Não estando plenamente satisfeito com meu emprego na época, tentei me inscrever na primeira fase do programa. Porém, após incontáveis tentativas, não consegui enviar parte da documentação pela internet e fiquei de fora. Nesta segunda leva, já desempregado, consegui enviar os documentos, mas perdi o interesse após saber que estaria "atrelado" ao programa por pelo menos 6 meses:
"O abandono do programa antes de 180 dias sem justificativa implicará restituição de todos os valores referentes à ajuda de custo."
Neste ano, fiquei 8 dias em uma ESF, 9 dias em outra e, na última, menos de 3 meses. Ficar obrigatoriamente por 6 meses já me é um bom motivo para não aderir ao programa. Na verdade, a vinculação é de muito mais, 3 anos:
"Em Caratinga (MG), um médico de 26 anos disse que abandonou devido à vinculação obrigatória de três anos." http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/09/1336610-profissionais-questionam-infraestrutura-e-exigencias-do-mais-medicos.shtml
Meu avô, no alto de seus 86 anos, riu quando soube que o programa era de 3 anos, afirmando em seguida: "Esse negócio não é pra ti, não, meu neto!" Atitude sábia é ouvir quem nos conhece, sem sombra de dúvida.
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A primeira imagem que vi dos médicos estrangeiros foi em uma calorosa recepção no aeroporto. Eles se mostravam felizes e bem dispostos para o trabalho em solo brasileiro, pensei que talvez eu conseguisse manter o mesmo sorriso se tivesse "comido o pão que o diabo amassou" para me formar em Medicina. Mas tive o luxo de estudar em Florianópolis e não em Havana.
Num segundo momento, houve a hostilização por parte de um grupo de médicos brasileiros contra os estrangeiros. A ação foi amplamente repudiada e, durante um almoço recente com amigos, tive que admitir que havia sido uma "queimaceira de filme" da minha classe profissional. Imagino que eu possa ter contato com colegas estrangeiros e de maneira alguma pretendo causar transtornos a eles, pelo contrário. Estamos na mesma "barca", se ela está furada, afundaremos juntos.
Em uma das entrevistas que vi na televisão, um médico estrangeiro fez um discurso confuso, aparentemente sem sentido, deixando no ar que haveria uma óbvia dificuldade na comunicação de alguns profissionais. Esse é um lado negativo do programa, contratar profissionais caros que a população pode não aceitar pelo simples fato de não conseguirem conversar com eles.
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Pelos noticiários, soube que aderiram ao programa médicos brasileiros formados na Argentina. Desde o começo pensei comigo mesmo que esses não teriam maiores dificuldades para atuar aqui. Trabalhei ano passado em uma pequena cidade que possui 2 "filhos" estudando Medicina em Buenos Aires, imagino que quando formados eles irão trabalhar nesta cidade, que sofre com a carência crônica de médicos. Um caso parecido já acontece em Lauro Muller:
"É um momento de gratidão, porque foi Lauro Müller que me ajudou a estudar. Foram os meus pais que pagaram os meus estudos. Eu considero isso uma troca, pois o município me proporcionou a minha faculdade e agora eu quero retribuir tudo isso com muito trabalho. E também vou poder estar perto da minha família. Isso é muito bom."
Durante um almoço com um casal de médicos no último final de semana, comentei sobre os nossos médicos "argentinos", complementando: "Acho que pode dar certo." Eles ficaram surpresos e ela, rindo, verbalizou: "Não pode dar certo!" Estamos curiosos para ver os resultados deste programa, mesmo que ele não sirva para nós. Vivemos um momento histórico e, a esta altura, só espero que tudo ocorra da melhor maneira possível.