domingo, 21 de abril de 2013

Marte em Minhas Mãos


Minha mãe estudara Quiromancia e lembro dela dizer algo sobre um sinal em uma de minhas mãos, referente a Marte. Não sei onde o sinal se encontra, mas lembro de seu significado: meus ataques de fúria onde, por exemplo, quebrava meus brinquedos. Eu tinha que "ter cuidado", era sua preocupação.
Imagino que minha personalidade não tenha mudado muito. Marte é o deus da guerra, rege Áries, um signo de fogo. Denota iniciativa e movimento, mas também está ligado a destruição. Eventualmente, tenho vontade de destruir tudo. Cativo as pessoas, mas um dia vou embora, agindo com uma frieza que beira a crueldade.
A doutrina espírita dá destaque ao perdão, há muito tempo tenho lutado para aplicar esse ensinamento em meu cotidiano, o que me é realmente difícil. Embora eu goste de dizer que "o tempo cura todas as feridas", em muitos casos minha mágoa permanece indefinidamente. É comum não dar uma segunda chance, simplesmente prefiro seguir outro caminho.
Recentemente comentei com um casal de tios que, embora eu tenha praticado tênis e natação da infância, eu não conseguia me destacar nas competições e por isso fui me desmotivando nessas modalidades. Então comecei a jogar xadrez e o resultado neste esporte era outro; eu conseguia "destruir" meus adversários, passando boa parte da adolescência em cima dos tabuleiros.
Foi uma válvula de escape para minha agressividade, trouxe-me disciplina, tornou-me mais sociável e confiante. Ao me sentar para fazer a prova de um dos vestibulares mais concorridos do país, eu notei como o sentimento ali era parecido com o que vivenciava antes de iniciar uma partida em campeonatos. Embora um pouco apreensivo, eu sabia que estava pronto para "detonar" e ali não foi diferente.
Acredito que Marte tenha sido responsável por grandes conquistas em minha vida, ao mesmo tempo que tenha motivado grandes perdas. Orgulho e arrependimento continuam sendo sentimentos comuns no meu caminho, ainda preciso ter todo o cuidado, conforme alertado há muitos anos pela pessoa que mais me conheceu e amou.

* * *

Por algum motivo, gosto da temática da guerra, especialmente a Segunda Guerra Mundial. Recentemente voltei a fazer plantões em emergências e um colega, ao saber de meu interesse (eu lia "Cartas do Front", uma seleção de relatos reais sobre diversas batalhas), comentou  que em uma vida passada eu devia ter sido um combatente.
Mais tarde, durante o jantar, eu disse que ler o livro fazia com que eu valorizasse mais a nossa realidade atual. Embora algumas vezes a emergência de um hospital se assemelhe a uma zona de conflito, com mortes, desespero e hostilidades, ao final do plantão, podemos voltar para casa com as pessoas que amamos. Vivemos tempos de relativa paz, sem o horror que uma guerra proporciona.
Interessante que, se em outra vida eu feri outros homens, nesta eu faço justamente o contrário, como uma forma de compensação kármica. Ao suturar o rosto de um homem vítima de assaltantes, anulo o mal que outrora possa ter causado. Se em tempos passados fomos obrigados a guerrear, hoje temos a oportunidade de estudar e usar nossa coragem para o bem.
Uma passagem genial do livro de Andrew Carroll é sobre um episódio da Primeira Guerra Mundial, onde, no Natal de 1914, ingleses e alemães viveram alguns dias sem hostilidades. O relato abaixo é de um soldado inglês em carta para sua mãe:
"Creio que testemunhei hoje o mais extraordinário espetáculo que já se viu. Por volta das 10h, eu urinava sobre o parapeito quando avistei um alemão acenando com os braços. Na mesma hora, dois outros saltaram das trincheiras e vieram em nossa direção – em um primeiro momento, pensamos em atirar, até percebermos que estavam desarmados. Então, um de nossos homens foi ao encontro deles e, em menos de dois minutos, o terreno entre as duas linhas de trincheiras formigava de homens e oficiais de ambas as partes, que trocavam apertos de mão e desejavam-se um Feliz Natal.
Pelo resto do dia, ninguém disparou um tiro sequer e os homens ficaram vagando à vontade acima do terreno, carregando palha e lenha em campo aberto – também organizamos funerais para alguns mortos – alguns alemães e outros nossos – que jaziam entre as linhas. Alguns de nossos oficiais lideravam grupos de soldados ingleses e alemães. Essa inesperada trégua surgiu de improviso, não houve acordo prévio qualquer e, é claro, fora decidido que não haveria cessar algum das hostilidades."

Um soldado alemão também comenta o episódio em carta para seu pai:
"Jamais esquecerei o Natal de 1914. Os ingleses irromperam em uma canção de Natal, à qual respondemos com 'Stille Nacht, heilige Nacht' (Noite feliz). Foi um momento comovente – inimigos cheios de ódio e rancor cantavam ao redor de uma árvore de Natal. Por toda minha vida, jamais esquecerei essa cena."

Apesar de Marte em minhas mãos, essa passagem fascinante me faz lembrar que o meu desejo mais intrínseco é por paz. Paz comigo mesmo, paz com as pessoas que eu amo e, finalmente, paz com as pessoas que eu possa odiar.