey. Esta última caminha em direção ao Jazz, imagino que seja o tipo de música que agradaria meu pai, fã do gênero. Mais uma vez, a banda californiana surpreende positivamente.
Júpiter representa grandeza e de fato o disco 1 faz juz ao nome. As cinco primeiras músicas são bem sincronizadas e lembro que meu colega de turma comentou que a música Stadium Arcadium era sensacional. "And this where I find a way: The Stadium Arcadium, a mirror to the moon. Well, I'm forming and I'm warming to you state of the art, until the clouds come crashing."
Marte representa impulso e batiza o disco 2, ao meu ver, mais introspectivo e denso. Riffs energizados em Ready Made, So Much I e Storm in a Teacup (esta última me lembrando a coleção de 1995 com Dave Navarro na guitarra, One Hot Minute). Melancolia nas baladas She Looks to Me, If e Animal Bar. Fechando com chave de ouro as portas do planeta vermelho, a sombria Dead of a Martian.
Minha faixa predileta é Torture Me, a oitava de Júpiter  (coincidentemente meu regente astrológico). Uma verdadeira aula musical do quarteto fantástico. Um motivo para esperar ansiosamente pela terceira volta de John Frusciante, o semi-deus que parece não suportar o peso de seu próprio talento. Afinal de contas, quem poderia?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Vinhos

Neste final de semana, fui a uma festa de aniversário e levei alguns vinhos que comprara recentemente na Argentina. Após a segunda garrafa estar no fim, o pai do aniversariante apareceu com mais duas; uma era para tomarmos ali, outra era um presente para mim. Senti-me honrado e degustar agora este excelente Joaquim da Villa Francioni (uma mistura de Cabernet e Merlot, 2006) me impeliu nesta temática.
Ele me disse que tinha cerca de 50 garrafas desse vinho. Imagino que, gostando especialmente desta safra, ele fez questão de guardar um estoque. Apesar de ter sido produzido há 7 anos, ele ainda continua "fresco" e talvez até melhor do que antes. Eis um aspecto interessante desta arte: poder formar "tesouros" de lotes acima da média, estando o apreciador sempre atento aos exemplares mais preciosos.
É um dos melhores vinhos nacionais que já bebi, o cheiro me lembrou um Casilero del Diablo Carmenere 2012 que bebi há alguns dias, presente de meu pai. Já o gosto, lembra bem o característico sabor do Merlot. Um bom exemplar do potencial de São Joaquim, mas com o revés de ser relativamente caro se comparado aos exemplares vendidos em solo argentino.
O primeiro vinho que chamou a minha atenção foi o Finca La Linda - Cabernet Sauvignon, apresentado por meu irmão quando ele morou no extremo oeste catarinense. A safra de 2012 vem com rótulo mais elegante e, apesar de ter baixado o teor alcoólico de 14 para 13,5%, voltou a lembrar as excelentes garrafas de 2008 e 2009. Na divisa com Dionísio Cerqueira-SC, encontra-se este néctar por cerca de R$15.
Outro nome marcante foi o Altos del Plata - Malbec 2009. Certa vez, eu presenteei o dentista que trabalhava comigo e ele me contou, alguns dias depois, que fizera um jantar e convidara um amigo que, conhecido de vinhos, vibrara com este. Já em 2010 e 2011, como me parece ser comum neste ramo, não se manteve a mesma impressão intensa que tive há alguns anos.
Um vinho popular que venho consumindo nos últimos anos é o Latitud 33, recomentando por um tio que, exemplificando sua paixão pela Enologia, batizou seu cachorro de Malbec. Experimentei cinco variedades de 2012 e o Tempranillo me pareceu a opção mais saborosa. Seu preço na Argentina varia de R$11 a R$13, sendo outro exemplo do bom custo-benefício argentino.
O pai do meu amigo aniversariante também é médico e imagino que poder apreciar um bom vinho seja um dos privilégios da nossa classe. Apreciar um bom vinho me faz lembrar de como alguns sacrifícios podem ser recompensados. Durante a festa, um dos comentários foi de que valia a pena investir dinheiro em comida de alto padrão; obviamente, penso o mesmo sobre vinhos.

* * *

Durante a ocupação nazista da França, Hitler limpou centenas de adegas que, em tempos de guerra, eram especialmente valiosas:
"O vinho saqueado servia para acalentar os soldados. Os alemães distribuíam uma cota diária da bebida a seu exército e tinha por objetivo dar ânimo e aproximar os soldados de casa (...)
Mas ainda faltava uma coisa para os franceses, que era recuperar o seu maior tesouro roubado: os vinhos. A busca das tropas aliadas pelo ‘Ninho da Águia’, a residência de Adolf Hitler em Berghof, nos Alpes Bávaros, levou os franceses a encontrarem um tesouro inestimável: quadros, esculturas e os grandes rótulos franceses que haviam sido confiscados. Na cave estavam meio milhão de garrafas dos mais excelentes vinhos fabricados em Bordeaux, Borgonha e Champagne." http://www.avindima.com.br/?p=646

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Pais

Meu pai conheceu minha mãe em uma agência bancária de São Paulo, onde ela era caixa. Algumas semanas depois, ela abandonou sua promissora carreira e, casando-se, mudou-se para o interior do Mato Grosso do Sul, onde ele iniciaria um novo projeto como geólogo. Sem dúvida, uma decisão ousada no final da década de 70.
Já ouvi algumas vezes de meu pai sobre o dia em que ele conheceu seu sogro. Ele havia ido de carona com um amigo, que permanecera na frente da casa, caso fosse necessária alguma fuga rápida. Por duas horas, meu pai esperou sentado no sofá da sala, meu avô não queria vê-lo. O clima era obviamente tenso.
Quando finalmente apareceu, o patriarca disse, a contra-gosto, que não adiantava dizer não, a Lilú era teimosa e iria de qualquer jeito. Foi organizada uma pequena festa de casamento, lembro de uma foto deles cortando o bolo. Com o tempo, o jovem galanteador provou ser um bom marido e pai. Minha mãe viveu um casamento pleno até sua morte precoce em 95.

* * *

Na semana do dia dos Pais, voltávamos da casa do meu sogro quando começou a tocar, no som do carro, o álbum (What's The Story) Morning Glory? da banda inglesa Oasis. Comentei que tinha sido um dos primeiros álbuns que escolhera ganhar de presente, em meados de 96. Após alguns instantes de reflexão, completei: "Que infância feliz, eu ganhava CDs de presente."

* * *

Quando decidi casar, escolhi morar em uma cidade próxima de meu sogro. Ele mesmo comentou na semana dos Pais, quando falávamos de uma conhecida que iria fazer vestibular para Medicina: "Médico arranja emprego em qualquer lugar."  Diferente de meu pai, eu poderia manter uma certa proximidade. Na minha eterna competição paterna, pareço estar na frente; pelo menos, por  algum tempo.

* * *

No dia dos Pais, fui para minha cidade natal e, de maneira incomum, fomos almoçar no restaurante que fica em frente ao apartamento da família. O restaurante estava lotado, meu pai parecia satisfeito em exibir sua família. Conhecidos o cumprimentavam. Minhas meia-irmãs também estavam presentes. Há alguns anos, eu me dei conta da paternidade que algumas pessoas exercem incessantemente e tenho me sentido abençoado desde então.

* * *

"Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de se sentir protegido por um pai." Sigmund Freud

terça-feira, 30 de julho de 2013

Neve

Vamos ao mercado e, antes de entrar no estacionamento, ela aponta para o para-brisa: "Olha, gelo." De fato, uma pequena porção de gelo cai com a chuva leve persistente. Após o jantar, saímos do restaurante e notamos que uma quantidade considerável de gelo se acumulou no carro. Mas ainda era apenas chuva com gelo.
Já em casa, percebo que o barulho da garoa vai sumindo aos poucos e então saio pela sacada, cuja porta permanecia aberta. Continua a chover, mas sem o som dos pingos. Chove gelo. Neva. Pela primeira vez em vinte e oito anos, vejo neve. As previsões estavam certas: na minha cidade, nevava.
Dirigimo-nos para a janela em frente a rua, focamos um poste que ilumina os diferentes flocos de neve que caem como se fossem meteoritos. A lâmpada forma rastros de luz de diferentes tamanhos, compondo um belo espetáculo. Em alguns minutos, crianças saem a rua, fotos são tiradas, risos são ouvidos e ficamos hipnotizados pela paisagem noturna.
Vamos dormir ainda com o silêncio da neve. De manhã, o visual urbano é inédito. O branco é absoluto nas telhas e jardins das casas. Árvores parecem congeladas. Apresso-me em fotografar. Arrumo-me para o trabalho, mas, sem energia elétrica, não consigo abrir o portão da garagem. Quando a energia volta, percebo que um fio de alta-tensão paira em frente ao portão da garagem, quase tocando a calçada. É impossível tirar o carro. 
Ligo para o orgão responsável, mas o problema só é resolvido à noite. No outro dia, no caminho para o trabalho, encontro diversos bonecos de neve. Ao estacionar, percebo pelo painel do carro que, mesmo numa manhã ensolarada, faz quatro graus negativos lá fora. Entro na unidade e, encontrando o enfermeiro, logo dou minhas explicações pela falta. Surpreso, ele pergunta: "Você também não conseguiu vir ontem?!"

sábado, 27 de julho de 2013

Médico de Homens e de Almas - parte 3

Um dos momentos mais emocionantes da trama ocorre quando Lucano milagrosamente salva seu irmão de uma moléstia incurável (provavelmente um câncer estomacal). Prisco era filho do padrasto de Lucano com a primeira esposa, que falecera no parto. Lucano acompanhou o complicado nascimento com o médico da família e reanimou Prisco, que não respirava.
Prisco se tornara um militar romano e participara da crucificação de Cristo, o que o abalara profundamente. Tomado pela culpa, começou a sentir dores abdominais e rapidamente definhou:
"Lucano ficou atônito até o coração diante de seu aspecto e quase incapaz de reconhecer, naquele homem cinzento e magro, seu jovem e querido irmão. (...) Lágrimas inundaram os olhos de Lucano, enquanto ele contemplava o irmão, à luz da lâmpada que erguera. Ali jazia um jovem que lhe era mais querido do que seu irmão e sua irmã de sangue, pois ele dera vida a Prisco, que estava morto."
Após obter um relato preciso dos últimos momentos de Jesus, Lucano ora:
"Tem piedade de meu pobre irmão, a quem foi outorgado o mérito de ver-Te em nossa carne. Ele Te ama e Te conhece. Dá-lhe paz, dá-lhe alívio para suas dores."
No dia seguinte, é atendido mais uma vez:
"Correu para o leito de Prisco, esperando ver ali um cadáver, mas viu, para sua completa estupefação, que Prisco estava sentado, recostado em seus travesseiros, comendo com prazer sua primeira refeição. (...) Lucano sentou-se abruptamente e ficou de olhos fixos à frente. Depois, tornou a levantar-se e examinou Prisco, minuciosamente. Não havia tumor algum fazendo resistência a seus dedos. O soldado levantava um cacho de uvas e comia-as com satisfação. Os olhos estavam pousados com suavidade em Lucano.
— Eu sabia que tu podias me ajudar — repetia ele. — Conhecia minha doença e ela era mortal. Tu, porém, me curaste."
* * *
Anteontem, após uma visita domiciliar com uma técnica em enfermagem, entro no carro e começamos o longo caminho para o centro da cidade. Pergunto para o motorista: "Você acredita em milagres?" Cético, ele responde rindo: "Só quando eu acertar na Mega-Sena!" Imagino que eu tenha deixado implícito para eles a minha opinião. Minha pergunta, na verdade, foi um desabafo de alguém que espera.
* * *
Nesta semana, durante o jantar, minha noiva pergunta do Papa. Respondo que vira ao vivo sua chegada no Brasil. Num carro que permaneceu constantemente com a janela aberta, o pontífice chegou a ser tocado por pedestres que aproveitavam a baixa velocidade decorrente de um típico engarrafamento. Do alto de um helicóptero, tinham-se a visão precisa do que ocorria.
Comentei que as pessoas não esboçavam nenhuma agressividade, pelo contrário, eram suaves na aproximação. Por algum motivo, tocar o Papa era algo que valia a pena. Eu acho isso positivo, as pessoas acreditarem em algo ou alguém sagrado, que mereça ser buscado. Nos dias atuais, qualquer motivo de esperança me parece ser bom, mesmo que seja uma ilusão.

domingo, 14 de julho de 2013

Sobre o Ato Médico

Um amigo veio me perguntar essa semana sobre o ato médico, comentando que havia discutido o tema com outro amigo nosso. Achei curioso que nenhum deles é da área da saúde, mas fiquei lisonjeado com seu interesse. Conhecemo-nos há quase 15 anos e talvez essa tenha sido a primeira vez que tratamos de um assunto tão sério. 
Expliquei que, como tenho escutado muita bobagem sobre isso ao longo dos anos, acabei me desinteressando e hoje vejo como algo que fará pouca diferença no meu trabalho cotidiano. Recentemente reencontrei um colega médico e, apesar de conversarmos bastante sobre a profissão, em nenhum momento lembramos dessa polêmica atual.
Só recordo de ter discutido a temática na faculdade e, desde aquela época, percebo que o sistema de saúde gira em torno do médico. O "ato médico" sempre existiu na sociedade, quer ele seja aprovado ou não por nossos governantes. Sempre se esperou muito de nós, nossas atribuições não são definidas exclusivamente pela classe médica.
Eu gostaria que um fisioterapeuta pudesse fazer um atestado de dificuldade de locomoção para o INSS, que um psicólogo pudesse fazer um laudo de doença mental para fins legais, que um farmacêutico pudesse fazer um processo para receber medicamento de alto-custo do estado, que um assistente-social pudesse fazer uma receita de "fralda geriátrica - uso contínuo", que um enfermeiro pudesse autorizar as cirurgias eletivas dos pacientes do município...
Eu realmente gostaria que, ao invés de atender 40 pacientes em um dia, eu pudesse atender "apenas" 30 e os outros 10 fossem atendidos por outros profissionais. Mas não funciona assim, o nosso sistema não funciona assim. A própria população quer a consulta médica e uma das maiores reclamações atuais é decorrente de sua falta, aparentemente comum em todo o país.
Há mais de 4 anos trabalho em Atenção Básica e quase diariamente me deparo com casos de depressão/ansiedade, muitos deles crônicos. No começo, eu sempre sugeria um acompanhamento conjunto com o psicólogo, mas, após alguns meses, desisti dessa idéia. Ninguém queria acompanhamento psicológico, de certa forma, faço esse papel apesar da óbvia limitação do tempo.
Eu poderia citar muitos exemplos sobre a existência já estabelecida do ato médico, mas comentarei apenas um, ocorrido ano passado. Trabalhava no PSF de um pequeno município, quando o secretário de saúde veio me perguntar se eu poderia atender um paciente psiquiátrico de outra cidade, pois lá estavam sem médicos. Como de costume, aceitei fazer o atendimento.
O jovem veio conduzido num camburão da PM em franco surto psicótico, um dos policiais me informou que eu deveria fazer um laudo clínico para que o paciente pudesse ser encaminhado para uma internação psiquiátrica. Isso me causou surpresa, como eu poderia fazer um laudo de um paciente que eu nunca tinha visto antes?
O pai do jovem viera junto e, após alguns minutos de conversa no consultório, ele me mostrou um ofício muito bem elaborado no CAPS, onde o paciente fazia acompanhamento. Ali estava a história pregressa do paciente, seu diagnóstico e sua situação atual, que motivava a internação. O documento vinha assinado e carimbado por vários funcionários da instituição, mas nenhum deles era médico. Isso fazia toda a diferença.
Como me foi solicitado, fiz um encaminhamento simples para internação. Mediquei-o com sedativos para que ele não precisasse ficar "detido" e orientei o pai que, caso ele voltasse a tomar os antipsicóticos, talvez nem fosse necessária a internação. Mas, se precisasse, o documento estava ali. Não o documento elaborado pelos profissionais que conheciam e acompanhavam o paciente, mas o meu documento, que, embora de forma improvisada, tinha o essencial carimbo médico.
Se para mim faz pouca diferença o ato médico, por que eu gostaria de uma aprovação sem vetos? Eu penso nesse projeto como um instrumento de proteção da sociedade. Há quase 4 anos tenho trabalhado em cidades do oeste e planalto norte catarinense. Aqui, no interior deste belo estado, onde predomina famílias humildes, é comum a figura do "massagista".
Eis um "profissional" que atende a demanda de agricultores com dores nas costas ou ombros após um árduo dia de trabalho. Ou motoqueiros vítimas de pequenos acidentes. Independente da história clínica, são diagnósticos comuns o "nervo fora do lugar" e  o "nervo embolado". Claro que esses são problemas que ele pode resolver mediante remuneração.
Esses diagnósticos não existem, mas, se existissem, deveriam ser feitos por um ortopedista ou neurologista. Com eles, há menos chance das pessoas serem enganadas. Em entrevista recente, o presidente do CFM, Roberto Luiz d'Avila, lembrou: "Quem pode pagar médico, quem pode comprar plano de saúde, irá ao médico quando ficar doente; mas a população mais pobre, mais carente, mais vulnerável, poderá não ser atendida por médico, mas por outro profissional, sem a competência técnica e legal para esse atendimento."

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Médico de Homens e de Almas - parte 2

Ao ler esse agradável romance de Taylor Caldwell, identifiquei-me facilmente com os dilemas enfrentados por Lucano há 2000 anos atrás, num mundo curiosamente parecido com o atual. Seu padrasto romano, que financiara sua cara formação, desejava que ele trabalhasse em Roma, mas Lucano tinha outros planos após formado:
"Tentei explicar; não há necessidade de mais um funcionário médico em Roma, que está cheia de hospitais modernos. Sim, compreendo que a Assembleia Pública me nomeou, graciosamente, por ordem de Diodoro, e com um estipêndio considerável. Mas um médico não deve ir para onde mais necessitam dele? Hipócrates disse isso, e eu jurei por ele. Meu trabalho será entre os pobres, os oprimidos, os abandonados, os moribundos, os desesperadamente doentes, para os quais não há assistência nas cidades que ficam ao longo do Grande Mar. Tratarei de escravos e dos que vivem em pobreza irremediável, e não pedirei pagamento, a não ser dos ricos senhores de escravos. Irei visitar as prisões e as galés, as minas e os cortiços, os portos e as enfermarias para indigentes. Esse é meu trabalho e não me posso desviar dele."
Meu pai ficou horrorizado quando eu lhe informei, ainda na faculdade, que pretendia trabalhar em "postos de saúde", com certeza não era o que ele esperava de seu filho do meio. Hoje ele aceita minha escolha, mas ainda deve temer pelo meu futuro. Eu também temo, eu também sei que este é um caminho difícil, mas emocionalmente é a minha única opção. Esse é meu trabalho e não me posso desviar dele.
Recentemente comecei a atender em uma Unidade Básica de Saúde localizada no interior de um pequeno município. Apesar de ir nessa unidade apenas uma tarde por semana, no final de um expediente, a enfermeira comentou que as pessoas estavam gostando de meu atendimento, pois eles estavam acostumados apenas com o "doutor" e eu era mais do que isso. Além de "doutor", eu demonstrava ser também uma pessoa.
Fiquei surpreso com palavras tão generosas, especialmente após aquela tarde onde, com bastante consultas, tive que atender apressadamente. No caminho de volta, lembrei de um senhor de meia-idade que acabara de atender ali. Ele se queixou de uma dor torácica que tinha desde um acidente de carro que sofrera há alguns anos, junto com sua esposa, que falecera. Imediatamente fiquei tocado com sua história.
Lembrei-me de meu pai, que também apresentou dores no tórax após acidente que vitimou minha mãe, provavelmente decorrentes do cinto de segurança. Perguntei para meu paciente sobre seus filhos e se ele tinha se casado novamente. Ele respondeu que não, comentei que ele era novo ainda e ele, esboçando um sorriso, concordou, dizendo que "pretendentes não faltavam".
Talvez um outro profissional teria apenas atendido a solicitação de fazer um raio-X, o que, na minha opinião, não o ajudaria. Fugindo um pouco do papel de médico, procurei fazer algo pelo o que me parecia ser seu principal problema: a perda da esposa. Demonstrando interesse por sua vida, deixei implícito que ele não deveria desistir de se relacionar com outra mulher.
Recordo-me de um paciente idoso que, elogiando minha postura, confessou que "tem médico que a gente vai e sai pior". Infelizmente, creio que isso seja uma ocorrência comum em nosso meio, sem haver necessariamente algum culpado. Talvez o mundo favoreça o adoecimento das pessoas e conspire para que elas sejam mal assistidas. Talvez sempre tenha sido assim.
Gosto de pensar que Santa Catarina é o melhor estado do melhor país da atualidade. Apesar disso, sinto-me frequentemente impotente perante a miséria que encontro diariamente, seja ela social ou espiritual. Às vezes, chego a acreditar que meu trabalho se transformou em uma mera "redução de danos", pois as pessoas continuarão sofrendo mesmo que eu lhes proporcione algum breve conforto.
Chico Xavier, no alto de sua grandeza, disse certa vez: "Sei que sou apenas uma formiguinha, daquelas bem pequenininhas. Mas é melhor ser uma formiguinha do que não ser nada." Em dias difíceis, devo ter em mente que é melhor ser apenas um médico de almas, daqueles bem pequenininhos, do que não ser nada. Assim como Lucano, não posso me desviar do meu caminho, por menor que ele possa parecer.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

ER - parte 3

Semana passada, fiz uma viagem para Porto Alegre e pedi para ser substituído de meu plantão fixo de segunda-feira. No entanto, no domingo à noite, fui avisado que não haviam encontrado nenhum plantonista e, sem alternativa, informei que tentaria chegar a tempo para o compromisso. Estava na casa de tios, com certo orgulho de minha responsabilidade, disse-lhes que teria que viajar cedo no outro dia e assim o fiz.
Apesar dos mais de 600km de estrada, a viagem foi tranquila e fui bem disposto ao plantão. Chegando lá, encontro bastante gente na sala de espera; no consultório, meu colega terminava de fazer algumas internações e, enquanto me passava alguns casos que ficariam em observação, a enfermeira nos interrompe para informar que os bombeiros estavam trazendo uma intoxicação por agrotóxico. Pelo visto, seria uma noite daquelas...
Felizmente, os pacientes possivelmente graves evoluíram bem e fui conseguindo "desafogar" o PA aos poucos. Embora estivesse cansado, senti um certo orgulho por estar ali, controlando uma situação que, a princípio, parecia ser caótica. Uma das muitas consultas foi de uma menina que caíra de uma cadeira e viera acompanhada do pai, preocupado com uma possível fratura de costela.
Embora não goste de dar justificativas para minhas condutas, após ser questionado, expliquei os vários motivos que me faziam acreditar que não havia nenhuma lesão mais grave na jovem, sendo necessário apenas analgesia e observação. Antes de ir embora, o senhor aponta para meu jaleco e pergunta amigavelmente se eu havia me formado na UFSC. Respondo que sim e ele comenta que seu irmão leciona lá, dizendo seu primeiro nome.
Imediatamente me vem a imagem do meu professor de Cardiologia, muito parecido com o senhor que estava ali na minha frente. Completo com o sobrenome e ele, com um sorriso, confirma. Informo que seu irmão acompanhara minha turma durante todo o curso e peço que ele lhe mande um abraço meu quando possível, talvez ele fosse se lembrar de seu aluno com o nome peculiar, Tiaraju.
Uma passagem marcante com este professor ocorreu na última fase do curso, no ambulatório de Cardiologia. Ao chegar para mais um dia de estágio, ele me passa um prontuário extenso e pede que eu atenda especificamente aquele paciente. Era um senhor idoso acompanhando da esposa, ambos entram com um semblante fechado no consultório; durante a anamnese, pergunto se ele bebia e ele responde que não, apenas leite antes de dormir.
Com um sorriso discreto, questiono: "O leitinho da Norminha?" O casal começa a sorrir francamente e ele, bem disposto, afirma que não, não era esse o tipo de leite que tomava. A consulta se desenvolve num clima agradável e logo percebo que seus sintomas não eram decorrentes de uma alteração cardíaca, mas sim de um quadro de ansiedade.
Ao chamar meu professor, ele se senta e começa a ler a minha descrição da consulta no prontuário, decretando em seguida: "Mas isso que o senhor sente não é do coração." Eles concordam e, antes de irem embora, o paciente faz um último comentário, apontando para mim: "Teu aluno será um ótimo médico!" O cardiologista, sem esconder sua satisfação, comenta: "Sim, ele é uma boa pessoa."
Na época, eu falei desse ocorrido com meu pai e confessei que esse era provavelmente o melhor elogio que eu poderia ter recebido de meu ilustre mestre. Muito melhor que "ele é muito competente" ou "ele é muito estudioso", ser uma "boa pessoa" me parecia ser algo maior para alguém que, prestes a se formar, vivia tempos de grande idealismo.

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Luka Kovac é um médico croata que integrou a equipe de ER a partir da sexta temporada. Após perder sua família na guerra, ele resolve começar uma vida nova em Chicago. Assim como ele, sinto-me como um estrangeiro na área da Medicina: sou o primeiro da minha família a se formar médico e, vivendo em região distante, não sinto vontade de voltar para minha terra natal.
Mesmo com um passado trágico, Luka não desistiu das coisas boas da vida. Tem um Dodge Viper, que ele acaba batendo quando dirige descontroladamente em companhia de uma bela estudante de Medicina. Não tenho um carrão, mas adoro dirigir e essa tem sido uma de minhas paixões após formado. Meu carro atual tem pouco mais de dois anos e está com mais de 155 mil km rodados. 
Luka também costuma se relacionar com belas mulheres. Considero os relacionamentos amorosos como parte essencial da minha trajetória: receber os pacientes com um sorriso, dia após a dia, só me é possível estando "de bem com a vida". Perceber diariamente que meu caminho está repleto de dádivas é um dos motivos que me fazem manter uma postura otimista sobre meu trabalho, por mais cansativo e frustrante que ele possa ser.
Apesar de suas crises existenciais, Dr. Kovac é inquestionavelmente um profissional competente; apesar de algumas vezes apresentar um comportamento auto-destrutivo, o médico croata é uma boa pessoa e suas ações positivas são marcantes na série. Espero um dia chegar lá: um bom médico, uma boa pessoa, uma boa história para ser lembrada.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

ER - parte 2

Sempre gostei de jogos de azar. Quando era pequeno, era comum passar as tardes jogando baralho com minha mãe. Todos os anos, quando a família de meu pai se reúne no interior do RS, o principal passatempo consiste em jogar cartas por horas a fio. Meus sogros também gostam de um carteado e virou costume jogarmos após as refeições.
Eu diria que um plantonista está sempre contando com a sorte, preso à expectativa de que tudo dará certo e transcorrerá tranquilamente. Assim como no jogo, desenvolvi a fama de ser "pé quente" nos plantões, embora obviamente ninguém esteja imune à força do azar. Eventualmente, todo mundo se dá mal.
Há três meses, faço plantões noturnos num dia fixo da semana em uma cidade de 18 mil habitantes. Semana passada foi relativamente tumultuado: um paciente que vinha transferido de outro hospital faleceu no caminho; outro teve um derrame cerebral pela manhã e, como não foi internado, apareceu à noite com esperada piora; uma senhora que havia sido atendida no dia anterior voltara com sinais de insuficiência respiratória; para completar, um atendimento no meio da madrugada interrompeu meu breve descanso.
Em contraste, o plantão dessa semana foi bem calmo. Nenhum caso grave que necessitasse de internação ou transferência, o último paciente do plantão veio à meia-noite e assim pude descansar até às 7h. Apenas despertei algumas vezes após sonhar que vinham me chamar para atender. Mesmo nas noites mais tranquilas, o sono interrompido me é uma constante, sendo impossível relaxar totalmente.
Decidi não fazer mais plantões a partir do mês que vem, embora ontem mesmo eu tenha lembrado para colegas de trabalho que eu já tomara essa decisão diversas vezes. Uma delas comentou: "É um vício, não?" Talvez. Gosto de pensar que a Medicina ainda é um trabalho nobre, que ainda vale a pena apesar dos dias infortunos. Assim como no jogo, não é pelo dinheiro.

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Um dos PAs que venho trabalhando nos últimos meses é referência para mais de 60 mil pessoas. Durante uma plantão diurno de 12 horas, por exemplo, é comum haver mais de uma centena de atendimentos. Apesar de serem dois plantonistas por turno, a demanda é incessante e geralmente meus colegas ficam surpresos quando digo que estou fazendo plantões ali.
Por outro lado, o lugar tem a melhor estrutura da região, com uma equipe muito competente. Não são só bons profissionais tecnicamente, mas sinto que realmente estão ali por vocação, dando um apoio sólido para que eu possa desenvolver meu trabalho com êxito. O ambiente é naturalmente inóspito, mas em conjunto atravessamos as horas mais difíceis; ali, nunca estou sozinho.
Uma das imagens passadas pela série norte-americana é a de que os profissionais de saúde realmente desejam ajudar e costumam dar o seu melhor pelos pacientes. A equipe do County General Hospital é admirável e, se na adolescência eu desejei fazer parte dela, hoje eu vivo essa emoção de tempos em tempos na vida real. Entre erros e acertos, costumo voltar para casa orgulhoso, como se fosse um protagonista/herói de ER.