segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dias de Luta, Dias de Glória

Há muito tempo, quando eu ainda era criança, lembro que meu irmão me aconselhou que eu não ouvisse muito um mesmo álbum, pois eu iria acabar enjoando dele. Seu conselho não surtiu efeito, ainda hoje persisto com o costume de escutar as mesmas melodias repetidas vezes. Uma pessoa que conviveu comigo por alguns anos achava graça disso e, ao se deparar com mais uma canção favorita, salientava que eu tinha "uma louca obsessão."
Minha irmã, ao reparar ontem que eu escutava Charlie Brown Jr. no carro, comentou: "Agora que acabou, você começou a ouvir?!" Sim. Na década passada, nunca me interessei o suficiente para escutar os seus álbuns; na época me havia muitas outras opções, além de eu não simpatizar com o Chorão (envolvido em polêmicas como a agressão a Marcelo Camelo e a "demissão sumária" dos integrantes originais da banda).
Recentemente, porém, um amigo contou que os estava escutando bastante e, ao visitá-lo, copiei a discografia. Tenho ouvido especialmente o lançamento de 2005, Imunidade Musical, mais especificamente a última faixa, que me é repleta de significado. Uma nova obsessão que me acompanha em um período de grandes expectativas.

"Canto minha vida com orgulho: Na minha vida, nem tudo acontece, mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce. Hoje estou feliz porque eu sonhei com você e amanhã posso chorar por não poder te ver, mas o seu sorriso vale mais que um diamante; se você vier comigo, aí nós vamos adiante. Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus, o seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu. A vida me ensinou a nunca desistir, nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir. Podem me tirar tudo que tenho, só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz para quem eu amo e eu sou feliz e canto, o universo é uma canção e eu vou que vou. História, nossas histórias; dias de luta, dias de glória... Oh, minha gata, morada dos meus sonhos; todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você. Eu já te via muito antes nos meus sonhos, eu procurei a vida inteira por alguém como você. Por isso eu canto minha vida com orgulho, com melodia, alegria e barulho. Eu sou feliz e rodo pelo mundo, sou correria, mas também sou vagabundo. Mas hoje dou valor de verdade para minha saúde e para minha liberdade. Que bom te encontrar nessa cidade, esse brilho intenso me lembra você. História, nossas histórias; dias de luta, dias de glória..."

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Paixão Por Uma Socialista

Em um evidente confronto ideológico, minha namorada votou na Luciana Genro. Ela argumenta que não poderia apertar no "confirma" ao ver a foto do meu candidato, secretamente penso o mesmo sobre a sua opção no segundo turno. Mas eu não teria problemas com a imagem de Luciana, inclusive argumento que é por isso que minha amada se identifica com ela; entre as candidatas, a gaúcha é claramente a mais bonita e sensual.
Não me importo de estar com uma comunista, tudo bem ser chamado de "filhinho de papai" por ela; respondo que sou mesmo, com muito orgulho. Ela também refere que é uma pena um salgado saboroso como a coxinha ter seu significado tão deturbado. Como uma forma de retaliação secreta, incluí o alimento com mais frequência nas minhas refeições. Uma conclusão possível seria: não podemos fugir do que sentimos, seja na dieta, na política ou no amor.
Ironicamente, minha profissão tem um forte aspecto socialista, pois o salário é pago integralmente pelo governo. Como bom funcionário público, procuro atender a todos com igualdade, receitando preferencialmente medicamentos disponíveis na farmácia municipal. De vez em quando, vem o pensamento de que ela ficaria orgulhosa de meu trabalho; inclusive já comentei que a população deve muito a ela, pois minhas ações são frutos de sua inspiração.
Em tempos de guerra, nada melhor do que encontrar a paz. Seja em um país azul ou vermelho, apaixonar-se me parece ser a verdadeira salvação do homem. Um presidente, um partido político ou uma ideologia não conseguiria ter tanto poder sobre nós; pelo menos, é o que gosto de pensar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Três Passos de Las Vegas

Mês passado, fui visitar meu avô no noroeste gaúcho; combinei de ir no mesmo final de semana que meu jovem primo, universitário em Santa Maria, iria. Na noite de sexta-feira, ele me convidou para sair com seus amigos e, como de costume, recusei. "É por causa da namorada? Cara, o que acontece em Três Passos fica em Três Passos." "Aqui é como Las Vegas..." ironizei lembrando do ditado norte-americano, What happens in Vegas stays in Vegas
No café da manhã de sábado, o avô comentou que sua churrascaria preferida estaria fechada; sugeri de chamar o tio para assar uma carne na churrasqueira da sacada, mas, no alto de seus oitenta e oito anos, o patriarca respondeu que ele mesmo poderia fazer o serviço. Após irmos ao açougue, acordei meu primo para buscarmos sua mãe. Ele aproveitou para testar meu novo automóvel na rodovia. Após uma ágil aceleração, ele teve que admitir: "Nossa, é bom mesmo."
Já comi diversos churrascos na casa de meu avô, mas não lembro de um preparado por ele (geralmente os assadores são tios ou primos). Esse foi um dos melhores que já degustei. O salsichão estava perfeitamente assado e, por isso, pouco gorduroso. Após os merecidos elogios, meu avô me perguntou que tipo era aquele que compramos. "Com queijo" respondi, achando engraçado que, mesmo sem ter escutado o que o açougueiro falara, ele escolhera a peça no olho. Sorte?
Onze horas da noite, despedi-me dos dois na sala; a caminho do quarto, meu primo pediu o carro emprestado novamente. "Claro." Quatro horas da madrugada, levantei-me para ir ao banheiro e percebi que ele ainda não havia voltado. Já de manhã, rumo à Santa Catarina, noto que meu primo gastara um quarto do tanque (cerca de doze litros de gasolina), rodando mais de cem quilômetros na histórica noitada.
No outro dia, pela internet, ele conta que circulara apenas na cidade (?!), com mais três pessoas. Não quis saber muitos detalhes, pouco importava. Ao relatar a ocorrência para um amigo dele, foi comentado que meu primo, apesar de não possuir um carro, adorava dirigir; assim, era óbvio que iria aproveitar ao máximo a grande oportunidade. Gosto de pensar que ele teve uma noite de rei, talvez isso o motive a conquistas cada vez maiores.
Há muitos anos, meu pai vem dizendo que eu deveria investir em viagens; ele próprio é um exemplo disso, voltando recentemente de mais um passeio pelos Estados Unidos. Uma das cidades americanas que eu gostaria de visitar é Las Vegas, com seus luxuosos hotéis e cassinos. Por enquanto, contento-me com Três Passos; o lugar onde, mesmo durante o sono, sonhos compartilhados podem acontecer.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Blefadorzinho - parte 3

No dia em que minha avó foi sepultada, estávamos na sacada do apartamento do meu avô, quando meu tio comentou que, após ter ido apenas duas noites no clube do poker, seus colegas de jogo queriam "fazer uma estátua" em minha homenagem. Um outro tio enfatizou que isso não seria surpresa mesmo que eu tivesse ido apenas uma vez lá. O curioso é que eu ganhei naquelas duas noites, mesmo assim, meus adversários, aparentemente, gostaram da minha presença.
Uma lição que aprendi nos anos de carteado com meus familiares é: se você está ganhando dinheiro em uma mesa, deve ser educado com os outros jogadores. No clube do poker, dificilmente fazia algum comentário quando ganhava; quando perdia, frequentemente elogiava o adversário, às vezes, sincero: "Jogasse bem." Nas duas noites, tive embates homéricos com um homem de cerca de 35 anos; além de ser agressivo nas apostas, ele costumava provocar.
Na primeira noite, ao se deparar com mais um all-in meu, ele me perguntou: "Você não tem medo de perder todas essas fichas?!" "Não." Pensei comigo mesmo que aquela quantia não faria muita diferença no meu orçamento, o que talvez não fosse verdade para eles; sem dúvida, essa me era uma vantagem. Apesar da tensão entre nós dois, só tivemos o prazer de matarmos um ao outro no segundo domingo que apareci no salão.
No primeiro all-in, ele levou a melhor: flopei uma trinca e ele uma sequência, ele apostou, alguns desistiram e dei all-in. Mesmo com o "nuts" (melhor jogo possível), ele ainda se mostrou surpreso e demorou para cobrir minha aposta (ao meu ver, uma óbvia demonstração de fraqueza). Ao ganhar a rodada, ele citou um jogador de poker que eu não conhecia, sugerindo que eu deveria ter apenas apostado alto, não dado o all-in.
Na verdade, não teria feito diferença alguma; naquelas circunstâncias, a aposta máxima era inevitável. Porém, educadamente, silenciei; o crupiê, que administrava o clube, ironizou a provocação comentando que "o fulano vai abrir um couching..." Pego de surpresa, ri naturalmente da piada e tive a agradável sensação de ser bem-vindo ali; como já aconteceu algumas vezes ao longo da minha vida, eu sequer precisei me defender.
Praticamente na última rodada, flopamos um flush draw: eu tinha o ás, ele o rei. Ele apostou, cobri a aposta, no turn veio o nosso flush: ele aposta, vou all-in, ele paga sem hesitar, jogando as fichas lentamente na mesa, olhando nos meus olhos. Por um instante, confirmo mentalmente que eu tinha o nuts: seria impossível ser vencido. Mostro minhas duas cartas de espadas, o ás reluzente. Tomado pela emoção, ele se levanta e sai rapidamente do recinto, provavelmente para fumar mais um cigarro. Era o fim da noite.
No carro, meu tio comenta, rindo, que tinha gente ali querendo meu rim. Ele explica que meu rival apostava alto e tinha sorte, mas eu conseguia ter mais sorte ainda. Se usarmos o poker como uma analogia, eu diria que, se você for educado com a vida, talvez ela lhe presenteie com alguns golpes precisos de sorte. Depois de grandes perdas, grandes ganhos são possíveis, basta assumir os riscos e continuar jogando.