terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Quatro Visitas

Trabalho em uma cidade com cerca de 8000 habitantes; atualmente, sou responsável pelo atendimento do "interior", que abrange em torno de 90% do território municipal. Muitos pacientes são impossibilitados de ir até as unidades de saúde, então vou até eles. Nesta última semana, fiz quatro visitas domiciliares.
A primeira foi para uma idosa com uma úlcera crônica em uma das pernas, segunda ela, "há quarenta anos". Ela morava com o marido, também idoso. Viviam em uma casa simples de madeira, ou melhor, sobreviviam. Era evidente que eles necessitavam do auxílio de alguém mais jovem para os afazeres domésticos e para os cuidados de saúde. Infelizmente, essa situação de abandono é bastante frequente, principalmente para os mais humildes.
Eu já tinha feito uma visita prévia ali, ela estava estável, então não havia muito o que fazer clinicamente. Apesar disso, quando estávamos de saída, ela me ofereceu uma nota de R$100, pois "você sempre vem me ver!". Surpreso, informei que mesmo que eu quisesse aceitar eu não poderia, e que tanto eu quanto a técnica e a agente de saúde estávamos sendo pagos para aquilo. Ela continuou insistindo, mas teve que se contentar comigo levando algumas balas que ela mantinha para as visitas. No carro, foi comentado que eles normalmente pagavam quando iam ao médico, por isso achavam estranho eu ir até lá e não receber nada. "Pois é, mas os tempos mudaram, eles vão ter que se acostumar", respondi com satisfação por poder dizer isso.
Em seguida, fomos ver outra paciente idosa, que tinha um quadro muito mais grave: câncer de vias biliares em estágio terminal. Era bem cuidada pelas filhas, estava medicada e não tinha queixas, mas era evidente a sua fragilidade. Ao deixar o quarto, a filha me perguntou quanto tempo mais ela tinha. É uma pergunta comum, minha resposta tende a ser suave: "ninguém pode prever o futuro, ela tem uma doença grave e incurável, mas está estável e muita coisa ainda pode acontecer". Essa lição, ao menos, eu aprendi:
"Uma coisa é certa: não lhe cabe a tarefa de vestir a toga negra e, assumindo a função de juiz, aniquilar a esperança de qualquer paciente... esperança que chega a todos nós." William Osler, citado no primeiro capítulo de Harrison - Medicina Interna 15a ed.   
O terceiro paciente também tinha um câncer terminal, sentia muita dores e eu sequer conseguia entender suas poucas palavras. Precisava de cuidados constantes, usava fraldas e tinha úlceras de decúbito. Ao contrário da paciente anterior, havia negligência dos filhos que estavam em conflito sobre quem deveria lidar com o "problema", que se prolongava há meses sem previsão para terminar. O sofrimento na casa era evidente, sendo compreensível que a família estivesse cansada. No entanto, eu nada poderia fazer para "resolver" o caso, podendo apenas oferecer algum conforto pela minha disponibilidade.
A última visita ocorreu no final da tarde de sexta-feira. Justamente nesse dia a unidade estava sem o carro da prefeitura, então me disponibilizei para fazer a visita com meu carro. A enfermeira, sorrindo, comentou que isso era algo inédito (não para mim, que fiz isso em quase todas as cidades em que trabalhei). Acredito que tenho uma dívida moral com a população brasileira, que custeou minha cara formação e, assim, permitiu que eu comprasse o meu veículo logo após formado.
Era uma paciente jovem, havia consultado um dia antes na emergência com quadro de cólica renal, mas no dia seguinte evoluiu com febre. Encontrava-se na cama debaixo das cobertas em meio a um dia ensolarado de verão, era óbvio que estava desenvolvendo um quadro de infecção renal. Senti-me realmente feliz por ter feito a visita, pois pude iniciar o antibiótico que evitaria maiores complicações. Missão cumprida, por enquanto.
* * *
Em 2007, fui convidado por uma vizinha a palestrar sobre o curso de Medicina em seu colégio, num evento com palestrantes de diversas áreas. Uma das coisas que eu falei para os jovens foi que minha vida não era mais fácil por eu ter escolhido ser médico, mas que com certeza ela era muito mais digna.
Não é fácil fazer visitas domiciliares, mas com certeza dignifica a minha vida. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Seicho-No-Ie e Espiritismo - Parte 3

            “O fato ou coisa que desejamos só se manifesta no mundo concreto se realmente nos é necessário e se invocamos as leis mentais com profunda convicção. (...)
Para fazer a Meditação Shinsokan, devemos nos sentar de maneira correta, juntar as palmas das mãos, fechar os olhos e concentrar a mente. A mente possui natureza dinâmica e está em constante atividade; por isso, mesmo que tentemos banir todos os pensamentos mundanais a fim de alcançar o estado de total concentração mental, podemos ter dificuldade em consegui-lo. Ainda que consigamos neutralizar a ação dos nossos pensamentos mundanais, não poderemos evitar a interferência das vibrações de pensamentos mundanais, ilusórios. Para expulsar não somente nossos próprios pensamentos negativos, mas também os dos outros que nos atingem em forma de vibrações mentais, devemos efetuar uma firme mentalização positiva que tem o poder de atrair coisas boas e fatos positivos. Procedendo conforme o método acima descrito, devemos fazer a Meditação Shinsokan todas as manhãs, durante 15 a 30 minutos, até sentirmos, do fundo da alma, a convicção: ‘Deus é onipotente e Ele está comigo; portanto, tudo que desejo se realizará infalivelmente.’ (...)
            O objetivo principal deste livro é intensificar a fé das pessoas, aumentando-lhes a compreensão da Verdade a ponto de se tornarem capazes de obter tudo que desejam sem precisar usar de artífcios, ou seja, simplesmente mentalizando com firme convicção ‘O que desejo já foi providenciado por Deus’.” Comande Sua Vida com o Poder da Mente Cap.3
            É notável a semelhança da Meditação Shinosokan com a prece cristã, embora a doutrina japonesa pareça ser mais pragmática. No entanto, se o processo também é eficaz, por que não tentar?
            “Antes de esperar domar o mau Espírito, é necessário domar a si mesmo. De todos os meios para adquirir a força para lá chegar, o mais eficaz é a vontade secundada pela prece, entenda-se a prece de coração, e não de palavras, para as quais a boca toma mais a parte do que o pensamento. É necessário rogar seu anjo guardião, e os bons Espíritos, para nos assistir na luta; mas não basta lhes pedir para expulsarem o mau Espírito, é necessário se lembrar dessa máxima: Ajuda-te, e o céu o ajudará, e lhes pedir, sobretudo, a força que nos falta para vencermos os nossos pendores, que são para nós piores que os maus Espíritos, por que são essas tendências que os atarem, como a corrupção atrai as aves de rapina. (...)
            A faculdade de curar pela imposição das mãos tem, evidentemente, o seu princípio numa força excepcional de expansão, mas é aumentada por diversas causas, entre as quais é necessário colocar em primeira linha: a pureza dos sentimentos, o desinteresse, a benevolência, o ardente desejo de aliviar, a prece fervorosa e a confiança em Deus, em uma palavra, todas as qualidades morais. A força magnética é puramente orgânica; pode ser, como a força muscular, dada a todo o mundo, mesmo a homens perversos; mas só o homem de bem dela se serve exclusivamente para o bem, sem dissimulação de interesse pessoal, nem satisfação do orgulho ou vaidade; seu fluido depurado possui propriedades benfazejas e reparadoras que não pode ter aquele do homem vicioso ou interessado.” Allan Kardec em Obras póstumas, Manifestações dos Espíritos, nº58 e 52
            A partir de hoje, meditarei diariamente, em quatro passos:
            1- Desejando que eu cumpra minha missão de aliviar o sofrimento alheio com êxito, sem orgulho ou vaidade.
            2- Desejando que as pessoas próximas também cumpram suas missões e sejam felizes, e que eu sirva de exemplo para elas.
            3- Desejando que eu encontre as pessoas certas para a minha felicidade e que ela seja duradoura.
            4- Desejando receber alguma inspiração vinda do “Universo”, como no filme O Último Samurai, na visão profética do tigre branco acuado na floresta.
            (continua)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O SUS é o Meu Mundo

Eu costumava fazer um trocadilho com o site da agência de publicidade OneWG, www.osuleonossomundo.com.br, dizendo que gostaria de usar uma camiseta com a frase: "O SUS é o meu mundo". De fato, tenho estado inserido nele por nove anos e não tenho planos de deixá-lo tão cedo.
Ano passado, durante uma reunião de equipe, mostrei a música Isn't it a Pity do George Harrison e comentei que tinha orgulho de ser um funcionário público, pois não precisava tirar nada das pessoas, apenas contribuir para o bem estar delas. Em seguida, a enfermeira comentou que  amava seu trabalho, por isso recusara outras oportunidades de emprego aparentemente melhores para seguir carreira no serviço público.
Steve Jobs conta em seu discurso de Stanford que perceber que ele amava o que fazia foi o que o motivou a continuar no ramo da tecnologia após ser demitido da Apple. Identifico-me com isso, recentemente comentei com duas colegas: "Já que minha vida pessoal é uma tragédia, pelo menos no meu trabalho eu tenho que ser bom". A Medicina me motiva a ser alguém melhor, logo, amo o que faço.
Esta semana, um médico com quem iniciei amizade há alguns meses comentou que não esquecia uma frase que eu havia dito sobre trabalhar na Estratégia Saúde da Família: "Eu vou para o posto feliz e volto para casa feliz.". Tenho sorte, pois acredito que esse não seja um sentimento comum da modernidade.
De vez em quando, alguém me pergunta se eu ainda não "enchi o saco". Logicamente, minha resposta é não. Proporcionar um atendimento de qualidade onde não se espera qualidade é a minha forma de seguir uma dica simples, porém poderosa: "Dê sempre mais do que as pessoas esperam". Dormir à noite sabendo que meus pacientes estão gratos não tem preço, assim como ter "o meu lugar " no mundo.
* * *
Após três anos de formado, após trabalhar em seis prefeituras catarinenses, tenho algumas concepções gerais sobre o Sistema Único de Saúde:
1- A demanda por atendimento médico é superior a oferta, por isso cada cidade cria mecanismos para diminuir a demanda, geralmente limitando o número e o horário de atendimento. Frequentemente isso é justificado com a idéia de que o atendimento médico não é o foco da ESF. Isso pode até ser verdade, mas para mim é bastante óbvio que uma pessoa doente procure um médico, é isso que eu desejo para mim e para minha família. Em pesquisa realizada recentemente com usuários do SUS, a falta de médicos foi citada como um dos principais problemas enfrentados.  
2- Embora um grande número de estudantes se formem todos os anos em Medicina, a maioria deles não deseja trabalhar como clínico geral nas Unidades Básicas de Saúde. Além de não ser um trabalho fácil, a remuneração costuma ser menor em comparação ao atendimento especializado, principalmente no setor privado. No entanto, acredito ser comum médicos trabalharem na Atenção Básica por falta de opções, o que explica a má qualidade de alguns serviços. Durante aula para o curso de Medicina da UFSC em 2003, o professor Marcos da Ros, ao comentar a implantação do PSF no estado, disse que o que fazia diferença nos lugares onde o programa funcionava era justamente a crença ideológica dos profissionais envolvidos.
3- A demanda por exames também é superior à oferta, o tempo de espera pode ser longo, o que faz com que muitos usuários paguem pelos exames em clínicas particulares. Em casos urgentes (por exemplo, suspeita de câncer), um mecanismo encontrado por médicos para realizar gratuitamente exames de alta complexidade é a internação hospitalar. Uma tomografia computadorizada, que ambulatorialmente demora em torno de seis meses, pode ser feita em um ou dois dias dentro de um hospital. Funciona, mas um leito é ocupado de forma desnecessária.
4- As prefeituras compram os medicamentos através de licitação, consequentemente, são disponibilizados os remédios mais baratos do mercado. Teoricamente, todo medicamento é fiscalizado e tem sua eficácia comprovada, mas como explicar que o mesmo fármaco possa ter uma variação no preço de 500% dependendo do laboratório que o fabrica? Você preferiria tomar uma Fluoxetina de R$15 ou uma de R$100? Já ouvi relatos de diferença na eficácia de antibióticos, anti-hipertensivos, ansiolíticos e antidepressivos, em diferentes cidades.
5- Com exceção dos médicos, a maioria dos funcionários da saúde têm seus salários defasados, o que é, no mínimo, desmotivante. Num mundo regido pela lei da oferta e da procura, somente profissionais em falta no mercado parecem ser valorizados pelos administradores, o que pode interferir diretamente na qualidade do serviço ofertado.
6- A maior parte das decisões administrativas se encontram em poder das prefeituras, assim, a maioria dos problemas podem ser amenizados dependendo da "vontade política" local. Em outras palavras, a qualidade do serviço de saúde depende de escolhas simples realizadas por quem está mais próximo da população. Esta, por sua vez, tem maior proximidade com seus prefeitos e vereadores que, através do voto direto, são elegidos. Já trabalhei em cidades compromissadas em fazer o melhor possível, mas também em cidades que sequer disfarçavam suas intenções de oferecer um serviço medíocre. Por bem ou por mal, a política faz grande diferença.
7- Apesar das óbvias limitações, eu costumo dizer que "há vinte anos, o SUS nem existia". Impulsionado pelo crescimento econômico do país, é inegável que hoje exista uma estrutura razoável para atender a população que, em sua maior parte, depende do sistema público. Considero-me parte ativa dessa construção, por isso procuro manter meu foco nas possibilidades do futuro em detrimento das limitações do presente. Em vinte anos, quem sabe, terei um pequeno legado.
* * *
          "Ora, se não eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição." O Velho e o Moço, composição de Rodrigo Amarante lançada pelos Los Hermanos em 2003, no álbum Ventura.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Waichiro

Novamente postarei um texto do meu irmão Diogo, pois essa história também faz parte de mim.
* * *
Infelizmente não vivi minha infância e adolescência no entorno e na companhia diária dos meus avós maternos. Cresci em Criciúma, ao passo que eles mantiveram suas raízes fincadas no município de Suzano, no Estado de São Paulo.
Em razão da distância, e numa época em que não existiam vôos promocionais com a mesma frequência que nos dias de hoje, nos víamos uma ou duas vezes por ano. O trajeto rendia aproximadamente 10 horas de viagem de carro.
Meu avô materno é Waichiro Matsuoka. Contava minha mãe que ele foi um imigrante japonês que, juntamente com sua família, fugiu da 2ª Guerra Mundial e aportou no Brasil com 4 anos de idade. Cresceu no Estado de São Paulo e, quando adulto, trabalhou em granjas fazendo o transporte dos ovos em sua folclórica Kombi. Foi desta forma que ele criou e sustentou a sua família com êxito.
Poucas são as lembranças. Talvez pelo convívio não tão próximo. Talvez pelo fato dele ter falecido quando eu tinha 16 anos. Todavia, as memórias que ficaram - e que serão levadas comigo para sempre - são o que realmente importa.
Dentre elas, as vividas na Praia da Barra, localizada em Garopaba, local em que meu pai possui uma casa de veraneio. No início da década de 90, meus avós maternos vinham passar alguns dias conosco na praia. Naquela época, eu tinha entre 10 e 12 anos de idade.
O Sr. Waichiro, com todo o profissionalismo (pelo menos era o que aparentava), trazia consigo um arsenal de pesca. Coisas jamais vistas por mim, um mero garoto urbano que gostava era de chutar bola. Ao ir às pedras que contornam a praia, meu avô sempre voltava com as mãos abanando. O mar nunca estava para peixe – pelo menos para o grande pescador Matsuoka.
A desculpa dele: “sempre pesquei em alto-mar, em grandes embarcações, aqui é diferente”. Ele sempre me convencia. Qual a saída? Mudávamos o foco. Nós nos dirigíamos à barra que desembocava na praia e saíamos à caça de siris.
Aprendi a chamar de “coca” o instrumento em que “encaçapávamos” os bichinhos. Era uma correria tremenda. Passávamos horas atrás dos siris, cada um com seu artefato de pesca às mãos.
Naquela época, a Praia da Barra era quase deserta. Não havia nem 1% da badalação que ela ostenta hoje. Poucas casas, água da barra limpa e muitos (mas muitos mesmo) siris.
O Sr. Waichiro sanava a sua frustração com a falta de peixes enchendo baldes de siris. Só parávamos quando escurecia e acabava o dia. O que fazíamos com os milhares de siris dentro dos baldes? Devolvíamos ao seu magnífico habitat natural.
Voltávamos para a casa com a certeza de que no outro dia teria mais. Lembro do Seu Waichiro dizendo: é muito divertido! De fato era.
Em uma das últimas visitas que fiz ao meu avô japonês antes do seu falecimento na cidade de Suzano, lembro que eu estava na sala vendo TV e ele chegou para ver também. Eu era muito jovem e, talvez em razão disso, nossas conversas não fluíam. Mas lembro que naquela tarde meu avô quis me contar um pouco da história dos “Matsuokas”. Disse que nossos antepassados eram samurais. Fez questão de frisar que os “Matsuokas” eram guerreiros e não se acovardavam diante de uma batalha, por mais difícil que ela fosse.
Esta lembrança jamais apagarei da minha memória. Ser guerreiro é o meu dever. Que seja o de todos nós. A batalha está e sempre estará nos aguardando.
Escutem seus avôs. Eles sempre serão responsáveis por inúmeras lembranças no futuro, a maior parte delas edificantes e inesquecíveis.