sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O Último Plantão

Fiz meu último plantão no final do mês passado, não tendo mais nenhum agendado. Coincidentemente, também era o último plantão do meu colega médico (são dois plantonistas por turno), um senhor com cerca de 50 anos que, apesar de ter conhecido lugares "tenebrosos" na região norte do país, definia nosso PA como um "inferno". Não tive coragem de admitir, mas, em 2013, eu fazia uma definição similar do local: "zona de guerra".
Mês retrasado, em que apenas fiz plantões, devo ter feito menos da metade das horas que meu colega fez. Não sei se ele tem filhos, mas ele contou que era casado; sua mulher, ao saber que ele pararia de trabalhar, perguntou o que então ele faria e obteve como resposta: "Vou ficar em casa, olhando para você." Embora eu me identificasse com o seu "burn out", havia uma diferença clara entre nós: eu ainda não odiava o nosso "front de batalha".
O caso mais grave que atendemos foi trazido pelos bombeiros: uma senhora de 96 anos em crise hipertensiva. Ela chegou gemente, não comunicativa; história de AVC há 10 anos, com piora gradual há 30 dias. Evoluiu com incapacidade para deglutir, parando o uso da medicação anti-hipertensiva. Solicitei um diurético e um analgésico endovenoso, meu colega sugeriu tentar uma medicação via oral, mas discordei. Assim, oficialmente, eu assumia a paciente.
Ela já havia sido levada ao PA no dia interior, mas fora liberada após controle da pressão arterial. Entendendo que provavelmente não haveria uma melhora neurológica substancial, informei a filha que a conduta após estabilizá-la seria solicitar a internação no hospital; isso trouxe um alívio imediato para ela, que também entendia a gravidade do quadro. Após a medicação fazer efeito, a paciente parou de gemer e chegou a ficar um pouco sentada.
Alguns familiares entraram para vê-la, havia um clima de despedida no ar. O clínico prontamente aceitou interná-la e a filha, emocionada, agradeceu dizendo que eu era "um anjo". Ao preencher o prontuário, percebi a semelhança com a trajetória final de minha avó: um declínio neurológico rápido até a perda de funções básicas como andar e comer. Na época, tivemos auxílio na Santa Casa de Porto Alegre; agora, pude fazer o mesmo por outra família.