Meu avô costuma visitar seus filhos "espalhados" pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mas nunca havia ido até São Francisco do Sul; este ano, durante visita a meu pai em Criciúma, ele expressou mais uma vez o desejo de conhecer o litoral norte-catarinense. Pensei comigo mesmo que eu seria a pessoa ideal para levá-lo, já que eu era o único que conhecia o trajeto mais curto de Três Passos até lá (via Chapecó, totalizando 750km).
Visitei-o em setembro e, enquanto assistíamos ao jogo do seu time, o Internacional, disse-lhe que estava pensando em pegar uma folga no final de outubro, podendo viajar com ele até "São Chico". Eu esperava que ele fosse imediatamente se impolgar, mas o patriarca se mostrou reticente, dizendo que, se fosse para lá, iria apenas no verão. Na manhã seguinte, porém, enquanto tomávamos café antes de eu voltar para Santa Catarina, ele mudou de idéia: "Sabe, estive pensando, vamos fazer essa viagem."
Ele mesmo se encarregou de espalhar a notícia na família. Comecei a ligar semanalmente em meados de outubro, mas percebi uma resistência crescente: "Tenho que resolver alguns assuntos primeiro." Na última semana, eu já havia desistido da idéia quando meu tio me ligou um dia antes do programado para eu ir a Três Passos: "É o seguinte: falei com o pai agora, ele está querendo nos enrolar. Eu disse que já está tudo programado e que ele não pode voltar atrás, telefona e diga o mesmo!"
Era uma terça-feira, querendo evitar o susto de falar que estava indo no dia seguinte, liguei e informei que iria buscá-lo na sexta, sob ordens de seu filho. Ele, rindo, respondeu que estaria me aguardando. O plano era partirmos já no sábado, mas, sendo véspera de Finados, fomos de manhã ao cemitério. Era a primeira vez que eu ia até lá depois do enterro, haviam colocado uma foto dela com uma mensagem, que me provocou uma inesperada comoção.
Enquanto ele arrumava o novo arranjo de flores, percebi que tínhamos mais isso em comum: ambos éramos sobreviventes. Após uma breve oração, ele levou algumas flores para um túmulo próximo, informando que era sua "irmã de criação"; reparei no sobrenome, "Mota". Outro túmulo próximo reverenciado por ele foi a da avó de minha avó. Ao irmos embora, a garoa engrossou e comentei que havíamos ido na hora certa.
Fomos almoçar na casa de um tio que mora em uma cidade próxima. Há alguns anos, minha avó contou que esse tio se ressentia por não ser visitado pelos irmãos; gosto de pensar que faço minha parte, pois frequentemente vou até lá. Como de costume, meus primos estavam presentes, sendo a filha de um deles, com três anos, o centro das atenções. Logo que me sentei na mesa, ela veio e se sentou ao meu lado; minha namorada explica que isso acontece porque as crianças conseguem "ver" a nossa essência, identificando aqueles que são bons.
O plano mais lógico era irmos no domingo direto para Santa Catarina, mas meu avô informou que precisava levar uma encomenda de produtos coloniais para sua filha caçula em Capão da Canoa, litoral gaúcho. Apesar de ser fora do caminho, prontamente concordei, pois eu tinha de forma clara que a vontade dele seria soberana naqueles dias. Porém, meu tio em São Francisco do Sul começara novamente a ficar apreensivo com a "enrolação" crescente de seu pai.
Domingo, ao amanhecer, partimos para Porto Alegre, onde pretendíamos almoçar com uma prima. Meu avô possui uma extensa e eclética seleção musical em seu carro, proveniente de seus filhos. Uma das canções era cantada pela Marina Lima, a artista preferida de meu pai: "... e os momentos felizes não estão escondidos, nem no passado e nem no futuro..." Refleti que era verdade: pegar a estrada com o estimado patriarca me era, sem dúvida, uma vivência feliz.
Chegamos pontualmente na capital, onde passamos no apartamento de minha prima na zona sul e seguimos para um restaurante na praia de Ipanema, um lugar agradável que costumamos frequentar. Um dos motivos para o encontro foi a vontade de meu avô lhe entregar algumas jóias de minha avó, em reconhecimento aos cuidados prestados por ela durante a internação na Santa Casa. Eu já postei que envelheci anos naqueles dias e, com certeza, não fui o único.
No caminho de volta, minha prima comentou que nosso avô tinha muita sorte de me ter como neto; ele concordou em silêncio, com certa emoção. Tentei me explicar dizendo que, se eu havia me tornado uma pessoa bem-sucedida, eu devia isso, ao menos em parte, a eles; por isso, eu tinha que recompensar. Nos dias seguintes, tornei a justificativa mais leve, salientando que ser motorista particular era mais divertido que ser médico; meu avô rebateu esse argumento ironicamente, informando que, além de dirigir, eu financiava o passeio.
Chegamos à tarde em Capão da Canoa, onde minha tia, grávida de sete meses, esperava-nos; única filha mulher, ela pode ser considerada a preferida de meus avós. No dia seguinte, visitamos o escritório de meu tio e a empresa do seu irmão mais velho, que eu não conhecia. Mais tarde, acompanhei meu avô na organização de cópias das chaves de seu apartamento com vista para o mar, no intuito que seus filhos e netos aproveitem o imóvel quando possível. À noite, eu e meu tio marcamos presença no clube do poker.
Quarta de manhã, partimos para Meleiro-SC, onde meu avô tinha consulta médica na clínica onde seu filho odontólogo trabalha. Conheço o médico há muitos anos e, juntamente com outro colega odontólogo de meu tio, tivemos uma descontraída conversa matinal. Enquanto meu avô consultava, comentei com o tio que estava preocupado com as baratas que infestavam o apartamento em Três Passos, ele disse que falaria com seu irmão que mora lá para dar "uma geral" no local.
Seguimos viagem para o norte do estado ainda pela manhã. Quando estávamos chegando, meu tio ligou e perguntou o que queríamos jantar, respondi que achava que seu pai gostaria de um tradicional churrasco. Ao desligar o telefone, meu avô mostrou descontentamento com a minha resposta; estando no litoral, ele preferiria comer peixe. Liguei imediatamente e desfiz o desentendido, meu tio achou graça, estando claramente empolgado com a nossa chegada.
Na aconchegante casa à beira-mar, meu tio dispôs o seu quarto para o pai; mostrei-me admirado: "Ele vai ficar na suíte presidencial?!" "Claro que vai!" No começo da noite, foram servidas iscas de peixe e uma saborosa paella, com meu tio fazendo jus à sua fama de cozinheiro "de mão cheia". Na quinta, fizemos um tour pelas praias da cidade; na sexta, fomos de balsa até a Vila da Glória, localidade continental com vista para São Francisco do Sul.
Antes de saírmos de Três Passos, meu avô perguntou se poderíamos passar na volta em Camaquã-RS; com certo constrangimento, respondi que seria fora da rota, sendo possível passarmos na ida (idéia que ele rejeitou prontamente). Embora o plano fosse voltarmos direto para Três Passos, o longo trajeto teria alguns inconvenientes: com a pista simples, sinuosa e com tráfego intenso, provavelmente teríamos que parar em algum hotel para descansar.
Até Camaquã, seriam os mesmos 750km, mas com a pista quase que inteiramente duplicada e retilínea. Na sexta, perguntei para meu avô se ele gostaria de ir por lá, ele respondeu positivamente com a voz amena, acrescentando que estava pensando justamente em fazer isso. Saímos sábado ao amanhecer e, conforme o esperado, fizemos o trecho em apenas nove horas, chegando à tarde na casa de meu tio, que também nos esperava com clara satisfação.
Sentamos na sua varanda e botamos o papo em dia. No começo da noite, abri uma cachaça premiada da Paraíba, presente de uma tia que há alguns anos mora no nordeste. Degustamos a bebida enquanto meu tio preparava o jantar, fiquei responsável por trocar os discos de vinil que sonorizavam o ambiente: escolhi obras do Pink Floyd e Led Zeppelin. Após jantarmos, fui descansar em uma cama confortável, pensando: "Ainda bem que não estou em um hotel de beira de estrada!"
Após o café da manhã, seguimos rumo a Três Passos. Quando chegamos no apartamento, notei que as portas das prateleiras da cozinha estavam abertas e não haviam baratas ali; provavelmente meu tio detetizara e limpara a cozinha, tendo o cuidado de não transparecer que o fizera (meu avô desaprovaria tal ação, imagino que por considerar uma ameaça a sua autonomia). Após um banho rápido, fomos para a residência do tio assistir ao Grenal.
Ele se mudara recentemente para uma casa maior e melhor localizada que, após dias de organização, estava pronta para nos receber. Ao entrar em uma das salas, dirigi-me para uma parede onde havia um retrato de meu avô com uma veste tipicamente gaúcha. Apontei com um sorriso, meu tio, orgulhoso, perguntou: "Quem é esse?!" "É uma pessoa muito importante!" Após a vitória do Grêmio, sentamos na varanda e percebi que, de forma inédita, eu conseguira visitar todos os meus seis tios paternos.
Em onze dias, rodei mais de 4000km; espero fazer esse tour anualmente, enquanto a boa saúde do nosso "grande pai" permitir. A morte de minha avó inevitavelmente me trouxe um sentimento de culpa por tudo aquilo que eu poderia ter feito enquanto ela estava lúcida e não fiz. Meu ídolo confesso, John Lennon, cantou certa vez: "Vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos." Tenhamos coragem de viver nossos mais nobres sonhos enquanto houver tempo. Façamos acontecer antes que seja tarde demais.
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