domingo, 10 de junho de 2018

Laços de Família - parte 9


Há cerca de nove anos atrás, ocorreu um episódio engraçado em São Martinho-RS. Fui visitar meus avós e, chegando lá, estacionei atrás da SUV recém comprada de meu pai. Ele havia colado na traseira adesivos de um casal, três meninas e uma cachorra, todos com roupas do Grêmio (por algum tempo, inclusive, usei isso para me vitimizar, afirmando que não fazia mais parte da família). Minha reação imediata, ao me deparar com aquela imagem, foi a de ridicularizar o feito: “Meu Deus, o que é isso?!”
Dias depois, quando fomos embora, meu pai foi carregar o carro e meu avô viu “os gremistas”, disparando com clara revolta: “Como é que pode?! Pegou o carro novinho e já encheu de porcaria!” Instantes depois, ouvi a óbvia conclusão: “Você e seu avô são parecidos em algumas coisas.” De fato, nunca adesivei meus veículos, ao contrário de meu pai e meu irmão; meu avô, ao que tudo indica, seguia a minha filosofia.

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Eu devia ter uns doze anos, quando fui visitar meu tio em seu retorno a Três Passos (ele passou muitos anos trabalhando como funcionário público em Porto Alegre, mas perdera o cargo). Sendo o músico da família, ele tinha um violão DiGiorgia; nessa ocasião, toquei nele e deixei meu tio impressionado: “Pode levar!”. Analisando hoje, vejo que outros primos poderiam ter usufruído do instrumento, mas eu havia sido o escolhido.
Na época, eu tinha uma guitarra, mas o violão era muito melhor. Com ele, fiz aulas por um ano, meu mestre era graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (meu tio mais novo fez Odontologia lá, ele dizia que Santa Maria era a cidade da música). Também fiz algumas apresentações na escola com o instrumento antes de entrar em uma banda de hardcore. Qualquer pessoa que me conheça sabe como fazer música é parte importante da minha vida, isso só foi possível porque fui apadrinhado ainda jovem.

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Na época que minha avó adoeceu, em 2014, estive no apartamento de minha prima em Porto Alegre, onde comentei: “O Chicão está bravo comigo”. Ela indagou sem entender, expliquei: “Roubei a mãe a dele.” Eu havia acabado de fazer a transferência dela de Três Passos para a capital, meu tio desde o começo se opusera, embora, conforme minha prima: “Não tinha o que fazer.” Apesar disso, ela concordou que, pelo menos para nosso tio, eu realmente fizera algo terrível.
No dia seguinte, no terraço, tive uma longa conversa com o pai da minha prima, um pouco mais novo que o Chicão. Embora ele tenha se formado em Jornalismo e tenha seguido carreira no rádio, ele fizera dois anos de Psicologia, o que provavelmente favorecia uma análise sobre a personalidade de seu irmão músico. Para ele, em resumo, o Chicão era emoção, sempre agindo conforme o que sentia; por vezes, sofrendo as consequências por sua impulsividade e franqueza. Acredito que, além das seis cordas, também temos isso em comum.