sábado, 24 de novembro de 2012

Oitenta e Quatro Horas


No feriado da semana passada, fui o plantonista do hospital da cidade onde voltei a trabalhar. Entrei quinta à noite e saí segunda pela manhã. Assisti a um filme sobre Jesus recentemente e imaginei que, se ele ficou semanas no deserto para se purificar, eu poderia ficar alguns dias no hospital para o mesmo fim.
Tudo transcorria bem, mas domingo à tarde atendo um senhor (que até então não sabia que era hipertenso e diabético) e ele me apresenta um de seus dedos do pé já em avançado estado de necrose. Imediatamente informo que ele necessita de uma amputação, que iria ficar internado e no dia seguinte seria encaminhado para um cirurgião vascular, que realiza o procedimento.
Infelizmente só conseguimos encaminhá-lo na sexta. Todo esse tempo após o término do meu plantão, noventa e quatro horas depois, esse paciente esteve sobre minha responsabilidade no hospital. Meu único pagamento é das oitenta e quatro horas do feriado, esse paciente veio de brinde e imagino porque poucos médicos querem fazer plantão ali.
Mas se fosse só esse paciente, tudo bem, eu diria que o plantão fora tranquilo. Infelizmente, algumas horas depois, no domingo à noite, chega uma jovem desacordada que brigara com o namorado e por isso ingerira os remédios da mãe, cardiopata severa. O Centro de Informações Toxicológicas me orienta que a paciente deve ter monitoração laboratorial por pelo menos três dias e eu começo então a tentar um encaminhamento para um centro maior.
Após negativas de três cidades, é feito o contato com a cidade de origem da paciente, na qual ela tinha convênio médico pela empresa em que trabalhava, sendo então finalmente aceita pelo plantonista. Conforme próprio pedido dele, fui na ambulância porque a viagem era longa e uma tragédia poderia ocorrer no caminho. Na ida, fui praguejando que era um absurdo ter que percorrer 170km quando tinham pelo menos duas cidades próximas com estrutura para monitorar a paciente.
Durante a semana, uma das funcionárias do hospital comentou que em uma situação de emergência deveria-se agir como eu agi: friamente. Gostei do elogio, mas fiquei intrigado com a observação e após uma análise, percebo que durante esses três dias e meio, nada se comparou com a maneira grosseira como eu tratei o irmão e o pai da paciente. O irmão foi recebido com uma bronca por ter esquecido as cartelas dos remédios em casa e por não saber informar o nome deles. 
O pai chegou cerca de uma hora depois, enquanto eu ainda tentava o encaminhamento, e após se apresentar perguntou como ela estava. Eu, rispidamente, sem me levantar da cadeira, na frente das várias pessoas que já se acumulavam esperando atendimento, respondo que (obviamente) ela estava mal, tendo em vista que tomara "um monte" de remédio. Ele ainda mais atordoado só comenta "Meu Deus do céu..." e se retira. Fato, agi friamente, mas estava preocupado com a paciente e todo o resto me era secundário.
Após deixá-la no hospital, ao entrar na ambulância para o longo caminho de volta pela madrugada, começo a praguejar: "Essas mulheres! Só me dão trabalho! Para que fazer isso?!" O motorista e as duas enfermeiras imediatamente riem, o doutor Iceberg não voltaria tão cedo. Ainda bem, ninguém gosta muito dele, embora sua preocupação tenha sido coerente: a última notícia que tive foi que a jovem continuava internada pois seus exames de fato se mostraram alterados.
Chego cansado no hospital de origem, consigo descansar por uma hora até ser chamado novamente. Uma gestante que, embora sem contrações, apresenta-se com dor. "Essas mulheres...", eu penso enquanto tento fazer o melhor atendimento possível perante às  circunstâncias. Tudo pela purificação, só mais algumas horas.

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