terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Discurso - Parte 2

2- Você precisa encontrar o que ama.
“Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama.”
Assim como Jobs, tive sorte, pois pude dar vazão a várias paixões desde cedo. Não comentarei sobre trabalho ou relacionamentos, mas sobre um hobby: a música.
Em minha tenra infância, lembro de escutar Beatles (foi também um dos primeiros contatos com a língua inglesa: “help” significava “socorro” e assim por diante). No começo da década de 90, Nirvana (que voltei a escutar novamente ao escrever esse texto), Pearl Jam (que fui no show este mês em Curitiba), Alice in Chains e Stone Temple Pilots (essas duas últimas vi pela televisão ao vivo semana retrasada).
Mais adiante, conheci bandas de hardcore melódico: Bad Religion, MxPx, Lagwagon, NOFX, entre outras. Nessa época, comecei a tocar guitarra; na minha opinião, o melhor instrumento musical, por permitir uma fácil expressão da emoção. Em 2001, minha banda, Gridy, lançou o álbum “Faça Acontecer”, que era o nome de uma composição minha contida no disco. No ano seguinte participei da produção do lendário álbum dos Vizinhos da Glória, “Por Alguém ao Lado”, tocando teclado em três faixas e guitarra no final prolongado de “Fim de Tarde”, uma das minhas prediletas:
 www.youtube.com/watch?v=h0IZ5SlL_bg
Durante a faculdade, fiz algumas gravações caseiras com meu amigo Thiago e tocamos algumas noites em um bar de Floripa. O repertório era bem variado, Pink Floyd, Oasis, Peral Jam, U2. Em 2007, ele montou um trio, a The Lawyers, com repertório similar ao que tocávamos em dupla. Após acompanhar alguns ensaios, juntei-me a banda. Nesse período, eu estava passando por uma fase complicada do internato e tocar novamente num quarteto foi uma ótima válvula de escape:
www.youtube.com/watch?v=QmU0nqIGsck
www.youtube.com/watch?v=Ij-qyntJpd4
Em 2009, o nosso baixista se mudou para o interior do RS e decidimos montar uma outra banda, a The Bottles, tocando apenas Beatles (uma paixão em comum dos integrantes restantes da Lawyers). A banda foi um sucesso, fizemos vários shows, mas ao final de 2009 me mudei para o interior de SC, tendo que ser substituído. Eles continuam na ativa, com uma sonoridade cada vez melhor.
www.youtube.com/watch?v=Q_PdHsRdRqs
www.youtube.com/watch?v=oopETZs-OyM
www.youtube.com/watch?v=ZSiJwu4iK1M
Nos dois últimos anos, tenho feito algumas gravações caseiras esporádicas, em que “toco” com alguns de meus artistas prediletos:
www.youtube.com/watch?v=5S6vhOpxbrA
www.youtube.com/watch?v=NK0bSSNRKIQ
www.youtube.com/watch?v=E5Wo1oDBMWs
Mais recentemente, tenho tocado e cantado algumas músicas do Legião Urbana e outras bandas nacionais, talvez no futuro possa até tocar para pequenos públicos.
Hoje em dia, aceito que sempre estarei envolvido em algum projeto musical, mesmo que tenha algumas pausas. Invariavelmente isso me ajuda a seguir em frente e desconfio que devo dar um passo além e voltar a compor. Rever meus ídolos de infância é sempre motivante nesse sentido.
* * *
Recentemente passei pelo fim de um relacionamento de quatro anos e escutar repetidas vezes algumas músicas do Kid Abelha e Legião Urbana me ajudaram a aliviar a dor. O problema é que posteriormente essas músicas podem ficar “impregnadas” com lembranças desagradáveis; todo remédio, afinal, tem seu efeito colateral. Como em “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, tenho que resistir à tentação de deletar algumas melodias do meu setlist.
(continua)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Discurso - Parte 1


        Em 2005, Steve Jobs fez um discurso histórico para formandos de Stanford. Li a transcrição do discurso em 2007 ou 2008, gostando bastante na época. Agora, com sua morte, suas três lições voltam à tona:
            1- Um dia, os pontos vão se ligar.
“Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.
De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.” www.abmeseduca.com/?p=2547
            Tive facilidade na escola e com os anos isso foi se tornando cada vez mais notável. Destacava-me principalmente nas áreas exatas, mas também tinha aptidão para Literatura e Português. No entanto, não pensei em ser engenheiro ou pesquisador; também não optei pela carreira jurídica, embora meu irmão, que fazia Direito na época, tenha salientado que meu gosto por ler e escrever seria melhor aproveitado ali.
            Com quinze anos, vi claramente que queria lidar com pessoas. Esse interesse já havia tido vazão alguns anos antes, quando li vários livros de Astrologia de meu pai, ficando fascinado com a complexidade psíquica do homem. Minhas opções então eram Psicologia e Medicina, meu pai sugeriu que eu optasse pela carreira médica e me especializasse em Psiquiatria. Por muito tempo, esse foi meu objetivo.
            No segundo ano de faculdade, tive uma disciplina marcante: Psicologia Médica. A aula introduziu conceitos básicos da Psicanálise, sendo uma fase de intenso aprendizado. Aos poucos, fui me tornando “o psiquiatra” da turma. Entre o terceiro e quarto ano, acompanhei semanalmente o trabalho de uma psiquiatra no CAPS (Centro de Atenção Psico-Social), sendo também um período bastante produtivo. Ironicamente, porém, foi a partir desse estágio que comecei a vislumbrar um novo caminho: trabalhar como clínico-geral em Unidades Básicas de Saúde. Eu poderia dar vários motivos para essa mudança, mas não os considero relevantes; o principal era eu sentir que essa era a escolha certa.
            Recentemente, uma colega que acompanhou parte dessa trajetória comentou que meus estudos em Saúde Mental eram o meu diferencial. De fato, seja no ambiente ambulatorial ou hospitalar, uma abordagem psíquica é frequentemente necessária.
* * *
            “Não sei onde estou indo, só sei que não estou perdido; aprendi a viver um dia de cada vez.” Legião Urbana em “Só Por Hoje”.
            Por enquanto, sinto que estou no caminho certo.
            (continua)

sábado, 5 de novembro de 2011

Resenha - Coisas Belas e Sujas (Dirty Pretty Things)


          Esta resenha foi escrita por meu irmão mais velho. Ele que, muito antes de mim, já encantava as professoras com suas redações.
* * *
O filme retrata bem a falibilidade humana em face das dificuldades que o sistema contemporâneo e globalizado emprega. Muito embora o enredo se passe na cidade de Londres, cuja realidade se afigura bastante diferente da brasileira, notadamente a do nosso Estado de Santa Catarina, tem-se que muitas lições podem ser tiradas do filme.
O personagem vivido por Chiwetel Ejiofor, chamado Okwe, um médico e imigrante nigeriano em situação irregular em Londres, desde o início demonstra condutas incomuns da maior parte dos seres humanos de nossa sociedade. Com diversos empregos – recepcionista de hotel, taxista, “consultor” de portadores de doenças sexualmente transmissíveis atendidos nos subúrbios londrinos -, tem-se que Okwe luta para aferir o dinheiro suficiente para sobreviver naquela cidade, bem como para poder voltar ao seu país de origem e rever sua filha.
Por sua vez, a personagem interpretada por Audrey Tautou, de nome Senay, tem em comum com Okwe o fato de também ser imigrante ilegal (nacionalidade turca) na cidade de Londres, cujo sonho é ir residir nos Estados Unidos e trabalhar no estabelecimento comercial de uma prima.
A diferença entre os dois é que ela faria qualquer coisa – mesmo que ilegal – para conseguir regularizar sua situação clandestina na Inglaterra e obter o visto para a tão sonhada vida norte-americana. Okwe, em contrapartida, jamais agiria ilegalmente, mesmo tendo que trabalhar semanalmente sem poder dormir e se escondendo incessantemente da polícia contra imigração da Inglaterra.
O ponto nevrálgico do filme aparece quando o empregador de Okwe, de nome Juan, funcionário do mesmo hotel, descobre que ele é médico e, diante disso, começa a chantageá-lo para que ele passe a fazer as retiradas clandestinas de órgãos dos imigrantes ilegais em Londres - que cedem seus rins para obterem documentos falsificados a fim de poder residir e trabalhar livremente na cidade londrina.
Okwe nega veementemente, demonstrando ser absurda tal prática de Juan, que explora as “vidas sem opção” dos imigrantes ilegais de Londres para enriquecer. A conduta de Okwe, mesmo estando numa situação que muitos não aguentariam, é exemplar, visto que, em cedendo às chantagens de seu superior, poderia residir tranquilamente em Londres, não tendo mais que se submeter à exploração de trabalho bem como às jornadas extremamente longas na direção de seu táxi.
O que se colhe do filme é saber até que ponto “o certo” deve ser praticado. Até que ponto podemos e devemos agir de forma correta. Há limites?
O filme explora muito bem isso. Não obstante Okwe tenha deixado nítido que jamais faria a remoção ilegal de órgãos, tem-se que ele se viu sem opção quando Senay - pessoa com quem construiu amor e afeto – se dispôs a “vender” um dos seus rins. Sabedor que ela correria sérios riscos de vida ao se submeter ao procedimento cirúrgico clandestino, Okwe se propôs a integrar a organização criminosa de Juan e realizar a empreitada.
Surpresa nos traz o filme com o desfecho da história, tendo o médico Okwe sedado Juan e removido um dos rins dele. Com posse dos documentos e vistos falsificados, bem como do dinheiro proveniente da venda do rim, Okwe e Senay puderam, enfim, deixar a vida sofrida de Londres e irem atrás dos seus sonhos.
Aí vem a questão. Vale a pena agir dentro da ética, fazer tudo corretamente, mesmo em situações de desespero em que não há saídas? Sem dúvidas que a resposta é sim. Agora, é possível, no mundo de hoje, agir assim? Há dúvidas.
Ao ver o filme, uma pergunta a nós mesmos é feita: no lugar de Okwe, faríamos o mesmo? Preferiríamos não realizar as cirurgias clandestinas e continuar sem teto, sem dinheiro, sem dormir, trabalhando 20 horas por dia? Difícil responder honestamente.
Muitos dizem “o mundo é dos vivos”, “bonzinho só se f...”. Não cremos assim. Vivemos não para nós mesmos. Vivemos para poder deixar algo de bom para o próximo. Vivemos para que as nossas condutas possam servir de bom exemplo para os outros. Ninguém quer ser um Maluf. Mas todos gostaríamos de ser um Okwe, mesmo sabendo que não seríamos.
Isso porque ao comer “o pão que o diabo amassou” e não ceder ao que é errado, Okwe certamente passa orgulho aos telespectadores do filme. Um herói moderno. Sua conduta dá vontade de dizer “Okwe é o cara”. Problema maior é saber que não temos ao nosso redor pessoas com a coragem e a integridade de Okwe. Flagrantemente qualquer um do nosso meio cederia às chantagens de Juan, a fim de extirpar o sofrimento. Estaríamos todos errados? A resposta é íntima. Nossa consciência é quem nos julga.
Nossa sociedade carece de exemplos como o de Okwe. É normal em nosso país ser corrupto. Ocorre que Okwe se corrompeu por amor, não por ganância. Aí temos o limite. Por amor, qualquer coisa bela e suja é possível. Correta ou incorreta, cada um sabe de si. Exemplos para os outros? Difícil, mas não impossível.