terça-feira, 24 de novembro de 2015

Histórias

Há mais de vinte anos atrás, minha mãe reuniu sua prole e contou uma história sobre a família de sua mãe, filha de imigrantes japoneses. Eis o que recordo da narrativa: minha avó era uma das filhas mais novas e, ainda criança, passou por uma tragédia familiar; um irmão chutou as costas de uma irmã, deixando-a paraplégica. Devastados, os pais acabaram morrendo de desgosto. Lembro que meu irmão mais velho questionou essa causa, "como assim, de desgosto?" Ela, porém, não soube explicar melhor a morte de seus avós; fora de tristeza, simplesmente.

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Quando minha avó paterna adoeceu, havia uma suspeita de transtorno de humor; ela, inclusive, estava fazendo uso de um antidepressivo. No entanto, o quadro me parecia uma demência avançada: fala incoerente e déficit cognitivo acentuado, além de dificuldade motora. Mesmo assim, um tio insistiu tanto no diagnóstico de depressão que chegou a convencer os médicos de Porto Alegre, feito que injetou nova esperança na família, embora eu continuasse cético (de fato, a melhora esperada nunca ocorreu).

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Esse tio sofria de uma doença auto-imune de pele. Este ano, sua esposa comentou que o problema devia ter um fundo emocional, pois começara após atritos profissionais em 2010 e se agravara ano passado, após a morte de minha avó. Há cerca de dois meses, ele iniciou com sintomas depressivos associados a um quadro pulmonar incipiente, que enganou dois pneumologistas. Após aparecerem lesões inflamatórias de pele, foi internado já em insuficiência respiratória, tendo o diagnóstico inicial de vasculite pulmonar.
Na UTI, conforme seu estado ia piorando, alguns familiares me perguntaram se eu não achava parecido com o caso de sua mãe. Respondi que não, ela teve um quadro neurológico e ele permanceu lúcido até ser sedado por conta da respiração mecânica. No entanto, após alguma reflexão, concluí que suas patologias tiveram similaridades. Ela pode ter tido uma encefalite auto-imune (talvez desencadeada por fatores emocionais), o que explicaria sua rápida e inexorável piora.
Meu tio provavelmente teve uma pneumonite auto-imune, talvez desencadeada por fatores emocionais; também teve uma evolução catastrófica, sem resposta aos medicamentos. No seu velório, há duas semanas, seus irmãos mais novos lembraram que agora ele estava com a schreiber ("escrivã" em alemão, profissão da matriarca). Embora não tenhamos ascendência germânica, eles foram criados no noroeste gaúcho, o que justifica o carinhoso apelido.

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Seguindo a doutrina espírita, acredito que escolhemos encarnar na Terra, embora não saibamos ao certo o que enfrentaremos. Eu usaria como analogia os soldados da Easy Company, retratados na série Band of Brothers: somos pára-quedistas desembarcando em um território hostil; nossa viagem é imprevisível e pode acabar a qualquer momento, mas temos uma missão cumprir e seguimos em frente. Alguns sobreviverão para contar história.