No último final de semana, visitei minha cidade natal e reencontrei dois amigos de adolescência. Por algum motivo, comentei que eu era o mais novo de nós e fui rapidamente corrigido: um deles, apesar de ter se formado um ano antes no colégio, era o mais jovem. Ao notar minha surpresa, ele ironizou: "Sou o prodígio que não deu certo." O outro também se identificou com a constatação, lembrando das muitas expectativas sobre o seu ainda incerto futuro.
O mais jovem, apesar de ter iniciado várias faculdades, não completou nenhuma. O mais velho se graduou há alguns anos, mas decidiu abandonar a carreira e iniciar um novo curso. Entendo que o sentimento de frustração seja uma característica comum da nossa geração, que carrega o fardo das grandes aspirações de nossos pais que, naturalmente, influenciam as nossas. Apesar disso, silenciei perante seus comentários; no alto de meu Ego, gosto de pensar que sou o prodígio que deu certo.
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Em uma das noites do carnaval deste ano, fui para uma pousada onde um velho amigo e seus colegas de faculdade estavam hospedados. Um momento inusitado foi quando uma jovem se aproximou de mim e, admirada, afirmou: "Você é a legenda viva!" Ao notar meu olhar de surpresa, ela tentou se corrigir: "Não a 'legenda', eu quis dizer... Bom, você entendeu!" Sim, eu havia entendido: ela conhecia o meu feito de ter passado no vestibular para Medicina no segundo ano do ensino médio. Mais tarde, um amigo concluiu brilhantemente que ela havia se confundido com o inglês: "legend".
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Vivo novamente um momento de contradições no meu trabalho: embora se acumulem motivos para eu mudar de cidade, persiste o sentimento de que tenho um dever importante a cumprir aqui. Recentemente a população passou por um escândalo envolvendo falsos médicos, outros verdadeiros foram embora e, claro, faltam substitutos. Minha partida é inevitável, mas me vejo diariamente lutando para que o último dia não chegue, motivado por um senso de responsabilidade que lentamente adquire influência sobre meus impulsos.
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No começo do ano, atendi uma jovem que se queixava de fraqueza e tontura. Solicitei exames que mostraram uma anemia profunda por deficiência de ferro, iniciei imediatamente o tratamento e a encaminhei com urgência para o hematologista, pois temia que a doença de base pudesse ser uma leucemia. A consulta foi rapidamente marcada, felizmente nada mais grave foi constatado e a suplementação com ferro eliminou os sintomas.
Mês passado, solicitei alguns exames laboratoriais para um senhor e, como de costume, orientei que, caso eu não estivesse disponível, ele poderia mostrá-los para qualquer médico. Ele respondeu que faria questão de retornar comigo, pois eu havia sido muito bem recomendado. Ao se levantar, ele explicou com um sorriso: "Você salvou a minha sobrinha. Ela sempre fala do doutor."
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Há duas semanas, atendi um menino de nove anos com forte dor abdominal. Após examiná-lo, informei para os pais que o encaminharia para o hospital; a mãe perguntou qual era a minha hipótese diagnóstica e respondi que poderia ser uma apendicite, sendo o tratamento cirúrgico. Dois dias depois, o pai veio consultar e informou que minha suspeita estava correta; naquele mesmo dia, o jovem foi operado em Joinville. "Quase não deu tempo, o apêndice estourou quando ele estava chegando lá."
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Desde a faculdade, deparo-me com um inexplicável preconceito em relação ao uso de antidepressivos. Há dez anos, escuto que a maioria das pessoas que usam esses medicamentos não teriam indicação, o que me é um absurdo. Se isso fosse verdade, os fármacos não teriam efeito e, consequentemente, seriam abandonados; não é o que acontece, a maioria das pessoas refere melhora dos sintomas depressivos e ansiosos. Os efeitos colaterais, se presentes, resolvem-se com a troca da medicação; felizmente, há dezenas de opções.
"Todos os dias, atendo casos de depressão e ansiedade." Com essa frase, tento minimizar a culpa que os pacientes sentem ao procurar atendimento. Na verdade, tenho um "discurso padrão" sobre o tema que invariavelmente faz com que a pessoa acredite no potencial do fármaco e, assim, o milagre geralmente acontece. Chego a me sentir grato toda vez que tenho a oportunidade de fazer a diferença na vida desses pacientes.
Há quatro meses, atendi uma senhora com depressão crônica e modifiquei a sua medicação. Esta semana, ela retornou e me relatou uma substancial melhora de seus sintomas, conseguindo, finalmente, emagrecer. Ela me comparou com outros médicos do município, comentando que eu parecia ser mais experiente. "Meu marido também veio hoje, eu queria que ele consultasse contigo, mas não havia mais vagas e ele teve que consultar com outro..."
Também nesta semana, atendi uma adolescente que me relatou sintomas típicos de uma doença comum da modernidade. "Isso me parece ser crises de ansiedade ou ataques de pânico. Você já ouviu falar?" Surpresa, ela olhou para sua mãe que informou que, há alguns anos, a filha já havia tido esse diagnóstico. Iniciei meu "discurso padrão" sobre o uso de antidepressivos e, após alguns minutos, senti que as duas saíram plenamente satisfeitas do meu consultório.
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Ano passado, fiz diversos plantões em uma cidade de médio porte do planalto norte catarinense. Os casos mais graves deveriam ser repassados para um médico de sobreaviso, que faria a internação. Um desses médicos era conhecido por ser difícil de ser convencido, mas eu nunca tive problemas com ele. As enfermeiras acompanhavam meus diálogos na sala de reanimação e, certa vez, após minha terceira internação bem-sucedida, uma delas comentou que, com meu jeito brando e minha voz suave, eu conseguiria tudo que quisesse.
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Sempre gostei de escrever redações no colégio e, especificamente na quinta série do primeiro grau, tenho uma lembrança significativa dessas aulas. Ao contrário de meus colegas, quando eu lia meus textos, todos silenciavam e escutavam o que eu tinha a dizer. Eu chegava a ficar um pouco nervoso com tanta atenção, mas isso nunca me impediu de expor minha criatividade. Ao longo dos anos, foi ficando evidente que eu tinha um diferencial importante.
Penso que eu poderia ter usado esse poder para qualquer fim e, com inteligência, acabei escolhendo o que me parecia ser o mais nobre deles. O maior sacrifício teria sido trilhar um outro caminho mais cômodo. Hoje tenho a certeza de que, muito mais que meu dever, contribuir para a felicidade alheia é a única forma de alcançar a minha própria felicidade. O resto é secundário, efêmero e ilusório.
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