quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Músicos

Há cerca de um mês, levei meu avô para conhecer São Francisco do Sul, onde um de seus filhos mora há três anos. Na sala de estar, haviam dois violões; peguei um, meu primo mais novo pegou o outro e começamos a afiná-los. Meu avô sentou e esperou que tocássemos, como não sabíamos nenhuma música em comum, improvisamos um ritmo de blues. Ao fim, meu avô perguntou se eu ainda tocava guitarra; respondi-lhe que apenas em casa, sozinho. Com a voz suave, ele disse que eu não deveria parar.

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Três meses atrás, fui a uma festa de aniversário de um amigo de adolescência, atualmente vocalista de um conjunto promissor. Na garagem de sua casa de praia, foram montadas uma bateria e um amplificador, onde foram plugadas uma guitarra e um contra-baixo. Alguns convidados tentaram tocar algumas músicas, mas aparentemente não houve uma sintonia entre eles. Ao buscar uma nova bebida, solicitaram-me que assumisse o baixo e eu não tive coragem de dizer não.
Após uma tímida interação musical, o guitarrista (na verdade, um baixista que, como eu, estava com o instrumento trocado) começou a fazer o riff de uma canção que eu não escutava há mais de dez anos. Comecei a acompanhar a melodia e, quase inexplicavelmente, veio-me as notas seguintes da base: fá, sol, voltando para fá. Ao perceberem minha execução correta, ele e o baterista se empolgaram e, a partir dali, entramos em franca harmonia.
Mais tarde, um outro guitarrista entrou em cena; sem esconder a satisfação de voltar a interagir com outros músicos, permaneci nas frequências baixas. Depois de mais uma execução inspirada, ele fez um comentário e eu, quase envergonhado, confessei: "Acho que nunca escutei essa música antes." Certa surpresa no ar, como eu poderia tocar uma canção desconhecida de forma tão fluente?

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Há alguns anos, estávamos reunidos na varanda da casa de meus avós, onde uma seleção regional vinha do estéreo. Uma prima trouxera seu violão, como a conversa esfriara, peguei-o. Sua mãe protestou: "Não, duas músicas ao mesmo tempo não dá!" Sereno, informei que iria apenas fazer o acompanhamento; ela ficou atenta, como se dissesse: "Quero ver." Após afinar o instrumento, fiz uma linha criativa que deu um ar de modernidade à canção gauchesca; minha tia acabou se rendendo e, instantes depois, comentou sobre talento musical.

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Mês passado, a convite de meu primo mais velho, fui a um festival de jazz na capital gaúcha; não sabíamos o que encontrar, mas a impressão inicial foi positiva: um salão amplo com pessoas elegantes e opções de comes e bebes. A primeira atração me foi uma experiência inédita: dois pianos, um de frente para o outro; pai e filho, mestre e aprendiz. Em certo momento, foi sugerida uma melodia dos Beatles; olhei para meu primo, falando ao mesmo tempo que ele: "Yesterday."

"Pianistas de duas gerações diferentes que são referências na música instrumental do Rio Grande do Sul, pai e filho realizam um encontro emocionante. Paulo Dorfman, o grande homenageado da primeira edição do Porto Alegre Jazz Festival, é maestro, arranjador e professor de música, e já formou diversos alunos que hoje se destacam no Brasil e exterior. Também professor de música, Michel iniciou seus estudos ao lado do pai e se tornou um dos mais talentosos pianistas de sua geração. Hoje, é um dos mais requisitados músicos gaúchos, e já ganhou dois prêmios Açorianos como melhor pianista."

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Guitarra

Há duas semanas, visitei meu primo no litoral norte catarinense e ele me mostrou um video onde ele tocava com outro guitarrista. Em um palco, para uma platéia de jovens, o "Santos" executava o solo enquanto o parceiro fazia a base e cantava uma bela música. Ele comentou que eles trocaram de guitarras, pois a do outro desafinava e, sendo a base mais importante, seria melhor feita com o instrumento que, há exatos dois anos, tenho o orgulho de ter consertado.
O braço estava torto e, além disso, meu primo tinha um set de captadores da Fender novos na caixa, sem uso. Como eu conhecia um luthier profissional em Florianópolis, levei-a para ser "envenenada" com o Hot Noiseless. Apesar das limitações da Yamaha Stratocaster (por exemplo, ela é demasiadamente leve), a peça ficou razoável até mesmo para exibições públicas. Sei que fazem dois anos do retorno porque fiz um "video teste" na época: http://youtu.be/9Ui00se1_Xg
Algumas ações literalmente ecoam na eternidade, eu diria.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

José Luiz

Recentemente meu avô me recontou a sua história. Sua mãe era lavadeira da família Mota, que o criou desde cedo; ele não teve muito contato com ela durante a infância, já que moravam em localidades distintas. Apesar de afirmar que seu pai seja desconhecido, ele refere que o comentário geral era que ele deveria ser um "Mota", pois tinha o mesmo temperamento e seus filhos eram todos parecidos com seus  "irmãos de criação".
Seu "pai de criação" (essa é a expressão que ele usa) se chamava José Luiz, nome escolhido para batizar seu primogênito, meu pai. Coincidentemente, meu sogro tem o mesmo nome e, por isso, habituei-me a pensar que meu descendente será o José Luiz Neto. Eu direi que é por causa do meu pai, ela dirá que é por causa do pai dela; um dia, o jovem irá perceber que a homenagem vai além dos dois patriarcas.

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Embora tenha sido omitido o sobrenome do pai, o nome escolhido para meu avô foi Luiz Eugênio.

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Meu cunhado trabalhara com um Mota e observou que somos parecidos, principalmente na voz. Ele também lembrou que o colega era bastante inteligente, tendo inclusive escrito um livro. Após esse relato, ela concluiu surpresa: "Então não é porque você é japonês!"

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Santos

No começo da semana, antes de partir de Três Passos, tive uma conversa sobre a origem do meu avô paterno. Enquanto tomávamos café da manhã, ele contou que na verdade seu sobrenome deveria ser "Silva", pois sua mãe era "Santos da Silva", mas houve um erro no cartório e ele ficou apenas com o "dos Santos". Seu pai, pelo menos oficialmente, era desconhecido e sua mãe mantivera o anonimato dele. Respondi que achava o "Santos" muito melhor, relembrando que essa é a minha assinatura como médico.
Imagino que houve algum motivo para ser omitido o Silva, provavelmente ela quisera assim. Outra conclusão é a de que, embora ninguém na família possa ser considerado santo, todos tiveram contato com a doutrina cristã e isso está simbolizado em nosso nome mais forte. Observo que, como bons cristãos, temos nossos momentos de generosidade em meio aos altos e baixos da vida. Esse pode ser considerado um bom traço em comum.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Blefadorzinho - parte 4

Ontem, no clube do poker, era noite de torneio: trinta competidores divididos em três mesas, jogando até restar apenas um. Ao me sentar, o jovem ao meu lado puxou assunto e lhe informei que, embora eu gostasse muito do Texas Holdem, aquela era a primeira vez que eu participava de um torneio. Porém, logo meu aparente amadorismo foi dissipado; tomado pela habitual vontade de vencer, fiz uma aposta agressiva no fim de uma das rodadas iniciais.
Meu adversário pensou um pouco e desistiu, estrategicamente, mostrei meu blefe a todos; ele, visivelmente irritado, explicou-se para um colega: "Não conheço ele, não sei como ele joga." A provocação surtira o efeito desejado: rapidamente assumi a dianteira e, um a um, fui eliminando os outros jogadores. No início da mesa final (com os dez finalistas), um concorrente chegou a confessar que iria all-in com qualquer um, menos comigo.
Minha boa sorte virou assunto comum e uma das constatações foi que eu era "estrelado"; no dia seguinte, meu tio relatou que ele virara "relações-públicas": todos queriam saber quem eu era e da onde eu vinha. Umas das jogadas mais espetaculares foi quando fui all-in pré-flop com um par de 8 e encontrei um rival com um par de rei: eu tinha apenas 20% de chance de ganhar e, incrivelmente, no river, veio o meu 8. Um alvoroço tomou conta do salão enquanto eu vibrava com a mão direita fechada e erguida.
Quando estávamos apenas em quatro finalistas, o jogador que eu irritara no início deu all-in pré-flop com um par de 8, outro pagara com um Ás e 3 suited; com um par de dama, cobri a aposta certo de que chegara o esperado momento da vitória. Logo no flop, no entanto, foi visualizado um 8. Catarse geral. "O jogo é justo" foi uma das conclusões que ouvi ao lembrarem do meu ganho minutos antes com o mesmo par de 8. Acabei a competição em terceiro lugar.
Ao contrário dos demais, que logo se levantavam ao serem eliminados, permaneci na mesa até o fim, quando dei os parabéns ao vencedor, que me estendeu a mão agradecido. A tensão entre nós dois, que durara a noite toda após tê-lo provocado, acabara ali. Ao refletir sobre o ocorrido, percebo que errei ao mostrar meu blefe; tomado pela habitual vontade de vencer, fui deselegante e consequentemente a sorte me fugiu quando tive um novo embate com ele. O jogo é justo, diriam alguns.