domingo, 29 de junho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 6

No último final de semana, visitei minha cidade natal e reencontrei dois amigos de adolescência. Por algum motivo, comentei que eu era o mais novo de nós e fui rapidamente corrigido: um deles, apesar de ter se formado um ano antes no colégio, era o mais jovem. Ao notar minha surpresa, ele ironizou: "Sou o prodígio que não deu certo." O outro também se identificou com a constatação, lembrando das muitas expectativas sobre o seu ainda incerto futuro.
O mais jovem, apesar de ter iniciado várias faculdades, não completou nenhuma. O mais velho se graduou há alguns anos, mas decidiu abandonar a carreira e iniciar um novo curso. Entendo que o sentimento de frustração seja uma característica comum da nossa geração, que carrega o fardo das grandes aspirações de nossos pais que, naturalmente, influenciam as nossas. Apesar disso, silenciei perante seus comentários; no alto de meu Ego, gosto de pensar que sou o prodígio que deu certo.

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Em uma das noites do carnaval deste ano, fui para uma pousada onde um velho amigo e seus colegas de faculdade estavam hospedados. Um momento inusitado foi quando uma jovem se aproximou de mim e, admirada, afirmou: "Você é a legenda viva!" Ao notar meu olhar de surpresa, ela tentou se corrigir: "Não a 'legenda', eu quis dizer... Bom, você entendeu!" Sim, eu havia entendido: ela conhecia o meu feito de ter passado no vestibular para Medicina no segundo ano do ensino médio. Mais tarde, um amigo concluiu brilhantemente que ela havia se confundido com o inglês: "legend".

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Vivo novamente um momento de contradições no meu trabalho: embora se acumulem motivos para eu mudar de cidade, persiste o sentimento de que tenho um dever importante a cumprir aqui. Recentemente a população passou por um escândalo envolvendo falsos médicos, outros verdadeiros foram embora e, claro, faltam substitutos. Minha partida é inevitável, mas me vejo diariamente lutando para que o último dia não chegue, motivado por um senso de responsabilidade que lentamente adquire influência sobre meus impulsos.

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No começo do ano, atendi uma jovem que se queixava de fraqueza e tontura. Solicitei exames que mostraram uma anemia profunda por deficiência de ferro, iniciei imediatamente o tratamento e a encaminhei com urgência para o hematologista, pois temia que a doença de base pudesse ser uma leucemia. A consulta foi rapidamente marcada, felizmente nada mais grave foi constatado e a suplementação com ferro eliminou os sintomas.
Mês passado, solicitei alguns exames laboratoriais para um senhor e, como de costume, orientei que, caso eu não estivesse disponível, ele poderia mostrá-los para qualquer médico. Ele respondeu que faria questão de retornar comigo, pois eu havia sido muito bem recomendado. Ao se levantar, ele explicou com um sorriso: "Você salvou a minha sobrinha. Ela sempre fala do doutor."

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Há duas semanas, atendi um menino de nove anos com forte dor abdominal. Após examiná-lo, informei para os pais que o encaminharia para o hospital; a mãe perguntou qual era a minha hipótese diagnóstica e respondi que poderia ser uma apendicite, sendo o tratamento cirúrgico. Dois dias depois, o pai veio consultar e informou que minha suspeita estava correta; naquele mesmo dia, o jovem foi operado em Joinville. "Quase não deu tempo, o apêndice estourou quando ele estava chegando lá."

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Desde a faculdade, deparo-me com um inexplicável preconceito em relação ao uso de antidepressivos. Há dez anos, escuto que a maioria das pessoas que usam esses medicamentos não teriam indicação, o que me é um absurdo. Se isso fosse verdade, os fármacos não teriam efeito e, consequentemente, seriam abandonados; não é o que acontece, a maioria das pessoas refere melhora dos sintomas depressivos e ansiosos. Os efeitos colaterais, se presentes, resolvem-se com a troca da medicação; felizmente, há dezenas de opções.
"Todos os dias, atendo casos de depressão e ansiedade." Com essa frase, tento minimizar a culpa que os pacientes sentem ao procurar atendimento. Na verdade, tenho um "discurso padrão" sobre o tema que invariavelmente faz com que a pessoa acredite no potencial do fármaco e, assim, o milagre geralmente acontece. Chego a me sentir grato toda vez que tenho a oportunidade de fazer a diferença na vida desses pacientes.
Há quatro meses, atendi uma senhora com depressão crônica e modifiquei a sua medicação. Esta semana, ela retornou e me relatou uma substancial melhora de seus sintomas, conseguindo, finalmente, emagrecer. Ela me comparou com outros médicos do município, comentando que eu parecia ser mais experiente. "Meu marido também veio hoje, eu queria que ele consultasse contigo, mas não havia mais vagas e ele teve que consultar com outro..."
Também nesta semana, atendi uma adolescente que me relatou sintomas típicos de uma doença comum da modernidade. "Isso me parece ser crises de ansiedade ou ataques de pânico. Você já ouviu falar?" Surpresa, ela olhou para sua mãe que informou que, há alguns anos, a filha já havia tido esse diagnóstico. Iniciei meu "discurso padrão" sobre o uso de antidepressivos e, após alguns minutos, senti que as duas saíram plenamente satisfeitas do meu consultório.

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Ano passado, fiz diversos plantões em uma cidade de médio porte do planalto norte catarinense. Os casos mais graves deveriam ser repassados para um médico de sobreaviso, que faria a internação. Um desses médicos era conhecido por ser difícil de ser convencido, mas eu nunca tive problemas com ele. As enfermeiras acompanhavam meus diálogos na sala de reanimação e, certa vez, após minha terceira internação bem-sucedida, uma delas comentou que, com meu jeito brando e minha voz suave, eu conseguiria tudo que quisesse.

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Sempre gostei de escrever redações no colégio e, especificamente na quinta série do primeiro grau, tenho uma lembrança significativa dessas aulas. Ao contrário de meus colegas, quando eu lia meus textos, todos silenciavam e escutavam o que eu tinha a dizer. Eu chegava a ficar um pouco nervoso com tanta atenção, mas isso nunca me impediu de expor minha criatividade. Ao longo dos anos, foi ficando evidente que eu tinha um diferencial importante.
Penso que eu poderia ter usado esse poder para qualquer fim e, com inteligência, acabei escolhendo o que me parecia ser o mais nobre deles. O maior sacrifício teria sido trilhar um outro caminho mais cômodo. Hoje tenho a certeza de que, muito mais que meu dever, contribuir para a felicidade alheia é a única forma de alcançar a minha própria felicidade. O resto é secundário, efêmero e ilusório.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 5

Na "parte 1", comento que a relação mais relevante é com a parceira afetiva. Refletir sobre temática do amor me remete à teoria psicanalítica de Freud: inicialmente, ele dividiu a mente em consciente, subconsciente e inconsciente. O subconsciente seria formado por pensamentos inconscientes que podem se tornar conscientes, como por exemplo, lembranças. Já o inconsciente, que forma a grande base do aparelho psíquico, seria inatingível pela consciência.
Minha primeira constatação é o que amor é uma força inconsciente, nunca saberemos os seus reais motivos. É próprio do consciente tentar achar padrões e explicações lógicas, mas o inconsciente domina e na prática nos vemos diariamente agindo irracionalmente. O verdadeiro amor, ao meu ver, passa pelo clivo do irracional; caso contrário, é insustentável. Soa ilógico alguém perdoar incondicionalmente outra pessoa, mas não seria essa a chave dos relacionamentos duradouros?
Se me perguntassem o que mais me atrai em uma mulher, eu provavelmente responderia: a beleza. Refiro-me ao conjunto externo, uma foto pode captar parte dessa beleza, embora o importante seja a impressão real. Além disso, não saberia responder. Cor dos cabelos? Olhos? Altura? Pouco importa. Etnias? Eu diria "européia", algo entre italiana e alemã, mas isso provavelmente decorre de eu ter passado minha vida toda na região sul. Também pouco me importa.
Se por um lado parece fácil se apaixonar, por outro, considero difícil manter a chama acessa ao longo dos anos. Eis um grande dilema da atualidade, a dificuldade em se manter os laços familiares. Considero que o verdadeiro amor motive instintivamente a criação de uma família, assim, não existiria gravidez indesejável ou acidental, por exemplo. Tudo seria obra do nosso instável inconsciente, aprender a domá-lo me parece ser uma missão comum da humanidade. Será que alguém consegue?

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Eu estava demorando alguns dias para finalizar esta postagem e, para minha surpresa, o astrólogo Oscar Quiroga discorreu sobre o tema. Ainda bem que esperei:

"16-6-2014 - AMAR PARA SER AMADO

Data Estelar: Lua míngua em Aquário.

O amor que anseias receber está aguardando tua entrega, em primeiro lugar Tu deves amar incondicionalmente, precisas amar oferecendo ao mundo e às pessoas o melhor de ti de forma incansável. 
Isso te tornará amável, fazedor de conexões e, inevitavelmente, receberás o amor que anseias também. 
Porém, curiosamente, a essa altura das coisas Tu não te importarás com isso, tua ansiedade por receber amor terá deixado de existir, será irrelevante se tua alma for amada ou não, pois muito mais importante será para ti continuar dando teu melhor, pelo conhecimento, pelo desejo, pela ação e porque te transformaste na síntese amorosa que tanto buscavas com ansiedade, sem encontrá-la. 
O amor que buscas é exatamente igual ao amor que Tu és potencialmente capaz de entregar. Entrega-o e serás amado."

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 4

No começo da semana, tive uma conversa matinal agradável com meu avô. Um dos assuntos foi meu pai, que todo ano está fazendo uma ou duas viagens internacionais; comentei que não gostava da idéia de viajar para o exterior de avião, preferia visitar meus parentes de carro nos finais de semana. Confesso que um de meus defeitos é não saber lidar com frustrações, eu odiaria passar por atrasos no aeroporto ou ter minha bagagem extraviada.
Sem falar no óbvio risco da aeronave simplesmente desaparecer sem deixar rastros. Ele riu e disse que minha avó também era assim, não gostava de avião. Não foi admitido, mas imagino que ele também sinta o mesmo. Seria mais uma semelhança entre nós dois, calculamos os riscos, geralmente agindo com cautela. Aliás, outra desvantagem clara de visitar o exterior são os custos, não seria melhor viver com relativo conforto a maior parte do tempo ao invés de só de vez em quando?

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Sexta-feira, eu e meu primo fomos para outro local agradável de Jaraguá do Sul: Sacramentum Pub. Com dezenas de tipos de cerveja, a última que degustamos foi alvo de um desafio: eu afirmei que era alemã, ele disse que era paulista. Quando a atendente trouxe a garrafa, vislumbramos a sua cidade de origem: Munique. "Pode abrir" foi a minha ordem vitoriosa. Antes de sairmos, lembrei que ele deveria perguntar ao seu amigo músico de quem era uma das canções executadas na noite.
Eu sugeri Bryan Adams, ele Jon Bon Jovi. Ao ser apresentado para o artista, perguntei de quem era a música que falava sobre o "summer of sixty nine". "Ah, essa é o 'crássico' do Bryan Adams!" Claro que era, mas o momento mais marcante ocorrera minutos antes; não lembro como chegamos neste tópico, mas o primo disse que não era do tipo estrategista, fazendo uma menção ao jogo de xadrez. Acabei entendendo que ele tinha lido meu último post, o que me é uma honra.

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No sábado, rumo a Criciúma, passei por Garopaba para deixar o tapete que minha tia-avó comprara em Três Passos e me pedira para levar até o litoral. Uma peça pesada que meu tio-avó, recém-operado do joelho, teria dificuldade de carregar em Porto Alegre. Na viagem, senti a satisfação de imaginar que iria esquentar o inverno de minha estimada tia, que considera meu pai, criado juntamente com ela, seu irmão mais novo. Encontrei-a bem agasalhada com muita lã, espantada com minha bermuda e camiseta. Expliquei: "Da onde venho, aqui está quente."

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Domingo, almocei com minhas duas meia-irmãs; meu pai e madrasta foram buscar meu avô no Rio Grande do Sul, minha irmã estava em uma cidade vizinha com colegas do seu curso de moda. Inicialmente convidei as jovens para almoçar em um fast-food, no caminho, comentei de um de meus restaurantes prediletos; elas concordaram que a comida era ótima e, prontamente, comuniquei: "Vamos lá, eu pago!"
Optamos pelo mignon à parmesiana (com arroz e fritas) e pela picanha com brócolis e batata sauté. Inicialmente, a mais velha salientou os preços relativamente altos e eu, provocando risos, justifiquei: "Eu salvo vidas!" Pouco depois, comentei que era por almoços como aquele que a mais nova deveria escolher a Medicina como profissão, embora, claro, o dia-a-dia envolvesse grande responsabilidade. Nem sempre as vidas são salvas, esse peso não é para qualquer um.

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Há alguns anos, meu pai comprou um automóvel coreano e nos encontramos na casa de seu patriarca que, assim como eu, ironizou o fato de haver adesivos na traseira do carro novo. Logo em seguida, foi comentado que eu era parecido com meu avô em alguns aspectos. Senti isso novamente na segunda de manhã, antes de viajar, quando assisti com ele parte do campeonato de Roland Garros no sofá de minha casa natal. 
Ele relatou o episódio de um conhecido que, instantes antes de receber a notícia de falecimento de sua filha, escutara a voz dela repetidas vezes: "estou indo". Lembrei-o de seu sonho com minha avó justamente na manhã em que ela faleceu, indicando que poderia ter sido uma despedida dela. Ele, emocionado, concluiu que isso significava que eles tinham tido uma boa vida juntos. Sim, de todas as pessoas, ela escolhera o seu grande amor antes de partir.

Em Busca da Felicidade - parte 3

(Postado originalmente dia 15/05/2014)

Ao me despedir de um amigo que não via há alguns meses, ouvi que eu era um "bon vivant". Concordo com ele, procuro o melhor da vida, busco o que me faz bem e acredito ser digno disso. Frequentemente é comentado que eu aparento ser mais jovem do que realmente sou. Talvez o segredo seja eu provar diariamente pequenas porções de felicidade. Confesso que, de vez em quando, eu me esbaldo além da conta.
Na primeira vez que fui ao clube de poker, explicaram que minha jovialidade devia ser decorrência da boa alimentação típica dos japoneses. De fato, costumo comer peixe com certa frequência. Quando fiquei no apartamento de meu tio no centro de Porto Alegre, almocei três vezes em um restaurante "a la carte", escolhendo todas as vezes o filé de peixe à milanesa. Meu tio e meu avô, ambos gaúchos, escolheram o prato destaque da casa, picanha.
Acostumei-me a comer todo tipo de salada disponível e a beber compostos de suco natural e soja, as opções sem adição de açucar são saborosas e parecem nutritivas. Dificilmente cozinho, embora eu tenha aprendido na faculdade; prefiro comer em lanchonetes/restaurantes, minha justificativa é que valorizo o trabalho de profissionais. Degusto cervejas artesanais do norte catarinense (com colonização predominantemente alemã) e vinhos argentinos/chilenos. 
Durmo com frequência e gosto de estar em contato com o mundo onírico. Não faço mais plantões noturnos, durmo todas as noites com prazer; sonho meu futuro enquanto descanso, produzindo melhor no dia seguinte. Eventualmente, chego do expediente à tarde e durmo até o começo da noite; acordo, tomo um banho, janto e volto para a cama. Como bon vivant, dou atenção às minhas vontades e imagino ser o típico exemplo que faz o que quer quando quer.
Eu poderia trabalhar o dobro do que trabalho atualmente, mas não me sinto impelido a isso. Tenho poucas despesas e considero meu ofício extremamente ansiogênico, embora, claro, seja nobre e necessário. Procurar manter o equilíbrio entre os desejos e os deveres me parece ser uma meta razoável para quem busca a felicidade. Recentemente, ao comentar o caso do cirurgião acusado de planejar a morte do filho, meu tio concluiu que eu estava certo em não trabalhar demais.
Ao me aprofundar no xadrez, claramente me mostrei ser um jogador posicional e não um jogador tático. Meu objetivo era construir pequenas vantagens posicionais e levá-las até um final vitorioso, um tático vislumbra arrematar o jogo a curto prazo, geralmente com sequências agressivas que podem dar certo ou não. Recentemente passei uma tarde jogando sinuca e, como bom estrategista, aproximava as bolas das caçapas ao invés de tentar um arremate único.

"Eu que já não quero mais ser um vencedor, levo a vida devagar pra não faltar amor!" 
O Vencedor - Los Hermanos