sábado, 7 de dezembro de 2013

Doutor Delmar

Nos últimos dois meses, tem crescido meu interesse pela figura do médico que trabalhava no meu ESF atual. Embora não o conheça pessoalmente, suas ações nas unidades são frequentemente lembradas e acho notável sua aprovação unânime pela população e pela equipe. Quando algum paciente comenta sobre ele, eu costumo complementar com a frase: "O doutor Delmar é famoso..."
Ao iniciar meus trabalhos, informaram-me que ele chegava mais cedo que o habitual no expediente. Presumi que ele fazia isso para ir embora antes, mas, algumas semanas depois, descobri que não: ele também ia embora mais tarde, chegando a atender 60 pacientes num único dia. Tamanha dedicação poderia ser esperada de um recém-formado, mas não de um profissional com mais de três décadas de formação.
"O doutor Delmar queria salvar o mundo" foi uma fala extraordinária que escutei. Durante um ano e pouco ele atuou ali, os últimos meses à espera de um substitudo que só veio quatro meses após sua saída. Eu o entendo perfeitamente, neste ano, comentei com um colega médico da minha cidade natal que era impossível ficar em um mesmo ESF por mais de um ano. O doutor Delmar embasa parcialmente minha tese.
Semana passada, conheci seu livro recém lançado, que também explica sua saída. Acredito que seus escritos tomaram forma justamente após sua demissão, quando teve tempo hábil para complexo feito. Um presente para nós: www.arevolucaodosplebeus.com.br

"O texto representa a verbalização de reflexões e observações feitas ao longo de uma vida bem vivida em vários estados e cidades do Brasil. É um pensar em voz alta, um plano de atuação, um roteiro, uma espécie de cartilha pessoal, na qual procuramos sistematizar o nosso próprio projeto de intervenção, após analisar aspectos negativos e positivos da política brasileira na atualidade. Concebido para esse fim, a ideia era, posteriormente, editá-lo e guardá-lo no fundo do baú para que, no futuro, os netos que virão soubessem como o vovô pensava e o que tentou fazer." Página 7

Identifico-me com isso, se um dia eu tiver netos, eles poderão acessar este blog para descobrir como eu pensava e agia. Texto após texto, é como se deixássemos uma parte de nossa alma neste mundo.

"(...) no norte do estado de Santa Catarina, onde tivemos a felicidade de trabalhar em uma ESF que se aproximava da perfeição, que contava com equipe completa, constituída por agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, enfermeira, dentista e médico, além do apoio de nutricionista, fisioterapeuta e psicólogo do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) e do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), de assistente social e do Conselho Tutelar. A coordenação técnica da Secretaria Municipal de Saúde era perfeita, o apoio institucional total, e não houve ingerência política no trabalho, mesmo durante uma acirrada campanha eleitoral municipal. De quebra, o relacionamento interno da equipe era excelente, baseado em compromisso sincero com a população e amizade e cooperação com os colegas. Ter vivenciado essa experiência aumentou ainda mais nossa convicção de que a Atenção Básica à Saúde deve ser prioridade. Se todo o território nacional fosse coberto por equipes completas das ESF, cada uma cuidando de aproximadamente mil famílias, e se as equipes tivessem essas condições de trabalho e esse nível de comprometimento que descrevemos, o sistema de saúde e a própria saúde da população seriam completamente diferentes em poucos meses, com uma relação custo-benefício extremamente favorável para a sociedade." Página 144

Sinto-me honrado em trabalhar no local acima citado, não por acaso, recusei uma oferta aparentemente melhor para voltar a atender ali. Em 2011, atuei por 6 meses em um outro ESF desta cidade, meu retorno deixa claro que nossa relação profissional foi satisfatória. Minha intenção hoje é permanecer por muitos anos, afinal de contas, não é todo dia que se encontra um ESF quase perfeito para se trabalhar.

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