quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Titanic (1997)

Lembro de ter visto esse premiado filme de James Cameron duas vezes na época do lançamento no cinema. Com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet (dois dos melhores atores da geração), uma produção milionária e o talento do experiente diretor, temos uma obra grandiosa que, apesar de se ambientar em 1912, permanece bastante atual. Ou alguém se acha distante da idéia de estarmos em uma grande "barca furada", prestes a afundar?
Pode-se dizer que o culpado principal pelo naufrágio foi o capitão Edward Smith, que, apesar dos avisos de icebergs na região, manteve a velocidade do navio que colidiu com o bloco de gelo. No entanto, é considerado um herói por ter permanecido até o fim na embarcação; diferente de seu contemporâneo, Francesco Schettino, que abandonou o Costa Concordia logo após o ter encalhado na Itália em 2012 (acidente que resultou em 32 mortes).
Um detalhe sombrio que não foi incluído na produção é que havia um navio a alguns quilômetros do Titanic que poderia rapidamente ter prestado ajuda, mas o seu operador de rádio não foi acordado, apesar dos fogos de artifício (disparados do Titanic) serem visualizados por um oficial do SS Californian. Apenas no começo da manhã seguinte, descobriu-se que as luzes noturnas eram um pedido desesperado de socorro.
Haviam botes para metade das 2200 pessoas, mesmo assim, salvaram-se apenas 700 (os botes foram lançados ao mar sem estarem completamente ocupados). No filme, também é mostrado que parte da terceira classe foi impedida de alcançar o convés, sob pretexto de que deveria esperar o desembarque da primeira classe. Após o naufrágio, apenas um bote retornou para buscar os sobreviventes que agonizavam na água gelada; com a demora, foram encontrados apenas seis deles vivos.
Talvez essa seja a cena mais impactante do longa: o bote solitário entrando no mar de corpos congelados boiando na escuridão. "Demoramos demais" conclui o oficial que chefiava a busca. Entre os seis resgatados, está Rose, protagonista de supostos 17 anos (Kate tinha, na época das filmagens, 20 anos), passageira da primeira classe que se apaixona por Jack, da terceira classe, de 20 anos (Leonardo era dois anos mais velho que o personagem). 
Admiradora de quadros, ela se interessa pelo talento artístico de Jack: "Você tem um dom, você vê as pessoas." Por sua condição social, ele é hostilizado pela mãe dela, que, durante um jantar, questiona sua vida sem raízes. Ele responde: "Tenho tudo que preciso aqui comigo: o ar nos meus pulmões e alguns papéis em branco. Gosto de acordar de manhã sem saber o que vai acontecer, quem eu vou conhecer ou onde vou parar... Considero a vida uma dádiva e não pretendo desperdiçá-la, você nunca sabe o que virá em seguida e aprende a aceitá-la como ela é para fazer cada dia valer."

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Em 1898, muito antes do Titanic ser construído, o americano Morgan Robertson lançou o livro "Futilidade" ou "O Naufrágio de Titan", descrevendo um navio com dimensões similares ao Titanic que, em sua viagem inaugural aos Estados Unidos, choca-se com um iceberg e naufraga no Atlântico Norte, vitimando a maioria dos passageiros (não havia botes para todos). A tragédia ocorre em Abril, perto da meia-noite, a 400 milhas do continente americano; notavelmente, como aconteceu anos depois com o Titanic.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Estrategistas

Recomeçando na nova cidade, meu nome logo virou assunto na cozinha da unidade básica, onde costumamos tomar café. Expliquei que era um nome histórico do Rio Grande do Sul, muitos gaúchos conheciam sua história, embora ali fosse desconhecida. Apesar dessa impressão inicial, no fim da primeira semana, transferi uma paciente para o hospital municipal e, ao me apresentar, os dois médicos se entreolharam e exclamaram ao mesmo tempo: "Sepé Tiaraju!"
A odontóloga comentou que perguntara para sua mãe se ela conhecia o meu nome (suponho que a matriarca seja gaúcha), sendo a resposta positiva. Foi explicado que era um índio criado por jesuítas na região das missões, que se tornou um líder contra a ocupação portuguesa e espanhola. Mesmo após sua morte, ainda era visto nos campos de batalha; por isso, é considerado santo por alguns, tendo inclusive uma cidade em sua homenagem: São Sepé.
Ao fazer uma rápida pesquisa, descobri que ele morreu em São Gabriel-RS, onde meu pai morava antes de ir para São Paulo conhecer minha mãe. Outra descoberta agradável foi ele ser reconhecido como bom estrategista, tenho dito isso sobre mim de forma quase irônica há meses. Sun Tzu, em sua obra-prima do século IV a.C., "A Arte da Guerra", explica um princípio que considero especialmente estratégico para se alcançar grandes objetivos:
"Uma força militar não tem formação constante, a água não tem forma constante. A habilidade de alcançar a vitória mudando e adaptando-se de acordo com o inimigo é chamada de genialidade."

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Garantia

No filme A Promessa (The Pledge, 2001), Jack Nicholson interpreta um policial que, pouco antes de se aposentar, promete para uma mãe que encontraria o assassino de sua filha. Essa promessa resulta na ruína do protagonista, sentenciada por um detalhe do destino. Recordo-me de uma frase dita por um tio ano passado: "A vida são detalhes." Ele se referiu, possivelmente, à questão de sorte ou azar que cada um está sujeito; uns aparentemente são bem-aventurados, outros não.

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Semana passada, atendi um caso potencialmente grave na unidade básica. Uma adolescente iniciara com cefaléia e evoluíra com um episódio de vômito e confusão mental importante. No consultório, cheguei a perguntar se ela tinha algum retardo mental e me foi respondido seguramente que não; quando ela começou a fitar a parede com o olhar perdido, a mãe se desesperou, questionando sem resposta: "Meu Deus, por que você está assim?!"
Instantes depois, a paciente começou a inclinar a cervical para trás e para a esquerda, típico de uma crise convulsiva parcial; levantei-me, informei que ela estava convulsionando e chamei as enfermeiras. Enquanto era feita a medicação, ela teve uma nova crise e foi solicitado que a mãe se retirasse da sala de procedimento. Notei uma certa rigidez de nuca, meu colega médico concordou que existiam sinais meníngeos e comunicamos o hospital para o encaminhamento.
Ainda na unidade, a mãe me pergunta se ela iria ficar bem. Sem pensar muito, respondo que sim, ela insiste chorando: "Você me garante?" Era óbvio que eu não poderia garantir nada, mas não consegui negar o seu pedido. Acompanhei-as na ambulância e passei o caso pessoalmente para o plantonista que, com uma máscara para evitar um possível contato meningocócico, desabafou após abrir os olhos da paciente, que se moviam de forma desordenada: "Isso não é bom."
Ele ditou a prescrição para a enfermeira, pediu uma tomografia e informou que depois iria fazer a punção lombar na UTI. Ao sair da sala de emergência, escutei seu último pedido: "Quero conversar com a mãe." As noticias não seriam nada boas, pensei comigo mesmo. Segunda de manhã, tomando café na cozinha da unidade, perguntam-me do caso; respondo que não tive notícias, mas que ela poderia até estar morta, vítima de um acidente vascular ou uma meningite.
À tarde, a agente de saúde me informa que a garota estava bem, os exames não mostraram nada e ela se recuperara totalmente. Na terça-feira, a paciente volta ao consultório com a família; segundo a mãe, apenas para a agradecer o meu atendimento. A jovem, agora lúcida, conta que, naquele dia, vira pontos luminosos antes da cefaléia, típico de enxaqueca (uma familiar acrescentou que sentia o mesmo antes das crises). Nada demais, tivemos sorte, pode-se dizer.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Cigano

Recentemente reencontrei um velho amigo que, há cerca de um ano, montou um estúdio musical. Ele me perguntou se eu me mudava constantemente porque queria, respondi que sim, "conheço boa parte do estado" foi uma das vantagens que lhe ressaltei. Ele comentou que vivera isso por alguns anos quando trabalhou em uma grande empresa, mas não tinha gostado; claramente, ele estava satisfeito por finalmente poder se fixar em nossa cidade.

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Há três anos, em viagem a São Paulo, eu e minha irmã jantamos com antigos amigos de nossos pais; comentei que frequentemente trocava de emprego, sendo isso algo típico da minha geração. Apesar das dificuldades enfrentadas, porém, geralmente eu conseguia desenvolver um bom trabalho e, assim, sentia-me satisfeito. Meu "tio" lembrou que, quando se tem capacidade, os desafios geralmente são contornados e a tendência é dar certo.

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Ano passado, em jantar com outros amigos de nossos pais, o "tio" enfatizou que, se eu achasse que determinada cidade fosse me fazer feliz, eu deveria mesmo ir para lá. A "tia" me definiu de forma direta: "Você é cigano!" Embora não ache a denominação ruim, acredito que o termo mais correto seja "nômade", pois me mudo sozinho e não em comunidade. Outra diferença básica é que presto um serviço diferenciado nas localidades escolhidas (pelo menos, é o que gosto de pensar).

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Anteontem, em meu novo local de trabalho, convidaram-me para tomar café na cozinha; lá, comentaram que minha idade havia sido alvo de palpites entre eles. Informei que tinha trinta anos e, lamentavelmente, todos achavam que eu era mais velho. Meu colega médico educadamente explicou que isso ocorreu porque eu havia dito que me formara em 2008. "Sim, entrei com dezoito e saí com vinte e quatro." Ele fez graça: "Claro, japonês passa direto no vestibular!"

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Nos últimos cinco anos, morei em seis locais diferentes; as mudanças foram feitas pelo mesmo amigo, que possui um caminhão pequeno que provavelmente costuma transportar produtos agrícolas. Apesar disso, confio nele o bastante para, ao final de cada viagem, fazer um lembrete irônico de "até breve!" Ele foi o único que conheceu as minhas últimas moradas e, considerando que o lar pode dizer muito sobre alguém, imagino que ele tenha um bom panorama sobre a minha pessoa.