segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Road Trippin'

Meu avô costuma visitar seus filhos "espalhados" pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mas nunca havia ido até São Francisco do Sul; este ano, durante visita a meu pai em Criciúma, ele expressou mais uma vez o desejo de conhecer o litoral norte-catarinense. Pensei comigo mesmo que eu seria a pessoa ideal para levá-lo, já que eu era o único que conhecia o trajeto mais curto de Três Passos até lá (via Chapecó, totalizando 750km).
Visitei-o em setembro e, enquanto assistíamos ao jogo do seu time, o Internacional, disse-lhe que estava pensando em pegar uma folga no final de outubro, podendo viajar com ele até "São Chico". Eu esperava que ele fosse imediatamente se impolgar, mas o patriarca se mostrou reticente, dizendo que, se fosse para lá, iria apenas no verão. Na manhã seguinte, porém, enquanto tomávamos café antes de eu voltar para Santa Catarina, ele mudou de idéia: "Sabe, estive pensando, vamos fazer essa viagem."
Ele mesmo se encarregou de espalhar a notícia na família. Comecei a ligar semanalmente em meados de outubro, mas percebi uma resistência crescente: "Tenho que resolver alguns assuntos primeiro." Na última semana, eu já havia desistido da idéia quando meu tio me ligou um dia antes do programado para eu ir a Três Passos: "É o seguinte: falei com o pai agora, ele está querendo nos enrolar. Eu disse que já está tudo programado e que ele não pode voltar atrás, telefona e diga o mesmo!"
Era uma terça-feira, querendo evitar o susto de falar que estava indo no dia seguinte, liguei e informei que iria buscá-lo na sexta, sob ordens de seu filho. Ele, rindo, respondeu que estaria me aguardando. O plano era partirmos já no sábado, mas, sendo véspera de Finados, fomos de manhã ao cemitério. Era a primeira vez que eu ia até lá depois do enterro, haviam colocado uma foto dela com uma mensagem, que me provocou uma inesperada comoção.
Enquanto ele arrumava o novo arranjo de flores, percebi que tínhamos mais isso em comum: ambos éramos sobreviventes. Após uma breve oração, ele levou algumas flores para um túmulo próximo, informando que era sua "irmã de criação"; reparei no sobrenome, "Mota". Outro túmulo próximo reverenciado por ele foi a da avó de minha avó. Ao irmos embora, a garoa engrossou e comentei que havíamos ido na hora certa.
Fomos almoçar na casa de um tio que mora em uma cidade próxima. Há alguns anos, minha avó contou que esse tio se ressentia por não ser visitado pelos irmãos; gosto de pensar que faço minha parte, pois frequentemente vou até lá. Como de costume, meus primos estavam presentes, sendo a filha de um deles, com três anos, o centro das atenções. Logo que me sentei na mesa, ela veio e se sentou ao meu lado; minha namorada explica que isso acontece porque as crianças conseguem "ver" a nossa essência, identificando aqueles que são bons.
O plano mais lógico era irmos no domingo direto para Santa Catarina, mas meu avô informou que precisava levar uma encomenda de produtos coloniais para sua filha caçula em Capão da Canoa, litoral gaúcho. Apesar de ser fora do caminho, prontamente concordei, pois eu tinha de forma clara que a vontade dele seria soberana naqueles dias. Porém, meu tio em São Francisco do Sul começara novamente a ficar apreensivo com a "enrolação" crescente de seu pai.
Domingo, ao amanhecer, partimos para Porto Alegre, onde pretendíamos almoçar com uma prima. Meu avô possui uma extensa e eclética seleção musical em seu carro, proveniente de seus filhos. Uma das canções era cantada pela Marina Lima, a artista preferida de meu pai: "... e os momentos felizes não estão escondidos, nem no passado e nem no futuro..." Refleti que era verdade: pegar a estrada com o estimado patriarca me era, sem dúvida, uma vivência feliz.
Chegamos pontualmente na capital, onde passamos no apartamento de minha prima na zona sul e seguimos para um restaurante na praia de Ipanema, um lugar agradável que costumamos frequentar. Um dos motivos para o encontro foi a vontade de meu avô lhe entregar algumas jóias de minha avó, em reconhecimento aos cuidados prestados por ela durante a internação na Santa Casa. Eu já postei que envelheci anos naqueles dias e, com certeza, não fui o único.
No caminho de volta, minha prima comentou que nosso avô tinha muita sorte de me ter como neto; ele concordou em silêncio, com certa emoção. Tentei me explicar dizendo que, se eu havia me tornado uma pessoa bem-sucedida, eu devia isso, ao menos em parte, a eles; por isso, eu tinha que recompensar. Nos dias seguintes, tornei a justificativa mais leve, salientando que ser motorista particular era mais divertido que ser médico; meu avô rebateu esse argumento ironicamente, informando que, além de dirigir, eu financiava o passeio.
Chegamos à tarde em Capão da Canoa, onde minha tia, grávida de sete meses, esperava-nos; única filha mulher, ela pode ser considerada a preferida de meus avós. No dia seguinte, visitamos o escritório de meu tio e a empresa do seu irmão mais velho, que eu não conhecia. Mais tarde, acompanhei meu avô na organização de cópias das chaves de seu apartamento com vista para o mar, no intuito que seus filhos e netos aproveitem o imóvel quando possível. À noite, eu e meu tio marcamos presença no clube do poker.
Quarta de manhã, partimos para Meleiro-SC, onde meu avô tinha consulta médica na clínica onde seu filho odontólogo trabalha. Conheço o médico há muitos anos e, juntamente com outro colega odontólogo de meu tio, tivemos uma descontraída conversa matinal. Enquanto meu avô consultava, comentei com o tio que estava preocupado com as baratas que infestavam o apartamento em Três Passos, ele disse que falaria com seu irmão que mora lá para dar "uma geral" no local.
Seguimos viagem para o norte do estado ainda pela manhã. Quando estávamos chegando, meu tio ligou e perguntou o que queríamos jantar, respondi que achava que seu pai gostaria de um tradicional churrasco. Ao desligar o telefone, meu avô mostrou descontentamento com a minha resposta; estando no litoral, ele preferiria comer peixe. Liguei imediatamente e desfiz o desentendido, meu tio achou graça, estando claramente empolgado com a nossa chegada.
Na aconchegante casa à beira-mar, meu tio dispôs o seu quarto para o pai; mostrei-me admirado: "Ele vai ficar na suíte presidencial?!" "Claro que vai!" No começo da noite, foram servidas iscas de peixe e uma saborosa paella, com meu tio fazendo jus à sua fama de cozinheiro "de mão cheia". Na quinta, fizemos um tour pelas praias da cidade; na sexta, fomos de balsa até a Vila da Glória, localidade continental com vista para São Francisco do Sul.
Antes de saírmos de Três Passos, meu avô perguntou se poderíamos passar na volta em Camaquã-RS; com certo constrangimento, respondi que seria fora da rota, sendo possível passarmos na ida (idéia que ele rejeitou prontamente). Embora o plano fosse voltarmos direto para Três Passos, o longo trajeto teria alguns inconvenientes: com a pista simples, sinuosa e com tráfego intenso, provavelmente teríamos que parar em algum hotel para descansar.
Até Camaquã, seriam os mesmos 750km, mas com a pista quase que inteiramente duplicada e retilínea. Na sexta, perguntei para meu avô se ele gostaria de ir por lá, ele respondeu positivamente com a voz amena, acrescentando que estava pensando justamente em fazer isso. Saímos sábado ao amanhecer e, conforme o esperado, fizemos o trecho em apenas nove horas, chegando à tarde na casa de meu tio, que também nos esperava com clara satisfação.
Sentamos na sua varanda e botamos o papo em dia. No começo da noite, abri uma cachaça premiada da Paraíba, presente de uma tia que há alguns anos mora no nordeste. Degustamos a bebida enquanto meu tio preparava o jantar, fiquei responsável por trocar os discos de vinil que sonorizavam o ambiente: escolhi obras do Pink Floyd e Led Zeppelin. Após jantarmos, fui descansar em uma cama confortável, pensando: "Ainda bem que não estou em um hotel de beira de estrada!"
Após o café da manhã, seguimos rumo a Três Passos. Quando chegamos no apartamento, notei que as portas das prateleiras da cozinha estavam abertas e não haviam baratas ali; provavelmente meu tio detetizara e limpara a cozinha, tendo o cuidado de não transparecer que o fizera (meu avô desaprovaria tal ação, imagino que por considerar uma ameaça a sua autonomia). Após um banho rápido, fomos para a residência do tio assistir ao Grenal.
Ele se mudara recentemente para uma casa maior e melhor localizada que, após dias de organização, estava pronta para nos receber. Ao entrar em uma das salas, dirigi-me para uma parede onde havia um retrato de meu avô com uma veste tipicamente gaúcha. Apontei com um sorriso, meu tio, orgulhoso, perguntou: "Quem é esse?!" "É uma pessoa muito importante!" Após a vitória do Grêmio, sentamos na varanda e percebi que, de forma inédita, eu conseguira visitar todos os meus seis tios paternos.
Em onze dias, rodei mais de 4000km; espero fazer esse tour anualmente, enquanto a boa saúde do nosso "grande pai" permitir. A morte de minha avó inevitavelmente me trouxe um sentimento de culpa por tudo aquilo que eu poderia ter feito enquanto ela estava lúcida e não fiz. Meu ídolo confesso, John Lennon, cantou certa vez: "Vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos." Tenhamos coragem de viver nossos mais nobres sonhos enquanto houver tempo. Façamos acontecer antes que seja tarde demais.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Músicos

Há cerca de um mês, levei meu avô para conhecer São Francisco do Sul, onde um de seus filhos mora há três anos. Na sala de estar, haviam dois violões; peguei um, meu primo mais novo pegou o outro e começamos a afiná-los. Meu avô sentou e esperou que tocássemos, como não sabíamos nenhuma música em comum, improvisamos um ritmo de blues. Ao fim, meu avô perguntou se eu ainda tocava guitarra; respondi-lhe que apenas em casa, sozinho. Com a voz suave, ele disse que eu não deveria parar.

* * *

Três meses atrás, fui a uma festa de aniversário de um amigo de adolescência, atualmente vocalista de um conjunto promissor. Na garagem de sua casa de praia, foram montadas uma bateria e um amplificador, onde foram plugadas uma guitarra e um contra-baixo. Alguns convidados tentaram tocar algumas músicas, mas aparentemente não houve uma sintonia entre eles. Ao buscar uma nova bebida, solicitaram-me que assumisse o baixo e eu não tive coragem de dizer não.
Após uma tímida interação musical, o guitarrista (na verdade, um baixista que, como eu, estava com o instrumento trocado) começou a fazer o riff de uma canção que eu não escutava há mais de dez anos. Comecei a acompanhar a melodia e, quase inexplicavelmente, veio-me as notas seguintes da base: fá, sol, voltando para fá. Ao perceberem minha execução correta, ele e o baterista se empolgaram e, a partir dali, entramos em franca harmonia.
Mais tarde, um outro guitarrista entrou em cena; sem esconder a satisfação de voltar a interagir com outros músicos, permaneci nas frequências baixas. Depois de mais uma execução inspirada, ele fez um comentário e eu, quase envergonhado, confessei: "Acho que nunca escutei essa música antes." Certa surpresa no ar, como eu poderia tocar uma canção desconhecida de forma tão fluente?

* * *

Há alguns anos, estávamos reunidos na varanda da casa de meus avós, onde uma seleção regional vinha do estéreo. Uma prima trouxera seu violão, como a conversa esfriara, peguei-o. Sua mãe protestou: "Não, duas músicas ao mesmo tempo não dá!" Sereno, informei que iria apenas fazer o acompanhamento; ela ficou atenta, como se dissesse: "Quero ver." Após afinar o instrumento, fiz uma linha criativa que deu um ar de modernidade à canção gauchesca; minha tia acabou se rendendo e, instantes depois, comentou sobre talento musical.

* * *

Mês passado, a convite de meu primo mais velho, fui a um festival de jazz na capital gaúcha; não sabíamos o que encontrar, mas a impressão inicial foi positiva: um salão amplo com pessoas elegantes e opções de comes e bebes. A primeira atração me foi uma experiência inédita: dois pianos, um de frente para o outro; pai e filho, mestre e aprendiz. Em certo momento, foi sugerida uma melodia dos Beatles; olhei para meu primo, falando ao mesmo tempo que ele: "Yesterday."

"Pianistas de duas gerações diferentes que são referências na música instrumental do Rio Grande do Sul, pai e filho realizam um encontro emocionante. Paulo Dorfman, o grande homenageado da primeira edição do Porto Alegre Jazz Festival, é maestro, arranjador e professor de música, e já formou diversos alunos que hoje se destacam no Brasil e exterior. Também professor de música, Michel iniciou seus estudos ao lado do pai e se tornou um dos mais talentosos pianistas de sua geração. Hoje, é um dos mais requisitados músicos gaúchos, e já ganhou dois prêmios Açorianos como melhor pianista."

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Guitarra

Há duas semanas, visitei meu primo no litoral norte catarinense e ele me mostrou um video onde ele tocava com outro guitarrista. Em um palco, para uma platéia de jovens, o "Santos" executava o solo enquanto o parceiro fazia a base e cantava uma bela música. Ele comentou que eles trocaram de guitarras, pois a do outro desafinava e, sendo a base mais importante, seria melhor feita com o instrumento que, há exatos dois anos, tenho o orgulho de ter consertado.
O braço estava torto e, além disso, meu primo tinha um set de captadores da Fender novos na caixa, sem uso. Como eu conhecia um luthier profissional em Florianópolis, levei-a para ser "envenenada" com o Hot Noiseless. Apesar das limitações da Yamaha Stratocaster (por exemplo, ela é demasiadamente leve), a peça ficou razoável até mesmo para exibições públicas. Sei que fazem dois anos do retorno porque fiz um "video teste" na época: http://youtu.be/9Ui00se1_Xg
Algumas ações literalmente ecoam na eternidade, eu diria.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

José Luiz

Recentemente meu avô me recontou a sua história. Sua mãe era lavadeira da família Mota, que o criou desde cedo; ele não teve muito contato com ela durante a infância, já que moravam em localidades distintas. Apesar de afirmar que seu pai seja desconhecido, ele refere que o comentário geral era que ele deveria ser um "Mota", pois tinha o mesmo temperamento e seus filhos eram todos parecidos com seus  "irmãos de criação".
Seu "pai de criação" (essa é a expressão que ele usa) se chamava José Luiz, nome escolhido para batizar seu primogênito, meu pai. Coincidentemente, meu sogro tem o mesmo nome e, por isso, habituei-me a pensar que meu descendente será o José Luiz Neto. Eu direi que é por causa do meu pai, ela dirá que é por causa do pai dela; um dia, o jovem irá perceber que a homenagem vai além dos dois patriarcas.

* * *

Embora tenha sido omitido o sobrenome do pai, o nome escolhido para meu avô foi Luiz Eugênio.

* * *

Meu cunhado trabalhara com um Mota e observou que somos parecidos, principalmente na voz. Ele também lembrou que o colega era bastante inteligente, tendo inclusive escrito um livro. Após esse relato, ela concluiu surpresa: "Então não é porque você é japonês!"

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Santos

No começo da semana, antes de partir de Três Passos, tive uma conversa sobre a origem do meu avô paterno. Enquanto tomávamos café da manhã, ele contou que na verdade seu sobrenome deveria ser "Silva", pois sua mãe era "Santos da Silva", mas houve um erro no cartório e ele ficou apenas com o "dos Santos". Seu pai, pelo menos oficialmente, era desconhecido e sua mãe mantivera o anonimato dele. Respondi que achava o "Santos" muito melhor, relembrando que essa é a minha assinatura como médico.
Imagino que houve algum motivo para ser omitido o Silva, provavelmente ela quisera assim. Outra conclusão é a de que, embora ninguém na família possa ser considerado santo, todos tiveram contato com a doutrina cristã e isso está simbolizado em nosso nome mais forte. Observo que, como bons cristãos, temos nossos momentos de generosidade em meio aos altos e baixos da vida. Esse pode ser considerado um bom traço em comum.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Blefadorzinho - parte 4

Ontem, no clube do poker, era noite de torneio: trinta competidores divididos em três mesas, jogando até restar apenas um. Ao me sentar, o jovem ao meu lado puxou assunto e lhe informei que, embora eu gostasse muito do Texas Holdem, aquela era a primeira vez que eu participava de um torneio. Porém, logo meu aparente amadorismo foi dissipado; tomado pela habitual vontade de vencer, fiz uma aposta agressiva no fim de uma das rodadas iniciais.
Meu adversário pensou um pouco e desistiu, estrategicamente, mostrei meu blefe a todos; ele, visivelmente irritado, explicou-se para um colega: "Não conheço ele, não sei como ele joga." A provocação surtira o efeito desejado: rapidamente assumi a dianteira e, um a um, fui eliminando os outros jogadores. No início da mesa final (com os dez finalistas), um concorrente chegou a confessar que iria all-in com qualquer um, menos comigo.
Minha boa sorte virou assunto comum e uma das constatações foi que eu era "estrelado"; no dia seguinte, meu tio relatou que ele virara "relações-públicas": todos queriam saber quem eu era e da onde eu vinha. Umas das jogadas mais espetaculares foi quando fui all-in pré-flop com um par de 8 e encontrei um rival com um par de rei: eu tinha apenas 20% de chance de ganhar e, incrivelmente, no river, veio o meu 8. Um alvoroço tomou conta do salão enquanto eu vibrava com a mão direita fechada e erguida.
Quando estávamos apenas em quatro finalistas, o jogador que eu irritara no início deu all-in pré-flop com um par de 8, outro pagara com um Ás e 3 suited; com um par de dama, cobri a aposta certo de que chegara o esperado momento da vitória. Logo no flop, no entanto, foi visualizado um 8. Catarse geral. "O jogo é justo" foi uma das conclusões que ouvi ao lembrarem do meu ganho minutos antes com o mesmo par de 8. Acabei a competição em terceiro lugar.
Ao contrário dos demais, que logo se levantavam ao serem eliminados, permaneci na mesa até o fim, quando dei os parabéns ao vencedor, que me estendeu a mão agradecido. A tensão entre nós dois, que durara a noite toda após tê-lo provocado, acabara ali. Ao refletir sobre o ocorrido, percebo que errei ao mostrar meu blefe; tomado pela habitual vontade de vencer, fui deselegante e consequentemente a sorte me fugiu quando tive um novo embate com ele. O jogo é justo, diriam alguns.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dias de Luta, Dias de Glória

Há muito tempo, quando eu ainda era criança, lembro que meu irmão me aconselhou que eu não ouvisse muito um mesmo álbum, pois eu iria acabar enjoando dele. Seu conselho não surtiu efeito, ainda hoje persisto com o costume de escutar as mesmas melodias repetidas vezes. Uma pessoa que conviveu comigo por alguns anos achava graça disso e, ao se deparar com mais uma canção favorita, salientava que eu tinha "uma louca obsessão."
Minha irmã, ao reparar ontem que eu escutava Charlie Brown Jr. no carro, comentou: "Agora que acabou, você começou a ouvir?!" Sim. Na década passada, nunca me interessei o suficiente para escutar os seus álbuns; na época me havia muitas outras opções, além de eu não simpatizar com o Chorão (envolvido em polêmicas como a agressão a Marcelo Camelo e a "demissão sumária" dos integrantes originais da banda).
Recentemente, porém, um amigo contou que os estava escutando bastante e, ao visitá-lo, copiei a discografia. Tenho ouvido especialmente o lançamento de 2005, Imunidade Musical, mais especificamente a última faixa, que me é repleta de significado. Uma nova obsessão que me acompanha em um período de grandes expectativas.

"Canto minha vida com orgulho: Na minha vida, nem tudo acontece, mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce. Hoje estou feliz porque eu sonhei com você e amanhã posso chorar por não poder te ver, mas o seu sorriso vale mais que um diamante; se você vier comigo, aí nós vamos adiante. Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus, o seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu. A vida me ensinou a nunca desistir, nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir. Podem me tirar tudo que tenho, só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz para quem eu amo e eu sou feliz e canto, o universo é uma canção e eu vou que vou. História, nossas histórias; dias de luta, dias de glória... Oh, minha gata, morada dos meus sonhos; todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você. Eu já te via muito antes nos meus sonhos, eu procurei a vida inteira por alguém como você. Por isso eu canto minha vida com orgulho, com melodia, alegria e barulho. Eu sou feliz e rodo pelo mundo, sou correria, mas também sou vagabundo. Mas hoje dou valor de verdade para minha saúde e para minha liberdade. Que bom te encontrar nessa cidade, esse brilho intenso me lembra você. História, nossas histórias; dias de luta, dias de glória..."

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Paixão Por Uma Socialista

Em um evidente confronto ideológico, minha namorada votou na Luciana Genro. Ela argumenta que não poderia apertar no "confirma" ao ver a foto do meu candidato, secretamente penso o mesmo sobre a sua opção no segundo turno. Mas eu não teria problemas com a imagem de Luciana, inclusive argumento que é por isso que minha amada se identifica com ela; entre as candidatas, a gaúcha é claramente a mais bonita e sensual.
Não me importo de estar com uma comunista, tudo bem ser chamado de "filhinho de papai" por ela; respondo que sou mesmo, com muito orgulho. Ela também refere que é uma pena um salgado saboroso como a coxinha ter seu significado tão deturbado. Como uma forma de retaliação secreta, incluí o alimento com mais frequência nas minhas refeições. Uma conclusão possível seria: não podemos fugir do que sentimos, seja na dieta, na política ou no amor.
Ironicamente, minha profissão tem um forte aspecto socialista, pois o salário é pago integralmente pelo governo. Como bom funcionário público, procuro atender a todos com igualdade, receitando preferencialmente medicamentos disponíveis na farmácia municipal. De vez em quando, vem o pensamento de que ela ficaria orgulhosa de meu trabalho; inclusive já comentei que a população deve muito a ela, pois minhas ações são frutos de sua inspiração.
Em tempos de guerra, nada melhor do que encontrar a paz. Seja em um país azul ou vermelho, apaixonar-se me parece ser a verdadeira salvação do homem. Um presidente, um partido político ou uma ideologia não conseguiria ter tanto poder sobre nós; pelo menos, é o que gosto de pensar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Três Passos de Las Vegas

Mês passado, fui visitar meu avô no noroeste gaúcho; combinei de ir no mesmo final de semana que meu jovem primo, universitário em Santa Maria, iria. Na noite de sexta-feira, ele me convidou para sair com seus amigos e, como de costume, recusei. "É por causa da namorada? Cara, o que acontece em Três Passos fica em Três Passos." "Aqui é como Las Vegas..." ironizei lembrando do ditado norte-americano, What happens in Vegas stays in Vegas
No café da manhã de sábado, o avô comentou que sua churrascaria preferida estaria fechada; sugeri de chamar o tio para assar uma carne na churrasqueira da sacada, mas, no alto de seus oitenta e oito anos, o patriarca respondeu que ele mesmo poderia fazer o serviço. Após irmos ao açougue, acordei meu primo para buscarmos sua mãe. Ele aproveitou para testar meu novo automóvel na rodovia. Após uma ágil aceleração, ele teve que admitir: "Nossa, é bom mesmo."
Já comi diversos churrascos na casa de meu avô, mas não lembro de um preparado por ele (geralmente os assadores são tios ou primos). Esse foi um dos melhores que já degustei. O salsichão estava perfeitamente assado e, por isso, pouco gorduroso. Após os merecidos elogios, meu avô me perguntou que tipo era aquele que compramos. "Com queijo" respondi, achando engraçado que, mesmo sem ter escutado o que o açougueiro falara, ele escolhera a peça no olho. Sorte?
Onze horas da noite, despedi-me dos dois na sala; a caminho do quarto, meu primo pediu o carro emprestado novamente. "Claro." Quatro horas da madrugada, levantei-me para ir ao banheiro e percebi que ele ainda não havia voltado. Já de manhã, rumo à Santa Catarina, noto que meu primo gastara um quarto do tanque (cerca de doze litros de gasolina), rodando mais de cem quilômetros na histórica noitada.
No outro dia, pela internet, ele conta que circulara apenas na cidade (?!), com mais três pessoas. Não quis saber muitos detalhes, pouco importava. Ao relatar a ocorrência para um amigo dele, foi comentado que meu primo, apesar de não possuir um carro, adorava dirigir; assim, era óbvio que iria aproveitar ao máximo a grande oportunidade. Gosto de pensar que ele teve uma noite de rei, talvez isso o motive a conquistas cada vez maiores.
Há muitos anos, meu pai vem dizendo que eu deveria investir em viagens; ele próprio é um exemplo disso, voltando recentemente de mais um passeio pelos Estados Unidos. Uma das cidades americanas que eu gostaria de visitar é Las Vegas, com seus luxuosos hotéis e cassinos. Por enquanto, contento-me com Três Passos; o lugar onde, mesmo durante o sono, sonhos compartilhados podem acontecer.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Blefadorzinho - parte 3

No dia em que minha avó foi sepultada, estávamos na sacada do apartamento do meu avô, quando meu tio comentou que, após ter ido apenas duas noites no clube do poker, seus colegas de jogo queriam "fazer uma estátua" em minha homenagem. Um outro tio enfatizou que isso não seria surpresa mesmo que eu tivesse ido apenas uma vez lá. O curioso é que eu ganhei naquelas duas noites, mesmo assim, meus adversários, aparentemente, gostaram da minha presença.
Uma lição que aprendi nos anos de carteado com meus familiares é: se você está ganhando dinheiro em uma mesa, deve ser educado com os outros jogadores. No clube do poker, dificilmente fazia algum comentário quando ganhava; quando perdia, frequentemente elogiava o adversário, às vezes, sincero: "Jogasse bem." Nas duas noites, tive embates homéricos com um homem de cerca de 35 anos; além de ser agressivo nas apostas, ele costumava provocar.
Na primeira noite, ao se deparar com mais um all-in meu, ele me perguntou: "Você não tem medo de perder todas essas fichas?!" "Não." Pensei comigo mesmo que aquela quantia não faria muita diferença no meu orçamento, o que talvez não fosse verdade para eles; sem dúvida, essa me era uma vantagem. Apesar da tensão entre nós dois, só tivemos o prazer de matarmos um ao outro no segundo domingo que apareci no salão.
No primeiro all-in, ele levou a melhor: flopei uma trinca e ele uma sequência, ele apostou, alguns desistiram e dei all-in. Mesmo com o "nuts" (melhor jogo possível), ele ainda se mostrou surpreso e demorou para cobrir minha aposta (ao meu ver, uma óbvia demonstração de fraqueza). Ao ganhar a rodada, ele citou um jogador de poker que eu não conhecia, sugerindo que eu deveria ter apenas apostado alto, não dado o all-in.
Na verdade, não teria feito diferença alguma; naquelas circunstâncias, a aposta máxima era inevitável. Porém, educadamente, silenciei; o crupiê, que administrava o clube, ironizou a provocação comentando que "o fulano vai abrir um couching..." Pego de surpresa, ri naturalmente da piada e tive a agradável sensação de ser bem-vindo ali; como já aconteceu algumas vezes ao longo da minha vida, eu sequer precisei me defender.
Praticamente na última rodada, flopamos um flush draw: eu tinha o ás, ele o rei. Ele apostou, cobri a aposta, no turn veio o nosso flush: ele aposta, vou all-in, ele paga sem hesitar, jogando as fichas lentamente na mesa, olhando nos meus olhos. Por um instante, confirmo mentalmente que eu tinha o nuts: seria impossível ser vencido. Mostro minhas duas cartas de espadas, o ás reluzente. Tomado pela emoção, ele se levanta e sai rapidamente do recinto, provavelmente para fumar mais um cigarro. Era o fim da noite.
No carro, meu tio comenta, rindo, que tinha gente ali querendo meu rim. Ele explica que meu rival apostava alto e tinha sorte, mas eu conseguia ter mais sorte ainda. Se usarmos o poker como uma analogia, eu diria que, se você for educado com a vida, talvez ela lhe presenteie com alguns golpes precisos de sorte. Depois de grandes perdas, grandes ganhos são possíveis, basta assumir os riscos e continuar jogando.

domingo, 14 de setembro de 2014

Ímpar

Lembro de ter escutado essa expressão designando um feito meu duas vezes. A primeira foi em 2002, ao tentar me matricular na UFSC após constar na lista de segunda chamada do vestibular. O detalhe é que fiz a prova um ano antes de me formar no ensino médio. Como as aulas começariam após julho, eu poderia antecipar minha formação no colégio e ingressar em seguida na faculdade. Havia uma chance de dar certo.
Eu e meu pai fomos a um prédio onde havia uma responsável que poderia nos prestar atendimento. Após escutar o relato, ela, educadamente, iniciou sua fala definindo aquela situação como ímpar. Apesar de não ter conseguido me matricular, tive uma boa impressão da instituição; passei novamente no vestibular seguinte, dessa vez, na primeira chamada. Mesmo na época, eu já comentara que tivera sorte no primeiro vestibular; no segundo, não.

* * *

No começo da última semana, comentei com minha colega que tivera uma boa impressão da nova secretária de saúde, aparentemente bem disposta a me auxiliar no que fosse preciso. A enfermeira respondeu que ela só poderia agir dessa forma, pois meu trabalho era ímpar. Surpreso, agradeci o nobre elogio. Três dias antes, havia atendido seu pedido de palestrar para cerca de cem homens em um evento de saúde; provavelmente, a melhor apresentação da minha vida.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Viroses

Um diagnóstico comum e, muitas vezes, ironizado, derruba-me novamente. Ontem à tarde começou uma irritação em minha faringe e uma leve coriza hialina. À noite, já estava completamente obstruído e com dor na garganta. Amanheci com dores pelo corpo e forte cefaléia. Liguei para a recepcionista e informei que estava gripado, não podendo atender hoje. Depois do meio-dia, um pouco melhor, saio da cama e tomo alguma medicação.
Ontem eu já desconfiava que uma criança que eu atendera no começo da semana me contaminara após uma tossida em meu rosto. "Ossos do ofício", certo? Meu plano era trabalhar normalmente de manhã e à tarde, depois, viajaria. Um organimo microscópico impediu o planejado, devo permanecer em casa, buscando me recuperar. Além de comer e dormir, ler e escrever me parecem ser atividades adequadas para o período.

* * *

Após trazê-los de Porto Alegre, meu primo me emprestou alguns livros de Charles Bucowski. Por algum motivo, achei que se tratava de um escritor do leste europeu do século XIX; mas ele nasceu na Alemanha em 1920 e morreu nos Estados Unidos em 1994, onde morava desde os três anos. Quatro anos após sua morte, foi publicado uma coleção de escritos de seu diário entre 1991 e 1993, intitulado "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio":

"Eu costumava rir mais, eu costumava fazer tudo mais, exceto escrever. Hoje, escrevo e escrevo e escrevo, quanto mais velho fico, mais escrevo, dançando com a morte. (...) Algumas pessoas escreveram que meus livros as ajudaram a seguir em frente. Me ajudaram também. Os livros, os cavalos, os nove gatos." 29/08/91

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Paraíso

Anteontem, pela internet, comentei com um amigo que haviam perguntado dele em um restaurante. Ele respondeu que estava com saudade de almoçar ali, indagando em seguida quando eu trabalharia em alguma unidade perto de nossa cidade natal. Quase sem pensar, respondi que nunca, pois estava no paraíso. Imagino que poucas pessoas poderiam admitir isso, o que me faz pensar que tenho sorte; mais uma vez, grato, vivencio uma boa ventura.

"Could you believe in heaven, if heaven was all you had?" 
With Every Light - The Smashing Pumpkins

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Carro

Ontem, em um de meus locais de trabalho, a enfermeira se surpreendeu ao olhar o lugar onde costumo estacionar: "Que lindo! Me empresta a chave?!" Já havia conversado com ela sobre o tema, coincidentemente ela comprara o seu com o mesmo vendedor. Ao retornar, ela me parabenizou e indagou se, de fato, eu já havia rodado 1500km. Sim, "em apenas cinco dias", confirmei sorrindo, informando que viajara até o litoral gaúcho.
No dia anterior, meu pai perguntou se haviam aceitado o meu carro antigo, com 225000km rodados. "Claro que aceitaram!" Comentei que agora minha intenção era chegar aos 300000km e ficar pelo menos quatro anos com o investimento. Porém, fiz os cálculos com base nesses primeiros dias e, se continuar no ritmo, chego a essa marca em menos de três anos; em quatro anos, terei rodado 438000km.
No restaurante em que almocei com meu pai, reencontrei um amigo que não via há anos. Na época, ele tinha comprado um modelo da mesma marca; quando conversamos sobre isso, ele disse que o automóvel era o "video-game" do adulto. Concordo com a comparação, fui uma criança que adorava jogos eletrônicos. Outra lembrança de minha infância é de fazer longas viagens em carrões. Evidentemente, esse prazer me influencia até hoje.
Um dia antes, visitei meu tio mais jovem, o mais apaixonado pelas máquinas automobilísticas. Ao entrar para testar minha aquisição, ele logo reparou no painel: "Sensacional: 900km!" Confessei-lhe que uma das melhores coisas da vida era sair de uma concessionária com um carro zero. Fala-se do cheiro, mas não é apenas isso; há a mecânica surpreendente, o interior silencioso, a pintura impecável. Um diamante lapidado por mãos talentosas à minha inteira disposição.

domingo, 31 de agosto de 2014

A Parábola dos Talentos

Essa narrativa cristã está contida nos evangelhos de São Mateus (reproduzido no capítulo XVI de O Evangelho Segundo o Espiritismo) e São Lucas. Fiz o meu primeiro grau em um colégio católico, tínhamos a disciplina de "Religião"; lembro de haver uma ilustração em nosso livro ditático sobre a parábola: os talentos eram representados por reluzentes moedas de ouro.

"Apesar de um talento poder medir qualquer coisa, quando utilizado sem qualificação entende-se que se refere a prata como uma unidade monetária, no valor de cerca de 6.000 denários. Uma vez que um denário era o pagamento usual para um dia de trabalho, um talento equivalia aproximadamente ao valor de vinte anos de trabalho de uma pessoa comum. (...)
Tradicionalmente, a Parábola dos Talentos tem sido vista como uma exortação aos discípulos de Jesus a usar seus dons dados por Deus a serviço de Deus e a assumir riscos pela causa do Reino de Deus. Estes dons incluem habilidades pessoais ("talentos" no sentido usual), bem como a riqueza pessoal. A não utilização dos talentos, a parábola sugere, irá resultar em julgamento."

* * *

Durante a transferência de minha avó para Porto Alegre, acompanhei a ambulância dirigindo meu carro em companhia de minha tia; tivemos uma longa conversa sobre diversos temas, principalmente sobre família. Ela disse que achava que, em um lar, todos os filhos deveriam ser tratados de forma igualitária. Eu discordei, argumentando que naturalmente cada filho seria tratado de uma forma diferente e citei alguns exemplos da minha infância.
Certa vez, não lembro a idade exata que eu tinha (suponho que aproximadamente seis ou sete anos), nossos pais nos chamaram na sala e disseram que eu havia sido elogiado pela professora, por isso eu receberia um presente: um conjunto de "armas ninjas". Na época, eu não entendi muito bem o que aquilo significava, mas aos poucos fui assimilando: vivemos em uma meritocracia.
Anos mais tarde, já adolescente, precisava de um amplificador potente para os ensaios com o meu promissor conjunto musical. Informei o preço ao meu pai que, sem resistência alguma, respondeu que compraria o equipamento. Minha irmã, que acompanhara a fácil negociação, esboçou uma certa revolta: "Eu também quero!" Meu pai, sábio, justificou com uma única frase, referindo-se ao meu desempenho acadêmico: "Você viu o boletim dele?!"

* * *

Tenho trabalhado bastante nos dois últimos meses. Além de substituir um candidato à próxima eleição, que está de licença, dois outros médicos tiraram férias consecutivas. Imaginei que precisaria de alguma folga nessa última semana, mas consegui cumprir o expediente até sexta-feira, apesar do cansaço crescente. Se me perguntarem como isso foi possível, imagino que poderia responder que foi por causa dos talentos.

* * *

"O Senhor age como um homem que, devendo fazer uma longa viagem para fora do país, chamou seus servidores e lhes colocou nas mãos seus bens. E tendo dado cinco talentos a um, dois a outro e um a outro, segundo a capacidade cada um, logo partiu." São Mateus, capítulo 15, versículo 14. 

Se considerármos que "capacidade" seja um sinônimo de "talento", pode-se concluir que as moedas de ouro tenham um outro significado, pois seriam consequência do talento nato de cada um. Uma possibilidade seria que elas representem "sorte" ou, mais poeticamente, "ventura"; assim, não bastaria ter sorte, seria preciso ter coragem para usar e multiplicar as bênções recebidas. Todos recebem algum talento, por menor que possa parecer; ele tem um propósito, não devemos escondê-lo.

domingo, 24 de agosto de 2014

Recomeço

O primeiro passo foi comprar um novo calçado. Há alguns anos, experimentei usar "sapatênis", mas descobri que eles eram desconfortáveis como sapatos e os abandonei; voltei a investir em tênis, que duram uma média de 6 meses em bom estado. Dessa vez, mudei de estratégia e escolhi um par preto, de material aparentemente resistente que pode durar anos; minha dúvida era sobre o conforto, talvez falho. Mas, após alguns dias, tenho a sensação de ter feito a escolha perfeita.

"Ponho meu sapato novo e vou passear, sozinho, como der, eu vou até a beira, besteira qualquer, nem choro mais, só levo a saudade, morena... É tudo o que vale a pena." 
Sapato Novo - Los Hermanos (Marcelo Camelo)

* * *

O segundo passo foi comprar novas cordas para a madura e persistente guitarra. Encontrei exatamente a marca e o modelo que procurava: D'Addario 011. Ao trocar a última corda, notei uma peça quebrada que me levará ao reencontro com o luthier cinco anos depois da última reforma. Quem sabe eu não troque novamente o set de captadores em busca de novas experiências musicais? Essa mera possibilidade já me causa grande entusiasmo.

* * *

O terceiro passo foi definir a compra do futuro automóvel. Devo optar por uma versão mais simples que a inicialmente pretendida, ludibriado pelos descontos e pela satisfação da pronta-entrega. Assim como no caso do sapato novo, abandonei o branco e apostei no preto. Minha justificativa oficial é que abandonei o lado do bem e agora vou tentar o lado do mau, mas imagino que o preto simplesmente me simboliza a esperança em um bom recomeço.

* * *

"Ainda que se saiba que todo recomeço cessará e que a fase vindoura também um dia terminará - demandando um novo recomeço e assim por diante - é o que faz a vida ter sentido."

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Concorrência

Um dia, ela me manda uma mensagem pelo celular definindo meu sorriso de forma poética e peculiar. Intrigado pela expressão usada, pesquiso-a na internet e descubro o seu autor original, um outro blogueiro. "Um concorrente" é o meu pensamento imediato, consolidado pela descoberta de seu talento. Rendido, passo por cima do meu orgulho e lhe respondo com o trecho inicial de outra postagem brilhante do cidadão:

"Eu compreendo todos os homens que te amaram. Aqueles que sofreram, aqueles que te beijaram e aqueles que morreriam por um beijo teu..."

No outro dia, ela me consola dizendo que prefere o meu blog ao dele; faço um charme, finjo não acreditar. Já em casa, retorna a vontade remota de ser lírico em meus escritos, não mais como um desabafo, mas como uma tentativa clara de ser mais que meu adversário; ele que, derrubando-me de meu ego, torna-me alguém melhor, menos arrogante e acomodado. Se existe o risco de perdê-la, deverei buscar ainda mais a inspiração em minhas postagens; afinal de contas, eu compreendo todos eles.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A Despedida

Um dos momentos áureos da minha carreira profissional ocorreu na última reunião de equipe da unidade em que trabalhei em 2009, logo após formado. Eram três equipes de ESF que se encontravam uma tarde por mês para debater temas importantes ao bom funcionamento da unidade. Após nove meses, minha última reunião chegara e, em um clima bastante positivo, fui presenteado com uma despedida memorável.
A coordenadora da unidade, uma experiente enfermeira, comentou a minha saída e logo se ouviu um coro das dezenas de colegas, ao ritmo de fortes palmas: "Fica! Fica! Fica!" Como também estavam presentes estudantes de Medicina, gosto de pensar que acabei ilustrando a glória que eles deveriam esperar após formados. Ao fim, a chefe me fez um último pedido público: "Continue sendo do jeito que você é."
Cinco anos depois, recordo que eu tinha uma relação quase conflituosa com ela; minha personalidade, confesso, dificulta o papel de bom subordinado. Apesar disso, nunca a enfrentei diretamente; é provável que minha postura pacífica, pelo menos perante ela, tenha sido determinante nas suas palavras finais. Que essa despedida me seja inesquecível e, assim, incentive eternamente o reencontro entre o que sou e o que tenho de melhor a oferecer.

domingo, 17 de agosto de 2014

A Paciente

Nessa semana, atendi uma jovem de onze anos com quadro de amigdalite. Enquanto eu preparava a receita, ela acrescentou: "Eu também quero um encaminhamento para a psicóloga, pediram na escola." Chamou a atenção que eu nunca ouvira esse pedido diretamente da criança, a avó, que acompanhava a consulta, pouco falava. A paciente explicou que perdera sua mãe e a tia em um acidente trágico há cinco meses. Eu já havia atendido seu tio, o único sobrevivente.
Nas quartas de manhã, atendo em duas unidades básicas de saúde; para fazer isso, chego mais cedo na primeira unidade e limito o número de atendimentos. Mesmo assim, atrasos acontecem e atendo com o olho no relógio. Ali, porém, eu sabia que teria que "tirar o pé" e, com cuidado, prestar um bom atendimento. Respondi que conhecia o acidente, na época, eu passava por aquele trecho diariamente.
Disse que o acompanhamento psicológico seria positivo, pois a profissional teria tempo para conversar com calma; eu, por exemplo, não teria muito (e apontei para o corredor atrás da porta, repleto de pacientes esperando). Apesar de apresentar sintomas depressivos, ela mostrava uma inteligência afiada e compreendia bem o que eu falava. Ao perguntar o que ela seria quando crescesse, ela respondeu direta: "Penso em fazer Engenharia Civil ou Direito."
Aproveitei para falar do meu irmão e sua carreira no Direito, exaltando também que Engenharia Civil era uma área em alta: "Se vê muitos prédios sendo construídos". Após alguns instantes de silêncio, ela confessa que já pensara em fazer Medicina, mas seria "muito difícil". Interpretei que ela se referia aos altos custos da graduação, por isso informei que me formara em uma universidade federal, gratuita. Com um sorriso, completei: "Só tem que estudar para passar no vestibular!"
Ao terminar de preencher os papéis, compartilhei: "Quando eu tinha dez anos, minha mãe também morreu em um acidente de carro. Infelizmente (agora fitando a mãe da vítima), muito comum. Mas deu tudo certo, hoje eu sou médico e estou aqui atendendo vocês." Entreguei-lhe a receita, o encaminhamento e o atestado, ela se levantou e, estendendo-me a mão, agradeceu: "Muito obrigada pela atenção." Ao cumprimentá-la, tive a certeza que havia alcançado meu objetivo.

domingo, 27 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 9

Como você se vê daqui cinco ou dez anos? Seria possível prever o futuro? Imagino que pessoas sábias consigam perceber nuances da realidade e intuitivamente conhecer eventos antecipadamente. O Espiritismo traz a possibilidade da influência de espíritos desencarnados que, sob essa condição, vislumbrariam melhor o que está por vir. Esse tema é abordado em A Gênese:

"2- Suponhamos um homem colocado sobre uma alta montanha e a vasta extensão da planície. Nesta situação, o espaço de uma légua será pouca coisa e ele poderá facilmente abarcar, de um só golpe de vista, todos os acidentes do terreno, desde o começo até o fim do caminho. O viajante que segue esse caminho pela primeira vez sabe que, caminhando, chegará ao fim: aí está uma simples previsão da consequência de uma caminhada; mas os acidentes do terreno, as subidas e as descidas, os rios a transpor, as matas a atravessar, os precipícios onde possa cair, os ladrões postados para roubá-lo, as casas hospitaleiras onde poderá repousar, tudo isto é independente de sua pessoa: é para ele o desconhecido, o futuro, porque sua visão não se estende além do pequeno círculo que o cerca." Teoria da Presciência, Capítulo VXI

Mais adiante, destaca-se que qualquer um pode fazer previsões e formar o seu próprio futuro:

"12- Os acontecimentos vulgares da vida privada são, o mais frequentemente, a consequência da maneira de agir de cada um: tal vencerá segundo as suas capacidades, sua habilidade, sua perseverança, sua prudência e sua energia, onde outro fracassará pela sua insuficiência; de sorte que se pode dizer que cada um é o artífice de seu próprio futuro, que nunca é submetido a uma cega fatalidade, independente de sua pessoa. Conhecendo-se o caráter do indivíduo, pode-se facilmente predizer-lhe a sorte que o espera no caminho em que se empenha."

Eu diria que "os acontecimentos vulgares da vida privada" formam a essência da felicidade. Porém, se pudéssemos prever o futuro com facilidade, não seríamos todos felizes?

* * *

Há pouco mais de três anos, comprei um automóvel zero que hoje já passou dos 220mil km. Embora o motor ainda se mostre eficiente, a troca é inevitável. Em sua última revisão, ontem, fui abordado por um vendedor quando dava uma olhada nos exemplares do salão. "Doutor, vamos trocar de carro?!" Mordi a isca, ele ficou de me fazer uma proposta pelo meu carro amanhã. Paguei R$41mil, se oferecerem perto de 60% desse valor, fecho negócio.
Em 2011, tive que fazer uma previsão sobre as minhas necessidades e possibilidades para um novo financiamento. Deu tudo certo, o carro ainda permite minhas longas viagens e a última parcela foi no começo do ano. O mecânico comentou ontem que jamais vira esse modelo com tanta rodagem, sua conclusão foi de que as revisões periódicas permitiam sua longa vida útil. Meu avô já disse o mesmo algumas vezes.
Agora chegou o momento de fazer novas previsões. Pretendo ficar pelo menos quatro anos com a futura máquina, busco uma escolha acertada. Interessante que esse período que antecede a compra é bastante positivo pela expectativa decorrente das várias possibilidades do mercado. Dirigir é um prazer universal do homem, não sou diferente. Pressinto que boas emoções estão por vir, independente do caminho que escolherei.

* * *

Quando minha avó adoeceu, o tio que morava na mesma cidade que ela me perguntou logo no começo da semana em que cheguei: ''Quando tempo você acha que a mãe tem?" No seu rosto, sem disfarce, a dor de quem também morria. Não quis responder: "É difícil fazer uma previsão..." Ele insistiu: "Acho que ela tem uns dois anos." Sua sogra também sofrera demência, mas durara vários anos; eu sabia que o nosso caso era mais grave: "Acho que um ano... Talvez, meses." Tive a sensação de o ter matado mais um pouco; no outro dia, ele se conformou: "Eu sei que ela não tem nem um ano."
No sábado, um tio que morava em uma cidade próxima me disse que pretendia almoçar ali no dia seguinte, eu lhe pedi que trouxesse toda a família. Já havia o plano de transferência para a próxima semana, poderia ser a última oportunidade deles a verem com vida. Nada disso eu expliquei, apenas pedi que trouxesse todos e ele entendeu. Meus dois primos, suas esposas, minha tia, a bisneta, todos estavam lá no domingo. Fora a última vez.
Na terça, dia da transferência noturna para Porto Alegre, esse tio me perguntou quanto tempo eu achava que ela tinha. Com otimismo e sinceridade, respondi de maneira reta: "Um mês." Queria estar errado, mas exatamente quatro semanas depois, na manhã de quarta, ela faleceu. Confesso que, em alguns momentos, eu cheguei a acreditar em uma sobrevida maior; imagino que seria impossível não me prender a alguma esperança, por menor que ela fosse.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 8

Na penúltima vez que fui cortar o cabelo, visualizei, estarrecido, um tufo branco na porção posterior esquerda do meu couro cabeludo. A cabelereira também notou e eu reagi dizendo que jamais conferiria novamente o seu corte. Mas claro que, na última vez, respondi prontamente "sim" ao ser perguntado se eu gostaria de olhar atrás. Eu queria apenas conferir o quanto aumentara a mancha, porém um milagre ocorreu: os fios voltaram ao tom escuro!
Uma pessoa próxima chegou a questionar se eu não o havia tingido. Ao analisar a ocorrência, observo que os fios brancos coincidiram com a época do adoecimento de minha avó, quando, em cinco semanas, devo ter envelhecido uns cinco anos. Nas semanas seguintes, os anos perdidos foram aparentemente devolvidos; imagino que a morte dela tenha me lembrado da importância de se constituir família, intensificando uma busca que felizmente tem se tornado um encontro.

* * *

Neste mês, tive uma conversa com um amigo sobre outros dois amigos nossos, ambos irmãos. O mais velho se casou com uma mulher que já tinha dois filhos e teve mais dois após se formar, o mais novo (da nossa idade) se casou com uma mulher que já tinha uma filha e, após se formar, teve mais uma. Eu abertamente os defendo, dizendo com certa ironia que: "Eles estão certos, nós que estamos atrasados!" Desta vez, porém, meu amigo, sério, bateu de frente contra a minha provocação.
Disse que havia pensando muito sobre o assunto. "Olha o quanto o fulano envelheceu nos últimos anos..." Nossos amigos não teriam mais escolhas na vida, a única opção, agora, era trabalhar bastante; no entanto, a felicidade viria justamente da possibilidade de escolher entre vários caminhos. Ficando sério também, respondi que concordava com ele, por isso não tinha filhos e não os planejava ter agora; mas ressalvei que era questão de alguns anos, ele deveria vislumbrar o mesmo. 

* * *

Na última sexta-feira, planejei uma viagem para minha cidade natal; constrangido em pedir folga, decidi cumprir o expediente e viajar em seguida. Escolhi jantar em São Joaquim em uma cafeteria/restaurante, o lugar estava cheio, mas queria o melhor sanduíche italiano que conheço. Fiz o pedido ao atendente e, alguns instantes depois, o dono veio até minha mesa, dizendo que sabia que havia um detalhe sobre o meu café, mas não lembrava qual. Surpreso com tamanha atenção, respondi: "É com o leite frio."
Cheguei em casa tarde da noite, tomei um banho e parti com minha irmã para a cidade vizinha onde ocorreria a apresentação do Dead Fish, que acompanhamos há 15 anos. Apesar do susto inicial, "cadê o Philippe?!", show catártico como sempre. Aproveitei para comprar o DVD em comemoração dos 20 anos, onde Rodrigo comenta entre uma música e outra, emocionado, apontando para alguém da platéia: "Meu irmão, você já arrumou um emprego bom, já está ganhando um bom salário... Isso é coisa de criança, os caras não falam que é coisa de criança? Então a gente vai morrer jovem, galera..."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 7

Há uma década atrás, quando iniciei meus estudos sobre a obra de Allan Kardec, deparei-me com um interessante trecho de O Livro dos Espíritos:

"365 - Por que homens muito inteligentes, que evidenciam em si um Espírito superior, algumas vezes, ao mesmo tempo, são profundamente viciados?
(...) O Espírito progride através de uma insensível caminhada ascendente, mas o progresso não se realiza, simultaneamente, em todos os sentidos; em uma etapa ele pode avançar em ciência, em outra em moralidade." Livro II - Capítulo VII

Na época, minha conclusão foi de que, em vidas passadas, eu evoluíra principalmente em intelecto; nesta encarnação, então, eu deveria focar meus esforços na evolução moral. Há dez anos, essa tem sido uma de minhas buscas. Claro que, nessa "batalha espiritual", eu acumulo muitas derrotas e, frequentemente, questiono-me se estou, de fato, evoluindo. Talvez eu esteja no caminho certo, mas talvez ainda longe do objetivo final.

* * *

Recentemente descobri que uma caloura minha está em missão humanitária em um campo de refugiados na África. Tive contato com ela nos últimos anos da faculdade, durante os plantões de pediatria no Hospital Universitário. Conversamos sobre religião e lembro dela comentar que seu pai lera o Alcorão motivado por uma curiosidade histórica; outra vez, ela comentou sobre a impressão que a minha apresentação do TCC tivera em alguns colegas da sua turma.
Apesar dela ser uma pessoa sincera e de fácil diálogo, eu tinha a falsa impressão de um certo distanciamento e frieza; não lembro de vê-la sorrindo, por exemplo, em contraste com uma foto recente que ela postara do continente africano. "(...) sou responsável pela enfermaria de desnutrição aguda de crianças até 5 anos de idade, trabalho de domingo a domingo 12 horas por dia e apesar de todos os perrengues (latrina, banho de caneca, comer arroz ou macarrão todo santo dia, dormir numa tenda minúscula, etc), estou muito feliz!"

* * *

No último ano da graduação, tivemos uma palestra de uma médica argentina sobre o trabalho humanitário dos Médicos Sem Fronteiras. Ao final, abriu-se a discussão para tirar dúvidas e eu perguntei qual era o salário. A convidada reagiu imediatamente com uma risada, apontando seus braços para mim, como se dizendo: "Claro que alguém iria perguntar isso!" Ela respondeu que o trabalho era de natureza voluntária, havia apenas uma ajuda de custos que não passava dos mil dólares mensais.

* * *

Alguns meses antes de me formar, fui analisar uma proposta profissional em uma cidade do interior do Rio Grande de Sul, onde um tio trabalhava. O prefeito, que era médico, ofereceu-me quarenta horas semanais em uma unidade básica mais quinze dias de sobreaviso no hospital municipal. Ao notar minha perplexidade pelo baixo salário, ele explicou que eu não deveria pensar no dinheiro, mas no aprendizado e na amizade que eu desenvolveria ali.
Outra possibilidade de emprego, em uma cidade próxima, era onde meu avós moravam; mas, depois da frustrante proposta do meu colega médico, sequer me interessei em ouvir o que outro prefeito tinha a oferecer. Fui iniciar meus trabalhos na bela Santa Catarina, onde a remuneração é melhor e a qualidade de vida me parece ser incomparável. Como bon vivant, desde cedo aprendi a escolher o caminho que parecia ser mais confortável para mim.

* * *

Mas e a evolução moral? Se por um lado, busco valorizar meu trabalho e sequer cogito fazer algum voluntariado; por outro, procuro manter uma certa humildade material e eventualmente ajudo financeiramente meus familiares. Entre o mundo e a família, a escolha me é óbvia, fui educado assim. Na minha pré-adolescência, perguntei se meu pai doaria para instituições filantrópricas parte do prêmio caso ganhasse na loteria, ele respondeu que se preocuparia primeiro em ajudar seus familiares.
Há alguns meses, tive uma longa conversa com um primo mais novo que, universitário, saiu de casa há alguns anos. Imaginando uma situação de "austeridade", vivenciada na minha própria formação, ajudo-o sempre que possível. Ele contou que, na primeira vez que lhe dei dinheiro, ele cometou o erro de contar para sua mãe que, consequentemente, cortou a mesada daquele mês. Eu ri do ocorrido, para mim, isso não fazia diferença, eu os estava auxiliando e era isso que importava.
Ele lembrou que meu pai, provavelmente o mais bem-sucedido entre os irmãos, ajudara os seus pais na época em que moravam em Porto Alegre. Isso me encheu de orgulho. Uma das lembranças da minha infância foi de ver meus pais conversando sobre a necessidade de ajudar outro tio que, apesar de estudar em uma universidade pública, tinha gastos consideráveis com os materiais odontológicos. Assim, suponho que, se meu objetivo era evoluir em moralidade, escolhi bem o ambiente para encarnar.

* * *

O Espiritismo coloca o trabalho como uma necessidade natural do ser humano e a riqueza material como uma responsabilidade que deve ser bem administrada, visando o bem comum.

"Quando um homem trabalhou bastante e com o suor de seu rosto amontoou bens, vós o ouvis frequentemente dizer que, quando o dinheiro é ganho, conhece-lhe melhor o valor; nada é mais verdadeiro. Pois bem, que esse homem, que confessa conhecer todo o valor do dinheiro, faça a caridade segundo seus meios e terá mais mérito que do que aquele que, nascido na abundância, ignora as rudes fadigas do trabalho. Mas se, ao contrário, esse mesmo homem, que lembra suas penas, seus trabalhos, for egoísta, duro com os pobres, é bem mais culpado do que os outros; porque, quanto mais se conhece por si mesmo as dores ocultas da miséria, mais se deve procurar aliviá-las nos outros.
(...) Deus a dá a quem lhe parece bom geri-la em proveito de todos; o rico tem, pois, uma missão, que pode se tornar bela e proveitosa para ele; rejeitar a fortuna quando Deus vo-la dá é renunciar ao benefício do bem que se pode fazer em administrá-la com sabedoria. Saber passar sem ela quando não a tem, saber empregá-la utilmente quando a possui, saber sacrificá-la quando isso é necessário, é agir segundo os desígnios do Senhor." Desprendimento dos Bens Terrenos, capítulo XVI, O Evangelho Segundo o Espiritismo.

domingo, 29 de junho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 6

No último final de semana, visitei minha cidade natal e reencontrei dois amigos de adolescência. Por algum motivo, comentei que eu era o mais novo de nós e fui rapidamente corrigido: um deles, apesar de ter se formado um ano antes no colégio, era o mais jovem. Ao notar minha surpresa, ele ironizou: "Sou o prodígio que não deu certo." O outro também se identificou com a constatação, lembrando das muitas expectativas sobre o seu ainda incerto futuro.
O mais jovem, apesar de ter iniciado várias faculdades, não completou nenhuma. O mais velho se graduou há alguns anos, mas decidiu abandonar a carreira e iniciar um novo curso. Entendo que o sentimento de frustração seja uma característica comum da nossa geração, que carrega o fardo das grandes aspirações de nossos pais que, naturalmente, influenciam as nossas. Apesar disso, silenciei perante seus comentários; no alto de meu Ego, gosto de pensar que sou o prodígio que deu certo.

* * *

Em uma das noites do carnaval deste ano, fui para uma pousada onde um velho amigo e seus colegas de faculdade estavam hospedados. Um momento inusitado foi quando uma jovem se aproximou de mim e, admirada, afirmou: "Você é a legenda viva!" Ao notar meu olhar de surpresa, ela tentou se corrigir: "Não a 'legenda', eu quis dizer... Bom, você entendeu!" Sim, eu havia entendido: ela conhecia o meu feito de ter passado no vestibular para Medicina no segundo ano do ensino médio. Mais tarde, um amigo concluiu brilhantemente que ela havia se confundido com o inglês: "legend".

* * *

Vivo novamente um momento de contradições no meu trabalho: embora se acumulem motivos para eu mudar de cidade, persiste o sentimento de que tenho um dever importante a cumprir aqui. Recentemente a população passou por um escândalo envolvendo falsos médicos, outros verdadeiros foram embora e, claro, faltam substitutos. Minha partida é inevitável, mas me vejo diariamente lutando para que o último dia não chegue, motivado por um senso de responsabilidade que lentamente adquire influência sobre meus impulsos.

* * *

No começo do ano, atendi uma jovem que se queixava de fraqueza e tontura. Solicitei exames que mostraram uma anemia profunda por deficiência de ferro, iniciei imediatamente o tratamento e a encaminhei com urgência para o hematologista, pois temia que a doença de base pudesse ser uma leucemia. A consulta foi rapidamente marcada, felizmente nada mais grave foi constatado e a suplementação com ferro eliminou os sintomas.
Mês passado, solicitei alguns exames laboratoriais para um senhor e, como de costume, orientei que, caso eu não estivesse disponível, ele poderia mostrá-los para qualquer médico. Ele respondeu que faria questão de retornar comigo, pois eu havia sido muito bem recomendado. Ao se levantar, ele explicou com um sorriso: "Você salvou a minha sobrinha. Ela sempre fala do doutor."

* * *

Há duas semanas, atendi um menino de nove anos com forte dor abdominal. Após examiná-lo, informei para os pais que o encaminharia para o hospital; a mãe perguntou qual era a minha hipótese diagnóstica e respondi que poderia ser uma apendicite, sendo o tratamento cirúrgico. Dois dias depois, o pai veio consultar e informou que minha suspeita estava correta; naquele mesmo dia, o jovem foi operado em Joinville. "Quase não deu tempo, o apêndice estourou quando ele estava chegando lá."

* * *

Desde a faculdade, deparo-me com um inexplicável preconceito em relação ao uso de antidepressivos. Há dez anos, escuto que a maioria das pessoas que usam esses medicamentos não teriam indicação, o que me é um absurdo. Se isso fosse verdade, os fármacos não teriam efeito e, consequentemente, seriam abandonados; não é o que acontece, a maioria das pessoas refere melhora dos sintomas depressivos e ansiosos. Os efeitos colaterais, se presentes, resolvem-se com a troca da medicação; felizmente, há dezenas de opções.
"Todos os dias, atendo casos de depressão e ansiedade." Com essa frase, tento minimizar a culpa que os pacientes sentem ao procurar atendimento. Na verdade, tenho um "discurso padrão" sobre o tema que invariavelmente faz com que a pessoa acredite no potencial do fármaco e, assim, o milagre geralmente acontece. Chego a me sentir grato toda vez que tenho a oportunidade de fazer a diferença na vida desses pacientes.
Há quatro meses, atendi uma senhora com depressão crônica e modifiquei a sua medicação. Esta semana, ela retornou e me relatou uma substancial melhora de seus sintomas, conseguindo, finalmente, emagrecer. Ela me comparou com outros médicos do município, comentando que eu parecia ser mais experiente. "Meu marido também veio hoje, eu queria que ele consultasse contigo, mas não havia mais vagas e ele teve que consultar com outro..."
Também nesta semana, atendi uma adolescente que me relatou sintomas típicos de uma doença comum da modernidade. "Isso me parece ser crises de ansiedade ou ataques de pânico. Você já ouviu falar?" Surpresa, ela olhou para sua mãe que informou que, há alguns anos, a filha já havia tido esse diagnóstico. Iniciei meu "discurso padrão" sobre o uso de antidepressivos e, após alguns minutos, senti que as duas saíram plenamente satisfeitas do meu consultório.

* * *

Ano passado, fiz diversos plantões em uma cidade de médio porte do planalto norte catarinense. Os casos mais graves deveriam ser repassados para um médico de sobreaviso, que faria a internação. Um desses médicos era conhecido por ser difícil de ser convencido, mas eu nunca tive problemas com ele. As enfermeiras acompanhavam meus diálogos na sala de reanimação e, certa vez, após minha terceira internação bem-sucedida, uma delas comentou que, com meu jeito brando e minha voz suave, eu conseguiria tudo que quisesse.

* * *

Sempre gostei de escrever redações no colégio e, especificamente na quinta série do primeiro grau, tenho uma lembrança significativa dessas aulas. Ao contrário de meus colegas, quando eu lia meus textos, todos silenciavam e escutavam o que eu tinha a dizer. Eu chegava a ficar um pouco nervoso com tanta atenção, mas isso nunca me impediu de expor minha criatividade. Ao longo dos anos, foi ficando evidente que eu tinha um diferencial importante.
Penso que eu poderia ter usado esse poder para qualquer fim e, com inteligência, acabei escolhendo o que me parecia ser o mais nobre deles. O maior sacrifício teria sido trilhar um outro caminho mais cômodo. Hoje tenho a certeza de que, muito mais que meu dever, contribuir para a felicidade alheia é a única forma de alcançar a minha própria felicidade. O resto é secundário, efêmero e ilusório.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 5

Na "parte 1", comento que a relação mais relevante é com a parceira afetiva. Refletir sobre temática do amor me remete à teoria psicanalítica de Freud: inicialmente, ele dividiu a mente em consciente, subconsciente e inconsciente. O subconsciente seria formado por pensamentos inconscientes que podem se tornar conscientes, como por exemplo, lembranças. Já o inconsciente, que forma a grande base do aparelho psíquico, seria inatingível pela consciência.
Minha primeira constatação é o que amor é uma força inconsciente, nunca saberemos os seus reais motivos. É próprio do consciente tentar achar padrões e explicações lógicas, mas o inconsciente domina e na prática nos vemos diariamente agindo irracionalmente. O verdadeiro amor, ao meu ver, passa pelo clivo do irracional; caso contrário, é insustentável. Soa ilógico alguém perdoar incondicionalmente outra pessoa, mas não seria essa a chave dos relacionamentos duradouros?
Se me perguntassem o que mais me atrai em uma mulher, eu provavelmente responderia: a beleza. Refiro-me ao conjunto externo, uma foto pode captar parte dessa beleza, embora o importante seja a impressão real. Além disso, não saberia responder. Cor dos cabelos? Olhos? Altura? Pouco importa. Etnias? Eu diria "européia", algo entre italiana e alemã, mas isso provavelmente decorre de eu ter passado minha vida toda na região sul. Também pouco me importa.
Se por um lado parece fácil se apaixonar, por outro, considero difícil manter a chama acessa ao longo dos anos. Eis um grande dilema da atualidade, a dificuldade em se manter os laços familiares. Considero que o verdadeiro amor motive instintivamente a criação de uma família, assim, não existiria gravidez indesejável ou acidental, por exemplo. Tudo seria obra do nosso instável inconsciente, aprender a domá-lo me parece ser uma missão comum da humanidade. Será que alguém consegue?

* * * 

Eu estava demorando alguns dias para finalizar esta postagem e, para minha surpresa, o astrólogo Oscar Quiroga discorreu sobre o tema. Ainda bem que esperei:

"16-6-2014 - AMAR PARA SER AMADO

Data Estelar: Lua míngua em Aquário.

O amor que anseias receber está aguardando tua entrega, em primeiro lugar Tu deves amar incondicionalmente, precisas amar oferecendo ao mundo e às pessoas o melhor de ti de forma incansável. 
Isso te tornará amável, fazedor de conexões e, inevitavelmente, receberás o amor que anseias também. 
Porém, curiosamente, a essa altura das coisas Tu não te importarás com isso, tua ansiedade por receber amor terá deixado de existir, será irrelevante se tua alma for amada ou não, pois muito mais importante será para ti continuar dando teu melhor, pelo conhecimento, pelo desejo, pela ação e porque te transformaste na síntese amorosa que tanto buscavas com ansiedade, sem encontrá-la. 
O amor que buscas é exatamente igual ao amor que Tu és potencialmente capaz de entregar. Entrega-o e serás amado."

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 4

No começo da semana, tive uma conversa matinal agradável com meu avô. Um dos assuntos foi meu pai, que todo ano está fazendo uma ou duas viagens internacionais; comentei que não gostava da idéia de viajar para o exterior de avião, preferia visitar meus parentes de carro nos finais de semana. Confesso que um de meus defeitos é não saber lidar com frustrações, eu odiaria passar por atrasos no aeroporto ou ter minha bagagem extraviada.
Sem falar no óbvio risco da aeronave simplesmente desaparecer sem deixar rastros. Ele riu e disse que minha avó também era assim, não gostava de avião. Não foi admitido, mas imagino que ele também sinta o mesmo. Seria mais uma semelhança entre nós dois, calculamos os riscos, geralmente agindo com cautela. Aliás, outra desvantagem clara de visitar o exterior são os custos, não seria melhor viver com relativo conforto a maior parte do tempo ao invés de só de vez em quando?

* * *

Sexta-feira, eu e meu primo fomos para outro local agradável de Jaraguá do Sul: Sacramentum Pub. Com dezenas de tipos de cerveja, a última que degustamos foi alvo de um desafio: eu afirmei que era alemã, ele disse que era paulista. Quando a atendente trouxe a garrafa, vislumbramos a sua cidade de origem: Munique. "Pode abrir" foi a minha ordem vitoriosa. Antes de sairmos, lembrei que ele deveria perguntar ao seu amigo músico de quem era uma das canções executadas na noite.
Eu sugeri Bryan Adams, ele Jon Bon Jovi. Ao ser apresentado para o artista, perguntei de quem era a música que falava sobre o "summer of sixty nine". "Ah, essa é o 'crássico' do Bryan Adams!" Claro que era, mas o momento mais marcante ocorrera minutos antes; não lembro como chegamos neste tópico, mas o primo disse que não era do tipo estrategista, fazendo uma menção ao jogo de xadrez. Acabei entendendo que ele tinha lido meu último post, o que me é uma honra.

* * *

No sábado, rumo a Criciúma, passei por Garopaba para deixar o tapete que minha tia-avó comprara em Três Passos e me pedira para levar até o litoral. Uma peça pesada que meu tio-avó, recém-operado do joelho, teria dificuldade de carregar em Porto Alegre. Na viagem, senti a satisfação de imaginar que iria esquentar o inverno de minha estimada tia, que considera meu pai, criado juntamente com ela, seu irmão mais novo. Encontrei-a bem agasalhada com muita lã, espantada com minha bermuda e camiseta. Expliquei: "Da onde venho, aqui está quente."

* * *
  
Domingo, almocei com minhas duas meia-irmãs; meu pai e madrasta foram buscar meu avô no Rio Grande do Sul, minha irmã estava em uma cidade vizinha com colegas do seu curso de moda. Inicialmente convidei as jovens para almoçar em um fast-food, no caminho, comentei de um de meus restaurantes prediletos; elas concordaram que a comida era ótima e, prontamente, comuniquei: "Vamos lá, eu pago!"
Optamos pelo mignon à parmesiana (com arroz e fritas) e pela picanha com brócolis e batata sauté. Inicialmente, a mais velha salientou os preços relativamente altos e eu, provocando risos, justifiquei: "Eu salvo vidas!" Pouco depois, comentei que era por almoços como aquele que a mais nova deveria escolher a Medicina como profissão, embora, claro, o dia-a-dia envolvesse grande responsabilidade. Nem sempre as vidas são salvas, esse peso não é para qualquer um.

* * *

Há alguns anos, meu pai comprou um automóvel coreano e nos encontramos na casa de seu patriarca que, assim como eu, ironizou o fato de haver adesivos na traseira do carro novo. Logo em seguida, foi comentado que eu era parecido com meu avô em alguns aspectos. Senti isso novamente na segunda de manhã, antes de viajar, quando assisti com ele parte do campeonato de Roland Garros no sofá de minha casa natal. 
Ele relatou o episódio de um conhecido que, instantes antes de receber a notícia de falecimento de sua filha, escutara a voz dela repetidas vezes: "estou indo". Lembrei-o de seu sonho com minha avó justamente na manhã em que ela faleceu, indicando que poderia ter sido uma despedida dela. Ele, emocionado, concluiu que isso significava que eles tinham tido uma boa vida juntos. Sim, de todas as pessoas, ela escolhera o seu grande amor antes de partir.