segunda-feira, 21 de julho de 2014

Em Busca da Felicidade - parte 7

Há uma década atrás, quando iniciei meus estudos sobre a obra de Allan Kardec, deparei-me com um interessante trecho de O Livro dos Espíritos:

"365 - Por que homens muito inteligentes, que evidenciam em si um Espírito superior, algumas vezes, ao mesmo tempo, são profundamente viciados?
(...) O Espírito progride através de uma insensível caminhada ascendente, mas o progresso não se realiza, simultaneamente, em todos os sentidos; em uma etapa ele pode avançar em ciência, em outra em moralidade." Livro II - Capítulo VII

Na época, minha conclusão foi de que, em vidas passadas, eu evoluíra principalmente em intelecto; nesta encarnação, então, eu deveria focar meus esforços na evolução moral. Há dez anos, essa tem sido uma de minhas buscas. Claro que, nessa "batalha espiritual", eu acumulo muitas derrotas e, frequentemente, questiono-me se estou, de fato, evoluindo. Talvez eu esteja no caminho certo, mas talvez ainda longe do objetivo final.

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Recentemente descobri que uma caloura minha está em missão humanitária em um campo de refugiados na África. Tive contato com ela nos últimos anos da faculdade, durante os plantões de pediatria no Hospital Universitário. Conversamos sobre religião e lembro dela comentar que seu pai lera o Alcorão motivado por uma curiosidade histórica; outra vez, ela comentou sobre a impressão que a minha apresentação do TCC tivera em alguns colegas da sua turma.
Apesar dela ser uma pessoa sincera e de fácil diálogo, eu tinha a falsa impressão de um certo distanciamento e frieza; não lembro de vê-la sorrindo, por exemplo, em contraste com uma foto recente que ela postara do continente africano. "(...) sou responsável pela enfermaria de desnutrição aguda de crianças até 5 anos de idade, trabalho de domingo a domingo 12 horas por dia e apesar de todos os perrengues (latrina, banho de caneca, comer arroz ou macarrão todo santo dia, dormir numa tenda minúscula, etc), estou muito feliz!"

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No último ano da graduação, tivemos uma palestra de uma médica argentina sobre o trabalho humanitário dos Médicos Sem Fronteiras. Ao final, abriu-se a discussão para tirar dúvidas e eu perguntei qual era o salário. A convidada reagiu imediatamente com uma risada, apontando seus braços para mim, como se dizendo: "Claro que alguém iria perguntar isso!" Ela respondeu que o trabalho era de natureza voluntária, havia apenas uma ajuda de custos que não passava dos mil dólares mensais.

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Alguns meses antes de me formar, fui analisar uma proposta profissional em uma cidade do interior do Rio Grande de Sul, onde um tio trabalhava. O prefeito, que era médico, ofereceu-me quarenta horas semanais em uma unidade básica mais quinze dias de sobreaviso no hospital municipal. Ao notar minha perplexidade pelo baixo salário, ele explicou que eu não deveria pensar no dinheiro, mas no aprendizado e na amizade que eu desenvolveria ali.
Outra possibilidade de emprego, em uma cidade próxima, era onde meu avós moravam; mas, depois da frustrante proposta do meu colega médico, sequer me interessei em ouvir o que outro prefeito tinha a oferecer. Fui iniciar meus trabalhos na bela Santa Catarina, onde a remuneração é melhor e a qualidade de vida me parece ser incomparável. Como bon vivant, desde cedo aprendi a escolher o caminho que parecia ser mais confortável para mim.

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Mas e a evolução moral? Se por um lado, busco valorizar meu trabalho e sequer cogito fazer algum voluntariado; por outro, procuro manter uma certa humildade material e eventualmente ajudo financeiramente meus familiares. Entre o mundo e a família, a escolha me é óbvia, fui educado assim. Na minha pré-adolescência, perguntei se meu pai doaria para instituições filantrópricas parte do prêmio caso ganhasse na loteria, ele respondeu que se preocuparia primeiro em ajudar seus familiares.
Há alguns meses, tive uma longa conversa com um primo mais novo que, universitário, saiu de casa há alguns anos. Imaginando uma situação de "austeridade", vivenciada na minha própria formação, ajudo-o sempre que possível. Ele contou que, na primeira vez que lhe dei dinheiro, ele cometou o erro de contar para sua mãe que, consequentemente, cortou a mesada daquele mês. Eu ri do ocorrido, para mim, isso não fazia diferença, eu os estava auxiliando e era isso que importava.
Ele lembrou que meu pai, provavelmente o mais bem-sucedido entre os irmãos, ajudara os seus pais na época em que moravam em Porto Alegre. Isso me encheu de orgulho. Uma das lembranças da minha infância foi de ver meus pais conversando sobre a necessidade de ajudar outro tio que, apesar de estudar em uma universidade pública, tinha gastos consideráveis com os materiais odontológicos. Assim, suponho que, se meu objetivo era evoluir em moralidade, escolhi bem o ambiente para encarnar.

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O Espiritismo coloca o trabalho como uma necessidade natural do ser humano e a riqueza material como uma responsabilidade que deve ser bem administrada, visando o bem comum.

"Quando um homem trabalhou bastante e com o suor de seu rosto amontoou bens, vós o ouvis frequentemente dizer que, quando o dinheiro é ganho, conhece-lhe melhor o valor; nada é mais verdadeiro. Pois bem, que esse homem, que confessa conhecer todo o valor do dinheiro, faça a caridade segundo seus meios e terá mais mérito que do que aquele que, nascido na abundância, ignora as rudes fadigas do trabalho. Mas se, ao contrário, esse mesmo homem, que lembra suas penas, seus trabalhos, for egoísta, duro com os pobres, é bem mais culpado do que os outros; porque, quanto mais se conhece por si mesmo as dores ocultas da miséria, mais se deve procurar aliviá-las nos outros.
(...) Deus a dá a quem lhe parece bom geri-la em proveito de todos; o rico tem, pois, uma missão, que pode se tornar bela e proveitosa para ele; rejeitar a fortuna quando Deus vo-la dá é renunciar ao benefício do bem que se pode fazer em administrá-la com sabedoria. Saber passar sem ela quando não a tem, saber empregá-la utilmente quando a possui, saber sacrificá-la quando isso é necessário, é agir segundo os desígnios do Senhor." Desprendimento dos Bens Terrenos, capítulo XVI, O Evangelho Segundo o Espiritismo.

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