quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Um Porto Alegre


Passei o final de semana em Porto Alegre, na casa de meus tios. Meu pai é o primogênito e ela é a caçula, então temos pouca diferença de idade. Embora o jovem casal tenha me visto crescer, hoje nossa relação é quase de igual para igual, o que me parece ser uma das virtudes do tempo.
Eles têm um único filho de três anos que, modéstia à parte, parece ser um prodígio. Lembro do personagem de Robert de Niro em "Entrando Numa Fria", Jack Byrnes, dizendo que o cérebro de crianças pequenas são como uma esponja, absorvendo tudo ao seu redor. Meu primo é assim, o que obviamente demanda atenção constante. Ainda bem que ele dorme duas vezes ao dia, em uma rotina impecável.
Como é comum na família, ele logo mostrou interesse por música. Ele tinha um mini-teclado com opção de tocar algumas músicas gravadas, que ele habilmente selecionava. Lembro que quando toquei as teclas de forma ordenada, ele ficou fascinado ao perceber que era possível fazer música ali também. Como não vi mais o brinquedo, imagino que tenha sido destruído, como boa parte de seus objetos de plástico.
No momento, ele possui dois mini-instrumentos de excelente qualidade: um violão, importado dos EUA; e um acordeon, presente fino de seu avô. Sempre que vou lá faço questão de afinar o pequeno violão, mas algo me diz que ele já está desafinado, o que o torna quase inútil. Meu tio ensaiou algumas notas no último domingo e fui obrigado a comentar: "Agora sei com quem teu filho aprendeu a tocar!"
O acordeon é um instrumento complexo e talvez meu primo nunca aprenda a tocá-lo. Mas, como no caso do violão, vale a pena ser conservado porque um bom instrumento dura décadas e sempre terá valor nas mãos de um músico, mesmo que aspirante. Talvez ele fique anos sem mostrar interesse, mas um belo dia pode começar a se tornar um talento. Só o tempo dirá.
É comum ouvir minha tia pedir para meu primo fazer Medicina. Ele não esboça nenhuma reação significativa, afinal de contas, a palavra "Medicina" ainda tem pouco valor para ele. Dessa vez, dei a dica para meus tios: "Quando eu tinha a idade dele, eu tinha uma maleta de médico com vários instrumentos dentro; eu costumava brincar com a minha mãe, que fingia estar doente. Anos mais tarde..."
Após o almoço de domingo, fui me despedindo um a um e, na hora de me despedir do pequeno, ele saiu correndo em direção aos quartos. Fiquei sem entender, mas meu tio logo explicou: "Ele não quer que tu vá embora." Talvez nem tenha sido verdade, mas me senti lisonjeado e com vontade de voltar mais vezes.
No caminho de volta, fui pensando no que priorizar ao se criar um filho. O desenvolvimento de habilidades intelectuais é sem dúvida importante para sobreviver nesta modernidade meritocrática, mas não é o principal. Criar um ambiente familiar seguro e acolhedor me parece ser a base de um futuro vitorioso; um porto alegre que ficará sempre na memória, mais que uma frase, um brinquedo ou uma melodia.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dia do Médico


Iniciei o 18 de Outubro pedindo demissão. Nada proposital, embora também não tenha sido algo inesperado. Vejo duas características dessa profissão que me impelem a trocar frequentemente de emprego:
A Medicina é técnica e arte, sendo assim "emoção-dependente". No meu dia, ironicamente, não tive condições de acolher o sofrimento da população, já que eu padecia também. Como não via possibilidade de retorno às atividades dali, minha única saída era ligar e dizer que não iria mais. Foi o que fiz. Ou dou o meu melhor, ou não dou nada. Ser medíocre não é uma opção.
A Medicina remunera bem, ganho mais do que gasto, o que me permite ficar um ou dois meses sem salário. Imagine que você tem algum dinheiro no banco, poucas dívidas e a certeza de que pode arranjar um bom emprego a hora que quiser. Você iria trabalhar contra a sua vontade? Você se tornaria um escravo e arriscaria seu bem-estar?
Há alguns meses, durante uma reunião com a secretária de saúde, um de meus colegas comentou: "Nós cuidamos de todo mundo, mas ninguém cuida da gente; nós temos que cuidar de nós mesmos." Justamente no dia do médico, decidi cuidar de mim. Sem minha saúde, simplesmente não sirvo.