domingo, 25 de janeiro de 2015

Times Like These

No dia em que fui ao show do Bad Religion em Curitiba (09/02/2014), um amigo pediu que lhe telefonasse quando fosse executada Sorrow. Após o término da intensa apresentação, mandei-lhe um sms: "Não tocaram Sorrow!" "Já acabou?" "Já, começaram pontualmente às 21h." Era cerca de 22:20 no momento das mensagens, infelizmente, vi algumas pessoas chegarem atrasadas e soube de outras que sequer alcançaram a capital paranaense por conta dos engarrafamentos.
Um ano depois, minutos antes do primeiro show do Foo Fighters em Porto Alegre, mandei-lhe um sms perguntando se podia ligar em alguma música; achei que ele ia pedir uma canção específica, mas foi respondido simplesmente que eu poderia ligar. Tentei em The Pretender, sem sucesso, mas consegui em Monkey Wrench e em Times Like These, na qual ele me respondeu: "Times like these you learn to live again."
A última música, Everlong, foi a única em que a ligação não caiu e ele escutou inteira. No outro dia, ele disse que eu devia estar perto do palco, pela qualidade do som. Na pista premium, a cerca de 100m do palco e de frente para muitos alto-falantes, posso afirmar que a sonoridade estava perfeita. Comentei que, juntamente com o show do Paul McCartney em Florianópolis (na qual eu assisti com ele), este foi o maior evento que eu apreciei.
Saímos do centro de Porto Alegre às 18:00 e fizemos o curto trajeto sob intenso congestionamento, ao invés dos planejados vinte minutos, levamos quase duas horas até chegar ao estacionamento. Felizmente, não enfrentamos fila no acesso e, lá dentro, sem espera para comprar cerveja ou ir ao banheiro. Com a apresentação iniciando conforme o previsto, 21:20, e se estendendo sem intervalo até meia-noite, posso afirmar que foi uma das minhas melhores experiências sonoras.
Quando meu irmão me ligou para fazer o convite, ele disse que sabia que eu gostava bastante da banda; de fato, por um bom período, escutei The Colour and the Shape (1997) diariamente e estou há anos com o There Is Nothing Left to Lose (1999), emprestado dele. Curiosamente, porém, gostei especialmente da execução de I'll Stick Around (segunda faixa do primeiro álbum, de 1995); também me surpreendeu Arlandria, quinta faixa do show e do excelente Wasting Light (2011).
O principal responsável pela minha consequente rouquidão foi o refrão de These Days, também do Wasting Light, que considero hoje um dos meus preferidos. Acredito que a característica mais importante do disco seja a volta de Pat Smear, agora como terceiro guitarrista; assim, concluo que, quanto mais guitarristas, melhor. Outra peculariedade é a parceria com Butch Vig, produtor de Nevermind (Nirvana, 1991) e Siamese Dream (The Smashing Pumpkins, 1993).

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No dia seguinte ao show, de volta a Criciúma, acompanhei um ensaio de um amigo em um estúdio no centro. Enquanto a banda tocava, conversei com dois guitarristas antigos da cidade. Um deles é mais velho e vem tocando em diferentes grupos musicais há duas décadas, o outro, mais jovem, também tocou em diferentes formações e hoje era o dono do estúdio. Refleti que, ao contrário de mim, eles nunca abandonaram a carreira musical; apesar do "escape criativo" que o blog me proporciona, confesso que ele não pode substituir a música.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Três Discos

Há alguns meses, em minha cidade natal, um amigo veio me dizer que ficara com um pendrive meu por engano. "Eu coloquei no som do carro e, quando começou a tocar, pensei: 'Esse não é o meu pendrive, mas que sonzeira!'" Sendo um dispositivo antigo de apenas 1gb, continha cerca de uma dúzia de álbuns; ele disse que especialmente três deles chamaram sua atenção, minha primeira hipótese foi Exile in Oblivion (Strung Out, 2004), mas ele respondeu que esse ele já conhecia bem.
O disco que mais lhe surpreendeu foi Brand New Eyes (Paramore, 2009). Com uma produção primorosa e o vocal inspirado de Hayley Williams, considero um dos melhores lançamentos dos últimos anos. Destaque para: 1-Careful 2-Ignorance (este videociple fez com que eu procurasse conhecer a banda) 4-Brick By Boring Brick (a melhor canção) 6-The Only Exception e 12-Decode. Aqui, sabiamente, as melhores músicas foram escolhidas como singles.
O segundo álbum citado por ele foi A Flight and a Clash (Hot Water Music, 2001). Embora a qualidade da gravação seja mediana (não se compara, por exemplo, ao disco seguinte, Caution, de 2002), considero a obra mais inspirada do quarteto. Destaque para: 1-A Flight and a Clash 4-Instrumental (curiosamente, não é uma faixa instrumental) 6-A Clear Line 8-Old Rules e 11-She Takes It So Well.
O terceiro citado está sendo escutado por mim nos últimos dezoito anos: Tiny Music... Musics From the Vatican Gift Shop (Stone Temple Pilots, 1996). Destaque para: 3-Tumble in the Rough 4- Big Bang Baby (o álbum foi lembrado pelo amigo com a onomatopéia empolgada desse riff inicial) 5-Lady Picture Show 7-Trippin' on a Hole in a Paper Heart 9-Adhesive e 12-Seven Caged Tigers.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Emoções Conflitantes

Após o fim das eleições presidenciais do ano passado, um clima de revolta tomou conta das redes sociais e algumas idéias absurdas surgiram, como a de dividir o país "ao meio" e a de promover o impeachment da presidente reeleita. O Bolsa Família também virou alvo de críticas e um amigo fez a seguinte postagem:
"Quer defender Bolsa Família? O faça, mas o faça com argumentos válidos.
Qualquer post falando do Bolsa Família contentando a expressão 'efeito multiplicador' será desconsiderado. Não entremos no mundo da ecopoesia, da fantasia econômica."
Como eu sei que o programa distribui um valor muito baixo, cerca de R$100/mês por família, decidi "abraçar a causa":
"Qual o problema de 'efeito multiplicador'? Não é tão bom quanto 'mundo da ecopoesia', mas ainda assim merece respeito. Recentemente passei a usar a expressão 'emoções conflitantes' para responder questões morais difíceis, sem saída. 'São emoções conflitantes' e assunto encerrado. Inclusive, eu resumiria o Bolsa Família como um conjunto de emoções conflitantes. Abraço!"
Imediatamente ele respondeu: "Efeito multiplicador não existe cara, é como se o dinheiro se multiplicasse por mágica, e isso não acontece, não na mão dos beneficiários do BF. E se acontecesse nem seria benéfico."
Contra-argumentei: "Claro que esse dinheiro pode se multiplicar, de inúmeras formas. Pode ser um estímulo ao beneficiário procurar um emprego formal. Pode ajudar na sua saúde. São possibilidades. 'A vida é plena de possibilidades.'"
Mais tarde, foi explicado que o efeito multiplicador fora calculado pelo Ipea, que concluiu que cada R$1 investido no Bolsa Família se transformava em R$1,78. Embora eu concorde que essa matemática não faça sentido, isso não tira os méritos do programa. Inclusive, lembrei que o candidato da oposição não só o defendia como dizia que ia ampliá-lo; ou seja, debatíamos algo que nem mesmo nosso "salvador da pátria" questionava.
Após muitos comentários, um outro amigo escreveu: "Que bela discussão hein! Ah, se o facebook fosse sempre assim!" Ele foi acompanhado por outra internauta: "Nos meus posts sempre tem alguém pra estragar :~~" O autor da postagem lhe respondeu: "Aqui quem estraga não tem arrego, opiniões divergentes são sempre bem vindas, imbecilidade nunca."

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Acredito que aprender a lidar com emoções conflitantes seja um caminho comum a todos nós.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Relacionamentos

Há alguns anos, assisti a um video em que um simpático senhor ironizava os jovens que se aventuravam a discorrer sobre essa temática universal: "Eu tenho duas ex-mulheres, três filhos, sou casado há quarenta e cinco anos, já limpei muita bunda de criança, já tive que explicar batom no colarinho, batom na cueca... E agora tenho que ouvir um bostinha de vinte anos dar conselho sobre relacionamento?!" (Vlog do Fernando: http://youtu.be/zwAGUGAaBXM)
Embora eu não tenha filhos, com trinta anos de idade, imagino que eu já possa comentar o assunto sem ser ridicularizado pelo vlogueiro. Ao fazer uma retrospectiva da minha vida, percebo que tudo começou quando eu tinha quinze anos e fui escolhido pela colega de colégio mais bonita. No dia em que ficamos juntos pela primeira vez, eu mal consegui dormir, tomado pela felicidade inédita que insistia em invadir meu pensamento.
Claro que não demorou muito para nos separarmos e a satisfação se transformar em decepção. Então a primeira lição que tive sobre o amor foi: apesar de ser a melhor sensação que alguém pode vivenciar, ele tende a ser efêmero e ilusório. Muitas pessoas evitam se relacionar por causa disso, mas, desde então, aprendi que valia o risco. Nunca evitei novos relacionamentos e, com certa incompreensão, percebo que muitos insistem em ficar solteiros.
A segunda lição me veio anos mais tarde, embora só hoje eu veja com clareza: um relacionamento baseado em expectativas tende a fracassar. Ou ele é satisfatório enquanto acontece, ou o bom futuro almejado nunca chegará. Podem ser exemplos de expectativas frustradas: "quando nos formarmos", "quando morarmos juntos", "quando tivermos estabilidade financeira", "quando tivermos filhos" e a lista segue, sempre fugindo do presente.
A terceira lição é mais complexa e acredito que só possa ser vislumbrada anos depois do fim: um relacionamento baseado em "migalhas" tende a fracassar. Ou ele é plenamente satisfatório enquanto acontece, ou simplesmente tende a piorar. Isso é difícil de perceber na época, pois embora ele não seja pleno, é melhor que um relacionamento baseado em expectativas. É melhor que ficar sozinho (suponho que essa seja a justificativa mais comum para se manter uma relação disfuncional).
A quarta lição seria: não importa o quanto você goste de alguém, você jamais conseguirá mudar a sua essência. Isso me remete a um aprendizado da adolescência, quando tentei me relacionar com a primeira namorada em três momentos distintos durante o ensino médio. Também lembro do clássico de Scorsese, Casino (1995), em que o protagonista (Robert De Niro) se casa com uma prostituta de luxo (Sharon Stone); embora perdidamente apaixonado, quais as chances de um relacionamento dessa natureza dar certo?
A quinta lição é sobre a natureza inconsciente e arrebatadora do amor. Meu pai conheceu minha mãe, bancária, como seu cliente; semanas depois, eles se casaram (embora ele tivesse outra noiva e minha mãe precisasse abandonar sua carreira para acompanhá-lo). Há cerca de um ano, no dia em que meu casamento acabou, comecei a pensar que, a partir daquele momento, eu poderia tentar me relacionar com uma ex-colega de trabalho, que eu mal conhecia e não tinha nenhum contato na época.
Algumas semanas depois, ao comentar sobre a minha separação com meu pai, contei-lhe sobre a nova pretendente e lhe disse que, se desse certo, se ficássemos juntos, seria melhor que qualquer experiência que eu pudesse vivenciar com a minha ex-mulher. Minha intuição estava correta. Por algum motivo desconhecido, já estávamos ligados e o divórcio foi a minha libertação. Nosso encontro tinha que acontecer, não poderíamos fugir dele. Nem deveríamos.