sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Waichiro

Novamente postarei um texto do meu irmão Diogo, pois essa história também faz parte de mim.
* * *
Infelizmente não vivi minha infância e adolescência no entorno e na companhia diária dos meus avós maternos. Cresci em Criciúma, ao passo que eles mantiveram suas raízes fincadas no município de Suzano, no Estado de São Paulo.
Em razão da distância, e numa época em que não existiam vôos promocionais com a mesma frequência que nos dias de hoje, nos víamos uma ou duas vezes por ano. O trajeto rendia aproximadamente 10 horas de viagem de carro.
Meu avô materno é Waichiro Matsuoka. Contava minha mãe que ele foi um imigrante japonês que, juntamente com sua família, fugiu da 2ª Guerra Mundial e aportou no Brasil com 4 anos de idade. Cresceu no Estado de São Paulo e, quando adulto, trabalhou em granjas fazendo o transporte dos ovos em sua folclórica Kombi. Foi desta forma que ele criou e sustentou a sua família com êxito.
Poucas são as lembranças. Talvez pelo convívio não tão próximo. Talvez pelo fato dele ter falecido quando eu tinha 16 anos. Todavia, as memórias que ficaram - e que serão levadas comigo para sempre - são o que realmente importa.
Dentre elas, as vividas na Praia da Barra, localizada em Garopaba, local em que meu pai possui uma casa de veraneio. No início da década de 90, meus avós maternos vinham passar alguns dias conosco na praia. Naquela época, eu tinha entre 10 e 12 anos de idade.
O Sr. Waichiro, com todo o profissionalismo (pelo menos era o que aparentava), trazia consigo um arsenal de pesca. Coisas jamais vistas por mim, um mero garoto urbano que gostava era de chutar bola. Ao ir às pedras que contornam a praia, meu avô sempre voltava com as mãos abanando. O mar nunca estava para peixe – pelo menos para o grande pescador Matsuoka.
A desculpa dele: “sempre pesquei em alto-mar, em grandes embarcações, aqui é diferente”. Ele sempre me convencia. Qual a saída? Mudávamos o foco. Nós nos dirigíamos à barra que desembocava na praia e saíamos à caça de siris.
Aprendi a chamar de “coca” o instrumento em que “encaçapávamos” os bichinhos. Era uma correria tremenda. Passávamos horas atrás dos siris, cada um com seu artefato de pesca às mãos.
Naquela época, a Praia da Barra era quase deserta. Não havia nem 1% da badalação que ela ostenta hoje. Poucas casas, água da barra limpa e muitos (mas muitos mesmo) siris.
O Sr. Waichiro sanava a sua frustração com a falta de peixes enchendo baldes de siris. Só parávamos quando escurecia e acabava o dia. O que fazíamos com os milhares de siris dentro dos baldes? Devolvíamos ao seu magnífico habitat natural.
Voltávamos para a casa com a certeza de que no outro dia teria mais. Lembro do Seu Waichiro dizendo: é muito divertido! De fato era.
Em uma das últimas visitas que fiz ao meu avô japonês antes do seu falecimento na cidade de Suzano, lembro que eu estava na sala vendo TV e ele chegou para ver também. Eu era muito jovem e, talvez em razão disso, nossas conversas não fluíam. Mas lembro que naquela tarde meu avô quis me contar um pouco da história dos “Matsuokas”. Disse que nossos antepassados eram samurais. Fez questão de frisar que os “Matsuokas” eram guerreiros e não se acovardavam diante de uma batalha, por mais difícil que ela fosse.
Esta lembrança jamais apagarei da minha memória. Ser guerreiro é o meu dever. Que seja o de todos nós. A batalha está e sempre estará nos aguardando.
Escutem seus avôs. Eles sempre serão responsáveis por inúmeras lembranças no futuro, a maior parte delas edificantes e inesquecíveis.

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