Os Bons Companheiros (1990) e Casino (1995) são dois de meus filmes prediletos; a mistura bem dosada de poder, dinheiro, violência e sexo marca o estilo de Martin Scorcese, que costuma nos prender a atenção do começo ao fim. Esse longa de 1988 não é tão bem produzido quanto seus célebres sucessores, mas talvez seja a obra mais importante do diretor pela polêmica temática.
Nesta ficção, Jesus é o único judeu que fabrica as cruzes usadas pelos romanos nas crucificações; ele também as carrega até o local da punição, sendo apedrejado no caminho pelos judeus que não admitem essa "cooperação" com os inimigos de Roma. Essa postura inusitada de Jesus era motivada por "vozes" que ele ouvia constantemente, indicando-lhe o caminho a seguir, mesmo que aparentemente ilógico.
No início da trama, sua mãe lhe pergunta se ele tem certeza que essas vozes são de Deus e não do demônio; ele responde: "Eu não tenho certeza de nada." A dúvida e o medo são os sentimentos iniciais de Jesus, até o ponto em que não pode mais evitar seu destino e adquire a certeza de que é o messias. "Você ama a humanidade?" lhe é perguntado numa espécie de mosteiro onde tem sua alma purificada. "Eu vejo os homens e sinto pena, só isso." "É o suficiente", eis a resposta que dá início à revolução.
Seu primeiro ato público é defender Maria Madalena, que seria apedrejada até a morte por trabalhar no Sabbath. Prostituta, ela saíra com romanos no dia sagrado para os judeus. Um dos homens enfrenta Jesus e ameaça arremessar a pedra, como se não tivesse pecados, mas é lembrado que enganava seus empregados e tinha um caso com uma viúva. "Você não tem medo que Deus te paralise se você levantar essa pedra?" O homem larga a arma, Judas fica impressionado ao ver que Jesus o desarmara usando apenas palavras. Tamanho poder é para poucos.
A três tentações do deserto, ao meu ver, são mais interessantes no filme do que na bíblia. A primeira tentação é representada por uma serpente, que diz ser seu espírito. Com uma voz feminina, ela questiona: "Quanta arrogância pensar que pode salvar o mundo, o mundo não precisa ser salvo. Salve a si mesmo, encontre amor." Essa, que me parece ser a maior tentação de todas, voltaria a aparecer na trama.
A segunda tentação é representada por um leão, que diz ser seu coração, ganancioso: "Você finge ser humilde, mas na verdade quer conquistar o mundo." "Eu nunca quis um reino na Terra, o reino dos Céus é suficiente." "Mentiroso, quando você fazia cruzes para os romanos em Nazaré, sua cabeça explodia com sonhos de poder, poder sobre todo mundo. Você só queria poder, agora pode ter o que quiser."
A terceira tentação é representada por uma chama, o próprio Satã, que lembra que Jesus é o escolhido e que, juntos, podem ser soberanos, decidindo quem vive e quem morre. Sua fala remete à infância de Jesus: "Lembra, quando você era uma criança, você chorou: 'Faça-me um deus, Deus.' Você agora é Deus, o único filho de Deus."
Após vencer as tentações e chegar em Jerusalém, Jesus sabia que seu destino era morrer na cruz. Ao pedir que Judas Iscariotes, o discípulo mais próximo, o traísse, este lhe pergunta: "Se você fosse eu, conseguiria trair seu mestre?". A resposta é magistral: "Não, por isso Deus me deu o trabalho mais fácil, que é ser crucificado." No alto de sua bondade, seria melhor ser torturado até a morte do que trair alguém amado.
O discurso de Pilatos, na breve atuação de David Bowie, é atemporal: "Uma coisa é querer mudar o modo como as pessoas vivem, mas você quer mudar o modo como elas pensam, como elas sentem. É contra Roma, é contra a maneira que o mundo é; matando ou amando, é o mesmo. Simplesmente não importa como você quer mudar as coisas, nós não queremos elas mudadas."
A última tentação ocorre no célebre momento em que Cristo, atormentado na cruz, indaga: "Meu Pai, por que me abandonaste?" Neste momento, surge uma garota perto da cruz que diz ser seu anjo da guarda. Ela o tira da cruz e o conduz a uma bela paisagem, onde algumas pessoas caminham em uma cerimônia de casamento. "Quem está casando?" pergunta Jesus, seu anjo responde: "Você".
Ele casa com Maria Madalena, que engravida, mas vem a falecer antes do parto. Ele então começa a se relacionar com Maria e Marta, irmãs de Lázaro, e tem filhos com elas. Ao final de sua vida "comum", ele recebe seus discípulos, que questionam o caminho apontado pelo "anjo", que é revelado como sendo Satã. "O que é bom para o homem não é bom para Deus" é o desabafo emocionado de Judas.
Arrependido, Jesus decide voltar à cruz abandonada, morrendo satisfeito por cumprir o seu papel apesar de todo o sofrimento. Magnífico trabalho Dele e de Martin, sem dúvida alguma. Ainda bem que os tempos são outros e o grande diretor teve a vida poupada. Graças a Deus, sua revolução continua.