sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Tested


Há cerca de 5 anos, ouvi de um palestrante em um centro espírita que Deus frequentemente nos testava. O senhor de meia-idade fazia palestras ao menos uma vez ao mês e transparecia bastante sabedoria. Jamais esquecerei de sua alerta: "Deus frequentemente nos testa".
No último final de semana, viajei para o litoral como faço rotineiramente para relaxar. No primeiro pedágio da BR-101, durante meu atendimento, alguém da fila ao lado buzina. Olho para trás para ver do se trata, volto para a atendente que, distante, entrega-me o troco: R$7  e algumas moedas. Por um segundo mentalizo a nota que acabara de entregar e instintivamente devolvo uma nota de R$5: "Eu lhe entreguei R$5." Ela confere a nota recém guardada, confundida com uma de R$10, e me pede desculpas, um pouco atordoada. "Imagina (não precisa pedir desculpas)", digo acelerando o carro, pois  o próximo cliente aguardava.
Ela devia estar tão acostumada a pedir desculpas que foi isso que fez ao invés de dizer uma simples palavra, "obrigada". Fiquei sensibilizado com sua situação. Uma senhora de meia-idade tendo que aguentar gente que buzina em uma fila de pedágio, que no final do mês teria seus erros de cálculo descontados de seu humilde salário. Estava visivelmente fadigada, por um momento me perguntei se não seria efeito de algum remédio (ou a falta de) e me senti mal por ainda vivermos num mundo onde o trabalho constantemente adoece as pessoas.
No outro dia, como faço sempre que vou ao litoral, fui ao drive-thru de minha rede de fast-food predileta. Fiz meu pedido habitual e, como de costume, não conferi o troco. Estacionei em frente à lanchonete e, após a refeição, procurei no bolo de notas entregues uma de R$2 para o próximo pedágio. Estranho, só notas de R$5. Ela me entregara R$6 a mais. Lembro-me do episódio do pedágio e sorrio, perguntando-me se esse "deja-vu" era apenas uma coincidência.
Olho para o drive-thru, vazio. Imagino que o teste era vencer minha timidez. Devolver o troco no pedágio foi fácil, quero ver voltar dez minutos depois da falha e fazer o mesmo. Lá vou eu, decido fazer um novo pedido para facilitar o procedimento. Ao pagar, recordo a atendente: "Comprei um Big Mac antes, você me entregou R$6 a mais de troco, então desconta daqui", solicito lhe entregando R$20.
Ela me agradece surpresa e fica segurando as notas, sem saber ao certo o que fazer. Torno a explicar: "Agora deu R$12,5, mais R$6 de antes dá R$18,5, é só me devolver R$1,5." Ela imediatamente entende e me devolve o troco, sorrindo mais uma vez. Ela devia ter no máximo 20 anos, talvez fosse seu primeiro emprego e imaginei novamente que seu erro seria descontado de seu humilde salário. Missão cumprida. De brinde, mais sanduíches.
Dirijo-me ao próximo guichê, desligo o carro. Instantes depois, duas funcionárias saem e sentam numa calçada ao lado do meu carro, como se estivessem no horário de folga. Tenho a impressão de que sou observado, mas logo a ignoro, só podia ser minha típica mania de grandeza.
Ao me entregar a encomenda, o atendente, também jovem, comenta: "Fiquei sabendo da sua atitude, queria lhe agradecer" diz cumprimentando-me com a mão direita, "é muito difícil encontrar pessoas como você." Nesse momento tenho vontade de esconder meu rosto num buraco no chão, mas como estou no meu carro, digo "muito obrigado" com um sorriso constrangido para baixo e acelero novamente rumo a rodovia.
* * *
Na minha opinião, o auge da banda norte-americana Bad Religion é bem representado pelo álbum Tested de 1997, sendo uma compilação de 27 faixas gravadas ao vivo no ano anterior, em shows nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Estônia, Dinamarca, Itália e Áustria. Destaque para o recém-chegado Brian Baker, perfeito nas 6 cordas. Há 3 faixas inéditas: Dream Of Unity, It's Reciprocal e, claro, Tested:
"They say there's a place free of trouble and care and you have to pass a test for to make it there. It has something to do with the road that's straight and narrow and the only way to go it is by being right and thorough. There's always one more hill to climb, there's always one more hill to climb  (...) Guided by subconscious voices, astute and sharpened; tested, tested..."
http://youtu.be/ZQEeXPkvQiM

domingo, 12 de agosto de 2012

A Irmandade da Guerra (Tae Guk Gi) 2004


Meu irmão colecionou DVDs de filmes desde 2007, recentemente adquiri parte de seu acervo e subitamente tive à disposição centenas de títulos. Dessa forma, ficou claro meu gênero preferido: o primeiro filme que vi foi Tigerland (2000), sobre o treinamento dos americanos em 1971 antes de embarcar para o Vietnã; o segundo foi esse espetacular filme sul-coreano que retrata a guerra da Coréia no período de 1950-1953.
O longa-metragem narra a trajetória de dois irmãos sul-coreanos (o mais novo com dezoito anos) que são forçados a entrar no exército após a invasão comunista. A tragédia da guerra é exposta de forma explícita, simbolizada pela gradual ruína da relação familiar. Nos extras do DVD, comentasse que o objetivo do filme era justamente mostrar a importância de se manter a paz; ao meu ver, essa meta é cumprida de forma maestral.
A Coréia fica encravada entre a China e o Japão, talvez por isso seja marcada por guerras. Em 1895 foi "liberta" dos chineses pelos japoneses, que impuseram seu domínio entre 1910-1945. Com a vitória da China e dos Estados Unidos na Segunda Guerra, a Coréia foi ridiculamente dividida em duas metades pelo paralelo 38. O resto todo mundo sabe: formaram-se dois países completamente diferentes, embora com a mesma origem, o mesmo povo.
Imagino que seria como dividir Santa Catarina em duas metades, usando um paralelo como referência. Eu ficaria dividido da minha família sulista; se entrássemos em conflito, eu poderia enfrentar meu irmão num campo de batalha.  É difícil imaginar algo tão estúpido, mas é isso que nos é mostrado de forma crua.
Na primeira batalha, um dos soldados, ao se ver sitiado pelo inimigo, questiona se valia a pena matarem uns aos outros por uma ideologia quando eles sequer tinham o que comer. De fato, a guerra parece ser mais lógica quando entre povos diferentes, mas a História está repleta de exemplos como o da Coréia.
Embora seja relatado a trajetória sul-coreana, tem-se o cuidado de mostrar que ambos os lados cometeram atrocidades. Quando o Sul invade o Norte com a ajuda dos US Marines, há um episódio em que eles estão prestes a executar prisioneiros recém capturados quando o irmão mais novo os interrompe, fazendo a óbvia comparação: eles eram tão cruéis quanto os comunistas.
Nos extras, fala-se que, embora houvesse um compromisso histórico, eles tiveram o cuidado de não fazer um documentário sobre a guerra. Realmente, é uma ficção que tem como cenário o conflito, mas esse embasamento dos fatos interfere na narrativa, sendo, na minha opinião, um dos defeitos do filme: tentar ser completo demais.
O longa tem quase duas horas e meia de duração e o diretor comenta que algumas cenas foram cortadas por falta de orçamento (!). O roteiro vai se perdendo à medida que tenta abraçar várias nuances da guerra, como a perseguição aos "comunistas" sul-coreanos, chegando ao "incrível" encontro dos irmãos, agora em exércitos rivais, lutando face a face em meio ao caos do paralelo 38.
Eu diria que o grande destaque são as atuações. Duas cenas são especialmente tocantes: a mãe desesperada correndo atrás do trem que, de uma hora para outra, leva os dois irmãos para a guerra; e o encontro final dos irmãos, na qual o mais novo, agora acompanhado da neta, revolta-se perante à recém descoberta ossada de seu irmão: "O que você está fazendo aqui? Você prometeu que iria voltar."
Assisti esse filme no domingo passado sozinho em casa saboreando um de meus vinhos prediletos, o argentino Finca La Linda - Tempranillo. Nunca imaginei que isso fosse ocorrer em meio a uma ficção cinematográfica, mas chorei como uma criança nesta cena final. Se você tiver um irmão e não se importar em ver "um pouco" de sangue, recomendo esta bela obra.