sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Seicho-No-Ie e Espiritismo - Parte 1

            Segundo o Wikipédia, Masaharu Taniguchi, japonês que criou a Seicho-No-Ie em 1930, disse, em sua segunda vinda ao Brasil, que em sua próxima vida pretendia nascer aqui. Ora, então ele acreditava em reencarnação, preceito básico do Espiritismo. Além disso, pretendia reencarnar na maior nação espírita do planeta.
            Logo no primeiro capítulo de seu livro de 1948, “Comande sua Vida com o Poder da Mente”, é comentada a doutrina cristã:
            “A sagrada força curativa da Filosofia da Imagem Verdadeira é regida pela lei que diz: ‘Sendo o ser humano filho de Deus, a perfeição lhe é inerente. Porém, o seu corpo físico e o seu destino podem apresentar os mais variados aspectos, dependendo das idéias elaboradas na mente’. Quando a mente visualiza a imagem perfeita de homem, filho de Deus, a pessoa constrói um destino feliz, mas quando a mente elabora a imagem de homem, filho do pecado¸ a pessoa destrói a própria vida. A força que cria o mundo fenomênico atua de modo positivo ou negativo dependendo da idéia que a mente humana elabora. Devemos dizer que Jesus Cristo foi o maior dos filósofos, pois ele foi capaz de incutir a mente das pessoas, com veemência, palavras carregadas de poder de cura. Quando ele ordenava “Levanta-se e ande”, os paralíticos se levantavam e andavam. Jesus visualizava nos enfermos unicamente a Imagem Verdadeira perfeita de filhos de Deus, nunca a imagem de pessoas impossibilitadas de se mover há anos. Por isso conseguia realizar milagres.
             Contudo, Jesus não aplicou leis que só ele tinha permissão de usar; ele aplicou leis que todas as pessoas conseguem seguir. Devemos saber também que Jesus, como ser humano, não diferia dos outros quanto à sua constituição e natureza.”
            Segundo o Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec, Jesus Cristo condenava o pecado mesmo em pensamento:
            “A verdadeira pureza não está somente nos atos, mas também no pensamento, porque aquele que tem o coração puro não pensa mesmo no mal; foi isso que Jesus quis dizer: ele condena o pecado, mesmo em pensamento, porque é um sinal de impureza.” Cap. VIII
            Um dos preceitos básicos do Espiritismo é que nosso objetivo é a constante evolução, sendo nossa “imperfeição” um dos motivos de encarnarmos na Terra. É compreensível que não nos martirezemos por nossos erros, mas não seria uma certa pretensão nos denominarmos “perfeitos”? Até que ponto isso contribui para nossa evolução?
            Claro que, como meta, a idéia de perfeição pode ter um efeito benéfico no indivíduo. Jesus tem um discurso similar ao de Masaharu nesse sentido:
            “Amai os vossos inimigos; fazei bem àqueles que vos ideiam e orai por aqueles que vos perseguem e que vos caluniam; porque se não amais senão aqueles que vos amam, que recompensa com isso tereis? Os publicanos não o fazem também? E se vós não saudartes senão vossos irmãos, que fazeis nisso mais que os outros? Os Pagãos não o fazem também? Sede pois, vós outros, perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.” São Mateus Cap.V versículos 44-48
             Notável é a análise espírita que se segue ao trecho no capítulo XVII do Evangelho Segundo o Espiritismo:
            “Uma vez que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, esta máxima: ‘Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito’, tomada ao pé da letra, pressuporia a possibilidade de se atingir a perfeição absoluta. Se fosse dado à criatura ser tão perfeita quanto o Criador, ela se tornaria igual, o que é inadmissível (...)
             É preciso, pois, entender, por essas palavras, a perfeição relativa, aquela da qual a Humanidade é suscetível e mais aproxima da Divindade. Em que consiste essa perfeição? Jesus o disse: ‘amar os inimigos, fazer o bem àqueles que nos odeiam, orar por aqueles que nos perseguem.’ Ele mostra, assim, que a essência da perfeição é a caridade em sua mais larga acepção, porque ela implica a prática de todas as outras virtudes.”
             Noto que a Seicho-No-Ie concentra o foco no próprio indivíduo, “perfeito”; enquanto o Espiritismo focaliza o outro, que através da caridade, é considerado o caminho para a perfeição. Perfeição essa representada por Jesus (de certa forma, Deus ou seu filho genuíno). Essa fusão entre a figura de Jesus e Deus, tão evidente na doutrina cristã, parece simplificada por Taniguchi, que sugere que todos nós podemos ser como Jesus, basta “visualisarmos a perfeição”. Não é um exagero? Não havia algo muito especial nele, maior que qualquer filosofia?
            “Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, que não entra no quadro desta obra examinar, e não o considerando, por hipótese, senão um Espírito superior, não se pode impedir de reconhecer nele um daqueles de ordem mais elevada, e que está colocado, pelas suas virtudes, bem acima da Humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que ele produziu, a sua encarnação neste mundo não poderia ser senão uma dessas missões que não são confiadas senão aos mensageiros diretos da Divindade para o cumprimento de seus desígnios. Supondo que ele não fosse o próprio Deus, mas um enviado de Deus para transmitir a sua palavra, ele seria mais do que um profeta, porque seria um Messias divino.” A Gênese Cap.XV
             Considero-me um pecador, gosto de aproveitar os prazeres terrenos; mas esse sentimento de culpa me motiva a “reparar” ou “compensar” com bons resultados na minha vida profissional e familiar.  Nem sempre dá certo, mas eu tento. A perfeição ainda é um longo caminho para mim.
             (continua)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Discurso - Parte 3

            3- Um dia, você vai morrer.
"Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo, expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar, caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. Não há razão para não seguir o seu coração.
Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração."
Tive um contato precoce com a morte, tornei-me orfão aos 10 anos. Hoje considero esse fato marcante para uma certa postura "destemida" em relação à vida. Neste ano, conversando sobre isso com um amigo, comentei que "o pior já havia acontecido", no sentido que era natural seguir em frente apesar de qualquer adversidade.
Durante meu último semestre de faculdade, participei de uma entreveista para um TCC, em que falei que minha espiritualidade facilitava meu contato com pacientes terminais, pois eu os via de "igual para igual", já que a morte seria apenas uma "passagem", não um fim. Também não vejo um grande problema em "perder" um paciente. A morte faz parte da profissão médica, não por acaso optei por esse caminho.
Steve Jobs havia descoberto o câncer pancreático um ano antes do discurso. Ele acreditava estar curado na formatura, mas parece que ele estava errado. Independente de sua morte, seu discurso está eternalizado, assim como tantas outras obras. É um conforto saber que muitos ecoam na eternidade, inclusive nós.
* * *
Amy Winehouse fez história ao lançar seu "Back to Black" em 2006. Como o próprio nome diz, o álbum é envolto em uma névoa de melancolia que é característica da obra. Blake Fielder teve seus méritos, afinal de contas.
"More than I could stand, love is a losing hand." Trecho da faixa seis "Love is a Losing Game".


terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Discurso - Parte 2

2- Você precisa encontrar o que ama.
“Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama.”
Assim como Jobs, tive sorte, pois pude dar vazão a várias paixões desde cedo. Não comentarei sobre trabalho ou relacionamentos, mas sobre um hobby: a música.
Em minha tenra infância, lembro de escutar Beatles (foi também um dos primeiros contatos com a língua inglesa: “help” significava “socorro” e assim por diante). No começo da década de 90, Nirvana (que voltei a escutar novamente ao escrever esse texto), Pearl Jam (que fui no show este mês em Curitiba), Alice in Chains e Stone Temple Pilots (essas duas últimas vi pela televisão ao vivo semana retrasada).
Mais adiante, conheci bandas de hardcore melódico: Bad Religion, MxPx, Lagwagon, NOFX, entre outras. Nessa época, comecei a tocar guitarra; na minha opinião, o melhor instrumento musical, por permitir uma fácil expressão da emoção. Em 2001, minha banda, Gridy, lançou o álbum “Faça Acontecer”, que era o nome de uma composição minha contida no disco. No ano seguinte participei da produção do lendário álbum dos Vizinhos da Glória, “Por Alguém ao Lado”, tocando teclado em três faixas e guitarra no final prolongado de “Fim de Tarde”, uma das minhas prediletas:
 www.youtube.com/watch?v=h0IZ5SlL_bg
Durante a faculdade, fiz algumas gravações caseiras com meu amigo Thiago e tocamos algumas noites em um bar de Floripa. O repertório era bem variado, Pink Floyd, Oasis, Peral Jam, U2. Em 2007, ele montou um trio, a The Lawyers, com repertório similar ao que tocávamos em dupla. Após acompanhar alguns ensaios, juntei-me a banda. Nesse período, eu estava passando por uma fase complicada do internato e tocar novamente num quarteto foi uma ótima válvula de escape:
www.youtube.com/watch?v=QmU0nqIGsck
www.youtube.com/watch?v=Ij-qyntJpd4
Em 2009, o nosso baixista se mudou para o interior do RS e decidimos montar uma outra banda, a The Bottles, tocando apenas Beatles (uma paixão em comum dos integrantes restantes da Lawyers). A banda foi um sucesso, fizemos vários shows, mas ao final de 2009 me mudei para o interior de SC, tendo que ser substituído. Eles continuam na ativa, com uma sonoridade cada vez melhor.
www.youtube.com/watch?v=Q_PdHsRdRqs
www.youtube.com/watch?v=oopETZs-OyM
www.youtube.com/watch?v=ZSiJwu4iK1M
Nos dois últimos anos, tenho feito algumas gravações caseiras esporádicas, em que “toco” com alguns de meus artistas prediletos:
www.youtube.com/watch?v=5S6vhOpxbrA
www.youtube.com/watch?v=NK0bSSNRKIQ
www.youtube.com/watch?v=E5Wo1oDBMWs
Mais recentemente, tenho tocado e cantado algumas músicas do Legião Urbana e outras bandas nacionais, talvez no futuro possa até tocar para pequenos públicos.
Hoje em dia, aceito que sempre estarei envolvido em algum projeto musical, mesmo que tenha algumas pausas. Invariavelmente isso me ajuda a seguir em frente e desconfio que devo dar um passo além e voltar a compor. Rever meus ídolos de infância é sempre motivante nesse sentido.
* * *
Recentemente passei pelo fim de um relacionamento de quatro anos e escutar repetidas vezes algumas músicas do Kid Abelha e Legião Urbana me ajudaram a aliviar a dor. O problema é que posteriormente essas músicas podem ficar “impregnadas” com lembranças desagradáveis; todo remédio, afinal, tem seu efeito colateral. Como em “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, tenho que resistir à tentação de deletar algumas melodias do meu setlist.
(continua)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Discurso - Parte 1


        Em 2005, Steve Jobs fez um discurso histórico para formandos de Stanford. Li a transcrição do discurso em 2007 ou 2008, gostando bastante na época. Agora, com sua morte, suas três lições voltam à tona:
            1- Um dia, os pontos vão se ligar.
“Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.
De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.” www.abmeseduca.com/?p=2547
            Tive facilidade na escola e com os anos isso foi se tornando cada vez mais notável. Destacava-me principalmente nas áreas exatas, mas também tinha aptidão para Literatura e Português. No entanto, não pensei em ser engenheiro ou pesquisador; também não optei pela carreira jurídica, embora meu irmão, que fazia Direito na época, tenha salientado que meu gosto por ler e escrever seria melhor aproveitado ali.
            Com quinze anos, vi claramente que queria lidar com pessoas. Esse interesse já havia tido vazão alguns anos antes, quando li vários livros de Astrologia de meu pai, ficando fascinado com a complexidade psíquica do homem. Minhas opções então eram Psicologia e Medicina, meu pai sugeriu que eu optasse pela carreira médica e me especializasse em Psiquiatria. Por muito tempo, esse foi meu objetivo.
            No segundo ano de faculdade, tive uma disciplina marcante: Psicologia Médica. A aula introduziu conceitos básicos da Psicanálise, sendo uma fase de intenso aprendizado. Aos poucos, fui me tornando “o psiquiatra” da turma. Entre o terceiro e quarto ano, acompanhei semanalmente o trabalho de uma psiquiatra no CAPS (Centro de Atenção Psico-Social), sendo também um período bastante produtivo. Ironicamente, porém, foi a partir desse estágio que comecei a vislumbrar um novo caminho: trabalhar como clínico-geral em Unidades Básicas de Saúde. Eu poderia dar vários motivos para essa mudança, mas não os considero relevantes; o principal era eu sentir que essa era a escolha certa.
            Recentemente, uma colega que acompanhou parte dessa trajetória comentou que meus estudos em Saúde Mental eram o meu diferencial. De fato, seja no ambiente ambulatorial ou hospitalar, uma abordagem psíquica é frequentemente necessária.
* * *
            “Não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido; aprendi a viver um dia de cada vez.” Legião Urbana em “Só Por Hoje”.
            Por enquanto, sinto que estou no caminho certo.
            (continua)

sábado, 5 de novembro de 2011

Resenha - Coisas Belas e Sujas (Dirty Pretty Things)


          Esta resenha foi escrita por meu irmão mais velho. Ele que, muito antes de mim, já encantava as professoras com suas redações.
* * *
O filme retrata bem a falibilidade humana em face das dificuldades que o sistema contemporâneo e globalizado emprega. Muito embora o enredo se passe na cidade de Londres, cuja realidade se afigura bastante diferente da brasileira, notadamente a do nosso Estado de Santa Catarina, tem-se que muitas lições podem ser tiradas do filme.
O personagem vivido por Chiwetel Ejiofor, chamado Okwe, um médico e imigrante nigeriano em situação irregular em Londres, desde o início demonstra condutas incomuns da maior parte dos seres humanos de nossa sociedade. Com diversos empregos – recepcionista de hotel, taxista, “consultor” de portadores de doenças sexualmente transmissíveis atendidos nos subúrbios londrinos -, tem-se que Okwe luta para aferir o dinheiro suficiente para sobreviver naquela cidade, bem como para poder voltar ao seu país de origem e rever sua filha.
Por sua vez, a personagem interpretada por Audrey Tautou, de nome Senay, tem em comum com Okwe o fato de também ser imigrante ilegal (nacionalidade turca) na cidade de Londres, cujo sonho é ir residir nos Estados Unidos e trabalhar no estabelecimento comercial de uma prima.
A diferença entre os dois é que ela faria qualquer coisa – mesmo que ilegal – para conseguir regularizar sua situação clandestina na Inglaterra e obter o visto para a tão sonhada vida norte-americana. Okwe, em contrapartida, jamais agiria ilegalmente, mesmo tendo que trabalhar semanalmente sem poder dormir e se escondendo incessantemente da polícia contra imigração da Inglaterra.
O ponto nevrálgico do filme aparece quando o empregador de Okwe, de nome Juan, funcionário do mesmo hotel, descobre que ele é médico e, diante disso, começa a chantageá-lo para que ele passe a fazer as retiradas clandestinas de órgãos dos imigrantes ilegais em Londres - que cedem seus rins para obterem documentos falsificados a fim de poder residir e trabalhar livremente na cidade londrina.
Okwe nega veementemente, demonstrando ser absurda tal prática de Juan, que explora as “vidas sem opção” dos imigrantes ilegais de Londres para enriquecer. A conduta de Okwe, mesmo estando numa situação que muitos não aguentariam, é exemplar, visto que, em cedendo às chantagens de seu superior, poderia residir tranquilamente em Londres, não tendo mais que se submeter à exploração de trabalho bem como às jornadas extremamente longas na direção de seu táxi.
O que se colhe do filme é saber até que ponto “o certo” deve ser praticado. Até que ponto podemos e devemos agir de forma correta. Há limites?
O filme explora muito bem isso. Não obstante Okwe tenha deixado nítido que jamais faria a remoção ilegal de órgãos, tem-se que ele se viu sem opção quando Senay - pessoa com quem construiu amor e afeto – se dispôs a “vender” um dos seus rins. Sabedor que ela correria sérios riscos de vida ao se submeter ao procedimento cirúrgico clandestino, Okwe se propôs a integrar a organização criminosa de Juan e realizar a empreitada.
Surpresa nos traz o filme com o desfecho da história, tendo o médico Okwe sedado Juan e removido um dos rins dele. Com posse dos documentos e vistos falsificados, bem como do dinheiro proveniente da venda do rim, Okwe e Senay puderam, enfim, deixar a vida sofrida de Londres e irem atrás dos seus sonhos.
Aí vem a questão. Vale a pena agir dentro da ética, fazer tudo corretamente, mesmo em situações de desespero em que não há saídas? Sem dúvidas que a resposta é sim. Agora, é possível, no mundo de hoje, agir assim? Há dúvidas.
Ao ver o filme, uma pergunta a nós mesmos é feita: no lugar de Okwe, faríamos o mesmo? Preferiríamos não realizar as cirurgias clandestinas e continuar sem teto, sem dinheiro, sem dormir, trabalhando 20 horas por dia? Difícil responder honestamente.
Muitos dizem “o mundo é dos vivos”, “bonzinho só se f...”. Não cremos assim. Vivemos não para nós mesmos. Vivemos para poder deixar algo de bom para o próximo. Vivemos para que as nossas condutas possam servir de bom exemplo para os outros. Ninguém quer ser um Maluf. Mas todos gostaríamos de ser um Okwe, mesmo sabendo que não seríamos.
Isso porque ao comer “o pão que o diabo amassou” e não ceder ao que é errado, Okwe certamente passa orgulho aos telespectadores do filme. Um herói moderno. Sua conduta dá vontade de dizer “Okwe é o cara”. Problema maior é saber que não temos ao nosso redor pessoas com a coragem e a integridade de Okwe. Flagrantemente qualquer um do nosso meio cederia às chantagens de Juan, a fim de extirpar o sofrimento. Estaríamos todos errados? A resposta é íntima. Nossa consciência é quem nos julga.
Nossa sociedade carece de exemplos como o de Okwe. É normal em nosso país ser corrupto. Ocorre que Okwe se corrompeu por amor, não por ganância. Aí temos o limite. Por amor, qualquer coisa bela e suja é possível. Correta ou incorreta, cada um sabe de si. Exemplos para os outros? Difícil, mas não impossível.

domingo, 9 de outubro de 2011

Medicina e Espiritismo - parte 3

   
7- Preciso ser empático. Não se trata apenas de um quesito profissional, mas, se eu preciso ter contato as com pessoas, preciso conquistá-las. Minha vontade jamais será absoluta, nem deve; um relacionamento saudável exige concessões. Apesar de saber disso, desconfio que meu defeitos só são compensados em parte pelas minhas qualidades. Sacrificar mais e pecar menos, eis uma fórmula milenar.
“Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar, e ele mesmo dá o exemplo; orgulho e egoísmo, eis o que não cessa de combater; mas faz mais do que recomendar a caridade, coloca-a claramente, e em termos explícitos, como a condição absoluta da felicidade futura.” O Evangelho Segundo o Espiritismo Cap.XV nº3
8- Preciso lidar com o oculto. Como médico e espírita, estou ciente que devo me manter bem espiritualmente para melhor atuar, mesmo que não entenda completamente o processo. Também procuro tocar os pacientes, principalmente os ansiosos, embora não saiba ao certo se isso fará alguma diferença. Eventualmente, enquanto eu faço a ausculta cardíaca do paciente, fecho os olhos (como se estivesse concentrado no exame) e secretamente peço que o ajudem, quem quer que eles sejam.
“Então, uma mulher, enferma com uma perda de sangue há doze anos (...) tendo ouvido falar de Jesus, veio na multidão por trás e tocou as suas vestes (...) No mesmo instante, a fonte de sangue que ela perdia secou, e sentiu em seu corpo que estava curada dessa doença. No mesmo instante Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra, retornou para o meio da multidão e disse: Quem tocou as minhas vestes?” São Marcos Cap.V
“Estas palavras: ‘Conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra’ são significativas; elas exprimem o movimento fluídico que se operou de Jesus para a mulher enferma; ambos sentiram a ação que acabara de se produzir. É notável que o efeito não foi provocado por nenhum ato de vontade de Jesus (...) O fluido, sendo dado como matéria terapêutica, deve atingir a desordem orgânica para repará-la; pode ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador, ou atraído pelo desejo ardente, a confiança, em uma palavra, a fé do enfermo.” A Gênese Cap.XV nº11
9- Preciso ensinar. Nasci com um dom intelectual e tive a oportunidade de desenvolvê-lo, é um dever contribuir para o crescimento dos outros. Como médico, tenho frequentemente a oportunidade de passar meus conhecimentos, o que é um prazer. Além disso, sou constantemente observado, o que me permite ensinar através do exemplo. Por fim, este blog decorre do que considero mais importante compartilhar.
“Aqueles que retornam, então, não são sempre outros Espíritos, mas frequentemente, os mesmos Espíritos pensando e sentindo de outro modo. Quando esse melhoramento é isolado e individual, passa despercebido, e sem influência ostensiva sobre o mundo. O efeito é diferente quando se opera simultaneamente em grandes massas; porque, então, segundo as proporções, em uma geração, as idéias de um povo ou de uma raça podem ser profundamente modificadas.” A Gênese Cap.XVIII nº33
“A nova geração, devendo fundar a era do progresso moral, se distingue por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, unidas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é o sinal indubitável de um certo grau de adiantamento anterior.” A Gênese Cap.XVIII nº28
10- Preciso ter um papel social. Recentemente ocorreu na Argentina uma colisão entre um ônibus e um trem, resultando em onze mortes. Imagens gravadas mostram que um guarda impedia a passagem dos veículos pelos trilhos, mas ele foi embora instantes antes do acidente. Como médico, sinto diariamente que minha omissão ou imperícia também pode ocasionar tragédias. Mas aceito a condição, “grandes poderes vêm com grandes responsabilidades”. Apesar de algumas vezes reclamar da necessidade do trabalho, meu auge como indivíduo ocorre quando visto o jaleco com o símbolo da UFSC bordado no braço esquerdo e com o do HU no direito.
“O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que afronta as angústias da luta; é austero e flexível; pronto a dobrar-se às diversas complicações, permanece inflexível diante de suas tentações. O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas, e as criaturas mais do que a si mesmo; ele é, ao mesmo tempo, juiz e escravo em sua própria causa.” A Gênese Cap.XVII nº7
11- Preciso agir em equipe. Para isso, é necessário me cercar de pessoas de confiança, o que não me é fácil. Desde minha infância, prefiro trabalhar sozinho e tenho “fama” de ser anti-social. Procuro me relacionar bem com meus colegas de trabalho, embora hoje perceba que devo interagir mais com eles, evitando me isolar.
Não frequento nenhum centro espírita, meu único contato com outros espíritas é através deste modesto blog. Por fim, gosto muito de meus amigos, mas passo longos períodos ausentes.
“Nenhum homem tem as faculdades completas. Pela união social, eles se completam uns pelos outros para assegurar seu bem-estar e progredir. Para isso, tendo necessidade uns dos outros, são feitos para viver em sociedade e não isolados.” O Livro dos Espíritos Cap.VII nº768
12- Preciso ter fé. Na adolescência, durante um jogo de “verdade ou consequência”, perguntaram-me o que mais temia perder, a resposta: “minha confiança”. Acreditar no meu potencial foi essencial na minha trajetória, mas hoje considero que o desafio é crer que todos têm uma missão, um destino supervisionado por uma entidade superior. Acreditar que posso fazer coisas incríveis não é o suficiente, tenho que acreditar que estou predestinado a fazê-las.
“A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem vencer os obstáculos, nas pequenas como nas grandes coisas, a que é vacilante dá a incerteza, a hesitação de que se aproveitam aqueles que quer combater; ela não procura os meios de vencer, porque não crê poder vencer. Noutra acepção, a fé se diz da confiança que se tem no cumprimento de uma coisa, da certeza de atingir um fim; ela dá uma espécie de lucidez, que faz ver, no pensamento, o fim para o qual se tende e os meios de atingi-lo, de sorte que aquele que a possui caminha, por assim dizer, com certeza. Num e noutro caso, ela pode fazer realizar grandes coisas.” O Evangelho Segundo o Espiritismo CapXIX nº2 e 3

domingo, 11 de setembro de 2011

Medicina e Espiritismo - parte 2

“Há, porém, excelentes magnetizadores que não acreditam nos Espíritos.
– Pensas então que os Espíritos só agem sobre os que crêem neles? Os que magnetizam para o bem são auxiliados pelos Espíritos bons. Todo homem que aspira ao bem os chama sem o perceber, da mesma maneira que, pelo desejo do mal e pelas más intenções, chamará os maus.
O magnetizador que acreditasse na intervenção dos Espíritos agiria com maior eficiência?
– Faria coisas que seriam consideradas milagres.” O Livro do Médiuns. Cap.XIV nº176 (3 e 4).
Como proceder tendo a possibilidade de realizar milagres? Embora isso seja novidade para mim, já tenho claro alguns pontos:
1- Preciso me manter motivado. Esse tem sido um de meus dilemas profissionais, pois ao longo dos meses vou me desempolgando e logo quero conhecer outro local de trabalho. Gosto da novidade e do desafio; em menos de três anos de formado, já trabalhei em cinco cidades diferentes. Na verdade, essa é uma característica da minha geração (nascidos entre 1980 e 2000, “geração y”).
“O poder curador está, pois, em razão da pureza da substância inoculada; ele depende ainda da energia da vontade, que provoca uma emissão fluídica mais abundante, e dá ao fluido uma maior força de penetração...” A Gênese Cap.XIV nº31
2- Preciso produzir resultados. Gosto de tocar guitarra, mas prefiro fazer gravações; gosto de escrever crônicas num caderno, mas prefiro divulgá-las num blog; gosto de ter uma profissão, mas prefiro ter uma missão. Isso também influencia minha carreira “migratória”, pois observo resultados máximos nas equipes e nas comunidades nos meus primeiros três meses de trabalho. Após seis meses, já viso novas conquistas.
“...lembrai-vos de que a paz à qual aspirais não vos será dada senão depois do trabalho...” O Céu e o Inferno Cap.VII, parte III.
“– O homem que possui bens suficientes para assegurar sua existência está isento da lei do trabalho?
– Do trabalho material, talvez, mas não da obrigação de se tornar útil segundo suas possibilidades, de aperfeiçoar sua inteligência ou a dos outros, o que é também um trabalho. Se o homem a quem Deus distribuiu bens suficientes para assegurar a sua existência não está forçado a se sustentar com o suor de sua fronte, a sua obrigação de ser útil aos seus semelhantes é tanto maior para ele quanto o seu adiantamento lhe dá mais oportunidade para fazer o bem.” O Livro dos Espíritos Livro III Cap.III nº679
3- Preciso ter contato com pessoas. Estou passando por uma fase peculiar da minha vida. Moro sozinho num hotel familiar e minha única ocupação é ir e voltar do trabalho. Essa solidão me faz valorizar ainda mais o contato com os funcionários do hotel, com a equipe da unidade de saúde, com os pacientes, com as atendentes da padaria onde eu compro o jantar. Sorrir é terapêutico, mas sorrir sozinho não tem graça alguma.
“– Além da semelhança geral de afinidade, há entre os Espíritos afeições particulares?
– Sim, de mesmo modo que entre os homens; todavia, o laço que une os Espíritos é mais forte na ausência do corpo, por não estarem mais expostos às vicissitudes das paixões.” O Livro dos Espíritos. Livro II Cap.VI nº291
4- Preciso manter meu equilíbrio emocional. Não tem sido uma tarefa fácil. Em 2009, durante uma conversa sobre quem serio o John Lennon da banda, o baterista foi enfático: “O bipolarzinho da banda é ele” disse apontando para mim. Outra semelhança é que, de fato, eu me considerava o músico mais talentoso e, certo dia, antes de um show, comentei isso abertamente com eles. Também me considero uma pessoa emotiva e passional. Embora não transpareça, sou sensível aos acontecimentos e o perdão, princípio básico do Espiritismo, é um desafio diário.
“Quantas vezes perdoarei a meu irmão? Perdoar-lhe-ei não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes. Eis uma dessas palavras de Jesus que mais devem atingir a vossa inteligência e falar mais alto ao vosso coração.” O Evangelho Segundo o Espiritismo Cap.X nº14
5- Preciso ponderar minha busca por prazer. Atualmente estou fazendo um curso de especialização em dependência química, posso dizer que a dopamina me domina. Sou altamente compulsivo em tudo que faço, mas consegui aplicar parte dessa energia nos estudos, na música e na literatura. Outra parte ainda perco em meio à comida, sexo, álcool e etc. Algo contraditório para um espírita.
“A carne não é fraca senão porque o Espírito é fraco, o que reverte a questão e deixa, ao Espírito, a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, que não tem nem pensamento e nem vontade, não prevalece jamais sobre o Espírito, que é o ser pensante e que decide; é o Espírito que dá, à carne, as qualidades correspondentes aos seus instintos, igual um artista imprime, em sua obra material, a marca de seu gênio.” O Céu e o Inferno Cap.VII 1ª parte
6- Preciso ter uma rotina produtiva. O trabalho nas unidades básicas de saúde, de segunda a sexta-feira, em horário comercial, junto com um bom salário, é especialmente atrativo para mim. Embora não cobre diretamente dos pacientes, não trabalho de graça e meu salário não vai para doação. Dinheiro é essencial, o que também tem sido um dilema.
“‘Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes’ disse Jesus aos seus discípulos; por esse preceito, prescreve não se fazer pagar por aquilo que nada pagou; ora, o que eles tinham recebido gratuitamente era a faculdade de curar os doentes e de expulsar os demônios, quer dizer, os maus Espíritos; esse dom lhes fora dado gratuitamente por Deus para o alívio daqueles que sofriam, e para ajudar a propagação da fé, e lhes disse para dele não fazerem um tráfico, nem um objeto de especulação, nem um meio de vida.” O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap.XXVI nº2
(continua)

sábado, 3 de setembro de 2011

Medicina e Espiritismo - parte 1

Inevitavelmente minha espiritualidade tem acompanhado minha profissão. Escolhi fazer Medicina, escolhi atuar no SUS e, mais recentemente, escolhi internalizar alguns conceitos espíritas sobre o processo de cura.
Durante uma noite de 2008, sonhei que minha namorada ganhava um aumento salarial e, pela manhã, contei-lhe o ocorrido. No mesmo dia, surpresa, ela recebeu o aumento. A doutrina espírita oferece uma explicação simples para o ocorrido. Os espíritos, tendo liberdade de penetrar em qualquer lugar ou pensamento, podem ter conhecimento de eventos futuros e, especialmente durante o sono, podem comunicá-los.
“... o fenômeno em si mesmo nada tem de anormal, quando se sabe que o tempo do sono é aquele em que o Espírito, se desligando da matéria, entra momentaneamente na vida espiritual, onde se encontra com aqueles que conheceu. É neste momento, frequentemente, que os Espíritos protetores escolhem para se manifestarem aos seus protegidos e dar-lhes conselhos mais diretos.” A Gênese Cap.XV nº3
Na época, achei que o motivo do ocorrido era convencer minha namorada da existência do mundo espiritual, pois eu já estava plenamente convencido disso. Hoje, porém, vejo um outro significado: mostrar a relação estreita que eu tinha com os espíritos. Mesmo porque, eu tive o sonho, não ela.
Outro evento marcante em 2008 aconteceu na cozinha do apartamento em que eu morava. Eu havia matado uma barata com inseticida e ela permaneceu três dias imóvel no mesmo local no chão. Ao fazer uma atividade ali, percebi que ela começara a se mover lentamente, até ganhar força, conseguir se virar e ir embora.
Em 2010, na suíte de um hotel na cidade de meus avós, percebi que, ao me aproximar de alguns besouros aparentemente mortos no chão, eles também começavam a se movimentar. A partir desse segundo evento, não pude mais negar que de fato minha presença irradiava alguma forma de energia no ambiente, mesmo que involuntariamente. O Espiritismo, novamente, fornece explicações.
“O fluido universal, como se viu, é o elemento primitivo do corpo carnal e do perispírito, que dele não são senão transformações. Pela identidade de sua natureza, este fluido, condensado no perispírito, pode fornecer ao corpo os princípios reparadores; o agente propulsor é o Espírito, encarnado ou desencarnado, que infiltra num corpo deteriorado uma parte da substância de seu envoltório fluídico” A Gênese Cap.XIV nº31
“A faculdade de curar por influência fluídica é muito comum, e pode se desenvolver pelo exercício; mas a de curar instantaneamente, pela imposição das mãos, é mais rara, e o seu apogeu pode ser considerado como excepcional. Entretanto, foram vistos em diversas épocas, e quase entre todos os povos, indivíduos que a possuíam em grau eminente. Nestes últimos tempos, viram-se vários exemplos notáveis, cuja autenticidade não pode ser contestada. Uma vez que estas espécies de cura repousam sobre um princípio natural, e que o poder de operá-las não é um privilégio, é que elas não saem da Natureza e não têm de miraculosas senão a aparência.” A Gênese Cap.XIV nº34
Na prática, é difícil definir até que ponto meu perispírito e meus espíritos protetores exercem influência nos meus pacientes. Mas alguns casos me chamaram a atenção.
Em meu último ano de faculdade, 2008, eu participava de uma tentativa de reanimação cardio-respiratória fazendo as massagens cardíacas quando, após vários minutos, o coração do paciente voltou a bater. A surpresa foi geral, já que suas chances eram mínimas (gosto de pensar que agi além da minha força física).
Ainda em 2008, também na emergência do Hospital Universitário, eu estava em um dos consultórios quando um dos seguranças, apreensivo, trouxe uma paciente de meia-idade na cadeira de rodas. Ela estava agitada, confusa, pronunciando sons incompreensíveis. Com um gesto afirmativo, orientei que entrassem no consultório e perguntei ao filho dela o que havia acontecido. Durante uma discussão com o marido, ela ficara naquele estado. Então me dirigi a ela e perguntei: “Qual o seu nome?” Imediatamente ela se acalmou e silenciou. Embora permanecesse confusa, o problema havia sido resolvido. Aparentemente, pela minha voz.
“– Se não há possessão propriamente dita, quer dizer, coabitação de dois Espíritos no mesmo corpo, a alma pode se encontrar na dependência de um outro Espírito, de maneira a estar por ele subjugada ou obsedada, a ponto que sua vontade esteja, de alguma sorte, paralisada?
– Sim, e esses são os verdadeiros possessos. Mas saiba que essa dominação não se faz jamais sem a participação daquele que a suporta, seja por sua fraqueza, seja por seu desejo.” O Livro dos Espíritos, livro II Cap.IX nº474
“– Não pode acontecer que a fascinação exercida pelo mau Espírito seja tal que a pessoa subjugada não a perceba? Então, uma terceira pessoa pode fazer cessar a sujeição? Nesse caso, que condição deve ela empregar?
– Se é um homem de bem, sua vontade pode ajudar, apelando pelo concurso dos bons Espíritos, porque quanto mais se é um homem de bem, mais se tem poder sobre os Espíritos imperfeitos para os afastar, e sobre os Espíritos bons, para os atrair.” O Livro dos Espíritos, livro II Cap.IX nº476
Desde que iniciei minha prática clínica, notei que eu tinha facilidade de lidar com pacientes agressivos ou nervosos. Uma paciente que sofria de ansiedade me confessou em 2009: “Só de ouvir tua voz, eu fico mais calma.”
Também em 2009, meu luthier veio entregar minha guitarra e comentou que estava com um dos olhos irritados. Informei-lhe que era médico e pedi que se aproximasse da lâmpada para eu avaliar, usando minha mão para melhor visualização. Não vi nenhum problema sério e o orientei a apenas lavar o olho com água corrente. Cerca de dois anos depois, encontrei-o ao acaso num bar e ele me relatou que alguns minutos após eu tê-lo tocado, a dor ocular havia desaparecido por completo.
Após o episódio dos besouros em 2010, não só comecei a tentar “transmitir” minha energia aos pacientes, mas também comecei a orar por eles. É famoso um estudo que demonstrou que pacientes que tinham alguém orando apresentavam uma evolução mais favorável em comparação aos pacientes sem oração. Como na época eu já tinha certeza que estava acompanhado de bons espíritos, seria quase uma negligência médica eu não tentar usar esse instrumento em benefício de meus pacientes, especialmente dois deles.
Um era marido de uma das funcionárias da unidade de saúde, que havia sido operado de um tumor cerebral altamente agressivo semanas antes de iniciar meu trabalho na cidade. O prognóstico do Neurocirurgião: máximo um ano. Logo me interessei por ele e hoje, mais de um ano após a primeira cirurgia, ele permanece vivo com uma razoável qualidade de vida, com um prognóstico felizmente incerto.
O outro caso me foi mais marcante, uma senhora de meia-idade que atendi com suspeita de tumor de vias biliares/fígado. Após a cirurgia, o patologista confirmou que se tratava de um tumor maligno pouco diferenciado (quanto menos diferenciado, mais agressivo), sendo que o prognóstico era de no máximo dois meses.
Em Dezembro, conforme o esperado, seu estado de saúde era tão frágil que poucos acreditavam que ela viveria até 2011. Mas estamos em Agosto e ela permanece viva. Acompanhei o caso quase que semanalmente por um ano; antes de deixar a cidade, disse ao marido dela que, apesar de ser um cientista (como todo médico), eu acreditava que ali havia ocorrido um milagre. Ele concordou e completou: “Em primeiro lugar, eu agradeço a Deus; em segundo lugar, aos médicos, principalmente o senhor.”
(continua)