Lembro de ter visto esse premiado filme de James Cameron duas vezes na época do lançamento no cinema. Com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet (dois dos melhores atores da geração), uma produção milionária e o talento do experiente diretor, temos uma obra grandiosa que, apesar de se ambientar em 1912, permanece bastante atual. Ou alguém se acha distante da idéia de estarmos em uma grande "barca furada", prestes a afundar?
Pode-se dizer que o culpado principal pelo naufrágio foi o capitão Edward Smith, que, apesar dos avisos de icebergs na região, manteve a velocidade do navio que colidiu com o bloco de gelo. No entanto, é considerado um herói por ter permanecido até o fim na embarcação; diferente de seu contemporâneo, Francesco Schettino, que abandonou o Costa Concordia logo após o ter encalhado na Itália em 2012 (acidente que resultou em 32 mortes).
Um detalhe sombrio que não foi incluído na produção é que havia um navio a alguns quilômetros do Titanic que poderia rapidamente ter prestado ajuda, mas o seu operador de rádio não foi acordado, apesar dos fogos de artifício (disparados do Titanic) serem visualizados por um oficial do SS Californian. Apenas no começo da manhã seguinte, descobriu-se que as luzes noturnas eram um pedido desesperado de socorro.
Haviam botes para metade das 2200 pessoas, mesmo assim, salvaram-se apenas 700 (os botes foram lançados ao mar sem estarem completamente ocupados). No filme, também é mostrado que parte da terceira classe foi impedida de alcançar o convés, sob pretexto de que deveria esperar o desembarque da primeira classe. Após o naufrágio, apenas um bote retornou para buscar os sobreviventes que agonizavam na água gelada; com a demora, foram encontrados apenas seis deles vivos.
Talvez essa seja a cena mais impactante do longa: o bote solitário entrando no mar de corpos congelados boiando na escuridão. "Demoramos demais" conclui o oficial que chefiava a busca. Entre os seis resgatados, está Rose, protagonista de supostos 17 anos (Kate tinha, na época das filmagens, 20 anos), passageira da primeira classe que se apaixona por Jack, da terceira classe, de 20 anos (Leonardo era dois anos mais velho que o personagem).
Admiradora de quadros, ela se interessa pelo talento artístico de Jack: "Você tem um dom, você vê as pessoas." Por sua condição social, ele é hostilizado pela mãe dela, que, durante um jantar, questiona sua vida sem raízes. Ele responde: "Tenho tudo que preciso aqui comigo: o ar nos meus pulmões e alguns papéis em branco. Gosto de acordar de manhã sem saber o que vai acontecer, quem eu vou conhecer ou onde vou parar... Considero a vida uma dádiva e não pretendo desperdiçá-la, você nunca sabe o que virá em seguida e aprende a aceitá-la como ela é para fazer cada dia valer."
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Em 1898, muito antes do Titanic ser construído, o americano Morgan Robertson lançou o livro "Futilidade" ou "O Naufrágio de Titan", descrevendo um navio com dimensões similares ao Titanic que, em sua viagem inaugural aos Estados Unidos, choca-se com um iceberg e naufraga no Atlântico Norte, vitimando a maioria dos passageiros (não havia botes para todos). A tragédia ocorre em Abril, perto da meia-noite, a 400 milhas do continente americano; notavelmente, como aconteceu anos depois com o Titanic.