quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" de Allan Percy - parte 3

"A melhor maneira de livrar-se da tentação é ceder a ela.

Todos os que sabem extrair o máximo da vida, como Oscar Wilde em sua atribulada existência, no final chegam ao mesmo resultado: não se arrependem do que fizeram, mas daquilo que desejavam ter feito e não realizaram.
Em A lição final, Randy Pausch, professor universitário que recebeu um diagnóstico de câncer em estágio terminal, explica como conseguiu realizar seis sonhos de infância nos seis últimos meses de vida: estar em gravidade zero, jogar num time de futebol americano profissional, assinar um verbete numa enciclopédia, atuar em Jornada nas estrelas, ganhar um bichinho de pelúcia e fazer parte da equipe criativa da Disney.
(...)
Na mensagem final deixada a seus alunos, contudo, Pausch os alertou sobre não esperar o fim para sair em busca dos sonhos. Eles jamais deveriam ser abandonados. Quem realmente aproveita a estada na Terra vive cada dia como se fosse último."

* * *

Há muitos anos, durante uma entrevista televisiva, Gabi perguntou para o astrólogo Oscar Quiroga se era possível saber o momento da morte. Ele respondeu que essa informação não teria valor, pois era preciso viver cada dia como se fosse o último. Carpe diem.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" de Allan Percy - Parte 2

"O mais terrível não é termos nosso coração partido (pois corações foram feitos para ser partidos), mas transformar nossos corações em pedra.

Oscar Wilde amou de corpo e alma porque sabia que não há nada que se compare a duas pessoas que buscam se conhecer, dois seres que saem à procura do encontro, mesmo que, com isso, se exponham a riscos consideráveis.
(...)
Embora deixemos exposto nosso lado mais frágil ao nos entregarmos a quem amamos, não se deve temer o amor. Como dizia Oscar Wilde, Deus só pode entrar em um coração partido."

* * *

Ao conversar com meu tio sobre escrever (professor de Jornalismo, também tem o hábito), ele comentou que as grandes obras não foram escritas quando os autores estavam bem, mas sim quando estavam angustiados. Neste momento, essa afirmação me faz todo o sentido.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Trecho de "Oscar Wilde para inquietos" - Allan Percy

"Não quero ir para o céu: nenhum dos meus amigos está lá.

É válido acreditar na existência de outra vida, na qual seremos compensados pelos sofrimentos terrenos, mas isso não deve servir de desculpa para perdermos a única vida que temos agora: esta.
Já no século VI, o pensador romano Boécio dizia que 'um homem cujo único desejo fosse ir para o céu nunca entraria nele. Há um trabalho a fazer sobre a terra'.
Outras ideias desse autor clássico, que influenciou toda a Idade Média com sua obra A consolação pela filosofia, são:
* O cultivo da virtude leva à sabedoria; a sabedoria leva à bondade e esta, à felicidade.
* O amor não obedece a nenhuma lei, porque ele mesmo é uma lei.
* Nada é pobre ou miserável se não o encararmos assim.
* Deus está em cada pessoa, embora nos apresente muitas dúvidas: Se Ele existe, de onde vem o mal? Se não existe, de onde vem o bem?"

* * *

Imagino que a resposta para as duas perguntas acima pode ser a mesma: "Do homem".

sábado, 24 de novembro de 2012

Oitenta e Quatro Horas


No feriado da semana passada, fui o plantonista do hospital da cidade onde voltei a trabalhar. Entrei quinta à noite e saí segunda pela manhã. Assisti a um filme sobre Jesus recentemente e imaginei que, se ele ficou semanas no deserto para se purificar, eu poderia ficar alguns dias no hospital para o mesmo fim.
Tudo transcorria bem, mas domingo à tarde atendo um senhor (que até então não sabia que era hipertenso e diabético) e ele me apresenta um de seus dedos do pé já em avançado estado de necrose. Imediatamente informo que ele necessita de uma amputação, que iria ficar internado e no dia seguinte seria encaminhado para um cirurgião vascular, que realiza o procedimento.
Infelizmente só conseguimos encaminhá-lo na sexta. Todo esse tempo após o término do meu plantão, noventa e quatro horas depois, esse paciente esteve sobre minha responsabilidade no hospital. Meu único pagamento é das oitenta e quatro horas do feriado, esse paciente veio de brinde e imagino porque poucos médicos querem fazer plantão ali.
Mas se fosse só esse paciente, tudo bem, eu diria que o plantão fora tranquilo. Infelizmente, algumas horas depois, no domingo à noite, chega uma jovem desacordada que brigara com o namorado e por isso ingerira os remédios da mãe, cardiopata severa. O Centro de Informações Toxicológicas me orienta que a paciente deve ter monitoração laboratorial por pelo menos três dias e eu começo então a tentar um encaminhamento para um centro maior.
Após negativas de três cidades, é feito o contato com a cidade de origem da paciente, na qual ela tinha convênio médico pela empresa em que trabalhava, sendo então finalmente aceita pelo plantonista. Conforme próprio pedido dele, fui na ambulância porque a viagem era longa e uma tragédia poderia ocorrer no caminho. Na ida, fui praguejando que era um absurdo ter que percorrer 170km quando tinham pelo menos duas cidades próximas com estrutura para monitorar a paciente.
Durante a semana, uma das funcionárias do hospital comentou que em uma situação de emergência deveria-se agir como eu agi: friamente. Gostei do elogio, mas fiquei intrigado com a observação e após uma análise, percebo que durante esses três dias e meio, nada se comparou com a maneira grosseira como eu tratei o irmão e o pai da paciente. O irmão foi recebido com uma bronca por ter esquecido as cartelas dos remédios em casa e por não saber informar o nome deles. 
O pai chegou cerca de uma hora depois, enquanto eu ainda tentava o encaminhamento, e após se apresentar perguntou como ela estava. Eu, rispidamente, sem me levantar da cadeira, na frente das várias pessoas que já se acumulavam esperando atendimento, respondo que (obviamente) ela estava mal, tendo em vista que tomara "um monte" de remédio. Ele ainda mais atordoado só comenta "Meu Deus do céu..." e se retira. Fato, agi friamente, mas estava preocupado com a paciente e todo o resto me era secundário.
Após deixá-la no hospital, ao entrar na ambulância para o longo caminho de volta pela madrugada, começo a praguejar: "Essas mulheres! Só me dão trabalho! Para que fazer isso?!" O motorista e as duas enfermeiras imediatamente riem, o doutor Iceberg não voltaria tão cedo. Ainda bem, ninguém gosta muito dele, embora sua preocupação tenha sido coerente: a última notícia que tive foi que a jovem continuava internada pois seus exames de fato se mostraram alterados.
Chego cansado no hospital de origem, consigo descansar por uma hora até ser chamado novamente. Uma gestante que, embora sem contrações, apresenta-se com dor. "Essas mulheres...", eu penso enquanto tento fazer o melhor atendimento possível perante às  circunstâncias. Tudo pela purificação, só mais algumas horas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Retorno


Esta semana iniciei meus trabalhos como médico de um CAPS - Centro de Atenção Psicossocial. Durante toda a minha graduação, o único estágio extra-curricular que fiz foi em um CAPS, uma tarde por semana durante um ano, em meados de 2005-2006. Acompanhava os trabalhos da psiquiatra no atendimento individual e em grupo, tendo um amplo aprendizado ao longo dos meses.
Interessante que após o estágio eu desistira de ser psiquiatra e começara a vislumbrar a possibilidade de trabalhar como clínico-geral. Foi o que fiz e continuo fazendo, mas recentemente terminei uma pós-graduação em "Saúde Mental e Dependência Química", o que me abriu uma nova possibilidade.
Confesso que eu esperava ficar mais algumas semanas sem trabalhar, mas a necessidade é a mãe do destino e eu tenho dificuldades em dizer "não" quando me pedem algo. "Falta médico no hospital, no posto, no CAPS, estamos precisando, não há mais ninguém." Então eu lembro de meus pecados e da minha necessidade de compensá-los. Muitos pecados, "sim" é a minha única saída, a minha única salvação.
Meu último dia de estágio em 2006 foi na reunião mensal de equipe, onde era costume os estagiários participarem para comentar sua experiência. Eu ensaiara algumas palavras e no meio do pequeno discurso notei que a coordenadora, autoridade máxima do local, começara a chorar. Eu terminei o que tinha para dizer e ela, uma psicóloga com grande sensibilidade, tentou se explicar: "Nós estamos tão acostumados a ser criticados que quando alguém vem e nos elogia, diz que funciona, nem sabemos como reagir..." e nisso voltou a se emocionar.
Eu diria que o CAPS, como outros grupos, reúne pessoas fragilizadas para fortalecê-las; é um local de cura e proteção, uma luz em meio à escuridão do mundo contemporâneo. Conversei com meu pai sobre a possibilidade de trabalhar num CAPS e ele comentou que achava "um desperdício". Eu, de todas as pessoas, não fazer um mestrado ou uma residência. "No CAPS eu vou fazer muitos milagres" respondi com um sorriso. Touché, não há como argumentar contra isso, há?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Última Tentação de Cristo (1988)


Os Bons Companheiros (1990) e Casino (1995) são dois de meus filmes prediletos; a mistura bem dosada de poder, dinheiro, violência e sexo marca o estilo de Martin Scorcese, que costuma nos prender a atenção do começo ao fim. Esse longa de 1988 não é tão bem produzido quanto seus célebres sucessores, mas talvez seja a obra mais importante do diretor pela polêmica temática.
Nesta ficção, Jesus é o único judeu que fabrica as cruzes usadas pelos romanos nas crucificações; ele também as carrega até o local da punição, sendo apedrejado no caminho pelos judeus que não admitem essa "cooperação" com os inimigos de Roma. Essa postura inusitada de Jesus era motivada por "vozes" que ele ouvia constantemente, indicando-lhe o caminho a seguir, mesmo que aparentemente ilógico.
No início da trama, sua mãe lhe pergunta se ele tem certeza que essas vozes são de Deus e não do demônio; ele responde: "Eu não tenho certeza de nada." A dúvida e o medo são os sentimentos iniciais de Jesus, até o ponto em que não pode mais evitar seu destino e adquire a certeza de que é o messias. "Você ama a humanidade?" lhe é perguntado numa espécie de mosteiro onde tem sua alma purificada. "Eu vejo os homens e sinto pena, só isso." "É o suficiente", eis a resposta que dá início à revolução.
Seu primeiro ato público é defender Maria Madalena, que seria apedrejada até a morte por trabalhar no Sabbath. Prostituta, ela saíra com romanos no dia sagrado para os judeus. Um dos homens enfrenta Jesus e ameaça arremessar a pedra, como se não tivesse pecados, mas é lembrado que enganava seus empregados e tinha um caso com uma viúva. "Você não tem medo que Deus te paralise se você levantar essa pedra?" O homem larga a arma, Judas fica impressionado ao ver que Jesus o desarmara usando apenas palavras. Tamanho poder é para poucos.
A três tentações do deserto, ao meu ver, são mais interessantes no filme do que na bíblia. A primeira tentação é representada por uma serpente, que diz ser seu espírito. Com uma voz feminina, ela questiona: "Quanta arrogância pensar que pode salvar o mundo, o mundo não precisa ser salvo. Salve a si mesmo, encontre amor." Essa, que me parece ser a maior tentação de todas, voltaria a aparecer na trama.
A segunda tentação é representada por um leão, que diz ser seu coração, ganancioso: "Você finge ser humilde, mas na verdade quer conquistar o mundo." "Eu nunca quis um reino na Terra, o reino dos Céus é suficiente." "Mentiroso, quando você fazia cruzes para os romanos em Nazaré, sua cabeça explodia com sonhos de poder, poder sobre todo mundo. Você só queria poder, agora pode ter o que quiser."
A terceira tentação é representada por uma chama, o próprio Satã, que lembra que Jesus é o escolhido e que, juntos, podem ser soberanos, decidindo quem vive e quem morre. Sua fala remete à infância de Jesus: "Lembra, quando você era uma criança, você chorou: 'Faça-me um deus, Deus.' Você agora é Deus, o único filho de Deus."
Após vencer as tentações e chegar em Jerusalém, Jesus sabia que seu destino era morrer na cruz. Ao pedir que Judas Iscariotes, o discípulo mais próximo, o traísse, este lhe pergunta: "Se você fosse eu, conseguiria trair seu mestre?". A resposta é magistral: "Não, por isso Deus me deu o trabalho mais fácil, que é ser crucificado." No alto de sua bondade, seria melhor ser torturado até a morte do que trair alguém amado.
O discurso de Pilatos, na breve atuação de David Bowie, é atemporal: "Uma coisa é querer mudar o modo como as pessoas vivem, mas você quer mudar o modo como elas pensam, como elas sentem. É contra Roma, é contra a maneira que o mundo é; matando ou amando, é o mesmo. Simplesmente não importa como você quer mudar as coisas, nós não queremos elas mudadas."
A última tentação ocorre no célebre momento em que Cristo, atormentado na cruz, indaga: "Meu Pai, por que me abandonaste?" Neste momento, surge uma garota perto da cruz que diz ser seu anjo da guarda. Ela o tira da cruz e o conduz a uma bela paisagem, onde algumas pessoas caminham em uma cerimônia de casamento. "Quem está casando?" pergunta Jesus, seu anjo responde: "Você".
Ele casa com Maria Madalena, que engravida, mas vem a falecer antes do parto. Ele então começa a se relacionar com Maria e Marta, irmãs de Lázaro, e tem filhos com elas. Ao final de sua vida "comum", ele recebe seus discípulos, que questionam o caminho apontado pelo "anjo", que é revelado como sendo Satã. "O que é bom para o homem não é bom para Deus" é o desabafo emocionado de Judas.
Arrependido, Jesus decide voltar à cruz abandonada, morrendo satisfeito por cumprir o seu papel apesar de todo o sofrimento. Magnífico trabalho Dele e de Martin, sem dúvida alguma. Ainda bem que os tempos são outros e o grande diretor teve a vida poupada. Graças a Deus, sua revolução continua.