Este provavelmente é o post mais difícil que escrevo desde "Mães". Fui para Florianópolis em um sábado com o plano de ir a um almoço com amigos no dia seguinte, mas um telefonema noturno de meu tio me motivou a viajar quase 800km rumo ao interior do RS, onde minha avó paterna estava hospitalizada. A ligação estava ruim, mas entendi que a situação era grave e, atendendo a um pedido dele, parti logo na manhã seguinte. A viagem que inicialmente seria de dois dias se estendeu por duas semanas.
Havia a hipótese de que a piora do quadro fora provocada por um medicamento prescrito pelo Neurologista, mas logo vi que se tratava do avanço inevitável de uma demência que já mostrava seus sinais há meses. Sem lucidez e sem condições de deambular, ela oscilava períodos de sonolência e irritabilidade. A dificuldade em ingerir alimentos e remédios foi se tornando crescente.
Ao longo da vida criamos algumas ilusões que nos ajudam a seguirmos em frente. Eu achava que jamais sentiria novamente a dor de perder minha mãe, mas foi o que senti após alguns minutos naquele quarto hospitalar. Apesar da vontade de chorar desesperadamente, eu sabia que era o único que havia sido treinado para enfrentar esse tipo de situação. De todos os familiares, eu era o único que não poderia fraquejar.
Quase como um desabafo, comentei com meu tio que achava que não eram os remédios. Infelizmente, a tendência era piorar. Mais tarde, ele disse que sua esposa perguntou qual era minha opinião e, ao repassá-la, ela "desandou" a chorar. No dia seguinte, criei coragem e telefonei para meu pai, informando o quadro e pedindo que ele viesse no final de semana. Fiz o mesmo pedido para minha irmã que, assim como minha tia, também apresentou um momento de desolação.
O plano inicial era ela receber alta e continuar os cuidados em casa, organizamos uma escala de cuidadoras e na terça fiquei incubido de achar uma cama hospitalar. Avisaram-me que meu avô estava resistente a essa idéia, eu teria que convencê-lo; ele já foi comparado ao "Poderoso Chefão", sendo uma pessoa historicamente difícil de se dialogar. Mas penso que nossos Egos são comparáveis, por isso não encontrei maiores problemas quando expus a real necessidade de adquirir a cama.
Na quarta de manhã, no entanto, estávamos no quarto do hospital quando ele novamente veio questionar se deveria mesmo comprar a cama, pois alguém tinha lhe dito que ela deveria caminhar, não ficar na cama. Outra característica que tenho em comum com o grande patriarca é a irritabilidade, facilmente perco a paciência quando tenho que reexplicar algo. Apontando para minha avó, que estava na cadeira de rodas com um olhar confuso, perguntei: "E ela consegue caminhar?" Em um tom mais contido, ele respondeu: "Mas nós ajudamos." "Sim, e ela vai caminhar o quê? Cinco minutos? Dez minutos por dia? O resto do tempo, ela vai ficar onde?"
No outro dia, ele mesmo entrou em contato com um hospital desativado da cidade para ver a cama. No final da tarde, porém, vendo a gradual perda das funções, percebi que ela não poderia ter alta; prevendo uma piora contínua nas próximas semanas, decidi que o melhor a fazer era transferi-la para Porto Alegre. Entrei em contato com meus tios e um deles chegou a afirmar que ela já deveria estar na capital desde o início.
No almoço de sábado, meu pai, que havia chego na noite anterior, questionou-me se faria alguma diferença levá-la até Porto. Essa pergunta já tinha sido feita por um tio na tarde anterior, talvez por isso eu tenha me irritado: "Não, ela vai continuar piorando aqui ou lá. A questão é: onde é melhor ela morrer? Nesse lugarzinho (disse apontando para o hospital local) ou na Santa Casa de Porto Alegre?"
Ele, então, lembrou que eu não poderia deixar de fora o meu avô (minha idéia era comunicá-lo apenas quando a transferência já estivesse acertada, para evitar um estresse desnecessário). Novamente de maneira ríspida, argumentei: "Então tu queres deixar a vida da tua mãe nas mãos de alguém que não tem condições de tomar uma decisão? O que é mais importante, a saúde dela ou a opinião dele? Agora, se for consenso entre vocês que ela deve ficar aqui, tudo bem, mas vai ficar no pensamento de todos que não foi feito tudo o que era possível. Inclusive, esse será o meu pensamento."
À noite, fizemos um churrasco com o tio que reside na mesma cidade que meus avós. Ele naturalmente resistia à idéia da transferência, já que não poderia percorrer os 500km para visitá-la e havia o risco iminente dela sequer voltar. Meu pai, com uma calma surpreendente, começou a listar as razões que eu havia citado, acrescentando o seu próprio argumento: "Quer saber? Não é o pai quem vai decidir, nem eu, nem tu... " E continuou citando o nome de cada irmão, concluindo: "Sabe quem vai decidir? Os médicos. Só eles sabem o que tem que fazer."
Na segunda, ao informar meus empregadores que ainda não tinha previsão de retorno, obtive como resposta que iriam rescindir meu contrato para que pudessem se inscrever no programa Mais Médicos. Mais tarde, consegui a confirmação da médica de Porto Alegre que iria fazer a internação, o que me proporcionou um sentimento pleno de vitória. Informei meu avô, que, ao contrário do que pensávamos, não esboçou nenhuma resistência. Ele, mais do que todos, estava acompanhando a rápida deteriorização da esposa.
Ficou combinado que quarta de manhã deveríamos estar na capital, então viajaríamos na terça de madrugada. Ela iria em uma ambulância acompanhanda por uma técnica em enfermagem, eu iria atrás de carro, junto com minha tia que há duas semanas nos auxiliava. Antes de partirmos, fui ver os papéis que levaríamos e, quando voltei ao quarto, deparei-me com meu avô chorando abraçado com seu filho e nora. A cena foi de partir o coração, mas, claro, não pude fraquejar.
Durante a longa viagem, minha tia comentou sobre o meu esforço aparentemente desproporcional à minha posição de neto. Respondi que, partindo do pressuposto que estes seriam os últimos momentos da avó, qualquer sacrifício seria pequeno. Realmente era algo difícil de se dar conta, ninguém queria ver que ela estava morrendo. Mas eu não poderia ter esse luxo, de todos os familiares, eu era o único que havia sido treinado para não me iludir.
Fiquei bastante satisfeito com o atendimento prestado em Porto Alegre. Com profissionais comprometidos, minha mensagem à grande família era de tranquilidade: "Aqui, ela está bem cuidada." Com o dever cumprido, peguei novamente a estrada para Florianópolis na sexta. Ao chegar lá, descobri uma singela homenagem em uma rede social:
"Gostaria de deixar aqui minha admiração e agradecimento ao meu primo Tiaraju, por toda sua dedicação à nossa avó. A sua serenidade e controle foram essenciais nesta situação primo, além é claro de todo apoio durante esse tempo que você esteve lá. Tenho certeza que todos tem o mesmo sentimento de gratidão e carinho! bjos"
(continua)