sábado, 10 de maio de 2014

Cold Mountain (2003)

Esta ficção se passa durante a Guerra Civil Norte-Americana (1861-65), deflagrada após os estados do sul não aceitarem o fim da escravidão. Em um desses estados "rebeldes", fica Cold Mountain, onde parte da trama se desenrola. Uma passagem interessante é quando a protagonista Ada (Nicole Kidman), após a morte do pai, liberta os escravos de sua fazenda. Fica a idéia de que o motivo da guerra era quase irrelevante, embora o embate em si fosse uma tragédia generalizada.
Os soldados de Cold Mountain comemoram o início do conflito que, analisando os números históricos, estava perdido desde o início: o norte possuía o dobro de soldados e, por ser mais industrializado, tinha os melhores equipamentos. Inman (Jude Law), momentos antes de partir para as trincheiras, dá o primeiro beijo em Ada, com quem enamorava há meses. Durante o esperado reencontro final, ele comenta: "Aquele beijo que beijei todos os dias da minha caminhada."
Perto do fim da guerra, Inman é gravemente ferido no pescoço e, no hospital, uma voluntária lê uma carta que mudaria o seu destino:
"Querido Inman, desde que você partiu, o tempo tem sido medido em capítulos amargos. No outono passado, meu pobre pai morreu. Nossa fazenda está abandonada, cada casa nestas montanhas foi tocada pela tragédia. Cada dia há o temor de saber quem caiu, quem não voltará dessa guerra terrível. E nenhuma palavra de você. Você está vivo? Eu rezo a Deus que esteja. Essa guerra é perdida no campo de batalha e está sendo perdida em dobro por aqueles que ficaram para trás. Continuo esperando, como prometi que faria. Mas me vejo sozinha, perdida, envergonhada por continuar tirando dos que menos podem dar. Meu último fio de coragem é colocar minha fé em você e acreditar que nos veremos novamente. Então, agora digo, o mais claramente que posso: se estiver lutando, pare de lutar; se estiver marchando, pare de marchar. Volte para mim. Volte para mim é o meu pedido."
No longo caminho de volta, ele precisa enfrentar a "Guarda Estadual", que caça deserdores do sul. Uma das cenas mais impactantes acontece em Cold Mountain, na residência de um casal que tinha os dois filhos alistados. Após matarem o pai, os guardas torturam a mãe para que os filhos, escondidos no celeiro, apareçam e sejam baleados. Novamente temos a tragédia da guerra nua e crua, mostrando a importância de cultivarmos a paz.
No final da narrativa, o reencontro amoroso acontece; mas, no dia seguinte, ao eliminar o último guarda estadual, Inman é fatalmente atingido e morre nos braços de Ada. "Eu voltei" são suas últimas palavras. Anos depois, é mostrada sua jovem filha com a mãe, que fala ao amado:
"Tudo que podemos fazer é ficar em paz com o passado e tentar aprender com ele. Há dias em que consigo não pensar em você, quando as necessidades da fazenda chamam com mais urgência que meu coração. Nesta época do ano, tem tanta vida em todo lugar; encontro você em tudo isso, como se ainda estivesse vindo para casa. Se você pudesse nos ver agora, saberia que cada passo da sua jornada valeu a pena."

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Dama na Água (Lady In The Water) 2006

Há alguns meses, encontrei este DVD sendo vendido por um preço promocional onde costumo tomar café; apesar de ser alvo de críticas negativas, comprei-o pensando em mais uma possível temática para o blog. A história fantasiosa pode ser difícil de ser aceita, mas, como em outros longas do incomparável M. Night Shyamalan, é possível tirar grandes lições. Basta estarmos atentos.
"Todos os seres têm um propósito" é umas das frases da Dama. A descoberta desse propósito pode demorar e está sujeita a erros, como o próprio filme demonstra. Identifico-me com dois personagens: Vick (interpretado pelo próprio Shyamalan), um aspirante a escritor; e Cleveland, o protagonista que abandonou a carreira médica e agora trabalha como zelador no condomínio onde a trama se desenrola.
O papel de Vick é escrever um livro que mudará o mundo ao inspirar um futuro líder americano, mas o projeto "empacou" e a missão dela é inspirá-lo, bastando apenas que eles se vejam. Com o dom de ver o futuro, ela confirma que a publicação do livro provocará polêmica e, por isso, o autor será assassinado. Ele termina a obra mesmo assim. "Vocês estão todos conectados, uma ação pode um dia afetar a todos."
Cleveland abandonou a Medicina após sua esposa e filha serem mortas por um homem que invadiu a casa em sua ausência. Segundo a Dama, foi quando ele deixou de ser feliz. Ela o lembra que ele não está tão distante de seu nobre passado: "Você ajuda todos que vivem aqui." Embora ele não quisesse mais curar, esse era um atributo inerente ao seu ser; no auge da narrativa, após ela ser gravemente ferida, ele a salva milagrosamente. 
Nos comentários finais do extra, a atriz Bryce Dallas Howard sintetiza a moral da obra: 
"Em toda história existem os heróis, existem os guardiões e os curadores... Todos têm isso em suas vidas e, até que procurem, frequentemente não percebem que estão destinados a serem cercados por essas pessoas."

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Passei o domingo de Páscoa com meu avô na casa de um tio que mora a alguns quilômetros de Porto Alegre. Há uns 5 anos, visitei-o e tenho a lembrança dele comentar que eu era o único sobrinho que o visitava, o que provavelmente ainda é uma verdade. Suas quatro filhas, todas acadêmicas de Universidades Federais, também estavam ali, o que tornava o evento mais especial. Durante o longo jantar, algumas dúvidas médicas surgiram e eu habilmente provei a minha formação. 
No outro dia, durante o café, minha tia comentou que uma de minhas primas lhe dissera na noite anterior: "Como é bom ter um médico na família!" No final da manhã, enquanto saía da cozinha para arrumar as malas, ouvi-a reparar, mais uma vez, que a minha voz era igual a de meu irmão mais velho. Outra pessoa que fala isso é um amigo antigo dele, que eventualmente encontro em nossa cidade natal. Talvez inconscientemente eu tente imitar a sua maneira de falar.

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Esse tio é graduado em Direito e está vendo os procedimentos para que meu avô consiga receber, ao menos em parte, a aposentadoria de minha avó. Um tio odontólogo, especialista em próteses, fez com que ela mantivesse um sorriso perfeito por toda a vida. Meu pai, no seu papel de irmão mais velho, ficou incubido de reexplicar para um de meus tios os motivos dela ser transferida; o tio que, além de ser o mais emotivo, era o único que morava na mesma cidade que ela.
Quando meu pai concluiu que essa decisão caberia aos médicos, ele não olhou ou fez qualquer menção a mim. Imagino que essa atitude visou enfatizar o aspecto técnico que a situação demandava, diminuindo a óbvia influência de eu ser seu filho; o importante era a graduação em Medicina, isso justificava o meu poder. "Cada um no seu quadrado" foi a conclusão seguinte, também lembrando que "cada macaco no seu galho."

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Dois dias antes de minha avó falecer, comentei com meu primo que seu pai não gostara da idéia de transferência, mas que várias vezes foram explicadas as razões. Ele riu e respondeu que, mesmo que fossem dados mil motivos, ainda assim seu pai não concordaria. Mais tarde, após eu afirmar que o primo era o "cara" da casa, ele acabou confessando que realmente era a pessoa mais racional do núcleo familiar.